Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff, por Idelber Avelar

Excelente avaliação do Idelber Avelar sobre as divergências de início de governo Dilma. E o melhor, essa é apenas a primeira parte. Recomendo ainda que os leitores cliquem nos links indicados por Idelber ao longo do texto. Vale a pena.

A perplexidade da direita e a indignação da esquerda é uma tradição dos começos de governo lulistas. É provável que muita gente não se lembre, mas quando Fernando Collor de Mello foi eleito presidente, ele prometeu um governo que deixaria “a direita indignada e a esquerda perplexa”. Como se sabe, a profecia fracassou, mas treze anos depois Lula a atualizaria com signo trocado: em 2003, a reforma da Previdência, a elevação do superávit primário de 3,75% para 4,25%, a manutenção das metas de inflação e do câmbio flutuante, assim como o privilégio à estabilidade macroeconômica deixariam a direita perplexa e a esquerda indignada. Em dezembro de 2003, atendendo o convite da saudosa revista argentina Punto de Vista, escrevi um balanço otimista do primeiro ano do governo Lula, a partir da noção de superação do populismo. Quem se lembra de quantas bordoadas o governo Lula levou pela esquerda naquele ano saberá como era difícil que um cabra de esquerda mantivesse aquela posição. No número seguinte da Punto de Vista, Norberto Ferrera, argentino radicado no Brasil e professor da Universidade Federal Fluminense, publicava uma resposta, em que falava de “vergonha alheia” pelo meu otimismo e aludia ao “péssimo político Gilberto Gil” e à “falta de efeitos práticos” do governo Lula. Deixo ao leitor a decisão sobre quem riu por último.

Relembro aquele episódio não para bater no peito e dizer que eu estava certo. Talvez eu estivesse certo mas era, com certeza, pelas razões erradas. Seis anos depois, já com a perspectiva de dois mandatos de Lula, André Singer escreveria aquela que ainda é a melhor análise do lulismo, mostrando como ele se apropria da bandeira da redução da desigualdade sem perturbação da ordem, o que seria a chave para a conquista da população de baixíssima renda, o subproletariado, que havia sido anti-Lula até um passado recente. Observando a votação das várias classes sociais nas eleições brasileiras desde 1989, Singer vê o ponto de inflexão em 2006, justamente quando setores da classe média abandonavam Lula, e os muito pobres, que em 1989 haviam seguido Collor por medo da desordem, abraçavam seu novo líder, favorecidos pelas políticas de valorização do salário mínimo, pelo Bolsa Família, e por programas como o Luz para Todos, mas movidos também pela empatia com o retirante nordestino que chegou à Presidência.

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O petismo pode ter representado uma superação do populismo, como eu dissera em 2003 (há um belo livro de Raul Pont, aliás, que recomendo a todos: Da crítica do populismo à construção do PT). Mas o lulismo, que foi quem efetivamente governou, é uma atualização do populismo, que combina o ganho econômico para os mais pobres, o sólido cuidado com os interesses do andar de cima, especialmente do capital financeiro, o papel do Estado na correção (moderada) das desigualdades, e o apreço pela ordem. É o que Cristóvão Feil resume num ótimo achado: lulismo de resultados. Dilma mantém tudo isso, mas o lulismo agora sobrevive sem um de seus pilares: a identificação dos mais pobres com seu nordestino retirante, nove-dedos e corintiano. Todos os assessores e colaboradores coincidem na avaliação de que Dilma é extremamente difícil de ser lida, mas alguns de seus movimentos iniciais têm a ver, acredito eu, com a sua percepção desse problema: como reinventar o lulismo sem Lula. Nós sequer temos uma tradição de presidentes concluindo mandatos e transmitindo o cargo a um(a) correligionário(a). Dilma tem a tarefa de suceder o maior mito político de nossa história moderna.

