Doria e a ração de resto

doria apresenta felizão um programa para distribuir “um granulado nutritivo composto por alimentos habitualmente desperdiçados pela população e que contém importantes propriedades nutricionais, podendo ser adicionado às refeições” para pobres. isso mesmo, resto.

pior que eu consigo até imaginar ele pensando nisso como uma grande ideia. por um lado, tem comida indo pro lixo, aos montes. por outro, gente passando fome. aí vem a lampadazinha, plim, ideia genial: “vamo juntar as pontas”.

eu consigo imaginar porque eu conheço gente que pensaria igualzinho. claro, gente que nunca passou fome e que tá acostumada a ter salmão e filé mignon no almoço do dia a dia. se eles gostariam de comer ração de resto? ah, isso nem passa pela cabeça, porque eles não estão passando fome. “mas melhor isso que nada, né?”

não, amigo, melhor dignidade e comida de verdade do que ração de resto. é engraçado porque as mesmas pessoas que devem estar apoiando esse tipo de medida são as que acham que bolsa família é esmola. e aí a gente vê a situação merda que a gente tá, quando nem a inteligência mínima de ligar pontos sobrevive. garantir dignidade e acesso a direitos a quem nunca teve não pode ser chamado de garantir dignidade, é esmola. mas ração de resto tá de boa ser chamada de comida.

“ai, mas tem muito desperdício.” claro que tem! inclusive o teu, o meu, o do nosso dia a dia. não é dando resto pra pobre comer que a gente vai acabar com ele.

enfim, quando alguém diz que tem pena de quem não tem comida e vem com alguma ideia estapafúrdia como essa, minha questão é: por que você tem direito a comer filé mignon e o pobre tem que ser feliz com resto? porque você nasceu melhor? que chato esse tal de capitalismo, né.

doria racao de resto

Doria e a ração de resto

O que faz com que o governo Lula não seja neoliberal

A grande crítica ao governo Lula, e que levou parte da militância petista a abandonar o partido ainda no primeiro governo, é sua política econômica, tida como muito ortodoxa, sem mudanças significativas em relação ao governo anterior. Pois bem, é possível partir de um conceito para avaliar a sua aplicação.

Parto do neoliberalismo e por que ele não se aplica da mesma forma nos dois governos. A premissa é simples: inverteu-se a lógica. O neoliberalismo é baseado essencialmente na não-intervenção do Estado, não só na economia, mas em toda a sociedade. Não é só deixar os mercados regularem-se por si, é deixar de prestar serviços à população, transferindo-os à iniciativa privada. Deixar a sociedade se virar sozinha, resumindo. Parir a criança e não criá-la.

Assim, um governo neoliberal, que tem nos anos de Fernando Henrique Cardoso um exemplo, desenvolve menos políticas em prol da população. Privatizam-se as empresas públicas, que passam a agir pela ótica do mercado, ou seja, cobram do cidadão pelo serviço com vistas a obter lucro. Não é o fato de ser público ou privado que faz uma empresa prestar um bom serviço, é a boa gestão.

E vamos além, expandindo da questão das empresas públicas ou privadas e falando do papel do Estado no dia-a-dia do cidadão. Um Estado mínimo, característica do neoliberalismo, não teria adotado políticas sociais que melhoram a qualidade de vida do cidadão. O Estado mínimo deixa o sujeito se virar, não lhe dá ajuda. O Bolsa Família, com a amplitude que atingiu – hoje haveria 21,5 milhões de brasileiros a mais em situação de pobreza se não fossem os programas de transferência de renda -, não teria existido em um governo neoliberal, pois ali o Estado se afasta do cidadão.

Continua…

O que faz com que o governo Lula não seja neoliberal