Por que não temos grandes manifestações no Dia do Trabalhador

Por que o Dia do Trabalhador (por favor, não Dia do Trabalho, ok?) é marcado por protestos ao redor do mundo e por festa no Brasil? Para mim, são três fatores principais:

1. Crise. Desemprego no mundo todo, o povo protesta porque está sentindo diretamente as consequências de uma política conservadora e neoliberal. A situação vai mal, e eles sabem, sentem no dia a dia. O poder de compra diminuiu, os empregos sumiram, os salários diminuíram. Se o Brasil não está perfeito, pelo menos os trabalhadores convivem com uma situação de ascensão. Na Europa, nos Estados Unidos e em todo o mundo “desenvolvido”, é recessão, o que leva a um pessimismo grande e a uma raiva natural.

2. O brasileiro é um banana. Será? Um pouco, pode ser, mas esse não pode ser considerado um fator principal. Ainda que não haja tradição de grandes manifestações no 1º de maio no Brasil, houve, sim, manifestações em outros momentos.

3. O PT no poder. Esse fator tem relação direta com o fator 1, na medida em que foi o PT no governo que proporcionou uma política econômica diferente da do resto do mundo e nos deixou fora do grosso da crise, com índices cada vez menores, e não maiores, de desemprego. Mas também tem o outro lado disso. O PT no governo deixa de ser o PT na oposição. Por mais óbvio que isso seja, é fundamental para entender o que está acontecendo. Afinal, o PT tem raízes no sindicalismo e foi, em grande medida, responsável pelas grandes manifestações que houve no Brasil. E os sindicatos, por seu lado, continuam ligados aos partidos que antes eram oposição e agora são governo. CUT, CTB, Força Sindical, todos eles têm vinculação com a base aliada do governo Dilma e tinham com a do governo Lula. Isso não explica o fato de não haver manifestações, que poderiam ser realizadas de forma independente das centrais sindicais, como o são em outros lugares do mundo (exemplo: movimentos de Occupy e Indignados nos Estados Unidos e na Europa, organizados de forma mais horizontal, em rede), mas justifica um pouco, já que a história do movimento trabalhista no Brasil é extremamente ligada aos sindicatos.

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Por que não temos grandes manifestações no Dia do Trabalhador

Estados Unidos rumam de volta aos Tempos Modernos

Houve um tempo em que os trabalhadores não podiam lutar em conjunto por melhores condições de trabalho e salários minimamente dignos. Era uma época de jornadas intermináveis e extenuantes. Um período da nossa história em que mulheres não podiam parar para amamentar seus filhos e não se podia faltar ao trabalho para atendimento médico ou em caso de morte de parente.

Tempos difíceis, em que muito poucos ficavam com o lucro do árduo trabalho de muitos (ops, isso continua). Um trabalho muito mais árduo do que o que vemos hoje. E o trabalhador que reclamasse era substituído, sem direitos trabalhistas ou possibilidade de unir forças para reivindicar dignididade.

Os direitos foram sendo incorporados aos poucos, em uma luta que remonta à Revolução Industrial inglesa, mas a transcende. Foi ali que ela começou a se intensificar, até pelo alto nível de exploração de mão-de-obra nas indústrias que surgiam. Ao longo do tempo, foram-se constituindo os sindicatos, uma forma de organizar os socialmente frágeis trabalhadores para torná-los mais fortes frente a um patrão poderoso. Através deles, muitas conquistas foram possíveis. O direito de greve, por exemplo, está intimamente ligado à capacidade de organização, e é um importante instrumento de pressão da classe trabalhadora.

Com a evolução da luta, os sindicatos se tornaram lei em muitos países. Hoje em dia, foram incorporados totalmente à nossa sociedade. No Brasil, especialmente desde o governo de Getúlio Vargas, com seu trabalhismo que legalizou os sindicatos. Eles viraram referência, em diversas nações, para a elaboração de política econômica e ganharam relevância.

Em tempos de neoliberalismo, os sindicatos reduzem juntamente com a importância dos trabalhadores. O livre mercado defende a aniquilação – ou o eufemístico “flexibilização” – das leis trabalhistas. De forma que, de uns tempos pra cá, já vem se fazendo notar a pressão dos setores empresariais por uma revisão nos direitos dos trabalhadores. No fundo, uma volta às leis que regiam os séculos XVIII e XIX, quando a luta de trabalhadores em Chicago (Estados Unidos), duramente reprimida, deu origem ao 1º de maio e fortaleceu o reconhecimento da classe operária.

Nos mesmos Estados Unidos, agora o retrocesso se confirma. Os deputados do estado de Wisconsin aprovaram na última quinta-feira (10) uma lei já votada pelo Senado na véspera para extinguir os sindicatos de representação dos servidores públicos, em uma manobra dos republicanos que reduziu a exigência de quórum. Dessa forma, puderam votar mesmo com a ausência dos democratas, que saíram do estado na expectativa de impedir a aprovação da lei. A previsão é de endurecer ainda mais a relação com os trabalhadores, que já inspiram outros estados, e diminuir o papel do Estado, com cortes sociais.

