Transporte coletivo: mais inteligente, justo, econômico e ecológico

A proposta do A Liga de ontem, dia 20, era meio óbvia: para falar de transporte, cada repórter pega um meio diferente e depois se vê quem chega antes. Mas no fim das contas não era exatamente o tempo o fundamental. A degradação por que o cidadão – no caso o paulistano – tem que passar para se deslocar de casa até o trabalho e vice-versa é aviltante. Foi essa a sensação que o programa deixou: uma ideia de que o transporte como um todo faz mal do jeito que é, e não um ou outro meio específico. É o sistema que está errado.

Em cada situação, inúmeros problemas avaliados. Principalmente problemas não resolvidos pelo poder público, responsável por dar condições decentes de deslocamento. Até porque não faz de graça.

O impacto ambiental foi citado, mas o enfoque era na vida dos paulistanos mesmo. No carro, o stress de ficar horas parado e não chegar mais cedo. A vantagem é o conforto, mas ela se sobrepõe somente porque as condições de transporte coletivo são precárias. Afinal, o ônibus e o metrô conduzem o passageiro até em casa em menos tempo, muitas vezes. Melhorando esses sistemas, a vantagem do carro praticamente desaparece.

Táxi é muito caro. Helicóptero, então, nem pensar. Custa 3 mil reais a viagem. Ou seja, 6 mil ida e volta. Ainda assim, São Paulo é uma das cidades de maior frota do mundo.

A bicicleta seria ótima, mas as distâncias em São Paulo podem ser grandes demais. E há um problema extra: motoristas dificilmente respeitam ciclistas, o que faz com que essa seja uma opção perigosa.

Os problemas do ônibus e do metrô são praticamente os mesmos: superlotação, desconforto. Aliás, desconforto sentido pelo espectador, tamanha a sensação de aperto que a reportagem conseguiu transmitir (apenas mostrando o que observava nas ruas). O metrô é mais rápido, mas não atende toda a cidade. E o tempo de espera é grande em ambos, por causa do excesso de passageiros, principalmente. O tempo da viagem aumenta ainda mais com as conexões que é preciso fazer entre as linhas. Perder quatro horas por dia no trânsito é revoltante. Sensação de tempo jogado fora. De vida jogada fora.

A perspicácia do programa de intercalar o método empírico de investigação com entrevistas com especialistas dá uma dimensão mais exata da questão. Afinal de contas, parece óbvio que implantar metrô seria a melhor solução, é o transporte mais rápido, que não enfrenta trânsito. Mas é também o mais caro e o mais demorado de se efetivar. Ou seja, a solução mais imediata e eficiente é investir nos corredores de ônibus.

O consultor de transportes Horácio Figueira avisa: “Uma faixa de ônibus leva de 5 a 15 vezes mais pessoas por hora do que a faixa de carros ao lado”. Ou seja, não é nem inteligente (há muito mais eleitores dentro dos ônibus do que dos carros) nem justo (há muito mais cidadãos dentro dos ônibus do que dos carros) nem ecológico que haja mais faixas de carro do que de ônibus. Depois de constatar que, apesar de ilógica, essa é a regra em São Paulo, o repórter Rafinha Bastos lamenta, em tom de desânimo mesmo: “a sensação que fica é que o governo (de SP) está priorizando o transporte individual sobre o coletivo”. É, daí fica difícil…

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No site do programa ainda não há um vídeo com o exibido ontem, mas tem diversas páginas com muitos dados e informações. Bastante completo e bem redigido o material. Praticamente uma reportagem escrita e outra feita para a TV.

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A Liga: muito além do óbvio

Confesso, às vezes assisto alguns programas jornalísticos meio na obrigação, apenas por dever de ofício. Preciso estar por dentro do que anda acontecendo na profissão, mas alguns desses programas são um verdadeiro sacrifício, difícil de engolir.

Fui assistir A Liga tempos atrás nesse esquema, mais por dever do que por vontade. Todo o mundo comentava e eu precisava dar meu pitaco. Ia dar uma volta lá pelo meio do tempo pra buscar alguma coisa pra comer. Já que a função era comprida, uma hora e meia, podia perder uns minutinhos.

Pois olha, não fui. Na verdade, não consegui desgrudar da TV. Não é daqueles documentários que têm muita informação e são tecnicamente bons mas não empolgam. Tampouco um programa de entretenimento. É informação, jornalismo de qualidade, sério, até tenso em alguns momentos, mas agradabilíssimo. Bom mesmo.

Tem algumas doses de ironia, mas não são elas que dão a leveza do programa. Aliás, a ironia é figura delicada de lidar, e ali é usada na medida certa, sem o exagero que descamba pro mau gosto. O que confere o tom mais interessante para o público em geral, o que torna A Liga assistível do início ao fim é a vontade de saber mais sobre o assunto que os repórteres conseguem provocar. E por inverter a perspectiva, por quebrar o óbvio, ampliar o tratamento do fato.

A apuração é muito bem trabalhada, para abranger os diversos aspectos do assunto. Apesar de os repórteres trabalharem de forma independente, suas contribuições se complementam. A edição é primorosa. O programa da semana passada, sobre prostituição, foi incrivelmente completo, fascinante. E o programa é disponibilizado no site.

Ontem foi sobre alimentação. Quem já não viu um Globo Repórter sobre comida? Aliás, na capa do site do programa frutas e verduras, arroz, feijão e bife saltam aos olhos, de cara. E convenhamos, não digo que seja difícil passar do primeiro bloco, é difícil ir além dos primeiros minutos. Previsível, entediante, chato. Há méritos: nem Dramim funciona melhor para fazer dormir do que aquela locução com a mesma voz de Sérgio Chapelin há 14 anos.

Eu não conhecia bem o trabalho de todos, mas só pelo A Liga já dá pra ter certeza que a equipe é de primeira: Rafinha Bastos, Débora Villalba, Thaíde e Rosanne Mulholland. Uma vez eu disse que a melhor jornalista do Fantástico, Regina Casé, não era jornalista. Em A Liga, não são todos formados em jornalismo, mas são uns baita repórteres.

O Caco Barcellos que me desculpe – e nada a ver com seu inquestionável trabalho com livro-reportagem -, mas A Liga dá de dez no Profissão Repórter, que compete no horário.

A Liga: muito além do óbvio