Transformações e desafios na luta pela terra – parte 2

A luta deve continuar, e é fundamental que ela se dê. Não faz sentido importar trigo e feijão se temos terra para plantar. Não é negócio tirar o homem do campo se os limites das cidades já estão quase esgotados. Manter o trabalhador no campo é mais barato para o governo e melhor para o país. Com incentivo à agricultura familiar, teremos maior distribuição de renda e produtos de mais qualidade na mesa dos brasileiros. Mas é preciso manter o trabalhador no campo com dignidade.

Condições dignas para o colono

A área rural enfrenta problemas de acesso à educação: uma das dificuldades das escolas do meio rural é a falta de alunos, que faz com que seja mais difícil manter sua estrutura. Para isso, contribui o êxodo rural e a queda da natalidade. Não é mais possível conceber hoje a falta de internet como meio de acesso à cultura e à educação. Muitos municípios sequer têm sinal de telefone, tornando impossível para o trabalhador ter internet, que exige ainda o investimento em computador e a mensalidade da banda larga. Além disso, é preciso garantir saúde pública de qualidade, condições sanitárias, infraestrutura – o Rio Grande do Sul ainda tem 106 municípios sem acesso asfáltico, por exemplo.

Por isso, é importante que os movimentos sociais encontrem um caminho de renovação e tenham nos governos aliados. Uma coisa depende da outra, daí a dificuldade. A execução da reforma agrária pelo governo é fundamental para que os trabalhadores não desistam da vida no campo e não acabem mudando de vez para a cidade antes de ver sua terra conquistada, abandonando a luta. Ao mesmo tempo, é preciso que os movimentos pressionem o governo para fazer um contrapeso às pressões exercidas pelos ruralistas, que, por serem muito maiores (apesar de muito menos), são muito poderosos. E o fato de o governo ser um eterno aliado dos movimentos sociais não é motivo para abrandar a luta, muito pelo contrário – é só dar uma breve espiada nos números do governo Lula para comprovar isso. É preciso fornecer subsídios para que a presidenta Dilma consiga colocar em prática uma política que efetivamente traga resultados no setor.

Equalizar a balança não é tarefa simples. É o desafio imposto hoje aos movimentos sociais e a luta pela reforma agrária e pela dignidade da vida no campo.

Leia aqui a primeira parte.

Transformações e desafios na luta pela terra – parte 2

O mundo visto do alto e a capacidade de se surpreender

Já viajei de avião umas quantas vezes (considerando de uma perspectiva condizente com a realidade brasileira, em que poucas pessoas deixam a terra firme com frequência). Geralmente viagens curtas, dessas promoções que a gente aproveita por aí. Numa viagem mais longa, minha vizinha de assento me fez crer que sentar no corredor era mais prático, não deixava o cidadão constrangido por ter que pedir licença e praticamente cair em cima do camarada ao lado – o espaço é exíguo – a cada ida ao banheiro ou quando quisesse esticar as pernas. Acreditei, mas não adianta. Quando o funcionário no check-in me pergunta se quero janela ou corredor, sempre escolho janela.

A minha última viagem foi bem ruim, uma turbulência que eu nunca tinha experimentado. Tive que racionalizar muito a respeito da improbabilidade de acontecer um acidente para encarar com tranquilidade. No trecho de volta, na hora do pouso, ainda traumatizada, enxerguei a cidade à noite iluminada pelas luzes e a primeira coisa que pensei foi que não importava se o avião batesse, qualquer coisa assim. Eu estava feliz com aquela imagem, o clichezão morreria feliz.

Natureza e campo

Não canso de me admirar. Não sei ainda se me impressiono mais com a natureza ou com o que o homem faz nela. O litoral me atrai, as curvas de Santos, que vi com perfeição semana passada, o contorno de Santa Catarina, no qual identifiquei as praias que frequento e que já vi tantas vezes no mapa. A beleza daquilo tudo…

As paisagens rurais geralmente não são as originais do lugar. Dificilmente a natureza se mostra como veio ao mundo, não por culpa dela, claro. Tento identificar o que está sendo plantado, que tipo de colheita, como o traçado da plantação é definido. Chama a atenção a precisão dos contornos.

Cidades

Mas acho que os cenários urbanos me encantam mais. Imagino como a região era no início, antes de o homem transformá-la e me parece absurdo que se tenha conseguido chegar a cidades gigantescas como as que temos. Sobrevoei São Paulo, um mar de concreto. Apesar de todos os problemas, é fantástico imaginar na capacidade criadora da civilização. A tecnologia que foi preciso desenvolver ao longo da história para se chegar a essas mega cidades.

Observar o traçado das ruas de Buenos Aires, como que desenhadas à mão, imaginar quem as teria projetado, como foi a sua construção…

Sobre Porto Alegre, identifiquei ruas, enxerguei com nitidez os estádios do Beira-Rio e do Olímpico, em ângulos dificilmente observados por pessoas como eu, não tão acostumadas a deixar a terra firme. Mas as luzes de Porto Alegre na volta… Essas eram incomparáveis.

É por essas e outras que não podemos nunca perder a capacidade de nos surpreendermos diante da vida. E vou continuar viajando na janela.

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Para ver as imagens ampliadas, é só clicar em cima delas. A primeira mostra as nuvens sobre o mar num trecho entre Milão e Madri em 2007. A segunda, Porto Alegre à noite, na semana passada – quando tirei a foto já tinha passado a imagem mais bonita. Em seguida, uma cena que chegou a me comover pela sua beleza. No mesmo trecho europeu da primeira, o sono era absurdo depois de encarar um trecho entre Porto Alegre e São Paulo e daí para Milão, mais as inúmeras horas de aeroporto, mas a imponência da natureza segurou meus olhos abertos, não sei como. As duas últimas mostram Buenos Aires no início do mês, com destaque para o traçado das ruas na imagem final.

O mundo visto do alto e a capacidade de se surpreender