Zero Hora já está em campanha para a Prefeitura de Porto Alegre

Metade da capa de sábado, 10, dividindo espaço apenas com a manchete (que, diga-se de passagem, é uma mensagem de dúvida em relação ao governo do estado, na medida em que manda recortar e guardar a promessa de investimentos em escolas para cobrar depois). Ali está uma foto grande, ainda que, na minha opinião, não muito apropriada, sob o título “O Centro reinventado”. Só é preciso saber juntar dois com dois pra perceber a mensagem (in)direta. Quem é o responsável pelo Centro de Porto Alegre hoje e nos últimos anos?

Nada contra divulgar melhorias, se o que a gente visse nas ruas do nosso bairro histórico fosse de fato tudo isso que a matéria diz. Pois vamos a ela. Lá está, nas páginas 4 e 5, a primeira reportagem que se enxerga ao abrir o jornal, uma “Reportagem Especial” assinada por Erik Farina e Lara Ely. Lendo o que está escrito ali, eu teria ímpetos de largar tudo o que estou fazendo e ir correndo para esse lugar tão legal. Até porque me lembro bem de uma outra matéria, um tempo atrás, no mesmo jornal, que mostrava como os ricaços gaúchos estão voltando a investir na região, não só profissionalmente, mas também comprando seus apartamentos lá (não encontrei o link). E tenho que dizer que não tenho nada contra o Centro. Na verdade, gosto bastante de andar por lá, mas isso desde adolescente. Pena que agora cada vez menos se possa “andar” por lá. E, justamente por isso, fico triste com o que vejo acontecer.

Uma das citações da matéria diz que “O Centro deve se tornar o principal local de convívio social nos próximos anos, atraindo novos negócios”. Duas constatações:

1) como um lugar que cada vez tira mais espaço de pedestres para colocar carros pode ser um espaço de convívio social, se convívio implica em coletivo e carro é um incentivo ao individual? A liberação de algumas ruas antes exclusivas aos pedestres e de mais áreas de estacionamento, como o Largo Glênio Peres, não são sequer lembrados na matéria.

2) a ideia toda da matéria, e que o entrevistado corrobora pela última parte de sua frase (“atraindo novos negócios”), vai de encontro à ideia de convívio social.

Explico: a mensagem toda do texto é extremamente positiva. Mas é um positivo num sentido classe média capitalista. A Zero Hora exalta a ideia de que o Centro está virando um shopping. Oras, shopping não é lugar de convívio social, é lugar de compras. Quem conhece o vendedor da gigante Renner do shopping, como conhecia o da loja de tecidos da esquina? Ninguém interage com o outro no shopping. Não se ampliam as relações sociais nesse ambiente.

Isso sem falar na falácia criada por um texto ardiloso de que as classes A e B estão passando a investir no Centro. Elas frequentam o Iguatemi, o Moinhos, o Barra. Não que eu ache que a presença dos ricaços seja símbolo de recuperação e qualidade, mas enxerguemos a falta de verdade da publicação. Que, aliás, se preocupa em dizer que eles estão frequentando o Centro justamente porque, para ela, os ricaços são, sim, símbolo da recuperação e da qualidade. São eles que levam sofisticação. Se eles não frequentam, está ruim. Mas ruim pra quem, cara pálida?

Acontece que a Zero Hora faz é um jogo de palavras, pra não ser pega na mentira, mas não deixar clara a verdade. Ela diz que as classes A e B estão “voltando a investir no centro histórico”. Mais adiante, fala mais em classe média frequentando os novos empreendimentos. Quer dizer, o dono da Renner está abrindo mais uma loja, mas quem frequenta é o trabalhador do Centro. Está escrito lá, mas de tal forma que numa leitura rápida o leitor entende que os ricaços estão passeando pela Rua da Praia. E aí, fruto de uma sociedade que inverte valores, ele passa a achar o Centro bacana, porque passam a circular carrões.

