À saúde

Sempre pensei na medicina como uma profissão nobre. A mais nobre de todas. E sempre achei que marcar o x em medicina no vestibular significava uma vontade grande de trabalhar para os outros, pela vida. Pena que as coisas mudaram e o fato de ser uma profissão que dá dinheiro tenha se tornado mais relevante na hora da decisão.

Aí acontece o que a gente vê hoje no Brasil. Os médicos não querem ir pro interior. Ok, entendo não querer se afastar das famílias, dos centros culturais, aquela coisa toda. Mas sabe, tem gente que mora lá no interior. Lá na zona rural, na periferia das cidades, nas pequenas vilas, as pessoas também precisam de médico. Se você não quer se embrenhar lá no interior do desconhecido, ok, mas por que é tão contra aquele que quer?

medica-protestoMédico, quando você não quer atender e é tão contra quem quer, você está se mostrando extremamente desumano, cruel até. Justo você, que tem a humanidade e o amor ao próximo como requisito básico para o exercício da profissão, antes da ciência, da técnica, do conhecimento, antes da infraestrutura. Compaixão é básico, sabe. E ó, o que a gente viu hoje no Brasil está um tanto longe disso. Hostilizar pessoas que estão se afastando de suas famílias, de seu país e se embrenhando no interior de outra pátria que não a sua porque acreditam na necessidade de ajudar outras pessoas é bem egoísta. Tanto com o médico que está chegando quanto com os pacientes que precisam dele. Ainda mais do jeito que essa “opinião” foi expressada, de forma agressiva e preconceituosa, com as últimas pessoas que mereciam ter sido agredidas nesse momento, que mereciam, isso sim, a gratidão de todos nós, de quem precisa e de quem não precisa delas.

Ao longo dos dez anos de governos petistas no Brasil, talvez não tenha havido nenhum enfrentamento de verdade a um poder corporativista estabelecido como está sendo feito agora. É mais um passo importantíssimo na transformação social do país, mas acho mesmo que dá pra dizer que é o primeiro poder que é atingido diretamente.

A crueldade dos médicos soma-se ao espírito individualista da imprensa, que defende os interesses de uma elite preconceituosa e egoísta, pra quem não adianta não perder nada, é preciso que os de baixo não ganhem. Uma elite que não reconhece a população negra senão como seus empregados.

Uma imprensa que faz uma série sobre o caos na saúde pública com o patrocínio do comprometido Sindicato Médico e que depois se opõe a uma possível solução do caos que criticava não pode ser séria. A vida inteira vi essa mesma imprensa chamar Cuba de ditadura e usar vários outros adjetivos depreciativos que nem vale listar. Vi, nos últimos tempos, essa mesma imprensa criticar a vinda de médicos cubanos porque eles não eram bons o bastante. Quando viram que esse argumento era falho – além de a medicina cubana ser referência mundial, era evidente que um médico seja qual for é melhor que nenhum – apelaram para uma defesa hipocritissíssima dos mesmos médicos que antes não eram bons o bastante. Agora a pauta é seus direitos trabalhistas, ignorando todo o processo que os traz para cá, as relações entre Brasil e Cuba e todas as condições da vinda dos profissionais, reconhecidas e referendadas pela Organização Mundial da Saúde.

Nessa batalha incansável pela deslegitimação de um programa tão importante como o Mais Médicos, essa imprensa identificada com a elite preconceituosa que eu citei acima faz mais uma vez aquilo que ela sabe fazer tão bem: omite e manipula. Esquece de dizer que, além dos cubanos vêm argentinos, espanhóis, portugueses… Esquece também que até o PSDB já importou médicos cubanos. E esquece ainda que os médicos que vêm estão aqui de forma livre, por vontade própria, ajudando a gente. Tem até colunista em geral mais sóbria na escolha das palavras comprando o discurso tosco da escravidão. Será que eles se leem? Será que leem o que estão escrevendo? Custo a acreditar.

É muito bom e muito triste o que está acontecendo no país. Bom porque um monte de gente desassistida vai ter o direito básico à saúde e porque a gente vê uma mudança de paradigmas, o estabelecimento de prioridades claras beneficiando os mais pobres, mas muito triste por constatarmos, mais uma vez, o quão mesquinhos muitos de nossos conterrâneos mais abastados podem ser. Mas eles são minoria, levo fé.

