Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

O reajuste oferecido pelo governo Tarso ao magistério e aprovado ontem por ampla maioria em assembleia do Cpers mostra a que veio o governador. Com um estado quebrado, as condições de oferecer aumento ou abrir concurso são mínimas, mas as mais diversas categorias de servidores públicos enfrentam defasagem salarial, e a falta de profissionais na estrutura do Estado é crônica. Ou seja, é preciso fazer alguma coisa.

Os 10,91% já aprovados, que antecipam as ações judiciais da Lei Britto e incorporam metade da parcela autônoma ao vencimento básico, estão bem longe do ideal. Não chega ao piso salarial nacional do Magistério, prometido por Tarso para até o final do governo. O piso, aliás, ainda está muito longe do ideal, infelizmente.

Vivemos em uma sociedade que sofreu um processo muito grande de desvalorização de seus profissionais mais essenciais, que desrespeita não só esses profissionais, mas toda a sociedade, que sofre com a negligência e a piora no atendimento público. Atingiu o Brasil e sobrou para o Rio Grande do Sul, que enfrenta por mais tempo essa situação. O resultado é um cenário de baixa qualidade dos serviços públicos, que começa a ser revertido. E, pelo que se viu no Gigantinho ontem e pelo que registra a pesquisa Ibope sobre o governo Tarso, a inversão dessa lógica conta com amplo apoio dos gaúchos.

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Foto: Divulgação Cpers

Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

Depoimento de uma professora sobre a educação no governo Yeda

Comentário que ouvi de uma professora da rede estadual ao sair da assembleia regional do Cpers de Palmeira das Missões ontem (31), que recém aprovara a proposta do governo do estado de reajuste de 10,91% sem mexer no Plano de Cargos e Salários, atendendo a uma reivindicação da categoria:

“Vou dizer uma coisa pra vocês: esse governo que saiu era déspota, autoritário. Aquela mulher era uma reacionária. Nunca na minha vida, nem no governo militar, eu vi um governo fazer tal atrocidade com os trabalhadores. Nunca deixei de cumprimentar um secretário da Educação, mas aquela mulher eu não cumprimento. E se eles não tivessem saído, teriam conseguido o intento deles, que era acabar com o nosso plano de carreira. Não tenho vergonha de dizer: fiz campanha e votei no Tarso.”

Ela se referia à ex-governadora Yeda Crusius (PSDB), que, é bom lembrar, ordenou que a tropa de choque enfrentasse com violência uma manifestação pacífica de professores em 2008, e de sua secretária de Educação, Mariza Abreu.

Depoimento de uma professora sobre a educação no governo Yeda

Parece primeiro de abril, mas não é

Apesar da falta de tato político de sua presidente, a luta do Cpers é válida, digna e pertinente. E Rejane de Oliveira fez um comentário a ser levado para a cama pela governadora para reflexão. Espero que lhe tire o sono (mas duvido, uma pena).

“Os juízes ganharão até R$ 3 mil a mais. Já o magistério terá um aumento de R$ 16 no vencimento básico.”

Recentemente, houve protestos porque alguém sugeriu aumentar a gorjeta dos garçons de 10% para 20% depois das 23h. Também não concordo com a ideia, mas ela serve para escancarar o despautério, pela comparação. Sair de noite é uma opção. Consumir é uma opção (o que não justifica gastos exorbitantes, concordo). O salário é a forma de sobrevivência.

Aprovada a proposta dos 20%, eu indo num bar uma vez por semana e gastando R$ 50 cada vez, teria um incremento de R$ 20 no déficit do meu orçamento mensal. É mais do que o reajuste dos professores. É 25% a mais do que o aumento dos professores. É 0,13% do aumento dos juízes. Isso tudo considerando que seu salário já é extremamente alto, em contraste com o extremamente baixo do magistério.

E tudo com direito a ironia e deboche:

“- Estão achando que sou o Silvio Santos, que dá dinheiro para todos – afirmou o líder do governo, deputado Adilson Troca (PSDB).”

É o novo jeito de governar de Yeda. Parabéns.

Parece primeiro de abril, mas não é

A sacanagem da Zero Hora com os professores

Não é tão difícil manter a RBS aliada. Basta ser contra movimentos sociais, a esquerda de um modo geral e negar qualquer reivindicação de categoria profissional, seja qual for. Desde, é claro, que o governo seja de direita. Afinal, ser contra a esquerda vem antes de ser contra os sindicatos.

