Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Nada contra a abertura dos arquivos da ditadura, muito pelo contrário. Defendo, sempre defendi, que sejam disponibilizados para a sociedade. Afinal, é nossa história. Temos o direito de conhecê-los, para atualizar nossa literatura histórica e melhor pensar o presente e o futuro. Temos o direito de conhecê-los para exigir justiça e punir torturadores.

Mas abrir arquivos de uma única pessoa não me parece sensato. Quando analisadas as condições em que se dão a abertura autorizada essa semana, fica ainda pior. A pessoa em questão é a presidente eleita, Dilma Rousseff. Quem pediu foi o jornal Folha de S.Paulo, que manteve oposição a Dilma ao longo de toda a campanha em 2010. Que já usou arquivos para acusar Dilma de supostos crimes cometidos ou planejados durante os anos de chumbo. Tudo isso sem dar a devida contextualização de como funcionava a resistência a um regime que censurava, torturava, matava. O jornal da ditabranda.

Nos arquivos da ditadura há a versão dos ditadores. Versão sempre pejorativa em relação aos presos, torturados, perseguidos, exilados. Ainda assim, devem ser abertos para estudo, insisto. Ali encontraremos listas de pessoas malquistas pelo regime, saberemos o que aconteceu com elas, quem fez o quê, quem torturou quem. É muita informação para compreendermos melhor como funcionava a cabeça de quem usa de métodos torpes para fazer “política”, para conseguir poder.

Mas para isso eles têm que ser lidos com o olhar de quem entende que aquela é uma visão parcial, que foi escrito por quem torturava, não por quem era torturado. Que ali se descreviam o que chamavam de crimes cometidos ou planejados por quem não tinha acesso aos documentos oficiais para registrar sua versão e que não era ouvido como réu ou como testemunha. Que os crimes ali descritos podem nem ter acontecido ou, mesmo que tenham, a imensa maioria se deu dentro de um contexto de luta pela democracia, de resistência a um regime sangrento.

A utilização das informações ali contidas como sendo a verdade total e absoluta é perigosa. Pode gerar distorções graves e grandes consequências. Pode consolidar uma imagem negativa que a oposição tentou impor que vincula a presidente eleita a uma resistência armada mesmo sem ela ter pego em armas – ainda que essa tenha sido uma forma legítima de resistência. Que atribui a Dilma a pecha de terrorista em um momento em que o mundo cultiva uma imagem negativa de quem leva esse título, geralmente muçulmanos que atentam contra o capitalismo ocidental.

Por enquanto, quem tem acesso aos arquivos é a Folha de S.Paulo, que não publicou ainda nada com base neles. Enquanto não forem bem ou mal utilizados, são apenas suposições. Quero crer que estou errada na minha avaliação precipitada.

Pelo direito à verdade e à informação completa é que faço campanha pela abertura de todos os arquivos da ditadura. Para que nenhum arquivo seja aberto sem que todos os outros lhe acompanhem. Para que tenhamos acesso a toda a verdade e a compreendamos em toda a sua complexidade.

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Ué, não era assalto?

Todo o mundo tinha certeza. Mas Zero Hora deu lá que foi assalto. A RBS inteira comprou bem direitinho a história do assalto. Agora, tem que voltar atrás e admitir a tese de homicídio encomendado do secretário da Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos. A quem interessa a hipótese de latrocínio? Deixo a pergunta no ar, apenas lembrando que é ano eleitoral e que o chefe do Executivo do governo em que Eliseu trabalhava é candidato a governador.

Andei lembrando de algumas coisas. Só algumas, de muitas que já vi – e tantas outras que não vi:

Zero Hora, 06/03/2010, em matéria de José Luis Costa e Carlos Wagner que disserta sobre a rentabilidade da clonagem de veículos: “O secretário da Saúde de Porto Alegre Eliseu Santos, 63 anos, foi vítima da indústria da clonagem de veículos”. “Ao reagir a uma tentativa de assalto na noite do dia 26 de fevereiro, o secretário da Saúde de Porto Alegre Eliseu Santos acabou vítima de bandidos que integram uma engrenagem da indústria da clonagem de veículos.”

Diário Gaúcho, 04/03/2010, em matéria de Carlos Wagner, Humberto Trezzi e José Luis Costa: “Um rapaz de 22 anos é apontado como o matador. Ele teria cometido o crime ao tentar roubar o carro do médico e xará”.

Blog do Paulo Sant’ana, 04/03/2010: “Bonita investigação, estupenda investigação. E como o suspeito era ligado a ladrões de carro, descartou a polícia que tivesse o caso relação com atentado (político). Era mesmo, inequivocamente um latrocínio tentado.

O crime está esclarecido. Para ser solucionado, basta apenas a prisão do suspeito e de seus asseclas.”

Zero Hora e Diário de Santa Maria, 04/03/2010, no título de matéria de Carlos Wagner, Humberto Trezzi e José Luis Costa: “Caso Eliseu: suspeito do assassinato é filho de crentes e não tem crimes na biografia”.

Zero Hora e Pioneiro, 04/03/2010, em matéria de Carlos Wagner, Humberto Trezzi e José Luis Costa, em referência a Eliseu Pompeu Gomes, o susposto assassino: “Eliseu matou Eliseu”.

Matéria da RBS TV leva o título “Polícia aponta latrocínio na morte de Eliseu Santos”, em 03/03/2010.

Ué, não era assalto?