Impressionante retrato da China capitalista

Tive que recorrer mais uma vez ao roubo de conteúdo alheio, mas acho que o Cristóvão Feil pode me perdoar. É que a imagem que hoje ilustra seu Diário Gauche é mesmo impressionante:

Cedo da manhã, o tráfego intenso atravessa a ponte Huanhuayuan, no município de Chongqing, sudoeste da China, em 28 de julho de 2010. O fotógrafo quer mostrar também o fenômeno da expansão explosiva da construção civil e a verticalização das cidades chinesas.

A produção de carros na China, em 2010, será superior a 15 milhões de unidades. O país já é o maior mercado mundial de automóveis.

Como a mão-de-obra está alcançando o limite de ocupação plena, sobe o custo do salário formal. Por conseguinte, aumenta a organização sindical dos trabalhadores, por ora, somente por vantagens econômicas. Logo mais adiante, não se pode prever quantos anos, a luta meramente salarial deverá alcançar a esfera política, contra o mal denominado Partido Comunista, e sua vastíssima e complexa rede de burocratas do regime de capitalismo estatal. A ver.

Foto: Olli Geibel/AFP

Impressionante retrato da China capitalista

Record News desperdiça oportunidade de fazer grande reportagem

O Câmera Record News que foi ao ar às 23h dessa quarta fez uma reportagem completa direto da China, sobre a política do filho único, e conseguiu, depois de todo o investimento, levantar a tampa do vaso, jogar tudo dentro e puxar a descarga. As informações foram tão misturadas que coisas que efetivamente acontecem, e fazem sentido dentro do contexto, se tornaram contraditórias.

Logo na apresentação, o jornalista Eliakim Araújo afirma que “a cada vez que uma mulher fazia um ultra-som e descobria que esperava uma menina, cometia o aborto”. Não só como se fosse a grande maioria, mas como se o aborto acontecesse em todos os casos, sem exceções. Torna-se difícil entender como, então, há ainda mulheres na China.

Mas tem mais. Depois, a reportagem citou a existência de seqüestros de crianças. Logo imaginei que os meninos, tão cobiçados, eram raptados. Não, eram as meninas. Depois se falou no roubo de meninas para que houvesse noivas para os rapazes. Mas não houve explicação para o sequestro de bebês do sexo feminino.

Ainda mais uma. A narração afirmou que, “para garantir a política de um só filho por casal, máquinas de ultra-som foram distribuídas pelo país”. Isso definitivamente não faz o menor sentido, ainda mais porque em seguida afirmaram que é proibido informar o sexo da criança à mãe, para que ela não queira tirar o bebê caso descubra que não terá um filho, mas uma filha.

O texto era fraco, cheio de incongruências. Um desastre. Podia ter sido uma bela reportagem, completa e aprofundada; o tema permitia. E pensar que é esse nível de jornalismo que é capaz de representar algum tipo de ameaça à hegemonia da Globo.

Record News desperdiça oportunidade de fazer grande reportagem

A História deve ser escrita por todos

“Muitos chineses me disseram: ‘Elas são gente do povo, por que escrever sobre elas?’ Só muito recentemente perceberam que a História não deve ser escrita apenas pelos ganhadores. Ela deve dar voz às vítimas e aos perdedores. Deve dar voz às mulheres.”

Trecho da entrevista de Xinran publicada pelo Estadão.

A História deve ser escrita por todos