Depois de colocar claramente essas posições, é só chamar a imprensa pra participar de alguma coisa. Eles se derretem. O governo Yeda chamou para a reunião com o Cpers. Pronto, recebeu elogios explícitos de Paulo Germano, o repórter da Zero Hora que colocou seu texto na página 8 do jornal de hoje. Começa assim: “Para sublinhar em público sua disposição ao diálogo, o Piratini convocou uma reunião com o Cpers aberta à imprensa”. Governo bonzinho, professores maus, feios e bobos.

Afinal, 6% de aumento são mais do que suficientes. Esses professores gananciosos ficam querendo muito, e ainda falam que com todo esse aumento não vão conseguir sair da miséria. Afinal, seu piso é tão bom. R$ 640 por mês é uma fortuna, vai dizer. Ou seria R$ 862? Dá uma olhada no quadro que quer explicar ao leitor de forma simplificada o que está acontecendo:

Diz que a proposta do governo é passar de R$ 862 para R$ 1,5 mil o salário inicial de professores com 40 horas semanais. Na segunda coluna, diz assim: “Atualmente, o salário básico de um professor com contrato de 40 horas semanais é de R$ 640. Com o reajuste, vai para R$ 679”.

Diante disso, fica difícil escolher um foco para demonstrar a indignação. Reclamo pela manipulação dos dados que confunde o leitor e faz com que a proposta do governo pareça mais bacana (e prova disso é que os números nem são citados no texto principal) ou fico pê da vida com a cara de pau de defenderem uma coisa que eles chamam de aumento, mas que eu nem sei definir, de tão ultrajante. Quem no Brasil consegue passar um mês com R$ 679? E isso vai ser depois do aumento. Que, absurdo dos absurdos, vai ser completo apenas em março de 2011, quando já vai estar ainda mais defasado.

Lembra aquela velha história de o magistério ser a profissão mais nobre que existe? Como?

E depois a Zero Hora faz matéria mostrando que os alunos gaúchos perderam vagas nas universidades porque foram pior no Enem (teve essa, essa, essa, comentário de Rosane de Oliveira e no Blog do Editor). É óbvio. Que qualidade pode ter o ensino de um professor que tem que trabalhar 80 horas pra sobreviver?

A sacanagem da Zero Hora com os professores

Zero Hora condena greve dos professores

A manchete da Zero Hora de hoje diz: “Anúncio de greve tumultua fim de ano de pais e alunos”. Refere-se à greve dos professores anunciada ontem pelo Cpers-Sindicato. A matéria, às páginas 6 e 7, leva um título parecido como o principal, e tem duas retrancas grandes. Na maior, destaca a intransigência do governo, ainda que não use essa palavra e faça com que a atitude pareça normal. A menor diz que aliados criticam o Cpers e a oposição pede mais diálogo. Ou seja, nenhuma informação sobre os motivos da greve.

A única notícia importante relativa ao caso, para o jornal, é que os pais e alunos vão ter problemas. Ou seja, esse sindicato só causa confusão. Essa é a imagem que passa. O governo sai ileso. Parece que é vítima também. Os únicos culpados, no entender de Zero Hora, são os professores. Eles, sim, são maus. Alguém aí se lembra que eles são os responsáveis pela educação dos gaúchos e ganham uma miséria pra isso? O jornal não lembra.

A greve vem em resposta a um projeto que o governo mandou para votação na Assembleia em regime de urgência – e que, se não for votado for falta de quórum, estratégia que os deputados poderiam usar, trancariam toda a pauta de votação de projetos. Mas a matéria só fala no conteúdo do projeto em quadro. Nos textos, nada. Parece que esse é só um detalhe, uma curiosidade, e não a motivação principal, o cerne da questão. E ainda assim não explica direito.

Mais uma vez, a RBS condena qualquer tipo de ação que venha de baixo. Sempre que um sindicato, um movimento social ou qualquer setor que não seja da elite se mobiliza, é condenado pelos jornais, a Zero Hora fazendo a frente no RS. Não importa se essas ações estão corretas ou não. Isso nem deveria ser julgado pelos jornais em suas matérias. Mas elas são sempre condenadas. Sem exceções.

Zero Hora condena greve dos professores