Uma mistura de complexo de vira-latas com preconceito de classe

Da Página 10 da Zero Hora de hoje (24):

“Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo estima que o ex-presidente Lula ganhará cerca de R$ 200 mil por palestra e que Fernando Henrique Cardoso ganha R$ 90 mil.

A dúvida é o tamanho da demanda para conferências de custo tão elevado – no caso de Lula, equivalente ao que cobram o ex-presidente americano Bill Clinton e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.”

Façam suas apostas: Lula não tem a mesma demanda que Bill Clinton e Tony Blair porque eles são se países superavançados e superiores a nós, terceiro-mundistas, ou porque Lula é apenas um operário e não um intelectual cheio de títulos acadêmicos e livros escritos para mandar os eleitores esquecerem?

Desculpa decepcionar, mas o presidente do país que cresceu e tirou 24 milhões da miséria e elevou outros 31 milhões à classe média enquanto as superpotências afundavam em uma crise econômica internacional é que é o cara.

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Uma mistura de complexo de vira-latas com preconceito de classe

Os interesses do Império e os nossos

O editorial do Mino Carta na Carta Capital dessa semana está especialmente saboroso. Se fosse uma pizza, comê-la-ia de joelhos. Aí vai o início, primoroso:

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Os interesses do Império e os nossos