Imprensa inventa polêmica onde não há

“73% dos jornalistas argentinos apóiam polêmica lei de comunicação, diz pesquisa”. Esse é o título de uma notícia publicada no Knight Center Journalismo in the Americas. Em primeiro lugar, se 73% da população apoia, “polêmica” não é exatamente o melhor termo para definir a lei, certo? Ampla maioria da população, com um índice bastante delgado, acha bacana, e os meios de comunicação dizem que o assunto é polêmico. Segundo o dicionário Houaiss, polêmico significa que é controverso. Controvérsia é uma questão “sobre a qual muitos divergem”. Não acredito que isso possa ser aplicado a 27% dos argentinos.

A matéria diz que a lei de meios está gerando tensões e conflitos judiciais. Certo, mas uma minoria poderosa pode fazer barulho, mas não pode ser chamada de maioria. Se as pessoas que se opõem à lei não tivessem poder algum, não chamariam a atenção e o tema passaria batido. Poder não faz uma pessoa ou instituição valer mais que outra. Não se multiplica.

Mas, no Brasil, os meios de comunicação que exercem o monopólio ou oligopólio da informação não querem que a ideia chegue a essas bandas. Aí a versão da polêmica é inflada, exagerada. A situação é distorcida nos nossos jornais para que pareça algo extremamente contraditório. Informação distorcida é informação ruim. O fato de jornais fazerem isso é o principal motivo para regular a atuação. Não interferindo em conteúdo, mas abrindo espaço para que haja outros veículos, incentivando a pluralidade. Assim, a notícia chega ao cidadão de formas diferentes e cada um a interpreta como achar mais conveniente.

Ou seja, a própria notícia sobre a lei de meios escancara a necessidade de uma lei de meios também no Brasil.

Como eu já afirmei tantas vezes por aqui, diminuir o poder de alguns é aumentar o poder de muitos outros. Restringir o poder de alguns meios de comunicação é permitir que muitas outras pessoas e instituições tenham voz. É, pois, fundamental para a consolidação da democracia.

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Imprensa inventa polêmica onde não há

Dilma e Tarso privilegiam relações com o Mercosul

Na coletiva que o governador Tarso Genro concedeu aos blogueiros gaúchos, ainda antes de assumir o governo, questionei a motivação de sua primeira viagem como governador eleito. Contrariando o definido no seu plano de governo, Tarso foi, com uma comitiva de integrantes de seu primeiro escalão, para a Espanha. Minha indagação se referia à validade de uma visita com o objetivo de atrair investimentos a um país em crise, mas principalmente com relação ao conteúdo simbólico de, como um de seus primeiros atos pós-eleição, viajar a um país do Norte e não aos vizinhos do Sul ou outro parceiro tido como prioritário no programa que o elegeu. Minha dúvida é se isso não poderia ser interpretado como uma orientação política do governo, prejudicando as futuras relações com os países do Sul.

As linhas do programa de governo dizem que a integração com o Mercosul é prioridade na política de Relações Internacionais. Tratam, em seguida, do fortalecimento das relações Sul-Sul, seguindo os passos do governo Lula, em uma perspectiva de cooperação e solidariedade internacional. Nesse contexto, são citados Índia, China, Rússia, continente africano e Oriente Médio como alianças estratégicas. Só no final menciona Estados Unidos, o resto da América do Norte e a União Européia.

O governador me respondeu que o fortalecimento do Mercosul passava também pelas relações com a Europa, principalmente com Espanha e Portugal, dado o enorme vínculo cultural que temos. E garantiu que sua primeira viagem internacional depois de empossado seria para a América Latina.

Faço justiça agora às palavras e aos atos do governador, sem esquecer também os da nossa presidenta Dilma. Ainda no fim do mês de janeiro, a primeira ida ao exterior de ambos será conjunta e para a Argentina, segundo a jornalista Rosane de Oliveira. Dia 31, ambos devem desembarcar em Buenos Aires, onde Dilma encontrará a presidenta argentina Cristina Kirchner. Tarso segue ainda para o Uruguai. Dilma já tem previsão de ir ao Peru em fevereiro e ao Uruguai em março.

A notícia da viagem de Tarso ocorre ao mesmo tempo em que é definido o nome do responsável pela área. O assessor de Relações Internacionais do governo gaúcho será o cientista político Tarson Nuñes.

