A impotência do teleatendimento

Tenho uma conta que uso pouco no Banco do Brasil. Pedi uma alteração no pacote de tarifas em junho, que não foi feita, fui deixando e já me rendeu uns 50 reais de prejuízo.

Hora de ligar para o teleatendimento. Aquele 4004-não sei o que mais que vem atrás do cartão. Além de fazer essa alteração, queria descobrir qual foi a senha que cadastrei para acessar minha conta na internet, que não lembro.

O 4004

Esperei uns sete minutos. Não tinha valsinha mas a repetição da mesma frase ininterruptamente.

Fui atendida. Depois de explicar umas cinco vezes por que não consegui pelo autoatendimento, descobri que para descobrir a senha tenho que ir a uma agência. Aquele lugar onde se passam horas na fila.

Para trocar o pacote é um pouco mais fácil, tenho só que ligar para a minha agência.

A agência

Atende, explico o problema, transfere a ligação. Tu-tu-tu-tu. Desligo. Ligo de novo. Não atende. Mais umas mil vezes e nada. Vou fazer xixi, tomar uma água. Tento de novo. Não atende. Mais uma vez, é a última, juro. Consegui! Comemoro. Explico.

Descubro que para mudar o pacote, tenho que ligar para o teleatendimento, o 4004 aquele.

O atendimento

Moça, o atendimento do Banco do Brasil está péssimo. Já liguei pro 4004 e me disseram pra ligar praí. Conto a história toda, quase xingando.

Pacientemente, ela me explica que é melhor eu ir na agência pra não perder tempo. Hein? Moça, como vou perder menos tempo pegando ônibus, indo até a agência e esperando na fila?

Mas concordei. Ir até a agência é muito mais rápido do que tentar resolver pelo telefone.

Transferência de responsabilidade

O pior de tudo é que xinguei a pessoa errada. Pelo menos me dei conta a tempo e pedi desculpa, a coitada não tinha o que fazer para ajudar.

E esse é o grande problema desses atendimentos. A gente fica impotente. A empresa, poderosa, transfere o canal de reclamações a um atendente frágil. Onde reclamar de forma fácil e rápida para que as coisas mudem? A responsabilidade é transferida. O atendente paga o pato, o cliente se irrita e não resolve o problema e a empresa ganha o dinheiro do cliente para pagar pouco ao atendente e sequer se preocupar em saber quais são as necessidades de cada um.

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Amanhã, tarde de banco.

A impotência do teleatendimento

Por que privatização ainda é pauta de debate eleitoral

Acho engraçado que a imprensa reclama do debate sobre privatização da mesma forma que reclama do debate sobre aborto. Como se fossem a mesma coisa. Eles dizem que o tema é velho, “caduco”, como comentou Carolina Bahia na Zero Hora de hoje, e já não faz mais sentido. Reclamam porque não querem que o assunto volte à baila, porque prejudica Serra. Sobre o aborto, parece que nunca tiveram nada a ver com isso. Criticam o espaço do tema na campanha sem dizer que foram os principais incentivadores para que se centrasse a discussão em tamanha bobagem (bobagem porque não convém para uma campanha eleitoral e porque foi feito atravessado).

Aí leio a Carolina Bahia na Zero Hora e vejo que não devemos discutir privatização porque é “uma discussão que, na prática, não existe mais. O impasse veio à tona de forma artificial durante este segundo turno somente para marcar uma antiga disputa ideológica entre PT e PSDB. Grandes empresas públicas, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, assumiram papéis tão estratégicos, que seria loucura colocá-las à venda”.

Em primeiro lugar, não confio na sanidade de Serra. Em segundo lugar, me paarece que é justamente por isso que temos que discutir. É preciso mostrar para quem quiser ver que nossas empresas nacionais continuam nossas e cada vez mais fortes porque houve uma política para isso. Porque houve interesse para que isso acontecesse.

Essas empresas não eram fortes antes porque não interessava fortalecê-las a quem tinha interesse de vendê-las. Se hoje elas são o que são é justamente porque houve uma mudança na política econômica brasileira, porque o projeto visa o desenvolvimento de um país soberano e forte, que “não fala fino com Washington nem fala grosso com Bolívia e Paraguai”, como disse o grande Chico Buarque. E isso é fundamental para se entender a diferença entre PT e PSDB.

Privatização pode não ser mais tema de debate eleitoral porque não corremos mais tantos riscos de que elas voltem a acontecer (embora eu não tenha muita certeza disso). Mas privatização é tema justamente por não sê-lo, para explicar por que ela já está fora de pauta, por que hoje parece ridículo que se pense em vender a Petrobras. Para mostrar por que as empresas brasileiras agora são fortes. Para ilustrar a diferença entre dois projetos.

Por que privatização ainda é pauta de debate eleitoral