Ainda no exemplo da Renner, a matéria diz que toda essa retomada do Centro se dá “em harmonia com as características históricas e culturais da região”, em que pese a inauguração da nova super loja de departamentos onde antes ficava a belíssima Livraria do Globo. A justificativa para a afirmação é de que o prédio, tombado, vai ser valorizado. Mas não enxergar que a mudança de uma livraria histórica para uma loja gigante de roupas (daquelas que ficam tocando música e lá pelas tantas gritam que o vendedor Fulano ganhou a meta de vendas do mês) muda tudo é um tanto mal-caráter.

E outra: se o Café à Brasileira, na rua Uruguai, “nunca parou de crescer”, há 15 anos, como ele pode ser exemplo dessa recuperação do Centro que se dá pelas “obras de melhoria dos últimos anos”?

Isso sem falar na contradição entre a cartola e o título, que, desde a última reforma gráfica do jornal, têm quase os mesmos tamanho e destaque. Sob a frase “A volta do charme”, ela diz “Um outro jeito de ir ao Centro”. Como consegue ao mesmo tempo voltar a como era e fazer tudo diferente?

Não fala em “Prefeitura”, mas não precisa. A ideia toda está em criar uma atmosfera positiva em torno da cidade. Foi dessa forma indireta que, durante muitos anos, a mesma empresa de comunicação destruiu a imagem dos movimentos sociais em grande parcela da sociedade. Ela vai, aos poucos, construindo ou desconstruindo ideias, que se colam no imaginário do leitor cotidiano.

Zero Hora já está em campanha para a Prefeitura de Porto Alegre

Movimento defende instituição do Parque do Gasômetro

Do site da Câmara Municipa de Porto Alegre:

Licia Peres lembrou que chaminé do Gasômetro identifica Porto Alegre

A presidente do Movimento Viva Gasômetro, Jacqueline Sanchotene, defendeu nesta terça-feira (26/4) à tarde, durante reunião da Comisssão de Urbanização, Transporte e Habitação (Cuthab) da Câmara Municipal de Porto Alegre, a criação do Corredor Parque do Gasômetro, mediante lei específica. A instituição do Corredor foi aprovada na recente revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental (PDDUA) da Capital, que prevê a sua implantação, mediante lei específica, 18 meses após a vigência do novo PDDUA.

De acordo com Jacqueline Sanchotene, o Viva Gasômetro é um movimento apartidário, e a luta pela criação do Corredor Parque do Gasômetro teve seu início em dezembro de 2006, nas reuniões de discussão do Fórum de Planejamento Região Centro sobre a revisão do PDDUA. A proposta prevê que o Corredor abranja uma área que se estenda desde a Rua Brigadeiro Sampaio até a Avenida Loureiro da Silva.

Cinturão Verde

A socióloga Licia Peres, também integrante do Movimento, disse que o Parque significará a criação de um cinturão verde integrando vários espaços culturais localizadas na área central da cidade. “O espaço será uma grande conquista para Porto Alegre. Toda a cidade tem a sua identidade, e a chaminé da Usina do Gasômetro identifica Porto Alegre”, afirmou. Ela ressaltou a importância da exploração dos espaços públicos de cultura e lazer da cidade como forma de tornar o Centro Histórico acessível a pessoas de todo o Estado.

Presente à reunião, o secretário municipal de Planejamento, Márcio Bins Ely, observou que o Executivo tem ainda prazo de doze meses para a implantação do Corredor Parque do Gasômetro, uma vez que o PDDUA entrou em vigência há cerca de seis meses. Ele manifestou seu apoio à proposta e disse que, neste período, a prefeitura deverá ouvir os porto-alegrenses a fim de recolher sugestões para a elaboração de um projeto de lei do Executivo que estabeleça a criação do Corredor. Elaborado o projeto, explicou Bins Ely, ele deverá ser remetido à Câmara Municipal para discussão e votação.

