As eleições 2016 e a esquerda

Bueno, eu também tenho direito ao meu textão. Então, bora lá.

Pra começar, queria dialogar com o discurso de que não fomos pro segundo turno porque a esquerda não se uniu. Não acho justo, não mesmo. É mais fácil apontar o dedo, mas não resolve nada e nem é honesto com o momento. Isso só reduz o debate e nos impede de enxergar o que realmente aconteceu e de agir em cima disso.

Em Porto Alegre, a direita veio com três candidatos e tá aí bela e faceira, com dois deles estão no segundo turno. Em São Paulo, Haddad e Erundina podiam ter andado abraçados a eleição inteira que nenhum deles teria ido pro segundo turno, porque não teve segundo turno. O PT só fez uma capital, Rio Branco, no Acre, e não foi porque PT e PSOL se dividiram em todos os outros lugares. Mesmo em Porto Alegre, se a gente tivesse lançado uma candidatura só, talvez teríamos ido ao segundo turno, mas o Marchezanzinho faria o estrago depois, não tenho dúvida. Em Salvador, o ACM Neto fez quase 75%. A única esperança é o Freixo, e ainda assim é difícil.

O fato é que a esquerda foi massacrada. PT, PCdoB, PSOL, todo mundo. Perdemos nas cidades grandes e nas pequenas também, onde a política acontece de um jeito diferente. E acho que é isso que tem que estar no centro do debate daqui pra frente.

Junto com isso, temos também um volume altíssimo de abstenções, brancos e nulos. Em São Paulo, a soma dos três representa mais do que a votação do Doria, eleito no primeiro turno. Isso porque a gente vive uma crise da política mesmo. As pessoas não se encantam mais por um projeto de esquerda, que já não é mais uma esperança de futuro, mas uma repetição do que já foi. E, por mais que tenhamos avançado muito, tivemos enormes limites, e eles se tornaram evidentes. A criminalização da política nos leva a todos e só favorece os que não fazem a boa política.

Nesse sentido, a Lava Jato é um mal gigante. Investigar e condenar a corrupção é muito importante, mas o que essa operação fez, além da seletividade no processo, foi contribuir para a ideia já tão repetida pela mídia de que político nenhum presta, o que afasta as pessoas da política, tira o interesse pela coisa e despolitiza mais o debate. Só favorece quem tem mais grana, porque a política deixa de valer. Nossa campanha politizada, de combate ao golpe e aos retrocessos, de debate de projeto, não teria espaço nesse cenário.

Os motivos para essa crise são vários. No Brasil, poderia citar não termos enfrentado a reforma política, a regulamentação da comunicação e a reforma do judiciário, a campanha de ódio da mídia, a despolitização do debate, a conciliação com o PMDB, o sectarismo de parte da esquerda, o nosso Congresso horroroso e vários outros. Mas o fato é que estamos vendo uma onda conservadora no mundo todo, e tá aí o Trump pra não me deixar mentir.

Mas bueno, já me alonguei demais. Queria só deixar um último recado, da fala do Raul ontem direcionada aos mais jovens: não se assustem com o que estão vendo, que ainda vai piorar. Vai melhorar um dia, mas até chegarmos lá vai piorar um tanto. É hora de avaliar a conjuntura, repensar o campo de esquerda e reorganizar a luta. Na minha opinião, não pode ser só em torno do PT, do PCdoB ou do PSOL. Na crise dos partidos, temos que repensar a esquerda. Que coisas novas surjam daí.

E, no segundo turno, #VotoNulo.

As eleições 2016 e a esquerda

Uma Europa que não é mais a mesma

Não, não é engraçado, mas é um tanto irônico. Quando a ministra da Saúde da França, Nora Berra, comete um “lapso” e diz para os sem-teto não saírem de casa durante o inverno, ela sem querer evidencia essa grande transformação por que passa o mundo e explicita que a sua França já não é mais a mesma. Foi um lapso. Mas um lapso de quem: a) não está acostumada a lidar com esse tipo de problema; b) não costuma considerar muito importante essa gente pobre que normalmente não vota. O problema é ter quem comete esse tipo de lapso no poder.