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Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff, por Idelber Avelar

A vitória de Dilma Rousseff em dez chaves

Martín Granovsky – Página/12

Serra perdeu o segundo turno após uma campanha ainda mais direitista que a de Fernando Collor de Mello em 1989, quando o candidato da Rede Globo derrotou Lula. O tom incluiu apelos ao Demônio inspiradas na organização Tradição, Família e Propriedade e repetidas nas dioceses que o Papa João Paulo II inundou de bispos ultraconservadores. A luciferização de Dilma, apresentada como uma maníaca do aborto, mergulhou o Brasil em seu lado mais obscuro. Mas o obscurantismo foi derrotado. Do mesmo modo que na Argentina, com a Lei do Matrimônio Igualitário (permite a união civil homossexual), os brasileiros conservaram suas crenças mas votaram de maneira secular.

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A vitória de Dilma Rousseff em dez chaves

Debate na Globo: um monólogo a cada dois minutos

O circo armado pela Globo

Confesso. Apesar de ser muito nova na época, a memória coletiva de 1989 me dava um medo da repetição da história. Temia pela possibilidade de um debate de nível tão baixo como aquele na vênus platinada. Mas vários fatores fizeram com que o debate de ontem à noite na Globo começasse parecendo um circo – com direito a arena, plateia redonda com poucas filas, candidatos caminhando e a exaltação do apresentador como a apontar um elefante ou um macaco que dança – e terminasse com os espectadores mais valentas tivessem que tapar os ouvidos com o ronco do companheiro.

A eleição de 1989 foi a primeira a utilizar um marketing eleitoral profissional. Refiro-me à construção da imagem de Fernando Collor, baseada em pesquisas de opinião acerca das expectativas dos eleitores. Seus opositores, Lula entre eles, não estavam preparados para um golpe tão baixo como o daquele debate da Globo, nem por parte de Collor, que usou assuntos pessoais para desestabilizar Lula, nem pelo lado da emissora, em sua edição cruel das imagens no Jornal Nacional do dia seguinte.

Em 2010, não se pode acusar ninguém de ingenuidade. Ainda mais depois de uma campanha tão pesada e tão cheia de baixarias e porradas abaixo da linha da cintura. Ou seja, Dilma foi preparada emocionalmente para aguentar qualquer coisa.

Um debate sem debate

Não precisou. Esse formato da Globo de deixar eleitores supostamente indecisos fazerem perguntas, sem nenhum tipo de improvisação, e os candidatos não se confrontarem diretamente, faz com que tenhamos um monólogo a cada dois minutos. Não um debate de ideias, em que uma fala responde a outra, a completa ou a nega, mas em que se constrói um raciocínio e uma evolução de ideias em crescimento. Assim, um raciocínio tinha que ser inteiramente construído e finalizado em 120 segundos, tempo igual para resposta, réplica e tréplica – nomes usados por falta de outros melhores. Impossível a coisa esquentar.

Para Dilma, na frente nas pesquisas, nem interessava mesmo que se saísse do tom monocórdico. A diferença poderia ter sido feita por Serra, com alguma agressividade que, espantosamente, não se viu.

Alguns apoiadores até reclamaram de uma ou outra pergunta ou do plano utilizado na filmagem, diferente para Dilma e Serra, que teria valorizado mais o tucano ao estampar mais de perto seu focinho seus olhos azuis. Mas o fato é que a Globo foi razoavelmente neutra, considerando o que se poderia esperar, dada a história. Para pés já calejados, o piso ontem foi de algodão.

Continua…

Debate na Globo: um monólogo a cada dois minutos

Diversão

Fazia tempo que eu não me divertia tanto. O PMDB se comendo… 

O melhor da história foi a briga entre o Simon e o Collor:

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3905428-EI7896,00-Renan+e+Simon+batem+boca+Collor+manda+gaucho+engolir+palavras.html

Essa parte, do Collor, foi muito boa:

“Estou do lado dele (Calheiros) e de Sarney. Essa Casa não pode se agachar àquilo que a mídia deseja. Ela (imprensa) não conseguirá retirar o presidente Sarney desta cadeira, nem ela nem o senhor (Simon) nem quem mais esteja depauperando com o senhor parlapatão que é.”

Parlapatão! De onde ele tira essas palavras?

Diversão