Conselho de Comunicação do RS em debate, participe!

Ainda dá tempo pra participar de um importante momento da política estadual gaúcha. O governo do estado decidiu, por demanda popular, criar o Conselho Estadual de Comunicação, que por si só já representa um enorme passo rumo a uma democracia mais consolidada, já que vai permitir que todos os setores da sociedade participem do debate em torno da mídia. Um debate que, convenhamos, interessa a todo cidadão e toda cidadã. Afinal, só existe democracia de verdade se a imprensa é democrática, coisa que no Brasil nunca foi.

Mas o governo radicalizou o espírito democrático e colocou o texto do Projeto de Lei do Conselho em consulta pública. Ele só vai ser enviado para a Assembleia depois que a população opinar, já com as modificações propostas.

Dá pra participar até 10 de setembro opinando sobre o texto em si ou sobre a composição do Conselho. E nada de complicação, é só clicar no banner ali do lado e entrar onde diz Consulta Pública Conselho de Comunicação. Ali o texto do PL vai aparecer na íntegra. Vale ler com atenção, pra depois clicar em Participar e enviar a proposta. ——————>>>>

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Conselho de Comunicação do RS em debate, participe!

60 anos no trono -> e a democracia, hein?

O Reino Unido fica eufórico com essas coisas de realeza. Jubileu de Diamante, pra mim, tem um significado: que os cidadãos britânicos estão há 60 anos sob o jugo de uma chefe de Estado que não escolheram. Na prática ela pode até não mandar, mas é a “monarca constitucional” e “chefe de Estado” de uma penca de Estados. Para quem não sabe, até Canadá e Austrália continuam sob o regime de monarquia, tendo Elizabeth II como sua rainha. Além do poder político, ela também é governante suprema da Igreja da Inglaterra, chefe da Comunidade das Nações, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unidos e ainda tem mais uns outros títulos de nobreza.

Ou seja, uma pessoa que não foi escolhida por ninguém (sequer por seu pai ou sua família, já que só obedeceu a regra de sucessão) manda oficialmente nos poderes político e militar e na religião de povos gigantescos, entre eles um dos países mais importantes política e economicamente desde a Revolução Industrial.

Ninguém me convence a chamar o Reino Unido de democracia enquanto formalmente sua chefe for uma pessoa não eleita pelo voto popular (isso sem falar nas limitações de um sistema político baseado no bipartidarismo e na eleição indireta do primeiro-ministro, mas isso deixamos para outra ocasião).

Mas o que me exaspera de fato é observar que a galera adora a família real. Que os críticos a ela são minoria e, mesmo entre eles, muitos acham que vale mantê-la porque leva turismo à ilha. Tudo na Inglaterra e na Escócia (que foram os lugares em que estive, mas acredito que também no País de Gales e na Irlanda do Norte) gira em torno da monarquia. Estudar história, por lá, significa decorar a sucessão de reinados. Os prédios importantes têm significado pelo que eles representam para a monarquia (lugar x é onde a rainha vai passar o inverno, lugar y é onde ela encontra os netos e assim por diante). E agora imagino que o país e especialmente Londres estejam em polvorosa com as comemorações dos 60 anos de trono, o segundo maior tempo da história da família real inglesa, perdendo apenas para a rainha Vitória (vale lembrar que a história da monarquia inglesa é basicamente a história de grandes mulheres).

Pois bem, essa adoração desmedida está em alta este ano. Ela vem acompanhada de um acriticismo aterrador, que representa um conservadorismo muito grande. Não há questionamento sobre a validade da existência de uma monarquia, sobre o que ela representa. A situação é tomada como dada, imutável. Não peço nem uma crítica à monarquia, mas um questionamento, uma reflexão, um espaço para o contraditório. Em suma, que os meios de comunicação considerem nossa capacidade de pensar.

E quem pensa que o puxa-saquismo está restrito aos súditos da rainha engana-se. Documentário produzido e exibido pela GloboNews só faltava desejar que fôssemos incluídos na Comunidade das Nações. Diz a Wikipedia que em 2009 a rainha Elizabeth II foi considerada a 23ª mulher mais poderosa do planeta. Na lista de 2011 da Forbes ela sequer aparece entre os 70, enquanto a presidenta Dilma Rousseff encontra-se na 22ª posição. Mas, fazendo jus ao seu papel de submissa às grandes potências (mesmo quando elas já não estão mais tão grandes assim), para a Globo, ela é “a mulher mais poderosa da Terra”. Ela também “tem pele de porcelana e usa pouca maquiagem” e é “um ícone da moda”, entre otras cositas más.