O presidente da Cuthab, vereador Pedro Ruas (PSOL), manifestou o apoio da Comissão ao movimento dos moradores do Centro e garantiu que a Câmara fiscalizará o cumprimento dos prazos estabelecidos.

Revitalização

Já o engenheiro Rogério Tubino Dal Molin, integrante do Fórum de Planejamento Região Centro, lembrou que muitos imóveis estão abandonados nessa área, pois não possuem viabilidade econômica. “Hoje, o projeto do Cais Mauá reacendeu o interesse pelo Centro Histórico. O Corredor Parque do Gasômetro é uma proposta para articular espaços públicos de cultura e lazer na região, a fim de que eles sejam ocupados pela população. Ele irá coroar a revitalização do Centro, pela movimentação de pessoas naquela área”, disse Dal Molin.

Vice-presidente da Cuthab, o vereador Engenheiro Comassetto (PT) observou que a Usina do Gasômetro é “a porta de entrada para a zona sul da cidade”. Ele defendeu que a Câmara crie um grupo de trabalho para agilizar a implementação do Parque do Gasômetro. Em sua opinião, o governo do Estado precisa estar integrado na discussão do projeto. Comassetto ainda propos que a Cuthab elabore um documento, a ser encaminhado ao governo do Estado, e que uma comitiva abra uma agenda com o governo federal para discutir esse assunto.

Também presentes à reunião, Ariane Leitão, da Assessoria de Movimentos Sociais da Casa Civil, e Rodrigo Maroni, da Secretaria Estadual de Turismo, manifestaram o apoio do governo do Estado à proposta. Ainda se manifestaram favoravelmente à ideia os vereadores Elias Vidal (PPS), Nilo Santos (PTB), Alceu Brasinha (PTB) e Paulinho Rubem Berta (PPS).

Carlos Scomazzon (reg. prof. 7400)

Foto: Mariana Fontoura

Movimento defende instituição do Parque do Gasômetro

Porto Alegre comemora aniversário de costas para seus cidadãos

Esses dias um cidadão reclamava que a Prefeitura cogitava proibir o estacionamento de carros em algumas poucas vagas ainda remanescentes perto do Palácio Piratini, o coração do governo estadual, no Centro de Porto Alegre. Uma iniciativa, aliás, diferente das que a Prefeitura vem tomando nos últimos tempos.

O Centro é atrolhado. Passa muita gente a pé e, de uns tempos pra cá, também de carro na grande maioria das ruas. O governo José Fogaça (PMDB) liberou umas quantas ruas que antes eram exclusivas para pedestres para a circulação de carros. Liberou espaços históricos e culturais para estacionamento nos fins de semana, como o Largo Glênio Peres, na frente do Mercado Público. Seu vice José Fortunati (PDT) assumiu seu lugar com a mesma perspectiva.

Na imprensa, chamam a liberação dos carros de “revitalização do Centro”, que antes era, dizem, “sem vida”. As inúmeras vidas que se atropelam na correria do cotidiano, andando a pé pelas ruas apertadas não entram na conta da revitalização. Afinal, no critério desse pessoal, um lugar só tem vida se ostenta carros. Status.

Enquanto Porto Alegre esquece de seus pedestres em prol dos carros, outras grandes cidades já estão sendo obrigadas a rever a circulação nas áreas de maior movimento. São Paulo e Cidade do México fazem rodízio para que seja possível a circulação de veículos no Centro. Roma, mais radical, impede a entrada de carros em toda a área central, que abriga suas ruelas históricas. Londres cobra pedágio para que veículos circulem no Centro. Paris elimina o estacionamento gratuito em suas vias públicas. Em alguns casos, medidas emergenciais para que o trânsito não parasse de vez. Em outros, são alternativas para tentar tornar mais habitável e atraente uma área bonita, de relevância histórica e cultural, incentivando o turismo e a integração de seus moradores. Em vez de Porto Alegre olhar para esses exemplos e se prevenir para um futuro que certamente chegará, nossa administração segue no caminho contrário.