À saúde

Governador em exercício e embaixador de Cuba assinam termo para ações conjuntas

O governador em exercício Beto Grill, e o embaixador de Cuba no Brasil, Carlos Rafael Zamora, assinaram nesta sexta-feira (03), um memorando de entendimento político-institucional que tratará da promoção de ações conjuntas e de intercâmbio científico, tecnológico e técnico. O ato, ocorrido no Salão Alberto Pasqualini, contou com a participação de diversos secretários de Estado e de representantes da sociedade civil organizada.

Com este protocolo, RS e Cuba pretendem estreitar suas relações bilaterais, trazendo a possibilidade para o Estado de ampliar a capacitação e treinamento de profissionais nas mais variadas áreas, como agricultura, educação, saúde e esporte – onde atletas brasileiros poderão aprender a partir da experiência cubana em modalidades olímpicas.

Em sua fala, o governador em exercício lembrou que, a exemplo do país de Fidel Castro, o RS possui um histórico de lutas em defesa de seus ideais. Beto Grill citou o governador Tarso Genro, dizendo que este “pediu que fosse reforçada a intenção de estabelecer uma relação cada vez mais próxima com Cuba e mostrar ao mundo que é preciso saber construir uma sociedade de acordo com a vontade soberana de cada povo”.

Zamora ressaltou a boa relação que Cuba tem com o Brasil. “Mantemos há mais de 25 anos políticas bilaterais de qualidade, calcadas na transparência. Consideramos o Brasil um país irmão, com o qual mantemos relacionamento estratégico. Por meio da assinatura desse memorando, pretendemos firmar com o Rio Grande, especificamente, este mesmo tipo de entendimento”, afirmou o embaixador.

Parcerias no campo da educação infantil, junto ao programa Primeira Infância Melhor (PIM), também serão viabilizadas a partir desse protocolo. O PIM integra a política do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, sob a coordenação da Secretaria da Saúde e apoio das Secretarias da Educação, Cultura, Trabalho e Desenvolvimento Social.

Na área da agricultura, destacam-se ações na área de segurança alimentar e nutricional, sistemas de produção de arroz e certificação ecológica. No campo da Ciência e Tecnologia, a ênfase do acordo está na biotecnologia, mais especificamente no desenvolvimento e utilização de biofármacos de ponta.

Texto: Assessoria de Comunicação Gabinete do vice-governador
Edição: Redação Palácio Piratini (51) 3210.4305

Foto: Eduardo Seidl / Palácio Piratini

Governador em exercício e embaixador de Cuba assinam termo para ações conjuntas

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Faz 13 anos que cinco homens foram presos fora de seu país de origem. Eles buscavam monitorar e denunciar operações em curso contra seu país. Até hoje os cinco estão sem julgamento, mas continuam presos. Não sabe de onde são estes homens? Não conhece esta história?

Ela vem sendo denunciada exaustivamente há muitos anos, mas muita gente ainda não conhece, nunca nem ouviu falar. Não te preocupa, não precisas te considerar mal informado. O problema é que tem coisas que os jornais não contam. Uma delas é a prisão dos cinco cubanos dentro dos Estados Unidos. É isso que se chama bloqueio midiático a determinados temas.

O argumento estadunidense é que eles estavam dentro de seu território. Os cinco são acusados de serem eles os terroristas, e não o contrário. Engraçado é que quando os Estados Unidos invadem um país alheio para matar um terrorista parece tudo muito normal.

Independentemente de se concordar ou não, temos o direito de saber o que acontece. Isso vale para Cuba, vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil.

A libertação dos cinco presos cubanos é um dos temas que serão tratados na VI Convenção Estadual de Solidariedade a Cuba, nos dias 3 e 4 de junho, no Plenarinho da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. O bloqueio da imprensa aos temas de Cuba também será abordado, entre outros temas.

Quem organiza as atividades, preparatórias para a XIX Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, é a Associação José Martí. O trecho a seguir é parte do material de divulgação:

Os processos dos Cinco são considerados uma surpreendente aberração jurídica e geram manifestações e protestos em mais de 300 entidades do mundo – além de 10 Prêmios Nobel, ativistas políticos e chefes de Estado, sem que o governo estadunidense revise a farsa que foi o julgamento e a sentença imposta aos prisioneiros.

