Mural: jornalismo cidadão na internet

Está novamente em discussão (ou melhor, ainda não saiu de pauta) a tal da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Uma discussão tão secundária…

Dou dois exemplos opostos. O primeiro, de um jornal do porte da Folha de S.Paulo, que tem milhões de defeitos, mas é o mais vendido do país. A Folha faz seleção de trainee, acolhendo recém formados ou estudantes em fim de curso para participarem de um processo seletivo e, se escolhidos, terem uma experiência de quatro meses na redação do jornal. Como repórteres, que fique claro. Mas o curso que o sujeito está concluindo não precisa ser jornalismo.

Mas o exemplo que quero destacar é o de um projeto assinado por Bruno Garcez, jornalista do International Center for Journalists (ICFJ), repórter licenciado da BBC e que já passou pela Folha. Bruno criou uma espécie de laboratório digital. A plataforma é bem simples: um blog. Está aí pra comprovar que bastam boas ideias e vontade pra fazer acontecer.

Através de um perfil no WordPress, Bruno criou o que chama de “agência da periferia”, um “Projeto multimídia de Jornalismo Cidadão”, o Mural. Me lembra muito a iniciativa da Rosina Duarte no Boca de Rua, em Porto Alegre. A diferença é que o Boca, até pela época em que foi criado, é feito em papel. A descrição do Mural em seu primeiro post não podia ser melhor: “Um canal para todos aqueles que querem abolir a divisão centro x periferia, todos os que desejam inverter a lógica da produção de notícias”, através do trabalho de “correspondentes comunitários”. O objetivo é romper com o vício da grande mídia e produzir conteúdo com a visão de dentro da periferia. E conteúdo multimídia.

Bruno publica posts com dicas, verdadeiras aulas de como fazer jornalismo de verdade. Tem uma parte técnica também, aquela coisa da sacada, de saber lidar com as situações, de como proceder, que se aprende com o tempo, além da estrutura da reportagem, coisas do gênero. Apresenta exemplos práticos, dá sugestões. Mas também tem muito da ética da profissão, de como produzir conteúdo cidadão, honesto, socialmente responsável.

Ainda não há exemplos de material produzido por seus alunos, até por se tratar de um projeto recente (o primeiro post é de 11 de junho). Mas o objetivo é esse. Entre os participantes, blogueiros, com alguma noção de jornalismo, e pessoas egressas da periferia. No blog, Bruno coloca exercícios que seus alunos devem desenvolver. Já fez três encontros presenciais, o que ainda limita um pouco a São Paulo. A vantagem da internet é justamente poder atingir públicos maiores, o que está nos planos. Mas tudo bem, se é preciso se ver para mobilizar de verdade, que seja assim. São Paulo já tem bastante gente precisando de mais cidadania.

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Mural: jornalismo cidadão na internet

Que vida é essa, meu deus?

marca_boca_de_rua1Quinta-feira eu saí de casa, fui até a esquina e decidi que não dava pra continuar caminhando na rua. O ar gelado enchia os olhos de lágrimas e congelava o nariz. Eu sou exagerada, passo um frio anormal mesmo. Mas estava realmente frio. E isso era meio-dia e meia. Cheguei a um termômetro desses de rua – ele estava no sol – e vi que marcava 8ºC. Isso era meio-dia e meia, repito, em Porto Alegre. De noite, dormi com três edredons e acordei várias vezes com os pés gelados – eu disse que era exagerada, mas nada disso é mentira.

Nesse mesmo dia, eu e os guris do Jornalismo B tínhamos marcado um debate sobre Mídia Alternativa. Claro que foi pouca gente, era frio demais, e era de noite. Mas o ponto onde quero chegar é a conversa que tive pouco antes de o debate começar. Um dos nossos convidados era a coordenadora do jornal Boca de Rua, Rosina Duarte. Pra quem não conhece, o Boca é um jornal feito por moradores de rua de Porto Alegre. É um projeto da Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Rosina e mais uma equipe pequena de jornalistas – confesso que não sei exatamente quantos, conheço apenas a Natália Ledur Alles – orientam diversos moradores de rua. Eles discutem pauta, decidem juntos o que vão fazer, vão às ruas, buscam as informações, montam a matéria e escrevem. Sempre com o acompanhamento da equipe de jornalistas. Depois, se dividem e vendem. Cada um coloca seu nome na capa do jornal para que o leitor saiba de quem comprou aquele exemplar. Custa 1 real. É um trabalho muito bacana, que abre espaço para quem nunca tem voz e, mais importante ainda, leva dignidade a um setor da sociedade altamente discriminado, até porque costuma ser criminalizado pela mídia corporativa tradicional.