Em política externa, ao menos por enquanto, Tarso e Dilma seguem o que afirmaram ao longo da campanha e orientam as diretrizes de acordo com a política do governo Lula. O fortalecimento dos países emergentes é fundamental para o estabelecimento de uma ordem global mais justa e igualitária. Fortalecer as relações entre eles é o primeiro passo. O Brasil é uma importante liderança para articular essa estratégia, como vem fazendo.

Dilma e Tarso privilegiam relações com o Mercosul

Dilma, Cristina e o machismo enrustido

Dilma, Cristina e a “falta de um homem”

Do Rodrigo Vianna, no seu Escrevinhador:

Dizem que o "macho" que se exibe assim quer compensar certas coisas...

A morte de Néstor Kirchner levanta uma série de questões relevantes para a política da Argentina e do nosso continente. O ex-presidente, responsável pela impressionante recuperação argentina depois do fundo do poço do “corralito”, era cotado para ser o candidato a presidente do peronismo na sucessão de Cristina. Mesmo fora da Casa Rosada, Néstor era o articulador desse bloco de centro-esquerda que, nas últimas eleições congressuais, obteve resultados abaixo do esperado. A oposição de direita, capitaneada por Macri (empresário e ex-presidente do Boca), tem o apoio da velha mídia e dos setores agrários conservadores descontentes com Cristina. Certamente, essa oposição terá muita força na sucessão em 2011.

Todas essas são questões importantes. Ok. Mas o que não dá pra aceitar é a pauta apresentada – por exemplo –  pelo “Jornal da Globo”: será que Cristina dá conta de governar, sem o marido?

É de um machismo tão fora de época que a gente fica até com preguiça de discutir. Cristina não é “apenas” a “esposa” de Kirchner. Isabelita era “apenas” esposa de Peron nos anos 70. Os tempos eram outros. E deu no que deu – Isabelita (era a vice do marido e, com a morte de Perón, assumiu o poder) foi uma presidenta fraca, que abriu caminho pra ditadura.

Cristina, não! Ela militou ao lado de Nestor, contra a ditadura. Tem vida própria, luz própria. O marido tinha liderança e isso ninguém contesta, mas querer reduzir Cristina ao papel de “esposa”, ou agora “viúva”, é quase inacreditável.

Por que falo disso agora? Porque vários leitores relatam que , no telemarketing do mal aqui no Brasil, há um novo telefonema na praça. Uma voz – feminina – pergunta ao cidadão incauto: ”será que a Dilma dá conta, sem o Lula?”

O machismo é o mesmo – contra Dilma e Cristina. E eu me pergunto: em que século vivem os marqueteiros do mal e os editores do “Jornal da Globo”?

Dilma não precisou segurar na mão do Lula quando – aos 17 ou 18 anos – foi pra clandestinidade lutar contra a ditadura. Dilma não precisou do apoio de Lula quando esteve presa, nem quando resistiu aos toturadores.

Dilma tem trajetória própria. Os tucanos, por menosprezar essa verdade, acreditaram na balela vendida por mervais e jabores: “ela não resiste à campanha sem o Lula”. He, he. Machista, normalmente, leva um susto quando vê que a mulher não “precisa” de homem.

Uma coisa é reconhecer: Lula é um líder popular imensamente mais carismático que Dilma. Isso é fato. Ponto. Outra coisa é querer reduzir Dilma ao papel de “a mulher que Lula indicou”. Dilma foi secretária de Energia pelo PDT gaúcho. Lá, não havia Lula. Foi escolhida ministra por méritos próprios.

O machismo e a arrogância de Serra nos debates – ”a candidata não entende minha pergunta”, “acho que você não compreende bem” – lembram-me Maluf chamando Marta de “dona Marta”. É um machismo tosco, que se revela agora no telemarketing desesperado da reta final.

Eu – que como todo homem brasileiro – já fiz piadinha machista e já disse frases que certamente irritariam qualquer feminista, posso dizer com sinceridade: as mulheres lidam muito melhor com a ausência de um companheiro do que nós homens. É fato. Claro que há exceções. Claro que os homens estão aprendendo a – eventualmente – lidar com a solidão e com a necessidade de caminhar sozinhos.

Mas, sejamos honestos: há velhinhos que – ao perder a mulher – não resistem mais do que 1 ano. Preferem morrer. Não dão conta sozinhos. As mulheres, não. Víúvas ou divorciadas, seguem em frente. Podem até casar de novo. Mas não “precisam” de um homem na mesma medida em que o homem parece “precisar” de uma mulher.