A letra ‘a’ diz respeito ao empobrecimento da Europa. À crise. A uma França diferente da de alguns anos atrás, uma França diante de problemas de “terceiro mundo”. Fui a Paris pouco tempo atrás, na metade de janeiro. Sabia da crise, sabia do desemprego, sabia do empobrecimento. Mas não imaginava a quantidade de sem-teto que eu veria por lá. Às 2h da madrugada, hora em que o metrô fecha nos fins de semana, todos os bancos de uma estação da periferia serviam de cama. Em Londres, naquela Inglaterra onde a crise também está pegando, é nítido o aumento de moradores de rua a cada mês, pelo menos pelos últimos seis meses. É o retrato de uma Europa que há séculos não existia desse jeito. Pobreza houve muitas vezes. Gente na rua, também. Desigualdade, muita. Mas nunca antes no mundo capitalista a Europa se via deixando de ser a referência, perdendo importância, vendo-se obrigada a pedir ajuda a países do Sul. Nunca antes ela via inverter o cenário da geopolítica mundial como agora, tendo que buscar alternativas em exemplos do Sul. E principalmente, vendo que esse “Sul” de que a gente fala não é um país, mas vários. Um momento em que o mundo fica cada vez mais multipolar.

Vamos com calma, o Brasil ainda não é mais importante que a Europa como referência mundial, e possivelmente não venha a ser. Mas o importante do que está acontecendo agora é que os países do Sul, especialmente da América Latina, crescem com uma política de inclusão enquanto os europeus encolhem ao mesmo tempo em que excluem. São movimentos inversos, e isso é fundamental para entendermos o que está acontecendo. E, apesar de nossa desigualdade ainda ser enorme, aqui, ao contrário da Europa, o Estado funciona, como testou a Katarina Peixoto em Porto Alegre.

O lapso da ministra não é simplesmente uma gafe, o que nos leva à letra ‘b’. É o lapso da ministra de um governo conservador, reacionário, que fala nas classes mais baixas apenas por obrigação, para não ficar feio, e não porque realmente se importe com elas. Um governo que não pensa de verdade em como as pessoas se sentem na rua no frio. Há quase um mês, quando estive em Paris, o frio já era considerável, com temperaturas não muito distantes de zero. Para mim, protegida com um casaco carésimo que comprei com medo do inverno europeu e hospedada em um hostel pra lá de ruim, mas com calefação, já era difícil. Agora imagina pra quem tem pouca roupa e nenhum teto e com um frio muitos graus mais cruel do que aquele, com neve.

Os sem-teto se multiplicam na Europa não só porque ela está em crise, mas porque ela está recheada de governos conservadores. Governos cujas medidas fazem aumentar a crise, o que leva a que se elejam governos ainda mais conservadores (pelo medo que o povo lá tem mostrado sentir, a exemplo recente das eleições espanholas). Mas mesmo em tempos sem crise, ou pelo menos sem uma crise tão grave, é normal a desigualdade crescer durante governos de direita, como nos mostra o Reino Unido. Aumenta o desemprego, fica ainda mais difícil subir de classe social e mais fácil cair. É a tendência natural de governos que governam para o mercado, para as elites de que fazem parte, e não para o povo, para o país. O que assusta é que a direita ganha cada vez mais força. E não é só uma direita moderada. Muitas vezes extrema, ela ganha espaço na França (Marine Le Pen é ameaça nas próximas eleições), na Espanha, na Itália, no Reino Unido etc. etc. À medida que ela ganha espaço, aumentam os os índices negativos dos países, mas ninguém parece perceber muito a relação entre as duas coisas. Não é tão óbvia?

P.S: A foto, da agência AFP, é na Itália, onde o frio está castigando e o governo é ainda pior, tendo passado de um conservador maluco pra um indicado do mercado financeiro alçado ao cargo por um golpe de Estado.

Uma Europa que não é mais a mesma

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Emir Sader lançou a questão no seu mural no Facebook: “Saem Berlusconi e Papandreou, eleitos pelos cidadaos, entram Papademos e Monti, eleitos pelos mercados (isto é, pelos especuladores), por Merkel, Sarkozy e o BCE. Estes sao melhores eleitores do que os cidadaos? Essa é a conclusao que querem tirar?”.

Será que os líderes de Alemanha e França e o Banco Central Europeu perceberam que desta forma estão desacreditando a democracia?

Por pior que possam ter sido os governos de Georges Papandreou e, especialmente, de Silvio Berlusconi, eles foram eleitos pelo povo. Podemos questionar se foram bem eleitos ou não, podemos não entender as motivações do povo na hora do voto. É possível argumentarmos que os italianos elegeram um primeiro-ministro que tinha a mídia em suas mãos, no que a eleição fica comprometida, que isso prejudica o caráter democrático da república italiana etc. etc.