Programação:

3 de junho:

19h – Abertura
19h30min – Tribunal Popular sobre o caso dos Cinco antiterroristas sequestrados pelos EUA

4 de junho:

9h – Bloqueios Estadunidenses a Cuba e a Política de Realinhamento Econômico e Social do Governo – embaixador Carlos Zamora Rodriguez
11h30min – Apresentação de Pedro Munhoz
14h – Apresentação de Raul Ellwanger
14h30min – O Bloqueio Midiático a Cuba e as alternativas para enfrentá-lo – jornalista e blogueira Norelys Morales Aguilera (Santa Clara, Cuba); editor dos sites Carta Maior e RS Urgente, Marco Weissheimer; presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, José Maria Nunes.
17h – Apresentação das propostas
18h – Apresentação do esquete “Fragmento: te doy uma canción” – Ana Campo

Durante os dois dias da Convenção, o estudante de jornalismo e fotógrafo, Michael Susin, de Caxias do Sul, expõe na Galeria dos Municípios, no térreo do Poder Legislativo, a mostra fotográfica “Minha Visão sobre Cuba”.

O encerramento da VI Convenção ocorre com a festa de confraternização homenageando os 51 anos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap) e os 50 anos da Batalha de Praia Girón. A festa será no Bar do Ricardo, na Rua Caldre Fião, em Porto Alegre.

Maiores informações no Site da Associação José Martí.

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Morre o companheiro de viagem de Che, Alberto Granado

Do Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos:

Con profundo dolor recibimos la noticia del fallecimiento en el día de hoy en La Habana, a la edad de 88 años, del entrañable Alberto Granado.

Amigo y compañero del guerrillero Ernesto “Che” Guevara en su viaje de juventud en motocicleta por Suramérica, Granado, nació el 8 de agosto de 1922 en Córdoba (Argentina) y residió en Cuba desde 1961, hasta su fallecimiento en el día de hoy por causas naturales. Tras el triunfo de la revolución cubana, el Che le invitó a venir a La Habana y, un año después, decidió afincarse en la Isla con su esposa e hijos.

Granado, fiel amigo de Cuba, será incinerado este sábado en La Habana y sus cenizas se esparcirán en Cuba, Argentina y Venezuela, según su voluntad.

Llegue a sus familiares y seres queridos nuestras más sentidas condolencias y nuestro tributo por su loable labor como revolucionario y amigo de Cuba.

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Por conta das dificuldades de acesso a internet durante o Carnaval, apenas hoje soube da morte de Alberto Granado, no último sábado.

Granado viajou ao lado de Ernesto Guevara quando ele ainda nem era o Che. Sobre uma frágil motocicleta, La Poderosa, atravessaram países da América do Sul em 1952 levando a solidariedade aos povos mais pobres, estudando e desenvolvendo o espírito revolucionário. Embora não fosse um dos principais nomes da guerrilha que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista em 1959, ele desempenhou um importante papel de uma forma mais indireta. Ao dividir a garupa da motocicleta com Che e encarar a difícil viagem pela América Latina, Granado contribuiu para fortalecer a vontade de transformação daquele que foi um dos principais guerrilheiros e estampa ainda hoje qualquer manifestação pela liberdade, como um símbolo da causa socialista que ultrapassou fronteiras de distância e de tempo. Contribuiu, pois, para a formação da personalidade que transformaria o argentino seu amigo em mito.

Alberto Granado morava em Cuba desde 1961.

Morre o companheiro de viagem de Che, Alberto Granado

Repórter americano escreve sobre Cuba sem comentar embargo

Demorei alguns dias para ler – na tela do computador – todo o relato do jornalista norte-americano Patrick Symmes sobre seus 30 dias vivendo em Cuba como um cubano. É uma leitura fácil, mas o texto é bastante extenso.

Não cheguei a uma conclusão definitiva. Acho, sinceramente, que ninguém que não conheça Cuba – meu caso, não de Symmes – pode opinar claramente sobre a ilha. Leio a reportagem publicada na Folha.com no último dia 30, pouco tempo depois que alguns amigos voltaram de duas semanas intensas em cidades cubanas. Todos estiveram no mesmo país, na mesma época, mas as impressões são radicalmente opostas.

Quem tem razão?

Tendo a valorizar mais o que me contam os amigos, por razões óbvias – são meus amigos, oras!, e sei que não estão mentindo. Mas não só de mentiras e verdades compõem-se as impressões. Suponho que tanto Symmes quanto meus amigos jornalistas de esquerda foram à ilha procurando algo. Encontraram exatamente o que buscavam.

Afinal, o que é ter razão?

