Pela primeira vez, uma mulher abre a Assembleia Geral da ONU

Pela primeira vez e com um discurso quase irretocável. Meu único ponto a contrapor é que temos, sim, que discutir quem causou a crise de 2008, que persiste até hoje. Precisamos saber por uma questão de justiça e pra saber melhor como enfrentá-la. Mas concordo com Dilma que os causadores já estão suficientemente claros. Pena que muitos ainda fingem não ver.

E reparem: a prioridade da economia mundial no momento é salvar os “países em crise de dívida soberana”. Ou seja, a Europa. Em que outro momento a história viu a Europa afundando, clamando por uma boia para se salvar? Já os países emergentes, segundo Dilma, são os que atualmente impulsionam a economia. As evidências estão aí: estamos em um momento de transformação total da geopolítica mundial. Dilma vê. E, diante do fato, exige enfaticamente a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Em um mundo cada vez mais multipolar, em que os atores principais estão mudando (mesmo que os antigos ainda continuem no cenário), não há mais legitimidade do jeito que está.

A primeira mulher a abrir uma Assembleia Geral da ONU falou pela paz, criticou a violência, em um recado direto aos Estados Unidos. Pediu o espaço pro Brasil. Afirmou o papel das mulheres. Defendeu, sem meias palavras, deixando implícita uma crítica, a criação do Estado Palestino (no que foi muito aplaudida, o que demonstra que uma minoria poderosa impede os anseios da maioria). E deu uma aula de humanidade e solidariedade, refletindo a atitude do governo do qual foi parte por oito anos: “Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos”. A presidenta deu o seu recado.

Pela primeira vez, uma mulher abre a Assembleia Geral da ONU

The Economist: Lulismo vs. Chavismo

Com direito a chamada de capa, a semanal britânica The Economist que foi às bancas este fim de semana compara a política levada a cabo pelo Brasil e pela Venezuela. Sobram elogios para um lado e críticas para o outro. No confronto “lulismo vs. chavismo”, o barbudo ganha de goleada.

O artigo, intitulado “Lulismo vs. chavismo” tem menos de uma página, mas vem logo no início da edição e recebe destaque. Diz que o regime chavista já estava em “declínio terminal” ainda antes do câncer que Hugo Chávez está tratando em Cuba e sobre o qual ninguém sabe detalhes. Com ironia, a revista compara este ”segredo de Estado” com o Kremlin e a Coréia do Norte.

The Economist é extremamente crítica, chamando a Revolução Bolivariana de uma “mistura gasosa de socialismo autoritário e populismo”, projetada como uma força continental em seu apogeu, que teria sido há cinco anos, quando teria instigado o presidente brasileiro a nacionalizar os ativos brasileiros na Bolívia e no Equador. Chama a atenção que a revista critica a atitude – que eu venho aqui defender, como um exemplo da política externa solidária implementada por Lula –, mas isenta o Brasil de responsabilidade; quem responde por ela é Chávez, por tê-lo incitado. E mais, na comparação, ambos são tratados como esquerdistas (não de forma negativa), mas Lula se diferencia por ser “democrático”.

Não sobra espaço para nenhum aspecto positivo na República Bolivariana de Chávez. A economia, segundo a revista, é vítima de péssima administração, que levou a Venezuela a uma grave recessão enquanto o resto da América do Sul crescia. Inflação excessiva, cortes, queda na produção de petróleo, entre outros fatores, teriam transformado o país no carrasco do continente.

A fórmula “fashionable” de Lula inspira o Peru

Por outro lado, Lula é visto como o criador de uma fórmula moderna, que une estabilidade econômica, investimento privado e programas sociais e é agora seguida por Ollanta Humala no Peru. O triunfo eleitoral do peruano é atribuído a esta ligação com Lula, já que cinco anos atrás ele fracassara se comparando a Chávez. A revista destaca como um elemento crucial do sucesso brasileiro, que Humala adotou, o respeito aos contratos com investidores privados.

Cadê a Dilma nesta história?

O Brasil é retratado como uma social-democracia moderna que casa uma economia capitalista globalizada com vigorosas ações governamentais contra a desigualdade, em contraste com o “caminho cego e primitivo” do chavismo para a América Latina.

Se a Venezuela só tem pontos negativos, por outro lado não é só de flores que vive o lulismo, na visão da revista. Ela diz que a escala e a extensão com que cresce a presença do governo no Brasil não necessariamente beneficia as pessoas pobres. A culpa, dessa vez, também é de Lula, responsável pelo superaquecimento causado pelos incentivos fiscais concedidos no final de seu governo.

