Conservadora e contraditória

Sem citar nomes, o competentíssimo jornalista Marcos Rolim, histórico defensor dos direitos humanos, critica, em sua coluna semanal no diário que se esforça por (de)formar opiniões entre os leitores gaúchos, aqueles que apoiam o tal “Manifesto contra a descriminalização das drogas“, divulgado pelo Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (!). Rolim atinge (sem querer?) o jornal em que publica sua crítica. E o faz com muita classe, é preciso dizer.

Nem dois dias antes (já que o jornal de domingo sai no sábado), na sexta-feira, Zero Hora dedicou seu editorial a reforçar a postura conservadora da empresa em relação aos grandes temas da sociedade, abordando a questão da descriminalizacao do usuário de drogas, que vem sendo discutida na proposta de reforma do nosso ultrapassado código penal. O grupo que assina o manifesto, liderado pelo deputado gaúcho Osmar Terra, não só é contra a descriminalização como também apoia um projeto de lei que coloca penas mais duras para traficantes e usuários.

Além de conservador, o jornal é contraditório. Sua argumentação é simplista, apontando um cenário de causa e consequência invariável, como se descriminalizar o uso de drogas aumentasse o consumo, que aumentaria a violência. Então apoia o documento assinado por setores conservadores da sociedade, incluindo políticos, Igreja etc. É do simplismo da argumentação, pouco embasada, que nasce a contradição.

O argumento mais usado é, ironicamente, o de que repressão não resolve, que é preciso investir na prevenção. Isso num editorial que nasceu com o objetivo de defender uma política repressiva, vai entender. Olha esse trecho:

“A alternativa para livrar mais pessoas da droga é a ênfase na prevenção, não na repressão, muito menos na prisão de usuários com profissionais do crime, num ambiente propício a condená-los a viver para sempre no mundo da violência.” Pois é, então descriminalizemos o usuário, certo? Mas o texto continua em outro tom. Uma confusão.

O jornal não foge dos lugares-comuns, justamente aqueles que Rolim desmonta dois dias depois, como o tão citado exemplo de Portugal, que os contrários à descriminalização insistem ter sido negativo. Rolim ataca no ponto sensível aos jornalistas, a falta de rigor dos fatos. Afinal, é raro, nesse contexto, a fonte da informação ser citada, como não o fez o jornal Zero Hora no tal editorial. E Rolim desmonta a argumentação. Cita fontes que mostram o contrário e que desmascaram a fraqueza dos argumentos.

Assim como Rolim, faço um apelo a que ampliemos o debate, não que o interditemos, como pretende o manifesto. Até a Zero Hora reconhece a inutilidade de se investir em repressão, embora o faça de forma meio torta.

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Ainda na Zero Hora de domingo…

Já nas páginas que tratam do julgamento do mensalão (esperado ansiosamente pela imprensa de um modo geral), o que fica mesmo é a grande quantidade de erros de português e frases mal-escritas. São cinco páginas logo no início do jornal (4 a 8) falando do tema.

Qual seria a intenção dos repórteres, por exemplo, ao dizer que “o caso chegou a suscitar o impeachment do presidente Lula”? Suscitar, do Houaiss: “ser a causa do aparecimento de; provocar, causar, originar”. Lula sofreu impeachment e não me contaram?

E quando está escrito que “o grupo teria alterado irregularmente a classificação de risco das mesmas”? Usar o “mesmo” como pronome pessoal já é naturalmente feio e errado. É o caso da placa no elevador, pedindo que verifiquemos se “o mesmo encontra-se parado no andar”. Imagina então quando não há referência nenhuma a algum sujeito feminino plural nas frases anteriores…

Há ainda frases enroladas, repetições de palavras, vírgulas fora de lugar etc.

E, pra completar, a tentativa de ironia no final do texto, na quarta página sobre o tema.

“- Tenham fé na Justiça – pediu Delúbio, aos camaradas.”

Delúbio é petista ou comunista?

Conservadora e contraditória

Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

Defender a descriminalização do aborto não é a mesma coisa que defender o aborto. Confundir uma coisa com a outra é um erro grosseiro, que pode levar a uma generalização.

Quando a Veja coloca na capa, em posições opostas, dois rostos iguais da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, acompanhadas de frases diferentes, uma a favor da descriminalização e uma contra o aborto, ela quer induzir o leitor a acreditar que está diante de uma pessoa de duas caras, que mente. A revista manipula a informação. É ela quem está mentindo para o leitor.

Não há contradição em se dizer a favor da descriminalização e contra o aborto, como fez a Dilma em situações diferentes. A montagem da Veja é sacana ao induzir essa contradição. É uma sacanagem a mais, considerando que a Veja está incentivando que a discussão eleitoral se concentre em temas polêmicos que não fogem do verdadeiro debate de projeto político para o Brasil.