O repórter norte-americano relatou sua experiência, mas para que a reportagem fosse de fato completa faltou algo. Seu texto prende, flui, as palavras encontram a linha certa no momento ideal para que o leitor aguente o fôlego da leitura completa sem cansar. Mas será que informa? Será que dá a exata noção do que acontece e, principalmente, por que acontece?

Em qualquer reportagem, o jornalista tem que contextualizar a informação. Aprendemos isso no curso de comunicação como um pressuposto básico.

Esse tipo de texto é diferente de uma reportagem convencional, a leitura é mais agradável e sua construção parte de uma lógica peculiar, a da observação, do empirismo. É interessante, geralmente dá bons resultados quando o olhar é apurado e o texto é bom. Mas não importa a forma, tem sempre que contextualizar, com base em documentos e/ou fontes com credibilidade.

Symmes pecou ao ignorar esse “detalhe”. Um detalhe que coloca em xeque a informação ali apresentada.

Uma questão de honestidade

Sem a devida explicação do porquê das coisas, a interpretação sobre a informação – qualquer que seja – se transforma. A informação, portanto, muda. Interessante como uma mesma coisa pode significar coisas diferentes dependendo do contexto…

Não tenho o propósito de defender o governo de Fidel e Raúl. Sei que há problemas de condução política e questões bastante delicadas que ainda não me sinto suficientemente segura para avaliar. Mas sei também que os maiores e mais fortes problemas de Cuba residem no embargo econômico imposto há quase 50 anos pelos EUA.

Pode-se discordar sobre a validade da existência do regime socialista cubano, por uma questão de ideologia ou desencanto. Pode-se até questionar se é de fato um regime socialista. Pode-se apontar falhas políticas ou morais, talvez. Mas é desonesto apresentá-lo em todas as suas dificuldades e problemas – sem enfocar os êxitos, que os há – sem apontar suas causas. Não é justo com o regime que se o critique sem falar no embargo econômico senão para citá-lo, uma única vez, de passagem (178º parágrafo), como algo normal, quase irrelevante, que não merece maior consideração.

Assim como não seria correto apresentar qualquer governo – já que estamos falando em um – apenas em suas qualidades ou seus defeitos. Se é feito por pessoas, é falho. Pessoas erram, e isso não é ruim, é parte do processo. Então, sempre haverá pontos positivos e negativos. Cabe aos jornalistas elogiar uns e denunciar outros. Claro que há os que erram mais que acertam, e vice-versa, e há os que falham intencionalmente, o que é grave.

Mas o regime cubano tem pontos positivos importantes, que foram ignorados. Educação e saúde de graça para todos não é pouca coisa em um país assolado por um bloqueio econômico feroz. Se não era o objetivo mostrar esses aspectos, era preciso ao menos fazer essa ressalva, explicando, acima de tudo, as causas do que observa.

Senão, é diário de viagem, não jornalismo.

Problema de método

Além disso, há uma falha na execução do plano, que o prejudica e, por consequência, influencia o relato. Symmes separou para viver uma quantia de dinheiro equivalente à média de salário dos cubanos, US$ 20. Mas diz, em determinado momento, que “por ser norte-americano, eu era inelegível para o racionamento, nos termos do qual o arroz custa dois centavos de dólar o quilo. Como ‘cubano’ vivendo com salário de US$ 15 ao mês, eu não teria como comprar comida fora do sistema, nas dispendiosas lojas que vendem alimentos em dólares”.

Ao optar por manter o orçamento, mesmo tendo acesso apenas a produtos mais caros, ele já deixa de viver como um cubano. As dificuldades aumentam, ele passa mais fome e o relato fica inverossímil. Pela lógica, ele deveria ter adaptado seu orçamento para que seu valor efetivo fosse equivalente ao salário de um cubano. Ao mesmo tempo, também aproveitou as vantagens de ser estrangeiro em Cuba, como a possibilidade de entrar em hoteis. Symmes também não trabalhou, como faria um morador de Havana.

Foi honesto ao colocar tudo no relato, mas comete um equívoco ao dizer que viveu 30 dias como um cubano. Viveu 30 dias como um americano em Cuba, vivendo muitas das dificuldades enfrentadas pelos cubanos e algumas mais.

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Recomendo a leitura do livro-reportagem de Fernando Morais sobre Cuba (A Ilha, Companhia das Letras), escrito em 1976, com um prefácio atualizado de 2001.

Repórter americano escreve sobre Cuba sem comentar embargo