Zero Hora e o discurso único sobre o Cais Mauá

Apesar da controvérsia em torno da construção de prédios na área do Cais do Porto, em Porto Alegre, para a Zero Hora parece que há uma única opinião a respeito, unânime. Afinal, essa semana foi lançado o edital de licitação para a contratação de uma empresa que deverá, segundo o eufemismo do governo do estado, revitalizar a área e o jornal deu apenas uma notinha em um dia (08) e uma entrevista com um arquiteto e urbanista espanhol que vê mil maravilhas na proposta no dia seguinte (09).

O contraponto passa longe. Pelo contrário, são listados sete vantagens potenciais que a obra traria. Consequências negativas não são sequer cogitadas. Nem no último parágrafo, aquele que é escrito só para dizer que existe, para o jornal não poder ser acusado de não ouvir o outro lado – como é prática comum na Zero Hora.

E assim, mais uma vez, a RBS contribui para o aumento do concreto na cidade, a falta de áreas de integração, de respiro, de ar. Pela ideologia da construção ao máximo, do aproveitamento de cada cantinho com concreto. A ideologia que ignora a população, a classe média. As classes mais pobres, essas nem se fala. Jogadas às margens da cidade, da periferia dificilmente vêm ao Centro sem ser por obrigação, já que é longe e difícil. E na rotina pesada, quem consegue observar a beleza? Agora, oculta-se o rio de vez, pronto.

Zero Hora e o discurso único sobre o Cais Mauá

Porto Alegre do futuro, concretamente

Antes de se desincompatibilizar, o ex-prefeito de Porto-Alegre-é-Demais, José Fogaça, andou por aí divulgando aos seus (políticos e órgãos de imprensa) o projeto para a Copa de 2014. Tem também uma exposição na Usina do Gasômetro, que até quero ir ver, sobre a “Porto Alegre do Futuro”. Não, meus caros, não esperem metrô ligando as zonas Norte, Sul e Leste. Nem uma solução de verdade para o trânsito. Moradias dignas para a população pobre. Empregos. Educação decente para o nobre objetivo de receber bem os turistas. Nem isso, nada.

Os projetos bacanudos para o mundial envolvem prédios, principalmente. Tá, tem uma ciclovia lá, só pra constar, porque sinceramente duvido que venha a funcionar (juro, não estou agourando, vou ser a primeira a usar se der certo). O aumento no tratamento do esgoto é uma iniciativa positiva. Pena que tenha que depender da vinda de um evento desse porte para acontecer. (Acho o máximo os prefeitos se gabarem de fazer suas obrigações só porque está vindo uma Copa do Mundo.)

Além disso, o frustrado e já concluído camelódromo entra no pacote de projetos. (O que me faz lembrar da minha prima, que coloca embaixo do pinheirinho no Natal tudo que comprou para si nos últimos três meses, como se fosse presente, para parecer mais importante. O pinheirinho de Fogaça tem uns seis anos.)

Portais da Cidade. Faz-me rir.

Mas o mais interessante é observar o que a turma de Fogaça entende por modernização, que pode levar Porto Alegre ao “futuro”. Prédios. Altura. Concreto. Falta de ar.

O Cais da Mauá, que teve seus índices construtivos alterados e agora permite prédios de 100 metros, é citado, mas poderiam ser também tantos outros. O Beira-Rio, com seus hotéis, centro de convenções, super construções. A Arena do Grêmio, no Humaitá. O Pontal do Estaleiro, inesquecível. O futuro terreno da Fase, se não conseguirmos reverter o processo em curso (Quem quer entregar a área é o estado, mas quem tem que aprovar os índices construtivos, no futuro, é a Prefeitura. Mas não se preocupem, é fácil.). E como esses diversos prédios de impacto urbanístico, ambiental, paisagístico, estão crescendo por aí. O impacto pode até ser menor que o desses casos emblemáticos, mas existe.

Respiremos ar enquanto podemos. Daqui a pouco, vamos respirar obras, poeira. E depois, concreto. Só que esse fica.

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As imagens que ilustram são respectivamente de Porto Alegre e de Fortaleza. Embora a cidade nordestina seja banhada por mar e não por lago, serve de exemplo. Um exemplo que não quero pra cá, obrigada.

Porto Alegre do futuro, concretamente