Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

A paródia da elite feita pelo Marcelo Adnet me lembrou o dia, em outubro deste ano, em que eu esperava uma conexão atrasada em Congonhas. Era feriadão, praticamente todos os voos estavam atrasados. Sentei em uma daquelas confortáveis poltronas de aeroporto quase em frente a uma elegante mulher, vestida com um terninho bem alinhado, em cima de um salto que não parecia nada confortável, mas que depois vi andando com altivez. Estava ali, teclando no seu aparelhinho eletrônico que podia ser de tudo. Aliás, parecia qualquer coisa, menos um celular. Eu sentia que o mundo estava ali naquelas mãos. Pelo menos a vida dela devia estar, porque era o centro das atenções da mulher, que não parava de mexer naquelas teclas por um só minuto. Ela olhou para a pessoa que estava ao seu lado, fez uma cara de dor profunda e reclamou do alto do seu direito: “Está ficando difícil viajar, já foi bem mais fácil”.

Percebi que estava difícil por minha causa. Paguei bem menos na passagem de avião do que eu pagaria se fosse de ônibus de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Só nesse ano fui três vezes a São Paulo, uma a Buenos Aires, uma ao Rio, uma a Florianópolis. Pouco praquela mulher, provavelmente. Pra mim, um mundaréu de viagens de avião, como eu nunca imaginaria ter feito alguns anos atrás.

Andei de avião pela primeira vez aos onze anos. Quer dizer, primeiro quando eu tinha uns poucos meses, mas que eu lembre foi essa. Uma viagem de férias com meu pai a Buenos Aires. Era mágico. Além da emoção de ver o mundo de cima, que sempre me fascina, a sensação inevitável de riqueza. No avião, me senti chique, sabe. Aquela coisa que poucos ao meu redor faziam, que era voar.

Hoje é bobagem. Andei mais de avião do que de ônibus intermunicipal este ano. Eu incomodo aquela gente que nunca vira um feriado dar congestionamento aéreo. E o pior é que tem um mundo de gente com menos grana que eu que pode sentar do lado da riquinha da Zona Sul.

Isso não é lindo?

Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

A elite se regozija com o Jornal da Globo, que a trata a pão de ló

O Jornal da Globo tem um público bem definido, claro até demais. É o jornal mais requintado da emissora, com mais cuidado nos acabamentos, nos detalhes técnicos. É extremamente bem feito. Porque é todo voltado para a elite conservadora. Ou seja, absurdamente reacionário em suas posições políticas. Criticar a esquerda latino-americana e os movimentos sociais são o exemplo mais corrente e inflamado dessas posições

Pois hoje não só a ideologia política o demonstrou, mas a composição do jornal. Chamou a atenção o bloco comentado por Arnaldo Jabor, acho que o terceiro ou quarto. Boa parte dele dedicado a Cuba. A malhar Cuba, a denegrir Cuba. E, de quebra, a achincalhar Lula, que está em Cuba. Arnaldo Jabor não poupou veneno, foi bastante acintoso, dizendo que o presidente omite os fatos e os transforma com palavras. Ou seja, que mente, em bom português. Não é pouco chamar o presidente da República – aquele bem popular – de mentiroso.

Quando acabou o comentário de Arnaldo Jabor, apareceu William Waack em sua bancada, com o já tradicional sorrisinho sarcástico. E disse, introduzindo a matéria seguinte: “E para os apaixonados por carrões…”. Quer coisa mais elitista? Xingar Cuba, Fidel e Lula e coroar com uma matéria sobre carrões. A burguesia se delicia…

A elite se regozija com o Jornal da Globo, que a trata a pão de ló

O ridículo da alta burguesia brasileira

Setembro já acabou, eu já tinha dado a Piauí desse mês por lida há um bom tempo, mas li no Diário Gauche a respeito de uma matéria que me fez buscar minha edição no armário das revistas já lidas e guardadas. É sobre o aniversário de 15 anos da filha do dono da Grendene. Na verdade, é mais sobre a organização da festa e o papel da mãe da aniversariante. O problema é que não tem como descrever Simara Sukarno. No texto, Alexandre Grendene é descrito como o seu ex, mas a verdade é que a única definição possível da socialite é “a ex-mulher de Alexandre Grendene”. Ou, simplesmente, socialite.

