Zero Hora desrespeita os trabalhadores franceses

Certamente, quando os trabalhadores lutavam pela redução das jornadas de 14, 16 horas de trabalho, ainda no século XIX, havia setores mais conservadores da sociedade que jogavam sobre eles a acusação de “não gostar de trabalhar”. Décadas, séculos depois, suas reivindicações foram reconhecidas como justas.

Essa visão que atribui respeitabilidade apenas às pessoas que dedicam sua vida inteira ao trabalho baseia nossa sociedade ainda um tanto moderna, querendo entrar na pós-modernidade. Só é sério quem gosta, quem quer dedicar todo o tempo que tem disponível ao trabalho. É elogio dizer que “fulano é muito trabalhador”. Falta um questionamento de por que vivemos, o que devemos fazer ao longo da vida. Dedicar-se somente ao trabalho é, em certa medida, deixar de viver boa dose de vida.

A questão previdenciária que ganha atenção agora com as manifestações na França é bem diferente da luta pela redução da jornada no século XIX. É preciso considerar o aumento da expectativa de vida e as dificuldades de bancar um contingente cada vez maior de idosos frente a uma diminuição crescente da população jovem, em idade ativa.

O tema é controverso, pois opõe a capacidade do Estado aos direitos trabalhistas, que andam cada vez mais questionados pelos governos conservadores, hoje maioria na Europa, e que correram sérios riscos durante a onda neoliberal, que já foi bem mais forte e, diante da crise financeira de 2008, vê frustradas suas expectativas. Mas justamente pela polêmica que envolve, em que se podem encontrar causas justas dos dois lados, que é preciso ter cuidado. Dizer que os franceses “não gostam de trabalhar” é uma falta de respeito que remonta ao conservadorismo de dois séculos atrás.

Incrivelmente, é o que podemos ler na coluna de Gabriel Brust, que integra a Reportagem Especial da Zero Hora de hoje, dia 20 (“Para eles, trabalhar é coisa do passado”). O jornalista ilustrou seu texto com um caso específico de um homem que desistiu de trabalhar para viver às custas do governo, como se esse tipo de atitude representasse uma tendência da maioria da população. Gabriel Brust afronta a classe trabalhadora da França e do resto do mundo e a história de luta que marca o país, da qual os franceses têm muito que se orgulhar. É quase como alguém chamar aposentados de vagabundos, veja só.

O repórter ironiza e generaliza, mostrando uma grande falta de respeito e de responsabilidade: “Os franceses não querem mais trabalhar e, para deixar isso claro, há dias estão tomando as ruas de Paris e de outras cidades para protestar. Fazendo greve, claro, para que o trabalho não atrapalhe a manifestação”.

Gabriel Brust ignora que os protestos vão além da luta contra as reformas na previdência, que têm como ponto principal de conflito a elevação da idade mínima para aposentadoria. Os protestos questionam a gestão de Nicolas Sarkozy, um governo autoritário, conservador e xenófobo, que figura no meio de escândalos de corrupção e é o principal fomentador do preconceito, impedindo que os desiguais tenham direitos iguais no país símbolo da luta por igualdade.

Os franceses protestam justamente contra o desrespeito a sua história. O protagonismo na luta pelos direitos sociais está sendo solapado por uma onda conservadora que toma conta da Europa, contra a qual os europeus, especialmente no país da greve geral de maio de 1968, têm todo o direito de reivindicar.

Gabriel Brust desrespeita os franceses que estão nas ruas, a história da França e a história das lutas trabalhistas. E mais, reforça a ideia de que só o trabalho torna uma pessoa digna e respeitável, a velha ideologia que ignora o direito ao lazer como parte fundamental da experiência fantástica que é viver.

Zero Hora desrespeita os trabalhadores franceses

Por que o aborto deve ser legalizado

Na sequência da discussão…

Mas mais do que se tratar de saúde pública, o aborto deve ser um direito. Como exigir que uma mulher tenha um filho que não quer? O que vai ser da vida dessa mãe? Que tipo de criação vai ter uma criança dessas?

Chega a ser cruel ter um filho sem desejar tê-lo, às vezes sem dinheiro para mantê-lo com uma vida digna, às vezes sem condições para dar o amor e atenção de que necessita.

Muita gente procura saber de quem é culpa para evitar que novos abortos aconteçam. Tem a mulher, que se deixou engravidar. O homem, igualmente responsável e raramente mencionado. O governo, que falhou nas campanhas de prevenção. O Estado, que não dá a devida assistência social – mas peraí, elas não são pobres, não é falta de dinheiro. Então, de quem é a culpa? Não sei. Mas acho que essa discussão, sinceramente, é irrelevante.

