Complexo do Alemão vira lucro de banco

A humanização das pessoas logo vira lucro do capitalismo. Inclusão passa pelos serviços públicos oferecidos, pela segurança, pela cidadania, mas também, pelo jeito, pelo acesso a bens de consumo. Se vivemos em uma sociedade capitalista, onde ter é mais importante que ser, que todos tenham o mesmo tanto. E as grandes empresas vão lucrando com a igualdade. Via AfroReggae (“AfroReggae e Complexo do Alemão estão no comercial de final de ano do Santander“).

Anúncios
Complexo do Alemão vira lucro de banco

A ocupação no Rio: pontos a considerar

Tenho visto muita gente argumentando que a Polícia invade morro mas não quebra sigilo de gente rica. E a afirmação serve de justificativa para questionar a ação policial e se posicionar contra. Existem alguns mitos importantes a se discutir, alguns pontos a se considerar.

1. Polícia não tem poder para quebrar sigilo. Importante diferenciar Poder Executivo de Poder Judiciário.

2. É evidente que é preciso combater o crime de colarinho branco, das “coberturas da Vieira Souto”, como tenho visto em alguns Twitters por aí. Mas uma coisa não anula a outra. É importante cobrar para que todas as formas justas de combate sejam feitas e que não se esqueça de perseguir os bandidos brancos dos bairros nobres, mas não é por isso que o governo deve deixar de tomar providências para combater o crime na favela, para enfrentar momentos de maior tensão, sempre mantendo o respeito à população, evidentemente.

3. Se não agisse, o governo estadual manteria as comunidades sob risco, nas mãos dos traficantes. Minha conclusão a respeito do começo do confronto é de uma revolta frente à perda de poder que eles temiam perder com a implantação das UPPs e a chegada do Estado às favelas. Ou seja, se não ocupasse agora, era deixar que a população dos morros continuasse sob domínio dos traficantes.

4. É ingenuidade criticar a ação policial com base na necessidade de se fornecer serviços públicos às comunidades. Ela é evidente e tem que ser defendida. Mas em um momento de crise uma escola não dá conta. O acesso a saúde, educação, segurança, lazer é importante para que não ocorram crises, para que haja dignidade nos morros. Mas em um momento agudo é preciso tomar providências urgentes. Que não sejam matar todo o mundo, evidentemente, mas que seja firme.

5. Ouvi falar em carnificina, mas não vi as fontes da informação. Houve alguns abusos, injustificáveis e que devem ser punidos, mas são alguns casos. É preciso avaliar a ação como um todo, a orientação que foi dada pelo governo. E essa orientação foi no sentido certo, de combater sem massacrar, como é de praxe. De evitar o confronto direto para não tirar a vida de inocentes.

6. A grande maioria dos comentários contrários à ocupação do Complexo do Alemão parte de pessoas que estão distantes e não conhecem a realidade da favela. Como eu, têm limitação na capacidade de avaliação. Para romper essa barreira e entender melhor o que se passa com os moradores das favelas, nada pode ser melhor do que ouvir quem está lá dentro vivendo essa realidade. Recomendo seguir alguns perfis no Twitter: @vozdacomunidade, @JJAfroReggae, @celsoathayde, @Cufa_Brasil. É com base neles e, claro, em especialistas, que tento formar minha opinião.

Os donos da razão

Pelo que se lê e ouve, todo o mundo conhece melhor a favela do que os moradores de lá. Chama a atenção como os ouvidos se fecham ao que não se quer ouvir. Em entrevista à Rádio Gaúcha hoje de manhã, José Junior, coordenador do AfroReggae, quase perdeu a paciência. Ao fim da conversa, fiquei curiosa para saber onde a Rosane de Oliveira e o André Machado, ambos jornalistas políticos gaúchos, fizeram suas especializações em segurança pública, para falar com tanta propriedade sobre o tema.

Chegou a ser patético quando a Rosane perguntou sobre os 16 mil envolvidos com o tráfico no Complexo do Alemão e, ao ser questionada se a informação abrangia a Penha, não respondeu, limitou-se a dizer que “é, são os números que a mídia nacional está divulgando”. Ficou sem argumentos quando José Junior rebateu que “a mídia nacional não entra no Alemão; os institutos de pesquisa não entram no alemão, então esses números são um chute, que não condiz com a realidade”.

Depois de desligar o telefone, leu um comentário de um ouvinte questionando a entrevista, com base no argumento de que o coordenador do AfroReggae teria citado serviços privados quando questionado sobre os serviços públicos levados ao complexo pelo governo Cabral. O comentário não considerou que ele começou, sim, falando nas empresas, mas sua resposta foi mais ampla, apesar da tentativa dos jornalistas de interrompê-la, e terminou fornecendo dados de investimentos já feitos e a serem realizados no Alemão.