Dilma Rousseff não parece ser muito importante. Ela é “a pragmática sucessora de Lula”, a continuação do lulismo, e todos os méritos vão para o antecessor. O único comentário a respeito de seu governo vai para a privatização da operação de aeroportos, portos e estradas.

Economia destruída

No final, as críticas à Venezuela voltam contundentes. The Economist diz que o chavismo pode sobreviver, com ou sem Chávez. Afinal, “uma dúzia de anos espalhando dinheiro do petróleo entre os pobres” pode, segundo a revista, comprar a lealdade de muita gente, mesmo tendo destruído a economia do país. Mas, enfática, termina afirmando que a maré da América Latina voltou-se contra Chávez.

The Economist: Lulismo vs. Chavismo

A corda é mais fraca para Brasil ou EUA? Depende de quem conta

É comum, embora não recomendável, que os meios de comunicação se contradigam em suas diferentes edições, de acordo com as conveniências do momento. Mas, quando a contradição aparece no mesmo parágrafo de um mesmo texto, acaba virando descaramento.

A página 4 da Zero Hora de hoje (18) diz que o mais esperado seria que “um presidente brasileiro recém-eleito visitasse o vizinho mais poderoso”, de acordo com a “liturgia do poder”. Ou seja, é normal que o fraco puxe o saco do forte para não apanhar. Eis que aparece, na frase seguinte, a interpretação do que acontece este fim de semana no Brasil: Obama vem ao nosso país para poder definir a agenda. Ela conta ainda que é praxe que os visitantes definam o tema e o ritmo dos contatos.

Em apenas um parágrafo, a repórter Marta Sfredo diz que não temos saída: ou o Brasil é subserviente indo aos Estados Unidos babar sobre o presidente da ex-superpotência, mesmo definindo sobre o que e com quem conversar, ou é vassalo ao se submeter à agenda definida pelos americanos. A repórter não diz qual é a solução para a equação, mas a única alternativa que resta é romper relações ou se encontrar no meio do oceano – descarto a possibilidade de a conversa ocorrer em outro país porque a escolha do território do presidente x ou y pode ter um significado mais favorável ao Brasil, ou mais provavelmente, aos Estados Unidos.

Lula se elegeu e foi conversar com Bush em Washington. Dilma se elegeu e recebe a visita de Obama em Brasília. Uma inversão extremamente significativa. Pode não ter consequências práticas imediatas, quiçá até de médio e longo prazo. Mas representa uma mudança na correlação de forças da geopolítica mundial. Não há mais um país que domine todos os outros, e o Brasil não é mais uma nação emergente sempre mendigando para ganhar qualquer espaço. O cenário não é mais hegemônico, sequer bipolar. Vivemos hoje em um contexto de multipolaridade, que foi conquistado pelos emergentes por sua política externa altiva – com grande destaque para o Brasil – ao mesmo tempo em que a principal potência, mais a União Europeia, pisavam na bola nas suas estratégias.

Obama agora praticamente depende mais da boa vontade do Brasil do que o contrário, e vem tentar recuperar o posto de principal parceiro comercial de nossas terras tupiniquins. Por qualquer ângulo que se olhe – da esquerda à direita, passando pelo centro -, ele fracassou no governo dos EUA, o que se reflete em uma popularidade constantemente em queda, enquanto Dilma é eleita representando um governo com índices recordes de aprovação. Obama não vem em condições de fazer exigências, mas para negociar, como devem ser as relações entre quaisquer nações soberanas. E independente da vontade de Zero Hora.

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Na Página 10 da mesma edição de Zero Hora, na coluna da Rosane de Oliveira, outro ponto que merece análise. Agora, não pela contradição, mas pela identificação política. Rosane tirou da foto aqui ao lado o deputado Edegar Pretto e o secretário da Agricultura, Luiz Fernando Mainardi, assim como todo o contexto da cena. Deixou apenas o rosto do governador Tarso Genro, chamando a atenção do leitor para o boné do MST que vestia. O comentário não foi sobre sua simpatia com a causa da reforma agrária, mas uma quase saudosa lembrança do “deus-nos-acuda” que se fazia quando um governante usava este símbolo. Como se ele estivesse cometendo um crime – ou defendendo que alguém o cometesse. A colunista parece pedir que voltem as críticas ao ato simbólico.

A corda é mais fraca para Brasil ou EUA? Depende de quem conta

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Já tive épocas de não concordar com isso de Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Índio etc. Achava que o fato de ter um dia específico para marcar cada categoria (na falta de uma denominação melhor) era por si discriminatório, que escancarava que existiam diferenças onde não deveria haver.

