A mistureba do bufê eleitoral

Bufê eleitoral. A criatura chega na urna e pega uma carne do PSDB, um peixe do PSOL, um aipim frito do PT. Nada combina com nada, mas tudo bem. Vai entrar tudo do mesmo jeito mesmo, sem diferença nenhuma para o estômago. Verdade? Mais ou menos.

O termo, tirado da matéria da Cynara Menezes na Carta Capital dessa semana, foi usado por Fulano de Tal e quer dizer que o eleitor, de tão perdido em meio à mistura de siglas e composições partidárias, que fazem com que um candidato a presidente possa transitar em três palanques diferentes em alguns estados, acabe fazendo composições como Dilma para presidente e Anastásia, do PSDB, para governador em MG.

Sim, isso vai acontecer muito Brasil afora. Até porque o brasileiro, há tempos (mas acho que não sempre, considerando República Velha e tal), não vota no partido, mas no candidato. Se eles são todos iguais e tanto faz votar no PV ou no DEM são outros quinhentos, mas o fato é que há uma falta de identificação partidária muito grande. Falta de programa, de ideologia. Não apenas entre os diferentes partidos, mas entre o mesmo partido em diferentes estados. Um exemplo usado na revista é a Marina Silva e o Gabeira, dois verdes completamente diferentes.

O PT. Aquela coisa de Dilma subindo em palanque de petista, peemedebista, pedetista, democrata, verde, socialista, comunista… Tudo que existe por aí, menos PSDB, PSOL e PSTU (eu acho). O PT mesmo é muito diferente aqui, no Norte, no Sudeste, no Nordeste. Acaba que o eleitor não identifica o candidato com uma ideia já preconcebida do partido. Aquela cara é que tem que convencer que merece ser votada, não o programa por trás da cara. Mesmo que haja um programa, ele se anula diante das articulações que vemos por aí.

O resultado é essa mistureba indefinida, aprogramática, que prejudica a democracia e o país.

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A mistureba do bufê eleitoral

O passado e o futuro da política gaúcha – Parte II

Voltemos, pois, a Tarso. Embora eu seja muito mais fã de Olívio, Tarso é um nome mais facilmente digerível pelos gaúchos – não pelos petistas, que urram de alegria e veneração ao ver o bigodudo. Tarso é aparentemente mais maleável, menos radical, mais burguês. Mas penou com essa coisa de ter deixado a prefeitura no meio do mandato. Agora, o principal rival de Tarso é José Fogaça (ex-PPS, atual PMDB), prefeito de Porto Alegre até o dia 30, quando deixa o posto para o vice, o ex-petista, agora pedetista José Fortunatti. (Essa muvuca de siglas, especialmente na direita, é fogo.)

Fogaça não vai poder usar a mesma arma contra Tarso. Afinal, o telhado é de vidro. Mas Tarso, igualmente, fica engessado. Se chover pedra, ambos quebram. O grande problema é que Fogaça, apesar de não ter feito absolutamente nada de relevante (ah, perdão, tem aquela história de levantar a mão pra atravessar a rua na faixa – um projeto ridículo forte e consistente para transformar a cidade, o único em seis anos), tem uma imagem positiva. Vai entender por quê. Acho que é justamente por aquela carinha de bebê chorão, que escreve músicas bacanas, que não tem raiva. Não tem raiva, mas não tem proposta. Vale lembrar que se elegeu prefeito com a única plataforma de “manter o que está bom, mudar o que está ruim”. Grande proposta, ahn.

A disputa vai ser ferrenha. Nada está definido, muito antes pelo contrário. Não arrisco um palpite, por menor que seja, por mais incosequente que eu me permita ser. Não consigo vislumbrar quem leva essa eleição. Torso por Tarso (bonito trocadilho, hein), apesar de tudo. Mas levo medo. PMDB de novo no governo? Bom, é menos pior que PSDB, mas não podemos pensar em eleger simplesmente algo menos pior – aliás, depois de Yeda, nada pode ser considerado tão efetivamente ruim, qualquer coisa passa no quesito do menos pior.

Mas o PMDB ganhar força não é bom, especialmente porque no RS ele é mais de direita do que em outras partes do país. Conta ainda com o apoio do PDT, que ganhou a prefeitura de Porto Alegre e o vice na chapa de Fogaça e pode ser importante na decisão, mas que não fecha totalmente em ideias com o PMDB, já que apoia Lula, o que Fogaça decidiu não fazer (aliás, consigo ver Brizolla se remexendo no túmulo ao tomar conhecimento da aliança de seu partido com a direita).

Por outro lado, não consigo imaginar quem correria por fora dessa vez. Yeda, além de sofrer do problema de ser a última governadora, fez realmente um governo muito ruim, e seus índices de popularidade são baixíssimos. O PSOL não tem força suficiente para eleger Pedro Ruas. Se fosse para eleger uma terceira via, pelo menos que fosse o Beto Albuquerque, do PSB, mas duvido. Tem ainda o PTB, que decidiu bancar a candidatura de Lara, mas não deve ir longe (espero não ter que bater na boca). O DEM, bom, o DEM ainda existe?

É, parece que só há uma alternativa. Ou é Tarso ou é Tarso.

O passado e o futuro da política gaúcha – Parte II