Mas há uma diferença. Mario Monti e Lucas Papademos podem ser extremamente competentes. Aliás, apostaria que o são. Mas há uma certeza que se pode ter a seu respeito. Ambos foram escolhidos com um único objetivo e de acordo com um único interesse. E esse interesse não é o bem comum, não é o melhor pra cada cidadão. O interesse que os rege é o mercado. É a ele que respondem, é para ele que são competentes. Além da ideologia que os orienta, têm quase uma dívida de gratidão. Estão onde estão para acalmar os mercados. Se não tivessem essa capacidade, não estariam lá. E se não fizeram, podem sair com facilidade.

Um modelo nada democrático na Europa, que, junto com os Estados Unidos, forma o exemplo de democracia do mundo ocidental. Aqueles que têm autoridade para invadir países e ditar regras usando como argumento a necessidade de levar democracia para onde antes só havia ditadura. São esses que agora impõem uma ditadura de mercado.

Como fica agora? Líderes eleitos pelo povo, como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, perdem sua legitimidade. E chefes de Estados mais fracos, como Portugal e Espanha, se veem obrigados a andar na linha ditada pelo mercado. O cidadão vai ficando cada vez mais para último plano. Cada vez mais trabalha apenas para pagar as dívidas criadas em seu nome sem o seu consentimento.

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Portugal sente a crise

Não precisa mais que alguns poucos dias em Portugal para ver e sentir que a coisa está feiatugal para ver e sentir que a coisa est. O país nos recebe bem e é um lugar extremamente agradável de visitar. Mas talvez não esteja mais tão bom assim de morar. A impressão passa pela sensação de insegurança ao andar nas ruas, de tristeza pela quantidade enorme de gente pedindo dinheiro (incluindo muitos idosos), a gurizada vendendo drogas em dia claro, o aviso constante para cuidar dos pertences por causa de assalto. Fica a impressão mais subjetiva de que falta alguma coisa, de que já não é como era, mesmo que eu nunca estivesse pisado em terras portuguesas antes desta última semana. Isso vem na voz dos portugueses. E nas páginas dos jornais.

Com a notícia de que a Grécia vai fazer um referendo para decidir se continua ou não na zona do euro e a incerteza que isso causa, Portugal tremeu. Sabe que está na fila e sua vez está chegando. É o próximo a encarar o furacão, dependendo de como as coisas andarem no companheiro ainda mais fraco que está se segurando para não ir à bancarrota. Na verdade, se segurando para não admiti-la, ela que já é evidente.

A Europa está tensa. O imprudente presidente francês – que o professor universitário português Viriato Soromenho-Marques chamou, no jornal Diário de Notícias, de “insulto continuado à grandeza da França” –, Nicolas Sarkozy, já disse que seria melhor a Grécia não ter adotado o euro, mas agora treme diante da possibilidade de ela fazer-lhe a vontade.

O referendo chamado pelo governo grego é uma oportunidade de o povo exercer a democracia, ainda que não tenha sido chamado por esse motivo. A verdade é que a Grécia está numa sinuca de bico, e aceitar as condições impostas desde Berlim não é tarefa fácil. As medidas de austeridade vão prejudicar ainda mais o já combalido povo grego, especialmente, como sempre, os mais pobres. Então o governo faz um pacote e joga a batata assando para as mãos dos eleitores. Ou ficam na zona do euro e aceitam as medidas ou demonstram sua soberania negando a imposição externa, mas assumem as consequências de abandonar a moeda comum. Não há meio termo.

A culpa, nesse momento, não é exatamente do primeiro-ministro grego, George Papandreou. A União Europeia lhe impôs a condição, e ele repassou-a ao povo. A situação agora é imprevisível, ainda que mais de 70% dos gregos não queiram abandonar o euro. Os mercados devem flutuar nesse tempo de incerteza até o começo de dezembro, quando o referendo deve ser realizado.

Portugal vai continuar observando e torcendo, enquanto os articulistas de seus jornais clamam por uma postura sensata de fazer o que for necessário para resguardar a estabilidade e proteger a moeda. É o que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer, como já deixou claro ao afirmar que salvar o euro é mais importante do que salvar a Grécia. Ela sabe que a União Europeia está em crise e o euro pode dançar à medida que os países endividados (já estão na lista também Espanha e Itália, além da Irlanda) forem quebrando. A gente vê nas ruas de Portugal o resultado da sensatez de abdicar de sua soberania e submeter-se às vontades da EU. Como elo fraco, nunca dá as cartas, sempre baixa a cabeça. E como elo fraco, sempre arca com o prejuízo.

O país das grandes navegações agora vê seu navio balançar. Para a Europa, perder Portugal pode não ser tão simples quanto perder a Grécia (não que isso o seja). Mas quando a estabilidade do euro está em jogo…

Portugal sente a crise

Até a pior das revistas enxerga melhor a Inglaterra que o governo inglês

Tudo o que o governo britânico tem tentado ignorar na última semana está nas páginas das revistas semanais que estão nas bancas. Quer dizer, mais ou menos.

