Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2

Conselhos de comunicação

O ministro Franklin Martins pede mais participação na comunicação brasileira, não menos. Isso inclui a participação popular nas discussões sobre o marco regulatório e as definições que se devem obter no futuro. Passam por aí a produção de conteúdo e a fiscalização do que é produzido. Fiscalização que não é censura, mas avaliação se o que está sendo feito respeita a Constituição brasileira e se a complexidade da sociedade está contemplada nos meios de comunicação.

A criação de conselhos de comunicação, por exemplo, é uma forma de permitir que mais gente participe do processo de produção, distribuição e avaliação da informação. Tudo que é profissão tem conselho, por que não a nossa?

Controlar a imprensa não é censura

É estabelecer o direito democrático de a população opinar sobre a informação que chega a ela. É avaliar se o trabalho, feito por grupos empresariais não eleitos pelo voto popular, está bem feito e o que deve melhorar.

Iniciativas como essa existem em diversos países do mundo, “civilizados”. É preciso compreender que a liberdade de empresa que vemos, de concorrência geralmente desleal, impede que grupos menores participem do processo de produção de conteúdo. Essa liberdade acaba por tolher esses grupos. Ou seja, eles sofrem uma espécie de censura financeira. Essa restrição impede que a sociedade esteja de fato retratada e participando de todo o processo. Impede a total liberdade de expressão e limita o conteúdo. Acabamos vendo na TV sempre o mesmo tipo, sempre as mesmas situações, os mesmos sotaques. Diversidade zero.

A contradição da grande imprensa: prega democracia mas não aceita crítica

Assim como tacha de censura a ideia de estabelecer qualquer marco que regule as nossas leis, a imprensa atribui às críticas que recebe a acusação de que estão tentando calá-la, censurá-la. Liberdade de expressão inclui a liberdade de crítica. Ela pode criticar o governo, por exemplo, mas não pode ser criticada pelo presidente.

Fica fácil defender-se assim, sempre partindo para a acusação. Distorce o significado do processo democrático de troca de ideias. Ao tentar fazer acreditar que a crítica é um tipo de censura, ela presta um desserviço à democracia. Agride aquilo que diz defender.

Sabe-se que apenas o cidadão maduro tem capacidade de receber críticas e crescer com elas. Com a imprensa funciona da mesma forma. Ou ela é imatura demais ou é mau-intencionada. Afinal, “todos nós somos alvos de críticas. Aliás, quando temos uma atitude madura diante das críticas, de um modo geral, melhoramos com elas”, argumentou o ministro Franklin Martins, ao defender que a imprensa pode, sim, ser observada e criticada. E acrescenta que “a liberdade de imprensa não está arranhada quando alguém critica um órgão ou outro da imprensa; ao contrário, isso faz parte do ambiente democrático”.

O famigerado controle social da mídia e a farsa do controle remoto

Nesse sentido, estabelecer um controle social da mídia é garantir informação de qualidade. Com informação, o povo entende melhor os processos sociais, sejam eles políticos, culturais, o que for, e tem mais autonomia para tomar suas próprias decisões.

Garantir informação de qualidade é, pois, garantir uma democracia mais consolidada. Afinal, “isso não é uma discussão apenas sobre economia […]; isso diz respeito à comunicação, à democracia, à criação de oportunidades, a uma sociedade de informação e conhecimento, à participação política, à produção cultural”, diz Franklin Martins.

E o argumento de que o melhor controle é o controle remoto é fácil e insuficiente, perpetua as distorções que vemos no Brasil, com a existência de oligopólios de mídia. Se a informação é ruim, mas tecnicamente bem feita, é bastante comum ela convencer. Só percebe que a informação é ruim quem procura outras fontes, mas só procura outras fontes quem acha que aquela primeira é insuficiente. Ou seja, na maioria dos casos o pessoal nem se dá conta que tem acesso a uma meia verdade (ou a uma mentira).