Porto Alegre anda para trás, traduzindo como progresso uma modernização equivocada que valoriza as grandes construções, que larga ao desleixo seus prédios históricos, que piora e encarece a cada ano o transporte público para que o veículo particular seja cada vez mais cobiçado e mais utilizado, atravancando nossas ruas.

Porto Alegre usa o conceito de modernização do novo rico, baseado no individualismo, no egoísmo, que resulta em uma falta de alternativas em quase todas as áreas, do transporte público ao turismo, passando pela habitação, pelo meio ambiente, pela saúde.

É uma pena ter que parabenizar Porto Alegre em seu 239º aniversário pelo retrocesso que vive.

Resta o consolo de que, apesar de algumas obras serem irreversíveis, nem tudo está perdido, e nossa linda e receptiva capital ainda tem saída. Basta boa vontade política e fiscalização cidadã. Tudo, claro, dentro de uma visão de coletividade que busque o interesse social, que privilegie o todo no lugar da parte.

Parabéns, Porto Alegre, pelo futuro de mudança que pode ter. Por ainda ter a oportunidade de reverter os erros políticos que vive. Ah, e que não demore, por favor.

Porto Alegre comemora aniversário de costas para seus cidadãos

Zero Hora está em campanha

O principal jornal gaúcho quer a todo custo aprovar o projeto do Cais Mauá. Eles chamam de revitalização do Centro a ação de entupir a orla do Guaíba de prédios altos, carros e shoppings. A campanha é tão forte que não ouve opiniões contrárias. Aliás, sequer cogita sua existência.

Na edição deste domingo (20), a reportagem de capa informa que o Centro está sendo cada vez mais procurado por moradores da capital. Três páginas da editoria de Geral tratam da “redescoberta” do Centro. Uma redescoberta que ignora valores culturais, quase não mencionados. Fala, sim, na recuperação de prédios antigos, mas não no valor histórico que isso tem, apenas no valor comercial, imbiliário, de um Centro cada vez mais “limpo” e bonito, sem pobres e sujeira.

Malandramente falando

O projeto do Cais Mauá é a mais louvada das iniciativas, tanto que ganhou uma página só para ele. Que diz, em transcrição literal: “Urbanistas, profissionais envolvidos no processo de recuperação e representantes do mercado imobiliário acreditam que, sem a conversão sem a conversão do Cais do Porto em um polo de lazer e turismo, a transformação não estará completa”. Não, jura?!? Das três categorias citadas, as duas últimas são diretamente envolvidas – uma na execução e a outra será grande beneficiada financeiramente. Com relação à primeira, os urbanistas que eu conheço não concordam com isso, não.

A malandragem é tamanha que os representantes da sociedade que discordam da transformação do Cais do Porto em um complexo de empreendimentos em que alguns prédios chegarão a 100 metros de altura – os índices construtivos foram estrategicamente modificados com aprovação da Câmara de Vereadores – sequer foram citados como existentes. A reportagem deixa claro que toda a sociedade aprova o projeto de forma unânime. Se é maioria ou não, não sabemos, mas que há contestação, há, e o jornal descaradamente a omitiu.

Ignorou a existência de movimentos como o Porto Alegre Vive e o Comitê Popular Copa POA 2014, organizações de moradores, profissionais da área, além das discussões no Conselho Municipal de Desenvolvimento UrbanoAmbiental.

Enganou o leitor, manipulou a informação.

E aproveita para sutilmente pressionar o governador Tarso Genro para que ele não volte atrás na decisão de não enfrentar o complexo máfio-midiático – como diria o Sr. Cloaca – e aceite o projeto sem contestação, ao invés de promover um amplo debate popular.

Carrocentrismo

Outro ponto valorizado pela reportagem é a liberação de ruas para a circulação e espaços para o estacionamento de automóveis, “devolvendo a vida ao entorno”. Circulo pelo Centro há 24 anos. Nunca, em momento algum, faltou vida ao bairro, muito pelo contrário. A liberação de diversas ruas para que os carros pudessem circular até pode ajudar a desafogar o trânsito, mas é péssimo para os pedestres, que se espremem nas calçadas estreitas. Gostaria de ver os repórteres circulando a pé em dia de chuva para entender bem a que me refiro.

