Ateísmo: um grande tabu

Esta semana recebi um e-mail de uma pessoa que não conheço perguntando se sou ateu – assim mesmo, no masculino – e por quê. A resposta não tomou mais que duas linhas. Sou atéia porque deus quis porque as crenças em deuses ou qualquer tipo de coisa que não tem uma explicação lógica não fazem sentido para mim. Simplesmente não consigo acreditar. Simples assim.

Richard Dawkins, provavelmente o ateu mais famoso do mundo, autor de “Deus, um delírio”, diz que há um grande mal-entendido a respeito do ateísmo, porque os ateus são vistos como seres com chifres e rabos. Eu não diria exatamente um mal-entendido, porque não acontece por acaso. A campanha contra ateus talvez seja a mais antiga e duradoura que já tenha existido. Tem séculos de condenação sistemática a todos aqueles que não têm nenhuma religião ou qualquer tipo de crença em algo sobrenatural.

O simples fato de a pergunta no e-mail ter vindo no masculino já demonstra um certo desconhecimento sobre o tema. Isso porque ele ainda é tabu. Um dos poucos tabus assim tão vivos e talvez um dos mais complicados de enfrentar. Como o ateísmo não é uma característica visível, e o preconceito, portanto, é menos acintoso e menos prejudicial no dia-a-dia, o debate não parece se fazer tão necessário como no enfrentamento a discriminações por características reconhecíveis no outro, que a cada dia se fazem sentir. O tabu demora mais para se desfazer.

Mas estou muito feliz com esse princípio de debate que está havendo em torno do tema. Em Porto Alegre, começou a campanha da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), que veiculou os outdoors abaixo (via Sul21), e o tema está aparecendo na rede, em blogs, no Twitter. É um sintoma. Reconheço nesse momento o começo de uma trajetória que tende a minimizar o preconceito. Justamente por ele ser mais latente, parece menos danoso ou até menos intenso. Não é. Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo mostra que o maior grau de intolerância e aversão dos brasileiros é às pessoas que não acreditam em Deus. Na frente de usuários de drogas, garotos de programa, transsexuais, nesta ordem. A lista continua, vale olhar aqui.

O preconceito contra pessoas que não acreditam é cultural. Assim como o preconceito contra gays, negros, a violência contra a mulher etc. O que não significa que não possa ser enfrentado. Na verdade, isso quer dizer que a barreira é mais difícil de ser transposta, ou seja, que exige maior dedicação na derrubada de mitos.

Ateus não são bichos-papões, ok? Não são pessoas más porque não têm fé. Corrijo: costumo dizer que não tenho fé em um deus ou santos, não acredito que conchinhas coloridas possam me trazer sorte, mas tenho fé na humanidade. Acredito no poder da solidariedade e da construção coletiva, da troca. Ser ateu significa apenas que a pessoa não tem religião, provavelmente porque tem uma visão mais racional e não consegue acreditar em coisas sobre as coisas não há nenhuma evidência de que possam fazer sentido.

Então, antes de olhar torto para um ateu, pensa nisso. Pensa que ele provavelmente respeita tua religião, apenas não concorda com ela. Tenta compreendê-lo, coloca-te no lugar dele. Aliás, isso faz bem não só com relação a ateus, viu?

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Ateísmo: um grande tabu

Campanha de Serra é baseada no preconceito

Por conta de um diálogo na rede, recuperei um post antigo que tratava sobre ateísmo, baseado em um texto d’O Biscoito Fino e a Massa e em uma entrevista do repórter Eduardo Rascov com Peter Godfrey sobre Oscar Niemeyer e o comunismo na revista Brasileiros.

O que me faz retomar o tema agora diz respeito ao debate eleitoral deste ano. Forçar para a discussão centrar-se em torno da questão religiosa, como a direita e a mídia, ambas conservadoras, têm feito, é não só uma fuga às questões de fato pertinentes para o Brasil, como uma demonstração de preconceito.

