A profissão mais frustrante do mundo

O jornalismo é uma forma de ganhar dinheiro, apenas. Me dei conta que eu estava concordando com isso. E quem dizia isso eram pessoas que tinham potencial pra fazer diferente. Tinham, têm. Pessoas diferentes, que fogem do comum, do senso comum, do padrão Globo, do perfil RBS.

De repente a Carol falou que de tanta gente que pode mostrar seu rostinho no Jornal Nacional, de milhares de jornalistas, só um que outro têm esse pensamento “diferenciado”. Que apenas déramos a sorte de termos caído, nós todas ali presentes, na mesma barra, quer dizer, que entramos no mesmo semestre na faculdade.

Mas me dei conta que fomos, somos, e me incluo na crítica, um tanto presunçosas. Como assim, uma classe especial? Todas as cabeças pensantes das turmas recentes de jornalismo estavam ali? Não, alguma coisa não encaixava.

Aí percebi. Das turmas recentes, tem muita gente boa. E muita gente decepcionada como nós. Muita gente que entrou pra faculdade querendo mudar o mundo – ou, indo menos longe, pelo menos mudar um pouquinho o jornalismo, simplesmente fazê-lo de forma ética e responsável, não seguir o padrão RBS, mudar o que aí está, ousar um pouco, pensar um pouco – agora acha que o jornalismo é só uma forma de ganhar a vida. Isso se for, porque, como eu, muitas ali pensavam em fazer isso por mais alguns anos e mudar de rumo.

O jornalismo é muito desgastante. Contribui para isso, mais que a rotina, a busca de informações, a apuração, a redação, o cansaço, mais que tudo a frustração. Decepcionar-se dia após dia e ver que é quase impossível furar o bloqueio da mídia tradicional desgasta demais.

Sim, os blogs estão crescendo, temos cada vez mais infiltração através da internet. Mas o que são, sei lá, mil acessos diários de pessoas que pensam parecido? Não vamos chegar no cidadão comum através de blogs. Esse vai receber sempre a mesma informação, do mesmo jeito.

Faltam leis anti-monopólio, oligopólio, concentração, concordo. Mas mesmo entre as empresas ditas grandes, o pensamento é igualzinho. Todas falam as mesmas coisas. Faltam leis anti-mesmice, anti-elitização da informação. Não adianta ter várias empresas jornalísticas se o discurso é o mesmo em todas. Daí, pensar em transformar a comunicação através de regulamentação legal – que efetivamente funcione – parece também sem sentido. Nos falta poder. E contra isso é muito difícil de lutar. A guerra começa perdida.

Bom, esse é só um desabafo. Talvez eu nem devesse publicá-lo, mas já me sinto tão próxima dos leitores daqui que me senti no direito, quase na obrigação. Não sei nem se o que escrevi faz sentido. Foi um fluxo de ideias que iam sendo digitadas à medida que ocorriam, sem planejamento. Não reli e não tenho vontade de fazê-lo. Espero que esteja pelo menos compreensível.

A profissão mais frustrante do mundo

Conversa de bar

Hoje fez uns 35ºC. O chope gelado no calor de Porto Alegre. Um bando de jornalistas, que, por definição, não entendem de nada, mas sabem de tudo. Filosofia de boteco na certa.

Mas até que hoje o assunto estava bem dentro da área. Tecnologia, ferramentas de internet, relações sociais na rede, utilização de todas essa novidades no exercício do jornalismo. Quais são os limites? Como lidar com tudo isso?

Por exemplo, onde termina o trabalho de jornalista e entra a parte que qualquer pessoa pode fazer? A participação já toma conta da rotina de trabalho. Não é mais a exceção receber pautas de um leitor. E isso não fica só nos bastidores nem em sites específicos, está cada vez tomando mais conta do dia a dia do repórter. O leitor é o repórter.

Mas pior. A tecnologia não nos leva apenas a inflexões sobre o caráter da profissão. Ao mesmo tempo em que a internet democratiza, amplia a quantidade de vozes e a possibilidade de elas serem escutadas, lidas, vistas, qualquer coisa, ela também angustia. Angustia muito. Não só a internet, mas o excesso de informações, a sociedade pós-moderna, a quantidade infindável de letrinhas pululando por todos os lados.

Para me manter bem informada, tenho que ler jornais diários – pelo menos uns três, já que sou jornalista -, revistas semanais – o ideal seria saber das quatro principais -, veículos mensais – só deus sabe quantos -, livros. E isso sem contar os blogs. Ah, esses são pra matar. Tem muitos, e muita porcaria misturada no meio de muita, muita coisa boa.

Por ora, ando desempregada, e ainda assim não dou conta disso tudo. Fico imaginando quando eu estiver trabalhando. Já não consigo ter uma noção de como vai ser, embora não seja meu primeiro trabalho. Mas acontece que, desde meus estágios até agora, as coisas já evoluíram, milhões de ferramentas surgiram, as letrinhas essas se multiplicaram.

E não são só os textos, mas também as ferramentas mais recentes – e já antigas, pelo conceito pós-moderno de tempo. Orkut – ultrapassadíssimo, e mais entretenimento do que atualidade -, Facebook, MySpace, Twitter, LinkedIn, Buzz. Essas são as que eu sei o nome, mas já não domino tantas outras. E o Brasil é o sétimo país no mundo em que as pessoas gastam mais tempo em redes sociais.