Mas “vida”, na concepção elitista de Zero Hora, só existe dentro de uma lataria sobre quatro rodas, símbolo de status. O Centro agora vale não porque é culturalmente efervescente, mas porque é “glamouroso”, nas palavras do jornal.

Ao mesmo tempo em que valoriza a liberação de ruas para que os carros circulem melhor – e os pedestres e ciclistas bem pior -, Zero Hora louva a iniciativa que vai atravancar o trânsito da entrada da cidade. Fica difícil vislumbrar a possibilidade de uma região mais sobrecarregada não sofrer severas complicações com a construção de um complexo como o que se pretende no Cais, com hoteis e salas restritas a quem os pagar.

Continuamos aplaudindo o transporte individual, a experiência de vida individual, a existência individual, no lugar de incentivar o transporte coletivo de alta qualidade, como seria possível com investimentos adequados e bem planejados, e os espaços coletivos de convivência urbana, que permitissem a troca de experiências e a integração comunitária.

Para a Zero Hora, o projeto do Cais é sinônimo de “futuro”. Resta saber que tipo de futuro.

Zero Hora está em campanha

Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

A transferência dos moradores da Vila Dique para o Rubem Berta segue uma lógica antiga, um tanto cruel, que ajuda a perpetuar desigualdades.

A Vila Dique existe há cerca de 30 anos, perto do aeroporto internacional Salgado Filho. Ali viviam cerca de 4 mil pessoas em condições subumanas. A imensa maioria de seus moradores, em 2007, ganhava menos de dois salários mínimos, como mostra este estudo. Um dos problemas mais graves da comunidade é a falta de saneamento. Esgoto a céu aberto, água contaminada.

Há décadas a situação é essa. Agora, os moradores da Vila Dique estão sendo removidos. Serão transferidos para um bairro da periferia, na zona Norte de Porto Alegre, chamado Rubem Berta. Um bairro enorme, que cresce cada vez mais, pra lá do sambódromo.

Lá a Prefeitura construiu 1.476 habitações populares para os moradores da Vila Dique. Sua remoção está estampando inúmeros outdoors de propaganda da gestão Fogaça-Fortunati (PMDB-PDT) na capital (em 2010, a Prefeitura gastou R$ 11,3 milhões em saúde e educação e R$ 14 milhões em publicidade), como um grande feito, pelo qual há muito se esperava.

Vale então lembrar algumas coisinhas.

– Em fevereiro de 2008, a Zero Hora publicou matéria afirmando “Vila Dique some a partir de agosto”. O texto dizia que a Vila Dique sumiria ainda em 2008.

– Em 25 de agosto, veio a notícia da abertura da licitação.

– Em outubro de 2009, o Diário Gaúcho, jornal da mesma rede, disse: “A partir de amanhã, uma nova etapa na história de mais de três décadas da Vila Dique, na Capital, começará a ser contada. É quando as primeiras 48 famílias do local serão transferidas para um loteamento construído na Zona Norte”.

– Em janeiro de 2011, o site da Prefeitura diz que a previsão é que terminem as remoções em dezembro.

E sabe por que a Vila Dique está sendo “removida”? Falta de sanemento e de infraestrutura foram toleradas por anos a fio. Mas agora vem aí a Copa do Mundo e é preciso ampliar a pista do aeroporto. A Vila impedia essa ampliação.

Moradores continuam afastados da cidade

Tirar os moradores da vila era extremamente necessário, não só pelas obras de ampliação do aeroporto, mas também e principalmente pelas condições insalubres em que viviam. Sem saneamento básico, vivendo em meio ao esgoto, é impossível a um cidadão manter sua dignidade, sem falar em problemas de saúde decorrentes.