Marqueteiros e jornalistas (homens) talvez projetem para mulheres poderosas (como Cristina e Dilma) a fragilidade e o medo que eles mesmos sentem diante da possibilidade de ficarem “sozinhos”. São marqueteiros e jornalistas que talvez tenham vontade de segurar na não da “mamãe-esposa” quando ficarem velhinhos. Nada de errado nisso. Todos nós temos nossas fragilidades – homens ou mulheres.

Cristina vai sofrer, vai sentir a falta de Néstor – como qualquer um que perde o companheiro da vida toda. Pode ganhar ou perder a sucessão. Mas isso não terá nada a ver com a ausência do “marido”.

Dilma – também – não é mulher que precise viver à sombra de homem nenhum. Não é à toa que teve como companheiro, durante tantos anos, alguém que é capaz de dar uma entrevista tão corajosa, firme – e ao mesmo tempo carinhosa – como a que podemos ler aqui.

Só um aperitivo do que disse Carlos Araújo a “O Globo”, sobre Dilma:

Quem mandava na casa?

CARLOS: Nossos parâmetros não eram esses, de quem manda, não manda. Éramos companheiros.

Não era nosso estilo um mandar no outro. Foi uma bela convivência. Tivemos uma vida boa juntos, tenho recordação boa, não é saudade.

O  resto – digo eu – é machismo jornalístico. E babaquice marqueteira.

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Faço apenas um acréscimo ao grande texto do Rodrigo Vianna: infelizmente, o machismo que ele cita é sentido entre jornalistas e marqueteiras mulheres também. É ainda mais feio e mais grave.

Aliás, apesar de a entrevista com Araújo que Vianna indica ser muito boa, como comenta Luis Nassif, essa pergunta sobre quem mandava na casa é bem machista. No mínimo conservadora.

Dilma, Cristina e o machismo enrustido

Cristina Kirchner vai pedir a prisão imediata dos donos dos jornais Clarín e La Nación

Sou fã dessa Cristina. Espero que a Dilma tome como exemplo e enfrente a nossa imprensa que acha que pode tudo e ultrapassa todos os limites.

Do Diário Gauche:

O governo argentino prepara denúncia contra os donos dos dois principais jornais do país, Clarín e La Nación, por homicídio e cumplicidade no sequestro e nas torturas sofridas por membros da família Graiver durante a ditadura (1976-1983). A herdeira do Grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble (na foto, de verde), de 85 anos, já teria contra si, de acordo com o jornal portenho Perfil, um pedido de “detenção imediata” tramitando nos tribunais de La Plata, capital da Província de Buenos Aires. As informações são da agência Efe.

A denúncia – vista pela oposição como mais um sinal da perseguição política radical lançada pela presidente Cristina Kirchner contra os meios de comunicação – refere-se ao papel que os donos dos dois jornais teriam desempenhado em 1976. Na época, eles compraram a empresa Papel Prensa, que fornece matéria-prima para o Clarín e o La Nación, beneficiados por uma venda vantajosa depois que a herdeira da empresa, Lidia Papaleo Graiver, foi presa e torturada pelos militares. O marido dela, David Graiver, que teria ajudado a financiar o grupo radical de esquerda Montoneros, morreu num misterioso acidente de avião antes da transação. A versão de que os dois jornais se beneficiaram dos crimes para assumir o controle da empresa que abastece 75% do mercado interno é respaldada por Lidia, viúva de David Graiver.

O embate entre governo e imprensa cresce no momento em que a Argentina se aproxima das eleições presidenciais de 2011.

Ontem, milhares de manifestantes saíram às ruas de Buenos Aires para protestar contra a imprensa e o Judiciário. Eles pedem que os juízes da Corte Suprema apliquem a Lei de Meios, que restringe o direito de um grupo de mídia controlar mais de um veículo na mesma cidade.

Cristina Kirchner vai pedir a prisão imediata dos donos dos jornais Clarín e La Nación

Política de Comunicação no governo Dilma

A Dilma peço uma coisa em especial. Espero de verdade que ela dedique um carinho maior a áreas em que o governo Lula deixou a desejar, na maioria dos casos em nome da tal governabilidade. Uma dessas áreas, que me toca em particular, é a comunicação. Ceder o ministério ao PMDB, a um nome afinado com os grandes grupos de imprensa tradicional, pode até ter sido necessário para que Lula aprovasse outros pontos importantes para a transformação que fez no país, mas eu gostaria muito que isso não se repetisse no governo Dilma.

