Uma democracia não é plena com apenas dois partidos

A Zero Hora usa a informação da The Economist, mas, infelizmente, usa mal. Faltam muitos detalhes para explicar o ranking das democracias no mundo. O fato é que países como Brasil, Argentina e França são apontados, por um estudo feito pelo Economist Intelligence Unit, como democracias com falhas. Certo, nosso sistema político tem muitos problemas e acabam acontecendo distorções enormes, em prol da tal governabilidade, entre outros problemas. Temos um baixo índice de interesse por política entre os brasileiros, mas vemos um sistema eleitoral praticamente perfeito, sem fraudes e extremamente ágil.

O que espanta não é nós e nossos vizinhos latino-americanos – a grande maioria dos países da América do Sul são enquadrados na mesma categoria – sermos vistos como democracias imperfeitas, mas os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por exemplo, estarem entre as democracias plenas.

A fraude eleitoral

De forma mais escandalosa, aparece a fraude no sistema eleitoral, que elegeu o segundo colocado nas eleições presidenciais de 2000. Bush Junior virou presidente com menos votos que seu adversário Al Gore, e isso aconteceu por dois motivos. O primeiro e mais grave para a consolidação dos Estados Unidos como uma democracia é o fato de o presidente ser eleito por um colégio eleitoral. Por causa disso, são representantes do povo que escolhem o presidente, de uma forma bem diferente da eleição direta em que cada voto de cada cidadão brasileiro vale exatamente a mesma coisa e contribui da mesma forma para o resultado final.

Mas ainda há outros problemas bem sérios na democracia americana. Nessas eleições a que me refiro, as regras para eleger os representantes da Flórida foram alteradas pouco antes do pleito. E, olha a coincidência, a apuração foi coordenada pela secretária de Estado e co-presidente do Parido Republicano da Flórida, que, por acaso, tinha à frente o irmão do novo presidente, Jeb Bush. Nada mais isento e democrático, certo?

Bipartidarismo # democracia

Mas, aberrações à parte, é de se estranhar que sejam tidas como democracias plenas duas nações que adotam o bipartidarismo. Estados Unidos e Grã-Bretanha por muito tempo tiveram apenas duas forças no poder. Agora, os britânicos convivem com uma terceira força, mas os americanos continuam escolhendo apenas entre republicanos e democratas.

Um país em que, desde sua independência, só a direita – menos ou mais radical – tem acesso ao poder, em que ideologias diferentes são renegadas a segundo plano, é uma democracia fajuta.

O mínimo necessário em uma cobertura do ranking das democracias do mundo é esclarecer a metodologia utilizada para se chegar às conclusões apresentadas. Qual o critério para definir qual país é mais democrático?

Avaliação e cobertura fracas

A Zero Hora apresenta as notas finais de todos os países, mas as dúvidas pairam. Entende-se de uma forma bem básica por que o país está onde está. Pode-se até discordar, mas aí não é mais culpa do jornal, que apenas republicou a informação. No final da leitura, as certezas são poucas e fica no ar aquele “tá, mas…?”.

O estudo completo está disponível no site do Economist Intelligence Unit, ligado à revista The Economist. Lá os detalhes são maiores e é possível compreender um pouco mais da metodologia, mas fica difícil concordar com os resultador. Como entender, por exemplo, que os Estados Unidos tenham nota 9.17 em “Processo eleitoral e pluralismo”? Como um sistema bipartidário pode ser plural?

É, a The Economist pode ser uma publicação séria, mas ainda é uma publicação britânica com um olhar voltado para o Norte do mundo. Isso não muda tão fácil. O que está mudando, isso sim, é o jogo de poder. The Economist vai continuar sendo britânica, mas é provável que se torne cada vez menos lida diante do crescimento de publicações chinesas, indianas, brasileiras, argentinas, sul-africanas… O jornalismo mais tradicional até incorpora novas tecnologias enquanto mantém as ideias no mesmo lugar, mas o mundo, esse está mudando.

Uma democracia não é plena com apenas dois partidos

A fajuta democracia americana

Não, não acho certo que oposição tenha mais votos e situação fique com mais vagas, como aconteceu na Venezuela. Mas isso me lembra outro caso bem pior, que não foi tratado com tanto assombro por aqui. Mas antes de chegar lá, quero comentar algo que li na Zero Hora semana passada. Não encontro o link agora, mas era uma nota pequena, nem lembro ao certo a notícia, mas o repórter dizia alguma coisa como “parece estranho alguém dizer que a democracia brasileira é mais perfeita que a americana, reconhecida sempre como um exemplo”. As palavras eram outras, mas o conteúdo ia no sentido de dizer que a democracia dos ianques era tida como a ideal.

Pois é essa democracia que permite, por exemplo, que um presidente seja mais votado e outro, um Bush, assuma o posto. E, em se tratando de presidente da República, a coisa é bem mais grave. Até porque a Venezuela adota um sistema de representação distrital, escolhe parlamentares para representarem regiões. O presidente não representa regiões, mas o conjunto do povo. Ou seja, devia ser aprovado pela maioria absoluta.

Como no Brasil, aliás. Nesse Brasil que a imprensa vem acusando de pouco democrático. Que tem o sistema eleitoral mais avançado do mundo, que quase elimina fraudes. Que tem problemas, sim, e muitos. Que poderia contar com formas mais diretas de democracia, como a participativa, que tem no Orçamento Participativo criado pelo PT na Prefeitura de Porto Alegre seu exemplo máximo. Mas, considerando democracias representativas, é um exemplo para os americanos.

Estados Unidos, sistema político baseado no bipartidarismo. No Brasil, reclamam que o PT vai para o terceiro mandato, que vai chegar a 12 anos de poder. Nos Estados Unidos, foram séculos de alternância entre dois grupos políticos hegemônicos. E que continuam tendo o mesmo poder que sempre tiveram. Um um pouco mais conservador que o outro, mas nenhum efetivamente progressista (no sentido original da palavra, não o surrupiado pelo PP). Naquele 2000 em que Bush foi alçado ao cargo máximo do poder americano, o governo da Flórida estava nas mãos de seu irmão. Por coincidência, as regras das eleições foram alteradas pouco antes do pleito, as cédulas lá foram “mal planejadas” e dificultaram as eleições, atrasando a contagem dos votos e oportunizando fraudes. E, mesmo depois da eleição de Bush, continua sendo tratado como exemplo de democracia. Não é.

Tida como exemplo, torna-se ainda mais fajuta que as outras.

Ou seja, se vamos falar de democracia, se vamos questionar Venezuela, até mesmo Irã – não defendo o sistema político iraniano, por favor -, vamos questionar Estados Unidos. Vamos chamar na chincha a “democracia perfeita”.

Com telhado de vidro, não se atira pedra nos outros.

A fajuta democracia americana