O aniversário do mais novo casamento real

Há cerca de um mês, os britânicos enlouqueceram de novo com o primeiro aniversário de casamento do herdeiro do trono com a plebeia. Como se a festa fosse de membros de sua família, uma loucura. Naquela ocasião, assisti um documentário inglês na GNT que era uma mistura de futilidade (passou acho que metade do tempo falando nas roupas da mulher do príncipe) e puxa-saquismo, adoração. Foi entrevistado o pai de um homem que foi assassinado ano passado nos protestos que descambaram para a violência em algumas cidades britânicas. Lá pelas tantas, falando na visita que o príncipe William lhe fez, ele chega a soltar um “eu não sou ninguém”, achando-se muito mais alguém depois que a família real notou sua existência. Isso e o fato mesmo de a monarquia existir, caracterizando uma entidade de pessoas que se colocam acima do resto todo do reinado (superioridade concedida por quem?), vai diametralmente contra a ideia de igualdade.

Nesse mesmo documentário, era feita uma louvação desmedida da caridade da realeza, do assistencialismo a que se dedicam os homens e principalmente as mulheres da família real. Nem toco no questionamento sobre se é só fachada ou não, mas na falta de crítica de fundo da imprensa. Não é preciso ser gênio pra ter ideia de que o que de fato muda as coisas, que faz efeito sobre a pobreza, é mudar a lógica, mudar o sistema. É deixar de existir pessoas superiores e pessoas inferiores (lógica na qual não há espaço para monarquia).

Isso sem falar na questão toda do conto de fadas em torno do casamento real, que esconde em si um profundo machismo no incentivo às meninas a acreditarem na história do príncipe encantado, como se existisse um homem perfeito e ele consistisse em alguém para tomar conta da menina indefesa. Uma história de Cinderela, irreal e extremamente prejudicial.

O território real

Além de Austrália e Canadá e do óbvio Reino Unido da Grã-Bretanha (que inclui Inglaterra, Escócia e País de Gales) e Irlanda do Norte, são súditos da rainha Elizabeth II os povos de Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão e Tuvalu.

60 anos no trono -> e a democracia, hein?

Uma falsa e perigosa polêmica

No dia do aniversário do golpe que mergulhou o Brasil em mais de 20 anos de ditadura, a Zero Hora publica um artigo (“A dita dura brasileira”) de um coronel que defende os responsáveis por toda a dor causada naquele período. Não vou entrar no mérito do artigo, mas de sua publicação. Generais e coronéis de pijamas existem uns quantos, e alguns deles não se importam de assumir o ridículo de defender uma ditadura que causou mortes, torturas, desaparecimentos.

Antes que surjam os argumentos de que o jornal gaúcho estava apenas abrindo espaço para o contraditório, antecipo-me a contestá-los. As mortes, as torturas, os desaparecimentos, embora não tenham sido julgados, são incontestáveis. Abrir espaço para que alguém, o coronel Sparta, defenda o regime de exceção que causou-os é como ceder a página a um assassino em série para que defendesse seus atos. Não para que se dissesse inocente, mas para que justificasse as mortes, dizendo-as necessárias e apontando consequências positivas em tirar vidas.

O jornal diz que prega a democracia e não se furta de criticar enfaticamente cada vez que se faz qualquer movimento que possa ser interpretado como censura (até os que não o são). Pois esse jornal publica um artigo de um coronel que justifica e defende um período em que os jornais não podiam contar os fatos a seus leitores, em que a censura era regra. Fica por conta do leitor avaliar a contradição.

Vão dizer que queriam causar polêmica, suponho. Então quero que me expliquem onde está a polêmica, o que querem discutir. Querem que apareçam pessoas dizendo que os mortos da ditadura não estão mortos? Ou, pior, que estão mortos porque mereciam? Essa polêmica é falsa, porque os fatos estão dados. Permitir esse “debate” é incentivar que não investiguemos a nossa história e proporcionar uma reavaliação do passado que pode, em última análise, reavivá-lo.