Por mais que parte da mídia esteja conivente no objetivo de fingir que acredita que a violência que começou no dia 9 em Londres é só “criminalidade, pura e simples”, é impossível que todos ignorem o óbvio. A Inglaterra – e a Europa, o Ocidente, o capitalismo – está em crise, e faz duas vítimas na camada mais vulnerável da população. É o que sustenta a versão europeia da revista Time, a voz mais lúcida entre a gritaria dos meios de comunicação que têm algum tipo de destaque.

O que as semanais têm em comum é a tentativa de buscar alguma explicação e fugir da armadilha da resposta óbvia e fácil. As duas matérias da Time não tratam os riots (termo pelo qual o episódio ficou conhecido na Inglaterra e que vou utilizar daqui para frente) como um problema isolado. Em vez disso, mostram que algo muito maior está em jogo, que o sistema está em crise. Os riots não são a doença, mas um sintoma.

“A Inglaterra está quimando” é a primeira frase da segunda matéria, que não trata diretamente sobre os riots, mas sobre a crise econômica e social pela qual a Europa passa. O foco é “o declínio da Europa”, mas a metáfora da abertura relaciona instantaneamente com os dias de fogo nada metafísico visto nas ruas de Londres e de algumas outras cidades inglesas. Ela começa na página seguinte à do final da primeira matéria, essa sim sobre os jovens que foram as ruas colocar fogo em carros, saquear lojas, protestar.

Nessa, Time fala sobre a concentração de renda (a maior da Europa e só semelhante, entre os países desenvolvidos, à dos EUA) que provoca profundo pessimismo nos ingleses. Sobre a correlação entre raça e classe, sobre as altas taxas de desemprego entre os jovens, o corte de gastos do governo do conservador primeiro ministro, David Cameron. O último, ponto delicado, pede uma ressalva: eles ainda não se fizeram sentir efetivamente pela população, o que faz com que os ingleses não estejam vivendo pior do que nos tempos de Partido Trabalhista no poder. Mas isso não faz com que ignore que o Reino Unido vive o momento de maior dívida da sua história, o que, aliado a su adiversidade cultural, pode causar uma explosão. Por fim, fala na questão policial, que, surpreendentemente, tem sido o foco de outras publicações.

A The Economist, por exemplo, reconhece que há causas difíceis de explicar, mas sequer procura buscá-las. Não aprofunda. Fica no debate sobre a ação da polícia e em como a política da organização policial deve ser afetada em função dos riots. Ou seja, discute um ponto que também é importante, mas menor dentro do conjunto de causas que pode trazer profundas transformações para todos os setores da sociedade. Em segundo plano, a política de bem-estar, a política para os jovens, as relações familiares, entre outros. Diz que 2011 está sendo um “annus horribilis” para a Inglaterra, mas muito mais por causa do caso isolado de violência e sua repercussão do que pela situação que a causou, que envolve desigualdade, crise de valores, desemprego, austeridade.

Isso sem falar no box que trata da forma de comunicação entre os jovens que foram às ruas. Facebook, Twitter e Blackberries viraram os vilões da história, a ponto de justificar a quebra da privacidade de seus usuários (como contraponto, só vê a perda de lucratividade das empresas). A The Economist defende que as empresas cedam informações ao governo para ajudar na captura de supostos criminosos e vai além ao sugerir que a polícia pode usar a mesma tecnologia como arma contra quem a usa contra a polícia. Como se fosse uma guerra entre mocinhos e bandidos, entre totalmente certo e completamente errado, ela mais uma vez simplifica um grande problema social.

Por fim, para ficar apenas em três exemplos (comprei ainda a New Statesman, mas não merece consideração especial), a The Spectator fala no desemprego e na facilidade e se tornar um criminoso como fatores importantes (e para isso cita até a superpopulação carcerária, que levaria os jovens a pensarem que não tem mais lugar para eles lá dentro e, portanto, estão livres para agir ilegalmente). Mas a ordem em que os apresenta, quando coloca a criminalidade antes do desemprego, inverte a lógica em que as coisas acontecem. A revista não relaciona um fator com o outro – por que há criminalidade? – e ignora muitos outros. Reduz a complexidade da sociedade e do problema que ela enfrenta. Da mesma forma, simplifica demais sua solução. Como na The Economist, a solução aparece principalmente ligada ao reforço policial. A The Spectator chega a dizer que é fácil corrigir o problema. Bastaria aumentar o número de policiais e alocá-los no lugar certo. Ou seja, aumentar o investimento e reformar o sistema policial. Mas não fala nada sobre reformar o sistema social e o sistema político…