E o preconceito se estende a todos os brasileiros que entram no jogo e julgam os candidatos por seu credo. Há muitos com pouca escolaridade, dificuldade de diferenciar religião de Estado, mais passíveis de influência externa em sua opinião sobre política. Não cabe culpá-los, mas sim a aqueles que deliberadamente atuam para promover essa manipulação, que se utilizam dessa fraqueza que é o resquício de moralismo conservador ainda muito forte em nosso país para garantir votos não ideológicos e não conscientes.

Quando o eleitor decide seu voto pela religião do candidato, ele diz que só é digno aquele que tem a mesma fé que a sua. Que só é capaz o que acredita no mesmo deus que o seu. Que só é bom aquele que frequenta a mesma igreja que a sua. Isso se chama preconceito.

Um dos maiores preconceitos que vivenciamos no Brasil é o de religião. Ou melhor, da falta dela. Pesquisa citada por Idelber Avelar à época, da Fundação Perseu Abramo, mostrava que os ateus são o grupo social mais discriminado. E aí vem um dado interessante para entendermos por que a religião foi usada tão …mente nestas eleições: “se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar”, disse Avelar.

Foi utilizando um preconceito que a campanha de Serra construiu sua ida para o segundo turno e ainda tenta pegar a candidata Dilma. Como se só tivesse moral, só fosse bom, só merecesse respeito, quem milita em nome de uma fé. Repito o que disse em meados de 2009: posso não acreditar em nenhum deus, mas tenho uma profunda fé na humanidade. Às vezes, setores dela me fazem questioná-la, mas nunca deixei de acreditar no potencial do homem.

Desconsiderar a possibilidade de se exercer solidariedade por não se acreditar em nenhuma religião – que, racionalmente, não fazem sentido – é, como todos os preconceitos, uma agressão. Agride quem pensa diferente. E ignora que todos somos diferentes. E que precisamos construir uma igualdade de direitos baseada nas diferenças que nos tornam mais ricos. Um pressuposto básico para se conseguir isso é o respeito.

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Se a campanha é baseada em um preconceito, o que, então, esperar de um governo do PSDB?

Campanha de Serra é baseada no preconceito

Os valores escondidos no texto

Zelaya0A matéria é sobre impressões dos gaúchos que convivem de perto com a crise hondurenha. Aparentemente inocente, ela é muito mais. O repórter Rodrigo Lopes, de Zero Hora, utiliza essas impressões para dar a sua opinião. Coloca na boca dos outros o que ele mesmo quer dizer. Tanto que todos os gaúchos entrevistados dizem a mesma coisa. O título e a linha de apoio são confusos, mas de caráter nitidamente golpista.

Mais uma vez, uma matéria golpista, que não só justifica o golpe de Roberto Micheletti contra Manuel Zelaya como faz crer que a população concorda com o golpe. E, de quebra, ainda critica o governo Lula e o governo Chávez. A estratégia é simples: Honduras está um caos (não há nenhuma menção ao fato de estar um caos por ter sofrido um golpe e estar com as liberdades cerceadas por um governo ilegítimo)  e a culpa, segundo Rodrigo Lopes, é de Lula e Chávez.

Como se não bastasse, termina colocando nas mãos de Deus, falando em igreja, em religião. Desse detalhe, a primeira conclusão é mais evidente: a solução não será dada por Deus, as coisas têm que ser resolvidas politicamente. Há uma situação de golpe, ela tem solução e essa solução deve ser buscada pelos agentes envolvidos. Colocar nas mãos de Deus é dizer que não há solução.

Mas há uma outra conclusão a se tirar dessa alusão à religião: ela reforça valores burgueses, elitistas. É por causa desse tipo de coisa que os ateus são a categoria que mais sofre preconceito. O jornal reforça um preconceito e uma visão conservadora, de manutenção do status quo. Porque, nada contra quem acredita em Deus, mas os valores católicos são completamente conservadores.

Não sei como ele conseguiu dizer tanta besteira em tão pouco espaço.

Quem me falou da tal matéria foi o Isma Cardoso, que, teimoso, desativou o blog que tinha.

Os valores escondidos no texto