Sei bem que a Zero Hora, como a maioria dos jornais, não necessariamente concorda com as opiniões publicadas em suas colunas. E isso é democracia, concordo (embora ache importante observarmos que dificilmente o jornal publica opinião de representantes de movimentos sociais, por exemplo, e não seja tão democrático assim). Mas quando isso significa publicar uma opinião defendendo a ditadura, isso extrapola os limites da democracia. A defesa da ausência de democracia não tem como ser democrática.

Há duas opções. A primeira é a de que jornal acredita que houve um golpe militar e que milhares de pessoas desapareceram, morreram e sofreram nas mãos de seus coronéis e generais e assume que, sabedora disso, aceitou publicar um artigo que defende esses atos – insisto, é tortura e assassinato. Ou então ele publicou porque não acredita que existiu o tal regime de exceção, e aí, bom, aí nem preciso continuar a comentar.

Não ficou claro? Partamos para uma comparação. Parece admissível que qualquer veículo europeu publique uma defesa do holocausto? Não, e é por isso que eles não o fazem. As proporções podem não ser as mesmas, mas a crueldade de uma época e de outra não é tão diferente. Tanto o holocausto quanto a ditadura militar brasileira mataram sem julgar, torturaram, sumiram com pessoas e fizeram muitas outras saírem forçadamente de seu país. Nenhum dos dois é aceitável, e trata-los como assunto passível de debate é justificá-los.

Uma falsa e perigosa polêmica

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Emir Sader lançou a questão no seu mural no Facebook: “Saem Berlusconi e Papandreou, eleitos pelos cidadaos, entram Papademos e Monti, eleitos pelos mercados (isto é, pelos especuladores), por Merkel, Sarkozy e o BCE. Estes sao melhores eleitores do que os cidadaos? Essa é a conclusao que querem tirar?”.

Será que os líderes de Alemanha e França e o Banco Central Europeu perceberam que desta forma estão desacreditando a democracia?

Por pior que possam ter sido os governos de Georges Papandreou e, especialmente, de Silvio Berlusconi, eles foram eleitos pelo povo. Podemos questionar se foram bem eleitos ou não, podemos não entender as motivações do povo na hora do voto. É possível argumentarmos que os italianos elegeram um primeiro-ministro que tinha a mídia em suas mãos, no que a eleição fica comprometida, que isso prejudica o caráter democrático da república italiana etc. etc.

Mas há uma diferença. Mario Monti e Lucas Papademos podem ser extremamente competentes. Aliás, apostaria que o são. Mas há uma certeza que se pode ter a seu respeito. Ambos foram escolhidos com um único objetivo e de acordo com um único interesse. E esse interesse não é o bem comum, não é o melhor pra cada cidadão. O interesse que os rege é o mercado. É a ele que respondem, é para ele que são competentes. Além da ideologia que os orienta, têm quase uma dívida de gratidão. Estão onde estão para acalmar os mercados. Se não tivessem essa capacidade, não estariam lá. E se não fizeram, podem sair com facilidade.

Um modelo nada democrático na Europa, que, junto com os Estados Unidos, forma o exemplo de democracia do mundo ocidental. Aqueles que têm autoridade para invadir países e ditar regras usando como argumento a necessidade de levar democracia para onde antes só havia ditadura. São esses que agora impõem uma ditadura de mercado.

Como fica agora? Líderes eleitos pelo povo, como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, perdem sua legitimidade. E chefes de Estados mais fracos, como Portugal e Espanha, se veem obrigados a andar na linha ditada pelo mercado. O cidadão vai ficando cada vez mais para último plano. Cada vez mais trabalha apenas para pagar as dívidas criadas em seu nome sem o seu consentimento.

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

A democracia (?) britânica

Meu professor de inglês em Londres contava hoje que o governo britânico tem o maior banco de dados de DNAs do mundo.

Como? Ele conta uma historinha: um dia, quando era mais guri, protestava contra a globalização no centro de Londres. A polícia cercou o grupo por sete horas. Só saía quem desse uma amostra de DNA. Nesse meio tempo, ficaram sem comida, sem água, sem banheiro.

Desde antes dos atentados terroristas de uma década atrás, a polícia do Reino Unido pode prender e colher amostras de DNA qualquer um que suspeite de terrorismo, o que permite praticamente tudo.

Eu, incrédula: “Mas isso não pode acontecer numa democracia”.

“Pois é”, ele respondeu, rindo da minha ingenuidade…

A democracia (?) britânica