Mas transferir essas pessoas para o bairro Rubem Berta é afastá-los ainda mais do Centro, em uma cidade ainda muito concentrada na região central e seu entorno.

Se houvesse uma descentralização, em que cada bairro se transformasse em mini-cidades, mini-centros, seria possível que os moradores conseguissem manter uma qualidade de vida melhor, sem gastar tempo e dinheiro em deslocamentos gigantes. Mas isso não acontece, e muitos dos moradores dos bairros afastados precisam ir a outras regiões para trabalhar.

Além disso, alguns moradores da vila tinham habitações maiores para suas famílias, e reclamam que serão obrigados a diminuir de patamar.

Jogar essas comunidades para longe é fortalecer a dicotomia centro-periferia, entre os que têm fácil acesso aos serviços e os que não têm. É uma lógica tão perversa quanto antiga, que levou a criar bairros como a Restinga, por exemplo. Vale comparar algumas distâncias para se compreender um pouco melhor:

Centro – Bom Fim: 1,5 km

Centro – Menino Deus: 4 km

Centro – Aeroporto (ao lado de onde ficava a Vila Dique): 9,2 km

Centro – Rubem Berta (onde estão sendo reassentados os moradores da Vila Dique): 15,3 km

Centro – Restinga: 19,1 km

A comunidade da Vila Dique estará melhor no Rubem Berta? Sim, provavelmente. Terão moradia, saneamento, condições mínimas de vida. Mas não é possível que uma administração comemore que uma comunidade vive simplesmente “melhor”, na comparação entre o péssimo e o ruim. É preciso saber se essa comunidade passou a viver realmente bem.

Enquanto viverem pobres na periferia e classe média e ricos próximo do Centro, esses moradores serão sempre tratados como cidadãos de segunda classe. O preconceito continuará e a vida permanecerá difícil.

Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

Feira do Livro terá uma cara diferente em 2010

O programa Monumenta é uma iniciativa do Ministério da Cultura que visa recuperar locais históricos brasileiros. Em Porto Alegre, está restaurando a Praça da Alfândega, por exemplo. Quem passa pelo Centro sabe bem disso: tapumes impedem a travessia pelos corredores de um dos lugares mais agradáveis da cidade.

Certamente há quem questione que seja tão aconchegante. Para esses, dou a minha certeza particular de que pelo menos durante duas semanas por ano é o melhor lugar de Porto Alegre. Este ano não sei se será.

A Feira do Livro reúne alguns elementos que a tornam tão especial. Primeiro, livros. O desconto de 20% não me incentiva a comprá-los, encontro preços melhores em grandes lojas ao longo do ano – sei que isso é péssimo para as pequenas livrarias, mas aproveitar os descontos de saraivas e culturas é o único jeito de comprar livros para um bolso furado. Às vezes, na Feira, cato uns achados nos balaios espalhados pela praça. Acabo nunca saindo de mãos vazias.

Mas a Feira é mais. A Feira do Livro é cultura. É lazer, é prazer. É sentar no banco e ler. É encontrar amigos, ver vida cultural de volta a uma cidade que já foi próxima, mas hoje anda tão distante da cultura que não passe pelo circuito comercial dos mais vendidos – seja cinema, teatro, exposições, incentivo à produção local.

A Feira é também primavera. Depois do inverno chuvoso de todos os anos, em que o Sol se esconde por muitos dias e às vezes parece que vamos sair coaxando, a Feira sempre traz aquela alegria de caminhar nas pedrinhas irregulares da praça sob o céu azul. Sempre chove durante a Feira, mas sempre faz Sol também. Não sei todo o mundo, mas eu mudo com o Sol, meu dia se torna muito mais prazeroso quando é amarelo e azul – sem conotações políticas, claro.

Aliás, falando em política, sempre encontro o pessoal de esquerda na Feira. Lá é espaço para discussão sobre as eleições recentes, a cada dois anos, e sobre as eleições futuras, nos que sobram.