Importantes. Sem dúvida, fundamentais. O Twitter foi subestimado por mim no começo, mas hoje valorizo cada minuto “desperdiçado” nele, vejo um incrível potencial na transmissão de informações fora das fontes oficiais e do circuito comercial. É jornalismo alternativo. Saca o Pasquim? Hoje é o Twitter, só que a gente não domina mais o que acontece. Não tem como editar o Twitter. Mas é ali que as vozes dissonantes têm vez.

Só que não conseguir ler tudo isso e ainda postar no blog todos os dias e ainda trabalhar, e ainda comer, e ainda sair, e ainda viver, angustia demais. Parece que eu nunca vou dar conta de tudo que eu tenho pra fazer. De repente se inventarem um remedinho novo que me faça não precisar dormir…

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Mas disse Clarice Esperança, no Jornalismo B: “Sempre me lembro de um trecho do Hobsbawm sobre a Rev. Francesa: ‘Não foi uma fase cômoda para se viver, pois a maioria dos homens sentia fome e muitos tinham medo; mas foi um fenômeno tão terrível e irreversível quanto a primeira explosão nuclear, e toda a história vem sendo, permanentemente, transformada por ele.’

Mal comparando, a idéia do texto foi pensar um pouco que estes tempos complicados que vivemos, como profissionais de jornalismo, são tb tempos riquíssimos em termos de transformações e, por conseguinte, possibilidades. E, sim, claro, não é fácil. Mas pode ser legal.”

Então, fica o consolo de que o momento é histórico, sim. De que nunca uma revolução tão grande aconteceu na comunicação. E de que, diabos, eu resolvi trabalhar com comunicação na época em que o principal assunto do mundo são formas de se comunicar. Se vamos enlouquecer no fim das contas? É, talvez.

Conversa de bar

Um novo começo em movimento

Somos andando é meu novo blog. Apesar da mudança de endereço, de identificação visual e de nome, é praticamente uma versão remodelada do meu antigo Interpretando. Eu precisava de um título com um significado.

“Somos andando” é uma frase do educador Paulo Freire. A ideia é de que o que importa não é aonde vamos chegar, mas de que forma iremos para lá. É o caminho que faz o andante. Ou melhor, o andante faz o caminho, como diria o poeta espanhol Antonio Machado: “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.

Conheci a frase no livro De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, para quem “a verdade está na viagem, não no porto”. Pensando nessa frase, me dei conta ainda de que há mais nela. Se “somos andando”, somos muitos. Não sou eu que vou definir sozinha minha identidade ao longo de um caminho. O caminho só existe e só faz sentido se é plural, se é coletivo. Só se pode realizar a utopia em conjunto.

É um movimento… andando… E andando juntos.

A foto do cabeçalho foi tirada por mim na marcha de abertura do Fórum Social Mundial de 2010, em Porto Alegre. Não sei de que movimento são as pessoas que aparecem ali. Havia muitos lá, mas o que importa é que todos caminhavam lado a lado, trilhando um caminho coletivo rumo a um outro mundo possível. Achei que tinha tudo a ver com a ideia do título.

O blog deve continuar com a mesma proposta do Interpretando, de posts variados, sobre temas diversos. O critério que uso para escolher os assuntos é o interesse. Tudo o que eu acho que rende um post e que vá interessar aos leitores vai aparecer por aqui. Mas aviso, os assuntos mais correntes são política e jornalismo. Mas não os únicos, ressalve-se.

Jornalismo, aliás, é outro ponto importante que quero destacar. Pensei em criar o Somos andando no início do ano. Começar 2010 de blog novo. Mas, devido a viagens e outras atividades, não quis dar início a uma empreitada sem oferecer ao leitor pelo menos periodicidade. Deixei, então, para outro momento marcante.

Domingo, dia 31 de janeiro de 2010, anteontem, me formei em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pode parecer bobagem, mas é um fim de uma fase e o começo de outra, espero que ainda mais produtiva e de mais qualidade.

De resto, espero que o que aparecer por aqui tenha alguma relevância social, por menor que seja. E que vocês, leitores, gostem do que encontrarem.

Um novo começo em movimento

Com os olhos de Zelaya. Será?

Fabiano Maisonnave é um dos nove jornalistas que estão dentro da embaixada brasileira em Honduras. O único brasileiro. Muito embora a Folha esteja exalando odores golpistas em suas matérias e editoriais, as condições são propícias para se fazer um excelente trabalho jornalístico. Para tanto, Fabiano criou um blog, vinculado ao jornalão. A tendência é que seja dos bons – por enquanto só tem dois posts -, com informações exclusivas e uma visão diferente da que a grande imprensa tem passado nos últimos dias. Afinal, ele está vendo a situação com os olhos de um exilado. Seus olhos estão no mesmo lugar dos olhos de Zelaya. Pode-se dizer que é igualmente tendencioso defender o governo legítimo nesse caso.

Eu acredito que não é exatamente igual que declarar posição de defesa de Micheletti, como a imprensa vem fazendo – descarada ou disfarçadamente -, já que esse é, como eu disse, o governo legítimo, eleito pelo povo. Ainda assim, mesmo que se considere tendencioso – afinal, voltamos à velha discussão, todo relato é uma versão -, pelo menos é uma voz dissonante. Um pouquinho de pluralidade faz bem à democracia. Mesmo que essa situação não seja exatamente um exemplo de pluralidade. De qualquer forma, e voltamos, assim, ao assunto do post, espera-se um bom trabalho jornalístico, ao contrário de outros blogs de pessoas que se dizem jornalistas por aí.

Com os olhos de Zelaya. Será?