Até que eu me dei conta que o Dia da Mulher não serve para ganharmos flores. Que o Dia da Mulher – assim como do Negro, do Índio e outros – representa a luta de cada um desses que foram oprimidos, discriminados, explorados, submetidos. Que não é o Dia da Mulher, mas o dia da luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. Acima de tudo, um dia de reflexão sobre por que diabos a mulher ainda hoje tem menos espaço que o homem.

É por isso que, mesmo atrasada, resolvi escrever.

No colégio, a cada data dessas representantes de alguma luta, discutíamos em sala de aula, pesquisávamos, fazíamos trabalhos a respeito… Entendíamos melhor a história e o contexto que levou à criação da data, e lembro muito bem de ficar espantada e indignada com algumas coisas que eu aprendia. Entendi, com o passar dos anos, que aquela era uma oportunidade justamente disso, de gerar indignação. Que, mesmo que não fosse mudar radicalmente o pensamento e principalmente o comportamento da maioria da população, pelo menos criava uma simpatia pela causa, um debate saudável.

Esse ano, temos um motivo especial para comemorar. Independente de identificação política ou da forma como foi construído o imaginário popular ao longo da campanha do ano passado, não é pouca coisa termos uma presidenta mulher. O fato de ser mulher, evidentemente, não garante bom governo ou acerto político. Não garante comprometimento ou sensibilidade. Não garante nada. Mas termos elegido uma mulher para presidenta do Brasil significa que rompemos barreiras de preconceito paternalista e machista. E é seguindo o mesmo raciocínio da defesa de um Dia da Mulher que hoje defendo a utilização do termo presidenta no lugar do neutro presidente. É preciso marcar a conquista, como uma forma de enfiar na cabeça das pessoas que, sim, ela pode, nós podemos, todos podem.

Feminismo por solidariedade

Ontem assisti a reprise de uma conversa na GloboNews – no Entre Aspas, com Mônica Waldvogel – sobre o feminismo. As convidadas apresentaram perspectivas muito interessantes a respeito. Primeiro, enfatizaram a questão da chamada para a reflexão provocada pelas datas simbólicas.

Não vou entrar no mérito do debate sobre feminismo comparando culturas ocidentais e orientais. Tema delicado, pelo qual passaram muito bem as convidadas. Nesse ponto quero apenas destacar a relação que a filósofa e estudiosa do feminismo Márcia Tiburi estabeleceu entre a alijante vestimenta muçulmana, que proíbe a mulher de mostrar até o rosto, com a nudez ocidental, especialmente a brasileira, que também ofende e subjuga a mulher, tratada como objeto. A cultura da mulher magra, gostosona, um “modelo imposto”, como acrescentou Mônica Waldvogel.

Mas prefiro destacar as posições de Márcia Tiburi que apresentam o feminismo como uma luta por igualdade, pelos direitos dos seres humanos, não simplesmente por um gênero. “O feminismo é uma busca de voz”, para que mulheres tenham os tais “direitos humanos” como todo ser humano.

A parte mais interessante é quando Márcia Tiburi provoca as mulheres para que se tornem “feministas por solidariedade”. Se a mulher já desfruta de direitos iguais aos de seus colegas e amigos homens, ela pode se tornar feminista para garantir condições iguais entre os gêneros que beneficiem a grande maioria de mulheres que sofrem com isso.

Por experiência própria

Eu circulo entre pessoas de esquerda, muita gente esclarecida, que luta diariamente pela igualdade, pelos direitos dos que mais sofrem, dos que normalmente não são vistos pela maioria da população. Dos que não são lembrados. É gente que luta pelos direitos humanos, enfim. E convivo quase que diariamente com manifestações de incredulidade. Me olham torto, com uma cara de interrogação, como quem pergunta o que eu estou fazendo ali, naquele trabalho de homens. Pior ainda são os que se surpreendem ao constatar que ela até que é competente para uma mulher. Não é o pessoal com quem trabalho diretamente, mas muitos dos homens com quem acabo tendo que lidar em função do trabalho ou de outras atividades. Independente de vinculação partidária, identificação política, classe social ou estilo de vida.

