As velhas novidades do WikiLeaks

Nenhuma novidade na terrinha. Um monte de documentos veio à tona através de uns vazamentos. O responsável pela publicação – não por vazar os dito-cujos, fique bem claro – foi preso, é o inimigo número 2 dos Estados Unidos. Muito se tem questionado o motivo de sua prisão. Comentaristas apontam para o fato de ele não ter cometido crime ao divulgar os documentos e a falta de coerência na sua prisão enquanto outros que ajudaram a espalhar a notícia continuam soltos e louvados como defensores da liberdade de imprensa. Mas tem outra questão.

Por que tanto esforço pra prender o cara se a única coisa que ele fez foi provar aquilo que todo o mundo já sabia? Afinal, o que apareceu de mais polêmico, entre outros, foi que:

– Os Estados Unidos se acham os donos do mundo e querem que todos os países – que julga inferiores – lhe prestem obediência;

– O ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, é devoto do imperialismo norte-americano e não é confiável;

– O PSDB quer entregar o Brasil de lambuja para investidores estrangeiros;

– O Vaticano procurou esconder casos de pedofilia envolvendo padres;

– O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, gostaria de ter invadido a Venezuela com forças militares;

– As mudanças no Código Florestal propostas pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B) favorecem interesses estrangeiros;

– O golpe sobre Manuel Zelaya em Honduras foi exatamente isso, um golpe, inconstitucional.

Qual a novidade? Fora, é claro, a comprovação de que não somos loucos paranóicos por dizer tudo isso tempos antes de ser comprovado, como a mídia brasileira gostava de fazer crer.

Mais informações qualificadas sobre os vazamentos do WikiLeaks no blog mantido pela jornalista independente Natália Viana na Carta Capital.

As velhas novidades do WikiLeaks

Para reflexão

Leio Antonio Luiz M. C. Costa dizendo que “ao menos um setor industrial, o bélico, será poupado de cortes significativos em meio à pior crise desde 1929, mesmo se gastos sociais são cortados sem piedade e a existência dessas armas nunca pareceu tão irracional”, na Carta Capital online. Quase que ao mesmo tempo, vejo José Junior, coordenador do AfroReggae, falar à MTV de dentro do Complexo do Alemão que armas matam muito mais do que drogas, mas ninguém nunca viu um plano Estados Unidos ou um plano Israel como vemos o Plano Colômbia, porque armas dão muito mais dinheiro do que drogas.

Para reflexão

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

Vi a chamada e fiquei com um pé atrás. De tanto que o Jornal da Globo fala mal dos países de esquerda, já acho sempre que vem bomba. A matéria de ontem, sobre o rompimento de relações entre Venezuela e Colômbia, foi crítica a Hugo Chávez, claro, mas até que não foi das piores – quando nosso parâmetro de comparação é baixo, qualquer coisa razoável passa por fantástica.

Foi irônica, como sempre, com algumas pausas lacônicas como a tratar de um ser notadamente inferior, que não merece consideração, apenas pena ou desprezo. Mas a sacanagem maior ficou por conta da chamada no primeiro bloco, que responsabilizava o Brasil pela crise entre Venezuela e Colômbia. Como se tivesse voltado os olhos para o Oriente Médio e esquecido da América Latina. Ou seja, a suposta omissão, a alegada falta de intervenção do Itamaraty teria causado a tensão. Bem simples assim, sem mais elementos complicadores na história. Incrível como cabe tanto significado em tão poucas palavras.

Resta a Globo definir se a sua posição é de defender que o Brasil deve ou não intervir na relação entre outros países. Ficar mudando de opinião de acordo com as conveniências é que não dá.

Assinantes da Globo.com podem assistir aqui. Os demais têm acesso à matéria, mas não a íntegra do jornal, em que aparece a chamada do primeiro bloco.

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

Imprensa brasileira não discute eleições colombianas

Existem várias formas de fraudar uma eleição. Na Colômbia, o meio escolhido foi o medo. Bombas, bloqueios de estradas, ações armadas fizeram com que o índice de abstenção nas eleições que aconteceram ontem chegasse a 51%. As pesquisas anteriores ao pleito indicavam empate técnico entre o candidato do oposicionista Partido Verde (nenhuma semelhança com o brasileiro) e o governista do Partido de la U. Antanas Mockus aparecia com 34% e Juan Manuel Santos, com 36%. Bem longe dos respectivos 21,5% contra 46,5% averiguados nas urnas.

A Missão Governamental de Observação Eleitoral (MOE), uma ONG de observação eleitoral, recebeu 51 denúncias de irregularidades, incluindo compra de votos. Tudo bem que o ataque terrorista de Israel contra uma missão humanitária desviou o foco dos jornais, mas ainda há outros assuntos que aparecem na mídia brasileira. E as eleições colombianas? A imprensa só diz que haverá um segundo turno apesar da vitória de Juan Manuel Santos.

O que se enfatiza é a vitória do candidato conservador. Os resultados, os números, o oficial. Lá no meio dos textos, alguma menção a possíveis fraudes, ao contexto todo. A reflexão sobre a situação da Colômbia, uma noção do cenário latino-americano, essas ficam pra outro dia. Ou outro lugar.

O jornalista Antônio Luiz M. C. Costa deu uma visão até interessante sobre a discrepância entre pesquisas e resultados. Pelo Twitter, me disse que é muito difícil fazer sondagem de periferias e zona rural em um país conflagrado. Assim, as pesquisas teriam refletido o desejo da classe média urbana. A abstenção seria porque muitos não querem uribismo mas não levam Mockus a sério. Pode ser explicação para boa parte da situação – talvez até a maior parte. Mas, mesmo que não tenham sido decisivas para o resultado, não se pode esquecer as denúncias de fraude, ainda assim.

De qualquer forma, o que o jornalista diz não coincide com a descrição da Colômbia do Estadão: “O próximo líder vai herdar uma melhor segurança e nível de investimento, mas também uma lenta recuperação econômica, um déficit grande, o desemprego de dois dígitos e uma disputa comercial com a Venezuela, onde o presidente socialista Hugo Chávez está irritado com a influência Estados Unidos na região”. Melhor segurança? E bom, a disputa comercial com a Venezuela não é tão difícil de resolver. É só manter uma diplomacia de verdade, como o resto da América Latina, que não tem problemas com Chávez.

Para saber mais:

Um texto muito bom sobre o papel da mídia está no Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães.
A matéria do Estadão (que, apesar de conservador, geralmente é o que dá mais espaço para Internacional).
O argentino Página 12.
O mexicano La Jornada, de onde saíram as fotos que ilustram esse post (a primeira de Mockus e a segunda de Santos).

Imprensa brasileira não discute eleições colombianas