Das coisas que só acontecem em Lichtenstein

Não chequei, mas a história vale nem que seja só como anedota.

Contou uma colega de Lichtenstein que, alguns anos atrás, o país enfrentava um problema. Para fazer sentido a existência de um setor no governo para tratar de desemprego, era preciso ter desempregados. O departamento tinha dois funcionários, em um país de pleno emprego, no que foi preciso manter um cidadão desempregado para justificar o emprego dos outros dois. Não fosse assim, Lichtenstein ganharia dois desempregados – os funcionários do setor – e ninguém para atendê-los.

Hoje o país piorou muito. Já conta com uns dez desempregados.

Da série de um só capítulo “Das coisas que só acontecem em Lichtenstein”.

Das coisas que só acontecem em Lichtenstein

Até a pior das revistas enxerga melhor a Inglaterra que o governo inglês

Tudo o que o governo britânico tem tentado ignorar na última semana está nas páginas das revistas semanais que estão nas bancas. Quer dizer, mais ou menos.

Por mais que parte da mídia esteja conivente no objetivo de fingir que acredita que a violência que começou no dia 9 em Londres é só “criminalidade, pura e simples”, é impossível que todos ignorem o óbvio. A Inglaterra – e a Europa, o Ocidente, o capitalismo – está em crise, e faz duas vítimas na camada mais vulnerável da população. É o que sustenta a versão europeia da revista Time, a voz mais lúcida entre a gritaria dos meios de comunicação que têm algum tipo de destaque.

O que as semanais têm em comum é a tentativa de buscar alguma explicação e fugir da armadilha da resposta óbvia e fácil. As duas matérias da Time não tratam os riots (termo pelo qual o episódio ficou conhecido na Inglaterra e que vou utilizar daqui para frente) como um problema isolado. Em vez disso, mostram que algo muito maior está em jogo, que o sistema está em crise. Os riots não são a doença, mas um sintoma.

“A Inglaterra está quimando” é a primeira frase da segunda matéria, que não trata diretamente sobre os riots, mas sobre a crise econômica e social pela qual a Europa passa. O foco é “o declínio da Europa”, mas a metáfora da abertura relaciona instantaneamente com os dias de fogo nada metafísico visto nas ruas de Londres e de algumas outras cidades inglesas. Ela começa na página seguinte à do final da primeira matéria, essa sim sobre os jovens que foram as ruas colocar fogo em carros, saquear lojas, protestar.

Nessa, Time fala sobre a concentração de renda (a maior da Europa e só semelhante, entre os países desenvolvidos, à dos EUA) que provoca profundo pessimismo nos ingleses. Sobre a correlação entre raça e classe, sobre as altas taxas de desemprego entre os jovens, o corte de gastos do governo do conservador primeiro ministro, David Cameron. O último, ponto delicado, pede uma ressalva: eles ainda não se fizeram sentir efetivamente pela população, o que faz com que os ingleses não estejam vivendo pior do que nos tempos de Partido Trabalhista no poder. Mas isso não faz com que ignore que o Reino Unido vive o momento de maior dívida da sua história, o que, aliado a su adiversidade cultural, pode causar uma explosão. Por fim, fala na questão policial, que, surpreendentemente, tem sido o foco de outras publicações.

A The Economist, por exemplo, reconhece que há causas difíceis de explicar, mas sequer procura buscá-las. Não aprofunda. Fica no debate sobre a ação da polícia e em como a política da organização policial deve ser afetada em função dos riots. Ou seja, discute um ponto que também é importante, mas menor dentro do conjunto de causas que pode trazer profundas transformações para todos os setores da sociedade. Em segundo plano, a política de bem-estar, a política para os jovens, as relações familiares, entre outros. Diz que 2011 está sendo um “annus horribilis” para a Inglaterra, mas muito mais por causa do caso isolado de violência e sua repercussão do que pela situação que a causou, que envolve desigualdade, crise de valores, desemprego, austeridade.

Isso sem falar no box que trata da forma de comunicação entre os jovens que foram às ruas. Facebook, Twitter e Blackberries viraram os vilões da história, a ponto de justificar a quebra da privacidade de seus usuários (como contraponto, só vê a perda de lucratividade das empresas). A The Economist defende que as empresas cedam informações ao governo para ajudar na captura de supostos criminosos e vai além ao sugerir que a polícia pode usar a mesma tecnologia como arma contra quem a usa contra a polícia. Como se fosse uma guerra entre mocinhos e bandidos, entre totalmente certo e completamente errado, ela mais uma vez simplifica um grande problema social.