A matéria. Excelente, divertida, texto leve, solto. Acho que eu não tinha ainda imaginado, em uma situação dessas, a possibilidade de se descrever minuciosamente a organização de uma festa para uma matéria que não fosse para a Caras. O fato é que o repórter Roberto Kaz fez exatamente isso. Descreveu todos os detalhes, das flores trazidas da Colômbia à escolha da data em função da disponibilidade da Daslu de receber a festa. Passando pelos vestidos milionários, a contratação da cerimonialista, as máscaras piauíconfeccionadas para os cachorros de Simara (a festa foi ao estilo veneziano), as jóias e as marcas das roupas que ela usa durante as entrevistas.

Com isso, Roberto mostrou quão ridícula é essa vida burguesa, da alta sociedade brasileira, sem que a tal alta sociedade perceba que está sendo ridicularizada. Genial. O próprio título da matéria (“Diferenciada”) é uma provocação, pelo fato de que as socialites descrevem tudo como uma cerimonialista diferenciada, doces diferenciados, o escambau diferenciado. No seu parco vocabulário de semi-letradas, elas acham que isso é sinônimo de qualidade.

E o texto, sem dizer claramente, mostra tudo isso. Grande trabalho de apuração (que não teve nada de muito difícil, mas que foi muito bem feita) e redação.

* Foto de Tuca Vieira.

O ridículo da alta burguesia brasileira

Esse sistema…

“Dizem que a burguesia é uma classe já condenada pela História, e que breve sumirá no sorvedouro social, visto que a posse por um grupo limitado de pessoas (ainda que sejam pessoas de bem) da terra e das máquinas e meios de produção em geral conduz forçosamente a Más Conseqüências. Dizem que isso é verdadeiro a um tal ponto que os países mais prósperos do mundo burguês só gozam por exemplo dessa felicidade primária e aliás bastante medíocre que é estar todo o povo a trabalhar granjeando com honradez o seu pão quando esse trabalho se destina à Morte, e não à Vida. Assim dizem. Em nações soberbas, como a Alemanha, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, há em tempos normais milhões de desempregados, homens que não têm o que fazer, se me perdoam a expressão, bestando por ali como se o trabalho dos outros bastasse para a fartura geral, o que não se dá. Só em tempo de guerra ou de preparação para a guerra todos acham o que fazer. Em outros países as eras de Prosperidade redundam em fatos reprováveis, como é a destruição em grande escala de mercadorias. Quando queimamos ou jogamos ao mar sacas de café produzidos com desagradável esforço, não o fazemos porque o Mundo esteja abarrotado de café, a tal ponto que todas as famílias decentes tenham na despensa mais quilos de café do que o estimável em vista do problema do espaço no lar.

Não, não é assim. O café, que é pouco para as pessoas que querem tomar café, é demasiado para as pessoas que querem vender café. O que acontece é uma coisa profundamente trágica e estranha, eis que o café não é produzido para ser bebido, e sim para dar lucros. O mesmo sucede com outros produtos, de maneira que já temos visto a maior parte dos povos do mundo (inclusive povos do Oriente que, bem ou mal, também pertencem à Humanidade, embora sejam de alma atravessada ou enviesada, segundo julgam muitos cristãos do Ocidente), a maior parte dos povos do mundo íamos dizendo, passar necessidades de roupa e de boca quando os jornais mais sérios e as estações de rádio cujos conselhos são ouvidos com mais atenção afirmam que há Superprodução. Proibimos a instalação de usinas de açúcar não porque a vida para a humanidade esteja demasiado doce, mas, sim, porque é preciso proteger os lucros dos donos de usinas de açúcar existentes. Fazemos isso para evitar que o açúcar fique muito barato, como se fosse um grande pecado ficar o açúcar muito barato. Além disso, se o país A produz colchetes e o país B também produz colchetes, e ambos desejam vender colchetes ao país J, isso resulta em uma disputa entre nações, sendo convidados escritores, declamadores, militares, eclesiásticos e escroques do país J a visitar ora o país A, ora o país B, na esperança de que se esforcem para colocar o país J a favor do país A em sua guerra contra o país B, ou a favor do país B em sua guerra contra o país A, visto que no Sistema do Imperialismo o único meio de saber quem tem direito de vender colchetes é transformar as fábricas de colchetes em fábricas de espoletas e travar batalhas terrestres, aéreas e navais que enriquecem as Páginas da História.”

Trecho da crônica História de São Silvestre, de Rubem Braga, escrita em janeiro de 1942. Retirada do livro 200 crônicas escolhidas.
Esse sistema…