Ainda que com focos um pouco distorcidos – pelo menos aos olhos de uma observadora estrangeira vivendo temporariamente sob a cultura britânica – e muitas vezes ignorando fatores protagonistas, todas as revistas conseguiram avançar bastante além do patamar em que o governo parou. Pode-se discordar sobre a verdadeira relevância social da atuação policial, argumentando-se que essa seria talvez uma resposta ao problema, não sua causa, mas já é um enorme passo adiante reconhecer um problema envolvendo todo o sistema de proteção dos cidadãos. Já o governo não só não anda para a frente como dá enormes passos para trás. Quem paga o pato continuam sendo os mesmos.

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Cartoon do Pigs in Maputo.

Até a pior das revistas enxerga melhor a Inglaterra que o governo inglês

E eles insistem em curar a doença com a droga que a causou

O grande problema da crise atual é que ela está sendo “debelada” pelos mesmos que a criaram (ou representantes do mesmo espectro ideológico). Ou seja, estão sendo tomadas medidas semelhantes às que causaram a tormenta para curá-la. As últimas décadas viram o mundo inteiro adotar a desregulamentação e diminuir o investimento em políticas sociais, deixando o mercado agir livremente e impor a sua regulamentação, de acordo com os seus interesses. E o mercado sabe ser bem cruel. Ele não é uma entidade magicamente autoguiada, na verdade segue regras ditadas por um grupo proporcionalmente muito pequeno da sociedade. Pequeno, com muito dinheiro e muito poderoso.

Este grupo não está lá muito preocupado com o bem-estar das pessoas de um modo geral. Seu único objetivo é acumular dinheiro, custe o que custar.

O problema é que os políticos, eleitos pela grande maioria que não pertence a esse reduzido grupo, seguem as regras ditadas por ele. As políticas neoliberais – as preferidas desse grupo – vêm prejudicando milhões de trabalhadores nas últimas décadas. Nos países que continuaram deixando de investir nos seus cidadãos – destacadamente EUA e países-membro da União Europeia –, o desemprego atinge índices recordes e a qualidade de vida piora. Os ricos pagam cada vez menos taxas, e a conta sobra para os pobres e a classe média.

É por isso que a colunista da revista Time Rana Foroohar diz, na edição desta semana (íntegra disponível para assinantes), que a desigualdade não é sintoma da crise, mas sua causa. Com isso ela quer diz dizer que a origem da crise coincide com a origem da desigualdade. As causas são as mesmas. E combater uma passa por enfrentar a outra.

A medida anunciada pelo presidente americano, Barack Obama, esta semana vai exatamente na direção contrária. Corta gastos do governo em um momento em que a maioria das pessoas está vivendo pior do que duas décadas atrás e a distância entre ricos e pobres vem aumentando. Em que a maioria das pessoas precisa da ajuda do governo.

A primeira conclusão, mais fria, é de que o remédio não vai curar a doença. Pelo simples motivo de que o remédio é feito da mesma droga que a causou. Mas vale ir além e refletir um pouco sobre os porquês de se tomar determinadas decisões políticas. Sobre o que motiva o governo e o Congresso americanos e o que devia motivá-los.

Na minha concepção ingênua de política – essa macropolítica envolvendo partidos, governos, deputados, senadores –, ela serve para organizar a sociedade, já que somos muitos e precisamos de alguns representantes que ordenem a bagunça, criem regras e distribuam a riqueza. Ok, isso bem a grosso modo. Mas o importante é que é um sistema representativo no qual os representantes devem governar para o povo. É a tal da democracia – se bem que eu acho que em qualquer sistema se deveria pensar no bem comum. Mas aí entra um tal de poder no meio, que gera uma sede incontrolável por ele e que distorce as coisas e turva visões. Transforma os objetivos, inverte as práticas.

Resumindo, a minha grande questão é: mesmo que as medidas adotadas tanto pela Europa quanto pelos EUA solvessem a crise atual, de que adianta tomá-las se trarão como consequência direta uma piora na qualidade de vida da imensa maioria dos cidadãos? Não faz o menor sentido que qualquer política que prejudique as pessoas seja tomada, especialmente quando não há perspectiva de reverter esse mau cenário.

O que fica é a esperança já reciclada de que, por não resolver o problema, a “solução” da crise leve a uma crise ainda maior, que torne impossível manter esta forma cruel de se fazer política e acabe gerando uma transformação mais radical.

E eles insistem em curar a doença com a droga que a causou