Faltam propostas para a comunicação

Mesmo os mais esquerdistas. Os radicais. Todos, ou quase. É muito difícil ver algum candidato, principalmente na proporcional, mas também na majoritária, apresentar propostas no sentido de democratizar a comunicação. Sei que existem alguns casos, em São Paulo e outros lugares, mas ainda não encontrei um gaúcho que faça desse tema uma defesa contundente em sua candidatura.

Os motivos são evidentes: todos dependem da mídia não só para ampliar sua influência política, mas até para manter a que já tem. Quem começa agora não teria espaço nem para a largada se apresentasse propostas no sentido de frear o monopólio e controlar para que a comunicação fosse democrática. Quem já está no jogo, não quer correr o risco de cair fora. E, bem ou mal, todos precisam estampar sua carinha na Globo. De forma positiva, claro. Nas candidaturas majoritárias isso é ainda mais evidente. Mas os partidos de esquerda que sabem não ter chance de se eleger, como o PSOL, poderiam promover a discussão. Pelo menos tumultuar, fazer pensar.

Apesar da dificuldade diante da dependência da mídia, ainda acho que é possível fazer alguma coisa. Existe um número razoável de pessoas ansiando por uma mudança na comunicação. O governo Lula e o futuro governo Dilma, caso sua eleição se confirme, têm culhão para bancar essas mudanças. Lula não fez. Dilma, se eleita no primeiro turno, vai chegar ao governo com um grande aval da população e cacife para enfrentar muitos poderosos de plantão, inclusive a mídia. Já está provado que o povo não obedece mais cegamente ao que a Globo diz, vide as pesquisas pós-quebra de sigilo na Receita.

Mas seria de grande ajuda que houvesse parlamentares dispostos a enfrentar a mesma briga. Até para pressionar o governo, fazê-lo tomar uma atitude de fato. E respaldar os desdobramentos caso essa atitude venha a se concretizar.

Ainda busco quem o faça. O momento é bom. A mídia tradicional está enfraquecida, desmoralizada, e o PT, Lula e Dilma estão muito bem cotados. A hora é agora.

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Faltam propostas para a comunicação

Para que serve a política eleitoral?

Em teoria, o sistema eleitoral é uma solução democrática, inteligente. Candidatam-se nomes e a maioria decide quem as representa. Voto direto, simples. Não tem como dar errado.

Mas aí entram o dinheiro e o poder, que muitas teorias esqueceram de incluir na análise. Primeiro que muitos dos candidatos a qualquer cargo – eu diria a maioria – não está interessada simplesmente em fazer o melhor dentro de sua visão política, de sua ideologia. E aí nem entro no mérito de esquerda e direita, do que é melhor de fato para a população. Naquela visão política primitiva, o povo seria capaz de julgar a partir dessas questões, e cada eleitor escolheria um candidato cujas posições convergissem com as suas.

Em uma eleição, o dinheiro se torna muito mais definidor do que propostas ou ideias. Um cara que tem grana para fazer uma boa música, espalhar muitas placas e cartazes, pagar por uma equipe experiente e um bom material de campanha, normalmente se elege. Ganha quem aparece mais. Aparece mais quem tem dinheiro.

Acompanhei uma reunião de campanha de um candidato a deputado estadual sem grana. Havia uma pessoa além dele completamente dedicada a fazê-lo se eleger, que disponibilizaria todas as horas dos seus dias nos próximos meses para isso. Ele seria o coordenador da campanha, o tesoureiro, o mobilizador. O resto do pessoal faria o possível depois do trabalho, nas noites em que não tivesse aula, quando não ficasse preso em alguma reunião, quando não tivesse que cuidar dos filhos. Dedicação mesmo, na garra, no amor. Bonito até. Mas avalio que ele não se elege. Diria que é praticamente impossível.

Esse cara tem sua carreira voltada para os direitos humanos. É uma pessoa boa, séria, verdadeiramente comprometida, com vontade de fazer coisas bacanas no Rio Grande do Sul.

Quantos outros vão se eleger sem esse perfil?

Fico imaginando não só candidatos assim, mas quantas pessoas capazes, sérias, com perfil político ou técnico de qualidade, discutindo por sei lá eu quanto tempo como proceder com o jingle da campanha. Perdendo tempo nisso que ajuda a eleger o candidato, mas que não vai mudar em absolutamente nada a sua atuação. Que importância tem a música, a cor do fundo da foto, o número de placas a serem espalhadas?

Política. Ideias se transformam em negócio.

E aí políticos do mesmo partido, com ideias semelhantes em muitos pontos – e que divergem em outros, como todo o mundo – acabam se afastando, porque a rotina da disputa diária acaba com as relações.

Fico imaginando aquelas equipes que investiram não só muita grana, mas também tempo, dedicação, amor a uma campanha e não veem o nome de seu candidato entre a relação de eleitos. A frustração. A sensação de tempo perdido, de quanto tudo aquilo era inútil. E por quê? Para quê?

Fico com a sensação de que alguma coisa está errada. Ou será que sou eu?

Para que serve a política eleitoral?