Para Catanhêde, sucesso de Lula foi conseguido por FHC

A coluna era sobre como Lula alçou o Brasil no cenário internacional e se transformou em um dos homens mais importantes do mundo. Mas de repente se transformou em uma defesa de tese, que inclui Fernando Henrique na história e praticamente o responsabiliza pelos sucessos dos oito anos de seu sucessor.

Na Folha.com, Eliane Catanhêde assina o texto que muda o foco do título (“Lula encerra a década como um dos homens mais importantes do mundo”) já no terceiro dos curtos parágrafos característicos do jornal e lê a história recente do Brasil com olhos que bem poderiam estar em um rosto do PSDB.

Resumidamente, Eliane afirma que a balança está desajustada quando a sociedade vê Lula como um deus e FHC como um fiasco. Que tem0s que equilibrar as contas e equiparar os pratos para fazer justiça à história. Que teremos uma visão menos turva quando “recuperada a realidade de que os dois governos fazem parte de um único processo”.

Não, Eliane, não fazem. Lula não rompeu com alguns dos pilares do governo anterior, mas mudou completamente o objetivo e a prioridade do governo. Inverteu a lógica da política no Brasil. Só como exemplo, em 2002, vítima do “Estado mínimo” (sem esquecer que um Estado mínimo presta também serviços mínimos à população, mas isso não era prioridade), o Brasil ingressou no serviço público federal 30 pessoas. Em 2003, foram 7.220. Em 2010, o número já havia saltado para 32.302, até setembro.

De submisso, o Brasil virou soberano.

As diferenças gritam.

Mas Eliane insiste na visão deturpada que sem sucesso se tentou emplacar na campanha deste ano de que os frutos colhidos por Lula foram resultado de uma política plantada por FHC. E que Lula teria ainda dado a sorte de contar com um cenário internacional mais positivo, ou “uma avalanche de dinheiro” que chegou até nós. Nada de crise internacional ou coisa do gênero, na qual, ela esquece, o Brasil foi um dos poucos que não naufragou. Bobagem, o governo Lula deu certo por mero acaso e pela herança que recebeu. Ou, como diz a repórter, por uma “relação de causa e efeito”.

“É como se fizesse o governo de FHC, mas com dinheiro e um olhar mais focado no social.” Lula seria, talvez, um FHC melhorado. O texto não traz a compreensão de que esse “olhar focado no social”, ainda que fosse a única diferença entre os dois governos, já seria uma diferença gritante, total. Todo o mérito a FHC, segundo Catanhêde. No texto, é a herança do antecessor que garante o sucesso de Lula.

Se os brasileiros veem de outra forma, decerto é porque estão cegos diante de “seu imenso carisma, sua vibrante biografia e sua decantada capacidade de comunicação com pobres e ricos”. Puro marketing. Pena que FHC não contratou comunicadores de tão alto nível para garantir uma imagem positiva, já que essa é a única causa do sucesso do governo.

Catanhêde dedica, ainda, boa parte do espaço a criticar a corrupção, mas aí esquece de FHC. Quando é para falar dos pontos positivos, a comparação grita, e programas do PSDB são citados como cruciais. Quando o foco são os pontos negativos, é Lula e só Lula o retratado. Aí não existe comparação, não existem similares anteriores, não há compra de votos para a reeleição, por exemplo.

Até na política externa, a área mais bem sucedida do governo, Eliane só vê problemas. Esquece o crescimento do Brasil no cenário internacional, não vê G20, liderança regional, solidariedade internacional, aproximação com a África, tentativa de construção de uma cultura de paz. Enxerga só as gafes, como se fossem o ponto mais importante diante de toda essa transformação nas relações exteriores.

Em poucas palavras, para Catanhêde, Lula até pode ser o cara, mas só por enquanto. Só enquanto não se derem conta que se trata de um mito.

Atenção, 87% dos brasileiros que aprovam Lula, vocês não enxergam, não veem bem. Leiam Catanhêde, a única com uma visão lúcida da realidade, para entenderem em que mundo vocês vivem.

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Para Catanhêde, sucesso de Lula foi conseguido por FHC

O desafio de falar uma coisa e dizer outra – parte 2

Não começou hoje

A reportagem é o momento de maior destaque, o espaço mais lido, mas não é o único lugar em que Zero Hora exercita a arte de dizer uma coisa e parecer que está dizendo outra. Ao longo da semana, começando na edição conjunta de sexta e sábado (24 e 25), serão oito editoriais a respeito do governo Lula. O de hoje foi só chato, querendo mostrar que o governo foi um fracasso na área institucional, cheio de contradições.

Mas o de ontem interessa mais, porque é um exemplo em manipulação das palavras. Começa falando nos sucessos óbvios destes oito anos, aqueles inegáveis. E tratam os números com certo descaso, como se já estivessem gastos de tão repetidos. Trinta milhões saíram da pobreza? Bacana, põe lá. Outros 14 milhões assinaram carteira? Tá, entra também. Enumera aí.