bocaderuaPois bem, o que eu queria falar mesmo é da minha conversa com a Rosina. Ela me dizia que adora o inverno, sempre gostou, mas, desde que começou o trabalho com o Boca, não consegue passar tranquila por esses dias frios, que fica sempre pensando nos guris com quem ela trabalha, que moram na rua.

Ela me contou a história de um rapaz, que chamavam de Bocão. Uma vez ficaram sabendo que o Bocão fora preso. Mas como, por quê? Sabiam que o Bocão não era de roubar, não faria nada de errado assim. Pois o Bocão tinha arrombado um carro. Estranho, ele nem dirige nem nada, o que faria com um carro? O Bocão não aguentou o frio da rua, arrombou o carro para dormir, foi encontrado todo encolhido dormindo lá dentro.

Não me importa se eles estão na rua porque não querem ir para abrigo ou porque não têm para onde ir mesmo, dá pena igual. Alguma situação levou-os a isso, e, sinceramente, isso não é vida. Como pode sobreviver a dignidade de alguém quando sua casa são alguns pertences que ficam dentro de um saco plástico e que a polícia toma assim que vê? Eu estou na minha sala, com paredes por todos os lados, estou no segundo andar de um prédio, tenho um piso de madeira, estou bem isolado do frio que vem do solo. Tem uma estufa ligada quase em cima de mim, estou com meia de lã, calça grossa, três blusas, pantufas. E minhas mãos estão geladas, como sempre no inverno. Só de pensar em pessoas dormindo na rua, com o ar gelado direto nelas, sem qualquer tipo de proteção – talvez uns jornais, alguma coisa assim -, tremo de frio. Eles não pensam nisso, eles vivem isso.

Na mesma quinta-feira, dia 23 de julho de 2009, eu voltava pra casa do debate, lá pelas 21h, e passei por mais de uma esquina em que prostitutas esperavam pelo seu próximo cliente. Uma delas estava com uma blusa fina, uma jaqueta jeans, uma meia-calça e uma míni-saia. Juro, não devia fazer mais de 5ºC. E estou chutando alto.

Por isso e por tantas outras coisas que fico indignada quando chamam essas mulheres de “de vida fácil”, ou quando dizem que os moradores de rua merecem o que passam porque eles não aceitam irem para abrigos, eles estão na rua porque querem.

morador de rua

As pessoas que falam isso têm medo de chegar perto de moradores de rua. O máximo que elas conversam com pobre é sobre qual almoço a cozinheira deve fazer, sobre como a faxineira deve limpar a casa. E esses pobres com quem eles convivem normalmente não são os mais mais pobres. Nunca nenhum desses que pensam que pobre é pobre porque quer conversou com um morador de rua. Nunca foi atrás de saber por que ele está na rua. Constrói seu discurso em cima de preconceito, de como a Zero Hora diz que é – jornal, aliás, que também não conversa com os moradores de rua – e do que é mais fácil. Afinal, não é minha culpa se eles não têm onde dormir e eu tenho. Mais fácil, né?

Mas cada um desses mendigos, dessas prostitutas, tem uma história, tem uma vida. Provavelmente sua família é desestruturada. Às vezes a ponto de ele ficar meio intratável mesmo. Claro, com raiva do mundo. Tudo na sua vida deu errado. Ele mora na rua. Por quê?

E isso é Porto Alegre, que não é a cidade mais fria do mundo, nem sequer a cidade mais fria do Brasil. E nem a única a ter problemas assim. Não sei direito o que fazer para ajudar a resolver o problema. Talvez seja um bom começo deixar de olhar para o cara que vem pedir dinheiro no carro como um criminoso. Pensar se ele tem mãe, pai, se tem mulher, filhos, tentar imaginar qual sua história de vida. Se dar conta que ele é uma pessoa, que ele sente, que ele sofre. E que ele tem raiva desse mundo de merda em que ele vive.

Que vida é essa, meu deus?