Veja muda de opinião de acordo com a conveniência

Vivemos em um país de cerca de 200 milhões de habitantes. Utilizando o dado fornecido pela própria Veja em 28 de janeiro de 2009, especialistas acreditam que 1 milhão de mulheres fazem aborto todos os anos. É a quarta causa de morte materna, por conta de poucas condições de higiene ou segurança

Engraçado que nessa edição a revista se posicionou favoravelmente à descriminalização. Ataca o falso moralismo brasileiro quando não há interesses políticos. Quando há interesses, se aproveita dele. Tenta induzir o leitor a ver o aborto como um crime, um atentado à vida, para culpar Dilma.

Marina e o aborto

Mas voltando ao tema. As mulheres que fazem aborto não são a maioria da população, mas são uma parcela considerável, que merece atenção e cuidado. Muitas mulheres que fazem esse procedimento correm risco de vida ou sofrem traumas físicos ou psicológicos. A postura da candidata Marina Silva, por exemplo, ao ser questionada sobre o tema, de defender a realização de um plebiscito para decidir, é uma postura fácil. Fácil e demagógica. Declarar-se a favor da decisão por plebiscito quando colocada frente a temas polêmicos é sempre uma postura fácil.

Ela dá uma falsa aparência de democracia, mas esquece que um presidente tem que zelar por toda a sua população. Diante de um moralismo falso que toma conta do nosso país – é mais fácil apontar o dedo na cara do outro, como se só ele errasse -, um plebiscito provavelmente decidiria contra a descriminalização do aborto. Prejudicadas seriam as mulheres que sofrem com essa proibição.

Comparando mal e porcamente, é como se a pessoa que tem comida farta achasse que o outro não tem direito a comer porque ele não ganha o suficiente. O papel do Estado é zelar por esse que não tem comida, mesmo se ele for minoria.

Deixar a situação para ser decidida em um plebiscito é se eximir da responsabilidade. Aborto é uma questão de saúde pública, é uma questão que precisa ser tratada como uma política de Estado. Jogar a decisão para um plebiscito é deixar um milhão de mulheres por ano à mercê da decisão de uma maioria falso moralista.

Voltando à Veja

Então o que faz a revista Veja é manipular a informação, distorcer os fatos e induzir o leitor a acreditar em um juízo de valor feito pela revista que de fato não reflete a realidade. O de que Dilma tem duas caras, que mente, que não é confiável. Isso é uma mentira, uma falácia. E mais, de que Dilma é contra a vida por defender a descriminalização do aborto. É uma manipulação grotesca.

E sempre é bom insistir que a opinião da Veja varia de acordo com os interesses.

Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

Números mostram que o aborto tem que ser debatido com urgência

Às vezes, a informação é tão contundente que, García Márquez que me perdoe – começar um texto com ela é o mais impactante. Começa assim, simples e diretamente, a matéria da revista Época: “Uma em cada sete mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos já fez aborto”. O impacto derruba da cadeira, mas faz a gente voltar rapidinho pra ler o resto. Baseada no mesmo levantamento, o Estadão completa: aos 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já abortaram. Os números sobem de 15% para 22%. De qualquer forma, chocante, triste.

Triste porque aborto com certeza não é divertido. As mulheres não o fazem porque é bacana, apesar de ilegal, como fumar maconha. O aborto é pesado. Além da questão física, da intervenção no corpo, a maior agressão é psicológica. Difícil entender a relação da mulher com a maternidade, mas com certeza é muito forte, e tirar um filho não parece ser uma brincadeira legal.

Mas uma em cada sete mulheres faz isso. Faz porque precisa, porque pôr um filho no mundo é ainda mais complicado do que fazer um aborto, porque não está pronta para assumir a responsabilidade, porque simplesmente não quer ter um filho no momento, porque foi irresponsável, sim, mas e daí? Claro que se tem que prevenir, que é o ideal, mas e depois que vem a gravidez? E os números têm comprovado que a prevenção não está dando conta do recado.

Caso de saúde pública

Um dos dados que a pesquisa traz é que, ao contrário do que se imagina, o aborto não é feito só por mulheres pobres. O número de casos se distribui em todas as classes sociais, com mulheres de todos os perfis. A diferença é que mulheres pobres não têm acesso a tratamento decente, dependem da boa vontade de médicos que ganham mal e trabalham demais. E vai saber se não vai encontrar algum falso moralista que condene a prática e discrimine a paciente. No caso das mulheres pobres, na hora do aborto, a sorte é muito mais importante do que para as endinheiradas. E contar com a sorte é extremamente arriscado.

Ao que se conclui que o aborto é, sim, uma questão de saúde pública. É ilegal, mas é feito em larga escala. E mais da metade das mulheres que o fazem acabam sendo internadas, o que mostra a gravidade da coisa. Feito sem cuidado, sem a devida atenção médica, pode causar dor, sequelas, morte. Uma cadeia de tristeza, de sofrimento.

A Pesquisa Nacional do Aborto foi financiada pela Fundação Nacional de Saúde e entrevistou 2.002 mulheres entre 18 e 39 anos em todo o país. Tem margem de erro de 2%.

Continua…

Números mostram que o aborto tem que ser debatido com urgência