Depois, a coisa muda um tanto. O segundo “Nunca antes” (todos os parágrafos começam assim) diz que tivemos muitas oportunidades, para depois elencar quantas foram desperdiçadas. Manipulação das palavras, repito. As oportunidades foram criadas pelo governo, não surgiram do além. E muitas mais foram aproveitadas do que desperdiçadas – embora essas também houvesse.

O terceiro “Nunca antes” trata da reforma política que Lula não fez, comparando-o a presidentes anteriores, como se seus resultados fossem semelhantes. O próximo fala do avanço social – já lá pelo meio, quase no fim do texto, como se fosse um detalhe qualquer e não o traço principal, que o diferencia de qualquer antecessor. E aí diz que o Bolsa-Família é bom, mas falha. Ou seja, os pontos negativos são sempre contundentes, enquanto os positivos vêm acompanhado de um “mas” que quase o anula. Os negativos o são por inteiro, e os positivos não são completos.

O parágrafo seguinte é lamentável. Trata de política externa, como se Lula fosse unânime no Brasil, mas de imagem controversa no exterior. Um ponto de crítica ao governo é justamente o de “desconsideração com aliados históricos, como os Estados Unidos”. Zero Hora esquece que é apenas para uma ínfima parcela dos brasileiros que esse é um problema. Afinal, pela primeira vez temos uma nação soberana e não subserviente, vemos nas relações internacionais a área mais bem sucedida do governo.

No penúltimo parágrafo – perdão, leitores, mas a quantidade de disparates torna necessária a leitura de cada linha – critica Lula pelo que ele não fez. Ele “resistiu à tentação do terceiro mandato”. Opa, então ele se manteve dentro da lei, ao contrário de FHC, que não resistiu à tentação da reeleição, mudando a lei (e sabemos de que jeito). E, claro, fica também a cutucada na esquerda em geral, com um “ao contrário de outros governantes populistas do continente”.

A próxima frase é de rolar como cachorro faceiro, de tanto rir. Afinal, “sob o pretexto de controle social da mídia, o governo facilitou o trânsito de ideias de inspiração stalinista, estimulou fóruns de interferência na produção de conteúdos jornalísticos e tolerou propostas atentatórias à liberdade de expressão”.

Vamos por partes:

1. onde houve “controle social da mídia”, que ninguém me contou?

2. o governo queria controlar, segundo Zero Hora, daí liberou a circulação de ideias que antes não tinham vez – que o jornal chama, sabe-se lá por quê, de “inspiração stalinista”, mas que suponho que queira dizer simplesmente “de esquerda” (que ele vê como ameaça) -, ou seja, para cercear, democratizou. Ah tá.

3. provavelmente, “fóruns de interferência na produção” deve ter sido a Conferência Nacional de Comunicação, que, pela primeira vez, discutiu de forma aberta e democrática, com participação de amplos setores da sociedade – sem a grande mídia, que optou por não participar – a nossa produção de conteúdo, com o objetivo de torná-la de mais qualidade e mais abrangente. Mas qualquer coisa que interfira de alguma forma na liberdade de mercado assusta, claro.

4. quando diz que o governo “tolerou propostas atentatórias à liberdade de expressão” quer dizer que o governo esteve disposto a pensar a comunicação para todos, provavelmente. Infelizmente, não o fez, mas levou a paulada da mesma forma.

5. aliás, por tolerar propostas diferentes das consensuais nos grandes meios de comunicação, ele não estaria justamente incentivando a pluralidade?

O último parágrafo tenta resumir tudo. Lula “entrará para a história pelos discursos emotivos, pelas decisões populistas” – ou populares? – “e pela ambiguidade de sua política internacional” – ambiguidade pra quem, cara pálida?, entrará para a história pelo estrondoso sucesso de sua política internacional. “Mas também pela visão social, pela inteligência administrativa e por encaminhar o país para um novo patamar de desenvolvimento. Ah é, lembraram que, além de todas essas coisas “ruins”, também teve umas bacaninhas, como tirar 30 milhões da pobreza. Detalhe.

No editorial de hoje, segunda 27, a crítica fica por conta da gestão administrativa do Estado e do que costumam chamar de inchaço da máquina pública. Chegam ao ponto de, indiretamente, chamar o patrão – o presidente da República? – de acomodado ao não incorporar a meritocracia. A crítica atira para todos os lados. Sobra para os CCs e para os funcionários de carreira. Uns são oportunistas, outros, acomodados. Zero Hora consegue atirar, em um só texto, no governo, nos cargos de confiança e na enorme massa de servidores públicos brasileiros. Porque, ao basear as críticas na afirmação de que funcionários concursados, portanto com estabilidade, não trabalham o que deviam, generaliza e atinge todos que se enquadram nesse perfil, em qualquer nível.

Estamos quase na metade dos editoriais sobre o governo que estão sendo publicados em Zero Hora. Por enquanto, o cenário retratado é de catástrofe. Aguardemos, pois, os próximos capítulos para ver se o jornal continua nesse caminho.

O desafio de falar uma coisa e dizer outra – parte 2