Então, cito mais uma vez Franklin Martins, pela sua representatividade e pela clareza de ideias: “É ‘mais’ e não ‘menos’ o que está em jogo neste debate sobre o novo marco regulatório”. Não parece óbvio?

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Leia aqui a primeira parte do texto.

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Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

Sempre critiquei a política de comunicação do governo Lula, de seus oito anos. Agora mantenho a crítica, mas observo sua astúcia política nas críticas que tem feito recentemente. Não encarou a bronca quando presidente, porque a disputa ia ser feia, podendo prejudicar outros projetos devido à resistência ainda maior que ia sofrer, na tentativa da mídia de manipular a opinião pública. Mas Lula agora aproveita sua popularidade nas alturas, quando já vai deixando a Presidência, para forçar a discussão. Ele pode fazer isso, vai ser ouvido pelas pessoas – que o respeitam e o admiram – e sem comprometer seu governo. E mais, ainda chama para si a raiva da imprensa, deixando Dilma mais livre nessa reta final de campanha. Chama para si, que é praticamente inatingível, que é um fenômeno de comunicação.

Aliás, é preciso dizer que a astúcia política de Lula nunca para de surpreender – na comunicação e em outros setores. Ele tem uma visão do cenário, da sociedade brasileira, que nunca vi em nenhum outro político. Cada um de seus atos é muito bem pensado, com clareza e lucidez. E, acima de tudo, com inteligência. Isso fica claro na entrevista que concedeu ao portal Terra e que foi publicada na quinta-feira passada (links no final).

Se Lula parecia não valorizar a Confecom e as demandas por uma comunicação mais democrática, ele agora retoma a necessidade de se discutir comunicação, porque a legislação data da década de 60, está caduca. E de a sociedade participar do processo, para que efetivemos as mudanças necessárias da forma mais democrática possível, com ampla participação.

Quem pode ter medo da democracia?

Quem tem o poder, claro. É quem tem o que perder. Para se ter justiça e igualdade, em qualquer setor, uns têm que ceder o que têm sobrando para os que não têm. No caso, o espaço, a voz. Eles estão nas mãos das nove ou dez famílias apontadas por Lula, que concentram os principais meios de comunicação. Quando se veem acuados, atacam. Atacam tentando inverter a lógica da pluralidade democrática, confundindo o leitor-espectador-internauta-ouvinte e acusando o governo de censura ou intimidação.

Comunicação no governo Dilma

O mais sensacional na entrevista de Lula é que parece claro que um próximo governo petista assume disposto a discutir o tema. Parece que a comunicação será, sim, um setor estratégico do governo Dilma, como pedi aqui. Fica explícito quando diz: “o Brasil, independentemente de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.

A crítica da crítica

Quando jornalistas como Merval Pereira, William Waack, Miriam Leitão dizem que Lula quer cercear a liberdade de expressão por conta de algumas declarações dele reclamando do papel da mídia – sem nenhuma interferência concreta do governo na sua atuação, diga-se –, eles estão cometendo o mesmo “crime” de que acusam o presidente. O crime de se manifestar livremente, de exercer sua liberdade de expressão na crítica a uma instituição.

Tudo isso – a atitude golpista da imprensa, a crítica de Lula a ela, a contracrítica da mesma imprensa e até a manifestação dessa que vos fala – é possível porque vivemos em uma democracia, ainda que algumas partes desse processo abusem da democracia de que usufruem – mentindo, deturpando, difamando. Bem disse Leandro Fortes no Twitter: “Nosso maior dilema republicano: quando Lula critica a mídia, é ataque; quando a mídia ataca Lula, é crítica”.

E como eu mesma disse no post anterior: a imprensa vem batendo na questão da comunicação, como se Lula tivesse fechado os principais órgãos de imprensa e feito a revolução. Infelizmente não fez, apenas exerceu seu direito democrático de criticar quem o critica.