A questão é que decidir o que fazer com o próprio corpo, com a própria vida, é um direito. Não importa quem errou, importa o que vem pela frente. Aí vem aquele discursinho de que depois que fez tem que assumir as consequências. É um sétimo da população feminina brasileira entre 18 e 39 anos! Não é uma questão de irresponsabilidade, pura e simplesmente. São todas criminosas? Devemos prendê-las? Talvez deixá-las sofrer com abortos mal-feitos, já que são todas culpadas? O pai, esse pode assistir. Quando está presente.

É engraçado que muitos dos que condenam o aborto são aqueles que viram a cara para a criança pedindo esmola. Muitos são a favor da pena de morte. A mesma Igreja que acoberta a pedofilia condena o aborto.

Falso moralismo, conservadorismo, cinismo, hipocrisia, demagogia, sei lá o nome que tem. Pra mim é maldade. Ser contra o aborto é defender que uma mulher seja obrigada a ter um filho que não quer. É ruim para a mulher, para a criança e até para aquele que é contra o aborto, que, em alguns dos casos, vai ter que conviver com um jovem que cresceu sem pai, ou sem acesso a bens e serviços mínimos, ou sem amor, ou sem que os pais tivessem tempo para se dedicar para ele. Tantas possibilidades…

O certo é que tem que haver um debate. Não dá pra fechar os olhos, tem que se discutir. Porque está acontecendo, é grave, é cruel com as mulheres e fingir que não existe não resolve o problema.

Por que o aborto deve ser legalizado

O discurso conservador de Marina Silva

Quatro anos atrás, Heloísa Helena serviu direitinho aos interesses da direita. Saiu como oposição ao governo do qual fizera parte, mas do qual saíra brigada, por não concordar com a política posta em prática. Saiu com propostas mais à esquerda, que serviram à direita por dividir, polemizar, tirar votos de Lula. Talvez o metalúrgico tivesse ganhado ainda no primeiro turno, vai saber… Mas tudo bem, faz parte da política, e não contesto a posição do PSOL. Acho que foi honesta, apesar de não ter se mostrado muito inteligente (vide o encolhimento do partido que se seguiu a isso e não parou desde então).

Marina Silva, hoje, serve igualmente à direita. Mas com duas diferenças fundamentais. Primeiro, porque saiu do governo “de bem” com Lula, e virou verde – e oposição – por interesses eleitorais, coisas que eu não imaginava que ela faria. O PV, no Brasil, apesar de ancorado na nobre causa do ambientalismo, é um partido oportunista, estilo PTB.

A segunda diferença de Marina para Heloísa é que Marina serve à direita também no discurso. É contra o aborto, não se posiciona muito com relação aos homossexuais, esses dias justificou as privatizações de FHC, e a cada dia aparece uma peripécia nova. Exemplos do Painel RBS realizado essa semana deixam isso bem claro.

Da Zero Hora de ontem (19), páginas 4 a 6:

Gostaria de saber se isso inclui o neoliberalismo, não só adotado pelo país, mas imposto ao resto do mundo como forma de consolidar sua hegemonia; a política de bem estar social, que beneficia a classe média enquanto aumenta a pobreza; o racismo; a exploração de imigrantes; a política armamentista; a expansão a qualquer custo e a qualquer pretexto; a caça aos que pensam diferente (macartismo, guerra com URSS, perseguição a guerrilheiros, invasão a Cuba); a promoção da quebradeira de outras nações, a começar por Cuba, através de um bloqueio direto e a culminar com a Argentina, através de sanções econômicas; o desenvolvimento de armas nucleares; a busca incessante pelo acúmulo desenfreado e sem objetivo, traduzido na especulação etc. etc. etc.

Opa, peralá, defende alianças até com PSDB, mas critica PT por coligar com setores do PMDB. Como escolher os “melhores de cada legenda”. Marina, política de alianças é negociação, e o partido atua como um todo. Com divergências internas, mas normalmente se tira uma posição geral. Não tá vendo isso agora na coligação que vai lançar Dilma com Temer? No RS, é parecido, o PMDB está todo dividido no apoio ao candidato a presidente, mas deve tomar uma única posição antes das eleições. Visivelmente, Marina está querendo agradar a direita sem perder o discurso (falso) de moralidade que a sustenta.

Essa é só pra constar o que a maioria já sabe e que eu acho um desaforo. Crenças à parte, Assembleia de Deus é sacanagem.

Então quer dizer que no principal arrimo do projeto de Marina ela tropeça? Até na parte ambiental já está fazendo concessões para agradar todos os setores. No discurso dos transgênicos, o que orienta são os interesses de mercado: vale produzir um pouco de orgânico e um pouco de transgênico porque se pode vender tanto para quem prefere um quanto para quem gosta de outro. E o meio ambiente? E a saúde?

O discurso conservador de Marina Silva