Por fim, para ficar apenas em três exemplos (comprei ainda a New Statesman, mas não merece consideração especial), a The Spectator fala no desemprego e na facilidade e se tornar um criminoso como fatores importantes (e para isso cita até a superpopulação carcerária, que levaria os jovens a pensarem que não tem mais lugar para eles lá dentro e, portanto, estão livres para agir ilegalmente). Mas a ordem em que os apresenta, quando coloca a criminalidade antes do desemprego, inverte a lógica em que as coisas acontecem. A revista não relaciona um fator com o outro – por que há criminalidade? – e ignora muitos outros. Reduz a complexidade da sociedade e do problema que ela enfrenta. Da mesma forma, simplifica demais sua solução. Como na The Economist, a solução aparece principalmente ligada ao reforço policial. A The Spectator chega a dizer que é fácil corrigir o problema. Bastaria aumentar o número de policiais e alocá-los no lugar certo. Ou seja, aumentar o investimento e reformar o sistema policial. Mas não fala nada sobre reformar o sistema social e o sistema político…

Ainda que com focos um pouco distorcidos – pelo menos aos olhos de uma observadora estrangeira vivendo temporariamente sob a cultura britânica – e muitas vezes ignorando fatores protagonistas, todas as revistas conseguiram avançar bastante além do patamar em que o governo parou. Pode-se discordar sobre a verdadeira relevância social da atuação policial, argumentando-se que essa seria talvez uma resposta ao problema, não sua causa, mas já é um enorme passo adiante reconhecer um problema envolvendo todo o sistema de proteção dos cidadãos. Já o governo não só não anda para a frente como dá enormes passos para trás. Quem paga o pato continuam sendo os mesmos.

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Cartoon do Pigs in Maputo.

Até a pior das revistas enxerga melhor a Inglaterra que o governo inglês

Para primeiro-ministro britânico, é só “criminalidade, pura e simples”

Cris Rodrigues, publicado originalmente na Carta Maior

Ken Smith é dono de uma loja em Brixton, bairro no sul de Londres em que houve um dos protestos considerados mais violentos da onda de ataques que tomou conta da capital inglesa entre os dias 6 e 9 de agosto. Ele estava lá, apesar de ser tarde da noite de segunda para terça-feira, e viu quando os jovens quebraram vitrines de lojas e colocaram fogo em carros. Sabe que eram muitos, mas não chuta quantos. Todos muito jovens, filhos de uma geração sem limites e sem perspectivas, na visão do lojista.

Ken Smith relaciona manifestações com diferenças de classe

Smith tem a sua explicação para os protestos que fizeram o mundo todo virar os olhos para Londres, embora ela não seja simples. Para ele, há diversas causas escondidas no que muitos vêem apenas vandalismo e que começou sábado (6) como um protesto legítimo contra o suposto assassinato de um homem por agentes da Scotland Yard, a polícia britânica, na quinta-feira passada (4), no bairro de Tottenham, que registra altos índices de desemprego. Enquanto a maioria acredita que os manifestantes sejam apenas criminosos se aproveitando da situação para roubar, ele sustenta que a violência dos últimos dias é uma questão social.

“Esta geração que nasceu lá por 1995 é de jovens excluídos socialmente. Eles vivem uma subcultura. Eu tenho 41 anos, e quando eu era criança eu sabia que, se estudasse e trabalhasse, eu ganharia dinheiro e teria uma vida boa. Hoje eles acham que podem ter dinheiro sem fazer nada.”

Provavelmente muitos dos adolescentes sequer soubessem quem era Mark Duggan e por que os protestos começaram. Mas alguma coisa os tirou de suas casas para que fossem às ruas em uma tentativa de chamar a atenção e saquear. A explicação simplista da vendedora de uma loja que não quis se identificar de que são apenas criminosos “procurando confusão” não convence. “Ninguém é pobre neste país”, reforça o segurança do estabelecimento. Mas então por que tanta gente teria essa índole supostamente má em um mesmo lugar ao mesmo tempo? É sinal de que alguma coisa não vai bem na terra da rainha.

Para Smith, falta educação, disciplina e valores, o que faz com que as crianças não entendam quando estão indo muito longe e ultrapassam os limites. Mas enfatiza que a questão não é racial, embora Mark Duggan fosse negro e há suspeita de que tenha sido assassinato por preconceito.

Ele diz que o problema vem de uma ou duas décadas atrás e reside na diferença de classes, muito marcada na Inglaterra, e incentivada pela mídia. “A TV, a música, tudo influencia para fazer de você quem você é. A TV diz o que você tem que vestir. As crianças querem roupas legais, tênis, celulares. E quando elas não têm as coisas elas ficam frustradas.”

O único policial que aceitou dar algumas informações – eles estão proibidos de falar com a imprensa – estava no bairro de Chalk Farm, no norte de Londres, onde algumas poucas lojas tiveram as vitrines quebradas e alguns de seus artigos roubados segunda-feira (8) à noite. Para Gary Cooper, o termo “riots”, em português “manifestações” ou “distúrbios”, que está sendo utilizado nos meios de comunicação, não se aplica à maioria dos grupos. “São só ladrões. Não estão protestando por nada, só roubando”, disse. Ali, em poucos minutos a confusão foi dissipada. Não houve fogo nem violência.