Peço a ela e a seu governo, mas peço também a cada um de nós. O deputado Ivar Pavan, que concorre a federal, tem citado uma frase que Lula disse no comício em Porto Alegre. Assino embaixo que é nosso papel fazer com que Dilma não enfrente as mesmas dificuldades por que Lula passou, e para isso precisamos eleger candidatos da base aliada para o Congresso. Digo mais, só base aliada não, mas candidatos do PT, ou pelo menos aqueles que sabemos que são de esquerda.

Espero que a comunicação não entre na negociação de cargos e votos dessa vez. Entendo que é preciso o diálogo e às vezes se tem que ceder. Mas espero de Dilma que tome como estratégica a comunicação e dedique à área atenção maior. Aproveitando a atitude da vizinha argentina essa semana – cuja presidente, Cristina Kirchner, apresentou um relatório acusando os donos dos principais jornais de envolvimento com a ditadura, em uma estratégia de governo de limitar o poder dos grupos Clarín e La Nación –, espero uma política que enfrente o monopólio. Uma política que defenda a pluralidade.

Não a censura, muito pelo contrário. O controle dos grandes grupos para que os pequenos também tenham meios e espaço. Para que a diversidade regional tenha lugar, com regulamentação efetiva e aplicação da legislação.

Tudo isso peço ao governo Dilma. Espero não estar sonhando alto demais.

Política de Comunicação no governo Dilma

Por que Maradona goleia Pelé

Em tempos de Copa do Mundo, a comparação entre Pelé e Maradona é inevitável. Por mais que o assunto esteja esgotado, sempre aparece. Não entro no mérito técnico, não quero discutir a qualidade como jogador.

Torço pela Argentina esse ano justamente porque tem Maradona. Tem Cristina Kirchner e tem Maradona. O cara se posiciona diante da vida. Não tem medo de dizer o que defende. É diferente de brigar por qualquer coisa. Dizer o que pensa, ainda mais quando se pensa diferente do que quem costuma mandar, é ter coragem de assumir posição. Maradona vive. Não é um boneco produzido que vive de celebridade. Cometeu muitos erros, mas porque pessoas, aquelas de carne e osso, as de verdade, cometem erros.

Na comparação com Pelé, Maradona dá goleada. Vou deixar Eduardo Galeano explicar: “Os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. Não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. Este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima. Em 86 e 94, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?”.

Por ousar, por não ter medo de se expor, por questionar os direitos – seus e dos outros – Maradona é muito mais que Pelé, um negro com vergonha de ser negro. Um dedicado a ganhar dinheiro e puxar o saco de quem tem dinheiro. Um astro, em todos os sentidos do termo, inclusive – e principalmente – nos negativos.

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Como já disse por aqui, tendo a querer a vitória de seleções de países cujos governos sejam de esquerda. Em seguida, de lugares mais pobres, em que a população tem poucas alegrias dessas que o consumismo define como felicidade. (Brasil descontado, claro)

Esse ano Uruguai estaria entre os meus preferidos. A revelação de que o único bem de Pepe Mujica é um fusca dos anos 80 traz mais poesia a essa figura extraordinária, que tem em sua história a luta pelo país, pelo povo.

Mas Argentina tem Maradona.

Fora que é um país maravilhoso, convenhamos.

Por que Maradona goleia Pelé

Nada menos que a vitória

O comentário que mais ouço dos comentaristas esportivos é que o Brasil de Dunga deveria ter ganhado da Coréia do Norte com uma diferença de mais gols para garantir o primeiro lugar no grupo. A única chance de ficar em segundo é não ganhando de Portugal ou Costa do Marfim.

Por mais que Costa do Marfim seja o melhor time africano e Portugal não seja dos mais fracos, convenhamos, se a Seleção Canarinho conseguir apenas qualquer outro resultado que não seja a vitória em cima de algum dos dois, não merece ser campeã mundial, não tem cacife, não tem qualidade para tal.

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E só para registrar meu palpite: esse ano é da Argentina. Aliás, não só palpite, mas torcida. Tendo a torcer para seleções de países cujo governo seja de esquerda. A Cristina Kirchner enfrenta diversas dificuldades, não faz o governo dos meus sonhos, mas simpatizo demais com a posição dela frente às questões importantes do mundo. E a Argentina tem Maradona…

Nada menos que a vitória