Em 2010, a Feira do Livro vai mudar seus limites. Vai ter que dividir espaço com os tapumes do Monumenta. Longe de mim criticar a revitalização da Praça da Alfândega, o resgate histórico. Mas não deixo de ficar um pouquinho chateada, porque a Feira esse ano não vai ser a mesma. Mais ou menos metade da Praça continuará cercada. No lugar de livros, nosso horizonte estará recheado de muro.

Estou sendo pessimista, depreciando um projeto bacana. Desculpem, é um desabafo. Queria poder ter tudo, abraçar a nova Praça da Alfândega repleta de histórias no tempo que eu quero. Não dá. Torço, então, para que a Feira do Livro 2010, de 29 de outubro a 15 de novembro, seja a melhor possível.

Feira do Livro terá uma cara diferente em 2010

Ainda há quem panfleteie por ideologia

Panfleteando às vésperas das eleições, cruzamos muitas vezes com outros panfleteadores de ideias. Alguns, panfleteadores de nomes, só. O mais engraçado é quando a pessoa pega o santinho e diz “vou pegar pra te ajudar”. Se houvesse mais tempo, se o ônibus não estivesse chegando, se a eleição não estivesse tão perto, dava vontade de chamar a pessoa pra um chope pra conversar. Não, amigo, não precisa pegar o panfleto “pra ajudar”. Não quero esse tipo de ajuda porque não estou sendo paga para me livrar daqueles papéis entregando para o maior número possível de pessoas e quanto antes eu terminar mais cedo vou para casa.

Fico triste de pensar que hoje muita gente não entende que se panfleteie por ideologia, que só se entrega papelzinho de candidato em troca de um dinheiro no fim do turno. Que eu posso estar na muvuca do Centro de Porto Alegre no fim da tarde de sexta-feira, quando uma penca de gente se aglomera para voltar para suas casas e curtir o fim do dia, da semana, e outros tantos buscam o ônibus que os levará para o interior, para votar em sua cidade natal.

Se eu estou lá distribuindo a colinha dos meus candidatos a deputado (Ivar Pavan federal e Marcelo Sgarbossa estadual), senador (Paim e Abgail), governador (Tarso) e presidente (Dilma), é porque acredito neles. É porque vejo neles a possibilidade de continuar construindo um país mais justo e mais igual. Gostaria de acreditar que cada um que lá está pegasse o seu folder e o lesse com atenção. Sei – porque ajudei a construir linha por linha das que lá estão – que tudo o que está dito é verdadeiro. Se está lá é porque é possível fazer e porque o meu deputado irá lutar pra fazer.

Sei disso porque uma vírgula fora do lugar era motivo de comentário do coordenador da campanha: “mas isso não dá pra fazer, não adianta. Não, tem que colocar desse jeito”. Às vezes, os textos ficavam grandes demais. Como explicar tantas propostas em tão pouco espaço? Mas me orgulho de dizer que trabalhar ao lado de Ivar Pavan é contribuir para o exercício coerente e honesto da política.

E é por isso que panfleteio de coração, porque minha consciência manda que eu faça o máximo, que eu me dedique a fazer o que estiver ao meu alcance para eleger um deputado federal comprometido com as necessidades do povo que representa. Que vai lutar por ele e que tem capacidade para garantir muitas conquistas.

Por isso, amigo, não pega o panfleto para “me ajudar”. Pega e lê com carinho, com o cuidado de quem tem o poder de escolher. Com a certeza de que quem distribui esse material o faz por convicção. Que não é como tantos vinte e cinco alguma coisa, quarenta e cincos, quinzes que me dizem “eu pego um teu e tu pega um meu pra terminar mais rápido”. Ali, não há quem o faça por certeza de um futuro melhor. Aqui há.  E é por isso que nesse último dia pré-eleição arranjei um tempo para explicar por que voto em Ivar Pavan e Marcelo Sgarbossa. Está no próximo post.

Ainda há quem panfleteie por ideologia