O fato é que os acontecimentos coincidem com o momento em que a Inglaterra vive sua maior crise nos últimos 50 anos – quem faz a afirmação é o prefeito de Londres, Boris Johnson, também do Partido Conservador, em artigo na edição de terça-feira (9) do jornal Evening Standard, distribuído gratuita e massivamente todas as tardes nas estações de metrô. E, em momentos de crise, quem costuma sentir as consequências são os mais pobres, através da redução de benefícios sociais e do desemprego.

Para ficar em poucos exemplos, este ano o governo do conservador David Cameron cortou bolsas de estudos nas extremamente caras universidades britânicas, ao mesmo tempo em que o valor das anuidades subiu. As restrições para o trabalho de imigrantes estão cada vez maiores, em um país em cuja capital se ouve quase mais línguas estrangeiras do que inglês nas ruas. Ainda que a maioria não tenha consciência do que gera a insatisfação, ela existe.

E o governo, ancorado nos meios de comunicação, não parece muito interessado em procurar explicações. Tem colunista de jornal até citando o filósofo Thomas Hobbes e seu estado de natureza para explicar o caos nas ruas inglesas, como se o problema residisse no excesso de liberdade e a solução estivesse em um governo forte, capaz de decidir por todos. Colocar 16 mil policiais nas ruas foi a única resposta do primeiro-ministro, enquanto afirmava que enfrentaria os criminosos com mãos de ferro, com frases que deixariam os defensores de direitos humanos de cabelo em pé, como estas: “Vocês vão sentir toda a força da lei. Se você tem idade suficiente para cometer crimes, você tem idade suficiente para encarar a punição”. Desta forma, ele joga toda a responsabilidade para os jovens e busca não refletir sobre por que a sociedade tem crianças e adolescentes que cometem esses atos.

A força policial de fato encerrou os protestos, e agora os londrinos dormem tranquilos. Garantir o metrô e os ônibus funcionando e as ruas em aparente tranquilidade parece o suficiente para Cameron. Já são mais de 1.100 pessoas presas na Inglaterra, 805 só em Londres, e assim parece que o problema foi solucionado. De fato, para quem trata uma manifestação social dessa magnitude como “criminalidade, pura e simples”, basta encerrar os ataques que a noite de sono tranquilo está garantida. Mas as pessoas continuam lá, o desemprego aumenta, a crise corrói.

Agora a situação está sob controle na Inglaterra, e a rainha pode ficar aliviada. David Cameron passou por um difícil teste ao controlar a violência, mas só o fato de ela ter começado e de ter atingido a proporção que atingiu já é suficientemente significativo de que o país não está navegando em mares tão calmos e sob controle. Resta saber se agora os olhos vão se abrir e gerar alguma reação política efetiva para a vida dos cidadãos e cidadãs ou se o governo vai continuar fingindo que não aconteceu nada além de incêndios, roubos e três mortes sem causa e sem importância social. Se tratar como um sangramento já estancado, ele vai voltar a abrir.

Para primeiro-ministro britânico, é só “criminalidade, pura e simples”

Europa: curando com veneno

Não é preciso entender muito de economia. Apenas uma noção de lógica resolve a equação. Vários países do mundo, liderados pelos Estados Unidos, começaram, anos atrás, uma política de laissez-faire, de livre comércio, de desregulação do trabalho. O mercado mandava. Ele orientava as ações. O Estado assistia.

O resultado foi um sistema financeiro selvagem que fortalece a especulação.

Em 2008, resultou em uma crise mundial que é tida como a maior desde 1929, a crise das crises. Em avaliações várias, economistas de diversas correntes dizem que foi esse sistema financeiro de especulação e desregulação que levou à crise.

Agora, os países, principalmente europeus, estão recorrendo a bancos, como o Banco Europeu e o Fundo Monetário Internacional, para pedir dinheiro e investir na sua economia. A bola da vez é a Irlanda. Como contrapartida, devem cortar gastos públicos. Ou seja, deixar de investir nos serviços ao cidadão, diminuir suas garantias. Desregular.

E aí entra a parte da (falta de) lógica: para combater a crise, estamos tomando as mesmas medidas que a geraram. É como se eu fosse alérgica a camarão e me entupisse de camarão pra me curar. A conseqüência mais provável é eu ter uma crise severa de alergia e ir parar no hospital com a garganta fechada, o rosto inchado, não conseguindo respirar.

Na economia, não funciona muito diferente. A desregulação, o corte de gastos, o aumento de impostos, a flexibilização de leis trabalhistas são o oposto do que foi feito no Brasil para enfrentar a crise, com consequências igualmente inversas. Com menos garantias, o trabalhador consome menos, o que freia a economia, diminui o crescimento do país e gera desemprego. Que diminui o consumo, gera aumento de impostos, crise. Um perigoso ciclo.

Europa: curando com veneno