Resta a esperança de que este não seja um sinal de uma tendência mundial, imitando um relativo pioneirismo norte-americano em diversas causas sociais, inclusive as trabalhistas.

Estados Unidos rumam de volta aos Tempos Modernos

Dia do trabalho ou do trabalhador?

Faz tempo que estou me enrolando para escrever a respeito porque queria um post bem feito. Mas hoje achei que a data se sobrepunha à qualidade do texto e decidi fazer agora.

É dia do trabalho ou do trabalhador? Para mim, do trabalhador, sem sombra de dúvida. Cultuar o trabalho em vez do trabalhador é valorizar uma cultura que oprime. A supervalorização do trabalho é uma herança de nossos antepassados, e não é saudável. Parece que todos, para sermos dignos, temos que querer trabalhar em todos os momentos possíveis. Temos que ter vontade de preencher o dia inteiro, todas as horas em que estamos acordados, com trabalho. Senão, não somos dedicados, não gostamos do que fazemos e, pior e mais comum, somos preguiçosos.

Isso não pode fazer bem. Nem para os indivíduos nem para a sociedade. Para os indivíduos, já foi comprovado, causa estresse e um monte de doenças correlatas. Para a sociedade, causa desemprego e baixa produtividade.

O lucro pelo lucro, a acumulação

Já tive que argumentar com diversas pessoas que me questionavam o que eu faria se fosse empregador. Afinal, contratar mais profissionais diminui o lucro das empresas. Em primeiro lugar, diminui em parte, porque a produtividade aumenta com funcionários mais descansados. Em segundo lugar, isso só importa porque partilhamos de uma lógica em que o lucro vem em primeiro lugar, acima de tudo. Os grandes empresários, que administram grandes empresas, gerenciam milhões. Mas, se seu lucro for de 4,9 milhões de dólares e o do ano passado tiver sido de 5 milhões, é sintoma de crise. Gente, não é possível. Ele não vai usar esses 100 mil que sobraram. É a lógica da acumulação, que só faz mal. É ter por ter, sem objetivo. Para poder investir e acumular mais e guardar mais. E não usar. Para quê?

Além disso, quanto mais cada um trabalha, menos empregos existem. O mercado está competitivo, difícil de entrar, de “se dar bem”, vemos matérias nos jornais todos os dias a respeito. Mas está assim muito em função dessa cultura. Ou seja, é uma forma de administração excludente, que gera desemprego. O que não é bom para o país.

E eu com isso?

E claro, não é bom para cada um de nós. Com mais tempo livre – e, claro, sem diminuir o poder aquisitivo –, teríamos mais lazer. Seríamos mais felizes. Afinal, o que importa na vida? Acumularmos dinheiro? Viemos todos ao mundo para juntar papeizinhos e metaizinhos e administrá-los de cara fechada? Eu acho que viemos ao mundo para curti-lo, para termos ideias boas, para dividirmos os momentos com família, amigos.

Claro que isso só é possível com a sociedade funcionando direitinho. Portanto, não sou contra o trabalho. Acho que ele inclusive alimenta a alma, quando é prazeroso. Faz-nos sentir úteis. Mas não o trabalho em excesso. Quando ultrapassa determinado limite, faz-nos sentir cansados, apenas. E não termos vontade de fazer mais nada. Defendo, pois, que cada pessoa trabalhe no máximo seis horas por dia. E olha, já acho muito, mas vejo que por enquanto é inviável querer estipular limites menores.

Ócio criativo

Isso tudo sem contar que os momentos fora do trabalho também servem para gerar ideias, para tocar outros projetos, para pensar e movimentar a sociedade. É o tal do ócio criativo.

Ou seja, uma carga horária menor não apenas melhora a qualidade de vida como também é útil para que o mecanismo, meio automático meio regulado, da sociedade funcione melhor. Através do estímulo a iniciativas de lazer, que geram lucro, que movimentam a economia. Através da maior produtividade das empresas. Através dos projetos tocados fora do horário de trabalho. Quantos livros teríamos perdido se os escritores não tivessem tempo de ter ideias, por exemplo?

Trabalhadores

O primeiro de maio, então, merece ser comemorado. Mas como o dia daqueles que se dedicam, que ajudam a fazer funcionar tudo o que temos ao nosso redor, que trabalham. Mas que vivem. Homenageio também aqueles que são vítimas dessa cultura do trabalho e não têm alternativa a não ser trabalhar demais.

E homenageio a luta dos que conquistaram tantos avanços nas relações de trabalho. Dos que dedicaram a vida a melhorar a vida dos outros, garantindo maior qualidade de vida à população.

Feliz dia do trabalhador.

Dia do trabalho ou do trabalhador?