Ou como disse o próprio Lula na entrevista ao Terra: “O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática”. Onde está a democracia que vale para um lado e não vale para o outro? Democracia de uma perna só, capenga. Hipócrita. Felizmente, não é o caso brasileiro, em que todos se manifestam até demais.

O que acontece, na verdade, é que a imprensa mente, difama, desonra, acusa sem provas. Isso, em um Estado democrático, não é admissível. Lembra a máxima de que a liberdade de um termina quando acaba a do outro. A liberdade de expressão não pode se sobrepor à presunção de inocência, por exemplo.  Ou a outras liberdades do tipo. Ou seja, para a democracia existir de fato, é preciso fazer valer o controle social da mídia, sim. Afinal, dizer qualquer bobagem, causando danos à sociedade, não é saudável à nossa tão batida democracia.

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Os links da entrevista de Lula ao portal Terra. Vale especialmente a primeira parte, que trata mais da comunicação.

Lula: “nove ou dez famílias” dominam a comunicação no Brasil

Lula: Erenice jogou fora a chance de ser uma grande funcionária

Lula diz que tiveram “medo” de tentar derrubá-lo em 2005

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Fotos de Roberto Stuckert durante a entrevista.

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

O fim do Jornalismo B

Pelo menos, do jeitinho que ele era.

Dediquei dois anos e sete meses ao projeto, com a ideia de fazer o que pouco se vê tanto em mídia impressa quanto eletrônica: uma análise de imprensa séria e crítica, que não se rendesse à forma torpe de fazer jornalismo dos grandes meios de comunicação, mas, pelo contrário, a denunciasse. Foi uma parceria prolífica. Dei um salto em meu começo de carreira, mas mais do que isso, acredito, humildemente, que contribuí – contribuimos – para o debate.

Atingimos com o Jornalismo B um patamar que eu não imaginara no princípio. O crescimento era constante e intenso. Mas pessoas são pessoas, e em algum momento demonstramos nossas dificuldades, nossas fraquezas.

Gostaria de ter escrito um post de despedida no blog, em nome desses 31 meses de dedicação e em respeito aos leitores. Mas não tive a oportunidade de fazê-lo com liberdade. Foi em vão a tentativa de estabelecer um fim digno a um projeto coletivo, um projeto de duas pessoas, de onde saíssem dois novos projetos em igualdade de condições, sem que ninguém se apropriasse do trabalho alheio. Em poucos minutos me vi sem a nova senha de acesso ao WordPress, ao Twitter e ao Gmail (o vazio em que me vi comprova: o que seria de nós, jornalistas, hoje em dia sem essas ferramentas digitais?). Tendo que passar por um crivo, preferi não me submeter. Ok, sou orgulhosa (mas já disse que somos humanos e temos nossas fraquezas).

Então, preferi fazê-lo por aqui, mas mudo o tom. Não escrevo uma despedida, mas um texto de boas vindas. É um recomeço, ou, ainda mais, uma continuação. Do trabalho desenvolvido no Jornalismo B e do trabalho do Somos andando. Se não se viam muitos posts sobre mídia por aqui, é porque eles eram prioridade do Jornalismo B. Isso agora muda, e eles se juntam em importância aos de política, sociedade, meio ambiente… E com uma vantagem: maior liberdade editorial. De qualquer forma, fico feliz que meu último texto publicado por lá tenha sido uma homenagem ao Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. No mínimo emblemático.

O espaço do Jornalismo B continua lá, com outra postura, infelizmente. Ouvidos moucos.

Ainda bem que o espaço não limita as ideias. Convido a quem quiser participar de uma nova construção coletiva. Ela está em meu nome, mas aceita – e pede, quer, insiste, gosta – contribuições. Comentários, e-mails, críticas, textos, ideias, sugestões. Debate. Não mudei a esse respeito. Somos andando. Um coletivo em movimento.

O fim do Jornalismo B