Mas a Rosane de Oliveira “viu pela TV” que faltam serviços públicos na Penha. Ah bom! Então deve ser verdade. Se deu na Globo…

(Observação: é óbvio que faltam serviços públicos na Penha. Faltam em praticamente todas as favelas do Brasil. São décadas sem serviços públicos, suponho que demore um pouquinho para conseguir levá-los a todas as comunidades de forma a atender todas as pessoas, o que não anula o mérito de se ter começado. Inclusive, no Rio de Janeiro, ainda é um número reduzido de comunidades que têm UPPs. Elas estão sendo instaladas aos poucos. E mesmo as que já têm estão recém começando um processo de transformação, que ainda leva muito tempo.)

A lição que tiro, pra mim e pra todos, é que é sempre bom ouvir e ler bastante quem entende do assunto antes de formar uma opinião. Não precisa ficar especialista no tema, mas é importante prestar atenção em quem é diretamente envolvido.

——————–

Legenda e crédito das imagens:

Policiais e comunidade convivem pacificamente no Complexo do Alemão. Uma nova realidade para os moradores, que estavam acostumados com o poder do tráfico. Reinaldo Marques / Terra

Um ônibus é queimado durante os ataques que vêm ocorrendo desde o final de semana no Rio de Janeiro. Jadson Marques / Futura Press

As duas acima foram tiradas do portal Terra. Recomendo uma olhada nas outras imagens. São muitas, de muita qualidade.

Tweet do José Junior, coordenador do AfroReggae.

Da reportagem do New York Times sobre as UPPs, tirada do Viomundo.

A ocupação no Rio: pontos a considerar

Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

Esses articulistas… Cito como exemplo o da Zero Hora, mas serve para tantos outros. Na página 8 da edição de hoje, Humberto Trezzi diz que “os PMs não alvejaram os criminosos do Complexo do Alemão em fuga” porque “ninguém, nem mesmo o mais fanático militarista, duvida das péssimas consequências políticas de uma chacina transmitida aos lares dos telespectadores”. Quer dizer, não matem pra não aparecer chacina na TV que fica feio, pega mal. O fato de se tirar vidas, ainda que seja de bandidos, é detalhe, não considerado. É a defesa da pena de morte – sem julgamento -, do “bandido bom é bandido morto”.

Evidente que não quero que o tráfico domine os morros cariocas. É claro que quero que a violência diminua o máximo possível, justamente para morrer cada vez menos gente, não mais. Mas está pra lá de provado que só repressão não resolve, que é preciso uma ação integrada de vários setores, com educação, inclusão social, oferta de serviços públicos de qualidade, já que muito da realidade dos chefes do tráfico e de todos os envolvidos com a atividade criminosa é fruto do meio em que se criaram; a gurizada às vezes não vê outra saída para as suas vidas. Em suma, é preciso oferecer dignidade a todos os setores da sociedade, abrir outras portas e escancará-las.

Mas isso é muito complicado, e as respostas prontas são muito mais fáceis. Assim, nossos jornalistas e articulistas noticiam a “guerra” do Rio como um filme, excitados com o clímax, o momento em que o Schwarzenegger vai aparecer e, com um dedo e sozinho, vai disparar contra todos os figurantes, matar todos. Felicidade total! O “bem” venceu o “mal”.

E no dia seguinte, chega outro guri, recém saído das fraldas, e toma conta de novo do morro. E o tráfico volta e cresce, sustentando parte da favela. E a repressão volta, as pessoas morrem e começa tudo de novo.

Engraçado que a edição desta terça-feira d’A Liga levou para as telas da Band o morro da Rocinha e a realidade das pessoas que vivem lá. Pessoas que trabalham, que vivem mal, sentem fome, mal têm teto para cobrir sua casa das chuvas. Mas que não gostam de drogas e morrem de medo que os filhos se envolvam com o tráfico, porque o amiguinho já fuma, já vende, já faz parte da rede, que tem tantas teias. Coincidentemente o programa foi ao ar esta semana, mas já estava na programação antes de ser deflagrada a “guerra” no Rio. Uma perspectiva mais humana da favela e menos cinematográfica, que não aparece por aí. Não interessa mostrar como vive gente pobre, só como morre.

—————-

Ando meio rancorosa, porque fico triste. Vejo a imagem de pessoas com armas na mão – de qualquer um dos lados, independente do motivo que os levou a segurá-las – e tento entender por quê. Qual a razão de segurar um objeto que, se acionado, é capaz de matar? Em que tirar uma vida de alguém melhora a vida de quem mata? Tirando do contexto do enfrentamento, parece tudo tão absurdo. Não faz mais sentido que vivamos em harmonia compreendendo que o outro é tão alguém quanto eu? Mas para isso é preciso que tenhamos harmonia sempre, e harmonia pressupõe igualdade. De direitos, de oportunidades.

Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio