Zero Hora está em campanha

O principal jornal gaúcho quer a todo custo aprovar o projeto do Cais Mauá. Eles chamam de revitalização do Centro a ação de entupir a orla do Guaíba de prédios altos, carros e shoppings. A campanha é tão forte que não ouve opiniões contrárias. Aliás, sequer cogita sua existência.

Na edição deste domingo (20), a reportagem de capa informa que o Centro está sendo cada vez mais procurado por moradores da capital. Três páginas da editoria de Geral tratam da “redescoberta” do Centro. Uma redescoberta que ignora valores culturais, quase não mencionados. Fala, sim, na recuperação de prédios antigos, mas não no valor histórico que isso tem, apenas no valor comercial, imbiliário, de um Centro cada vez mais “limpo” e bonito, sem pobres e sujeira.

Malandramente falando

O projeto do Cais Mauá é a mais louvada das iniciativas, tanto que ganhou uma página só para ele. Que diz, em transcrição literal: “Urbanistas, profissionais envolvidos no processo de recuperação e representantes do mercado imobiliário acreditam que, sem a conversão sem a conversão do Cais do Porto em um polo de lazer e turismo, a transformação não estará completa”. Não, jura?!? Das três categorias citadas, as duas últimas são diretamente envolvidas – uma na execução e a outra será grande beneficiada financeiramente. Com relação à primeira, os urbanistas que eu conheço não concordam com isso, não.

A malandragem é tamanha que os representantes da sociedade que discordam da transformação do Cais do Porto em um complexo de empreendimentos em que alguns prédios chegarão a 100 metros de altura – os índices construtivos foram estrategicamente modificados com aprovação da Câmara de Vereadores – sequer foram citados como existentes. A reportagem deixa claro que toda a sociedade aprova o projeto de forma unânime. Se é maioria ou não, não sabemos, mas que há contestação, há, e o jornal descaradamente a omitiu.

Ignorou a existência de movimentos como o Porto Alegre Vive e o Comitê Popular Copa POA 2014, organizações de moradores, profissionais da área, além das discussões no Conselho Municipal de Desenvolvimento UrbanoAmbiental.

Enganou o leitor, manipulou a informação.

E aproveita para sutilmente pressionar o governador Tarso Genro para que ele não volte atrás na decisão de não enfrentar o complexo máfio-midiático – como diria o Sr. Cloaca – e aceite o projeto sem contestação, ao invés de promover um amplo debate popular.

Carrocentrismo

Outro ponto valorizado pela reportagem é a liberação de ruas para a circulação e espaços para o estacionamento de automóveis, “devolvendo a vida ao entorno”. Circulo pelo Centro há 24 anos. Nunca, em momento algum, faltou vida ao bairro, muito pelo contrário. A liberação de diversas ruas para que os carros pudessem circular até pode ajudar a desafogar o trânsito, mas é péssimo para os pedestres, que se espremem nas calçadas estreitas. Gostaria de ver os repórteres circulando a pé em dia de chuva para entender bem a que me refiro.

Mas “vida”, na concepção elitista de Zero Hora, só existe dentro de uma lataria sobre quatro rodas, símbolo de status. O Centro agora vale não porque é culturalmente efervescente, mas porque é “glamouroso”, nas palavras do jornal.

Ao mesmo tempo em que valoriza a liberação de ruas para que os carros circulem melhor – e os pedestres e ciclistas bem pior -, Zero Hora louva a iniciativa que vai atravancar o trânsito da entrada da cidade. Fica difícil vislumbrar a possibilidade de uma região mais sobrecarregada não sofrer severas complicações com a construção de um complexo como o que se pretende no Cais, com hoteis e salas restritas a quem os pagar.

Continuamos aplaudindo o transporte individual, a experiência de vida individual, a existência individual, no lugar de incentivar o transporte coletivo de alta qualidade, como seria possível com investimentos adequados e bem planejados, e os espaços coletivos de convivência urbana, que permitissem a troca de experiências e a integração comunitária.

Para a Zero Hora, o projeto do Cais é sinônimo de “futuro”. Resta saber que tipo de futuro.

Zero Hora está em campanha

Faltou urbanismo na revisão do Plano Diretor, diz Pesci

Em entrevista a Guilherme Kolling, para o Jornal do Comércio, o arquiteto argentino Rubén Pesci faz diversas críticas ao novo Plano Diretor de Porto Alegre. Ele foi contratado nos anos 90 para ajudar a elaborá-lo, mas aponta diversas deturpações em alterações ocorridas na Câmara dos Vereadores, que criaram um “Frankstein”. “Se discute a arquitetura e se esquece o urbanismo”, resume. Seguem alguns trechos:

JC – Houve uma deturpação da ideia original?

Pesci – Sim. Quero ser categórico: havia sete estratégias e foi aplicada só uma, aquela que interessa aos prédios privados. Não tivemos uma política pública clara em matéria de mobilidade, de meio ambiente, nem em desenvolvimento daqueles eixos de centralidade, que descentralizariam e integrariam a cidade, para Viamão, Alvorada, para o Sul. As medidas para a preservação da orla e a recuperação dos grandes parques ambientais da zona Sul, em particular, não foram feitas. As políticas de moradia social, criando cidades e não bairros excluídos… Nada disso foi feito.

JC – Moradores da Vila Chocolatão irão para outro bairro mais afastado. O senhor considera equivocado reassentar vilas irregulares do Centro em outros locais?

Pesci – Equivocadíssimo. Tenho dito uma frase: “É preciso fazer cidade, não fazer casas.” Para resolver problemáticas sociais, tem que criar espaços que pareçam a cidade de todos. Aqueles não são cidadãos de segunda classe, têm que ser cidadãos de primeira classe. Com casas pequenas, não de luxo, mas fazendo parte do tecido social.

JC – A revisão do Plano saiu depois de oito anos. Alturas foram diminuídas, afastamentos entre as edificações aumentados. Ainda se discute medidas – áreas de interesse cultural, área livre permeável e vegetada nos terrenos além do Estudo de Impacto de Vizinhança.

Pesci – Estão errados. O setor público propõe um plano simplesmente para regular o investidor privado, ou seja, regular o solo privado. Isso não é um plano de cidade. Qual é a proposta de melhoramento do espaço público? Para os sistemas de mobilidade, para a orla? Não temos uma proposta de nova cidade. Se discute a arquitetura e se esquece do urbanismo.

JC – O senhor esteve diversas vezes em Porto Alegre nesses últimos 15 anos. Que mudanças percebeu na cidade?

Pesci – A medida mais acertada, que já estava definida antes do Plano Diretor, foi a Terceira Perimetral. Além dela, não vi avanços na cidade. Continuam desenvolvendo a cidade sem uma orientação inteligente.

JC – Que projetos mudaram cidades, por exemplo?

Pesci – Curitiba fez fama com o sistema de mobilidade. Medellín (Colômbia), com as intervenções nos setores sociais, através de bibliotecas-parque, mudando a realidade social dos menos favorecidos. O slogan de Medellín é “a mais educada”. Essas bibliotecas-parque são prédios de 3 mil a 5 mil metros quadrados. Custam pouquíssimo, R$ 2 milhões. E com isso se muda a realidade social de 10 mil, 20 mil crianças. Aí estão as minhas dúvidas em relação ao governo do PT (Lula). Não tem que subsidiar a mudança social, tem é que criar condições de riqueza e emprego. Não deram casas nem pacotes de alimentos em Medellín. Deram bibliotecas-parque. Em Bogotá, outro exemplo colombiano, fizeram um grande sistema de transporte público, muitas ciclovias.

JC – A ciclovia é só uma alternativa ou pode ser um meio de transporte?

Pesci – É limitado. Não dá para ir de bicicleta até Belém Novo. Mas pode complementar. A Cidade do México, de 20 milhões de habitantes, tem um sistema multimodal. Pode sair de carro, pegar um metrô até as áreas centrais e depois uma bicicleta, para as últimas 20 quadras. É perfeitamente possível. E já coloco outro exemplo, no meu país, em Rosário. Tem uma orla parecida com a de Porto Alegre. E hoje recebe um movimento artístico internacional, com obras de arquitetos europeus. São 27 quilômetros de orla colocados a serviço da população.

JC – E os 70 quilômetros de orla de Porto Alegre?

Pesci – Não se trata simplesmente de grama, pássaros e nada mais. Para que essa orla seja de utilidade social, é preciso equipá-la. Fazer possível a apropriação social todo o ano, 24 horas por dia, com centros esportivos, educativos, náuticos. Se Medellín tem bibliotecas-parque, aqui deveria haver as bibliotecas-orla.

Leia aqui a íntegra.

Faltou urbanismo na revisão do Plano Diretor, diz Pesci