Mas o pior, péssimo mesmo, é ter que desconversar sempre que um homem não consegue conversar com uma mulher sem ver nela algo a mais do que uma profissional. Dia desses recebi no trabalho a visita de um blogueiro que, além de ficar extremamente surpreso com o fato de eu manter um blog que lhe rendeu elogios, não conseguiu conversar sem elogiar traços físicos. Em não mais do que cinco minutos. E garanto, isso não é pela mulher ser linda, gostosa ou o que for. É só por ser mulher. Porque mulher, para ainda muitos homens, é só isso. Ou é principalmente isso. Eles até admitem a possibilidade de uma mulher se destacar em alguma atividade intelectual, mas muitos não conseguem ignorar o corpo. É o resultado de muito tempo de cultura machista. E justamente por isso é que é preciso afirmar, cada vez mais alto, que está errado. Que cada homem e cada mulher tem que fazer um exercício diário de conscientização. Para mudar. Para acabar de vez com o machismo. Espero pelo dia em que discutir feminismo seja algo ultrapassado e retrógrado. Algo desnecessário.

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff, por Idelber Avelar

Excelente avaliação do Idelber Avelar sobre as divergências de início de governo Dilma. E o melhor, essa é apenas a primeira parte. Recomendo ainda que os leitores cliquem nos links indicados por Idelber ao longo do texto. Vale a pena.

A perplexidade da direita e a indignação da esquerda é uma tradição dos começos de governo lulistas. É provável que muita gente não se lembre, mas quando Fernando Collor de Mello foi eleito presidente, ele prometeu um governo que deixaria “a direita indignada e a esquerda perplexa”. Como se sabe, a profecia fracassou, mas treze anos depois Lula a atualizaria com signo trocado: em 2003, a reforma da Previdência, a elevação do superávit primário de 3,75% para 4,25%, a manutenção das metas de inflação e do câmbio flutuante, assim como o privilégio à estabilidade macroeconômica deixariam a direita perplexa e a esquerda indignada. Em dezembro de 2003, atendendo o convite da saudosa revista argentina Punto de Vista, escrevi um balanço otimista do primeiro ano do governo Lula, a partir da noção de superação do populismo. Quem se lembra de quantas bordoadas o governo Lula levou pela esquerda naquele ano saberá como era difícil que um cabra de esquerda mantivesse aquela posição. No número seguinte da Punto de Vista, Norberto Ferrera, argentino radicado no Brasil e professor da Universidade Federal Fluminense, publicava uma resposta, em que falava de “vergonha alheia” pelo meu otimismo e aludia ao “péssimo político Gilberto Gil” e à “falta de efeitos práticos” do governo Lula. Deixo ao leitor a decisão sobre quem riu por último.

Relembro aquele episódio não para bater no peito e dizer que eu estava certo. Talvez eu estivesse certo mas era, com certeza, pelas razões erradas. Seis anos depois, já com a perspectiva de dois mandatos de Lula, André Singer escreveria aquela que ainda é a melhor análise do lulismo, mostrando como ele se apropria da bandeira da redução da desigualdade sem perturbação da ordem, o que seria a chave para a conquista da população de baixíssima renda, o subproletariado, que havia sido anti-Lula até um passado recente. Observando a votação das várias classes sociais nas eleições brasileiras desde 1989, Singer vê o ponto de inflexão em 2006, justamente quando setores da classe média abandonavam Lula, e os muito pobres, que em 1989 haviam seguido Collor por medo da desordem, abraçavam seu novo líder, favorecidos pelas políticas de valorização do salário mínimo, pelo Bolsa Família, e por programas como o Luz para Todos, mas movidos também pela empatia com o retirante nordestino que chegou à Presidência.

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O petismo pode ter representado uma superação do populismo, como eu dissera em 2003 (há um belo livro de Raul Pont, aliás, que recomendo a todos: Da crítica do populismo à construção do PT). Mas o lulismo, que foi quem efetivamente governou, é uma atualização do populismo, que combina o ganho econômico para os mais pobres, o sólido cuidado com os interesses do andar de cima, especialmente do capital financeiro, o papel do Estado na correção (moderada) das desigualdades, e o apreço pela ordem. É o que Cristóvão Feil resume num ótimo achado: lulismo de resultados. Dilma mantém tudo isso, mas o lulismo agora sobrevive sem um de seus pilares: a identificação dos mais pobres com seu nordestino retirante, nove-dedos e corintiano. Todos os assessores e colaboradores coincidem na avaliação de que Dilma é extremamente difícil de ser lida, mas alguns de seus movimentos iniciais têm a ver, acredito eu, com a sua percepção desse problema: como reinventar o lulismo sem Lula. Nós sequer temos uma tradição de presidentes concluindo mandatos e transmitindo o cargo a um(a) correligionário(a). Dilma tem a tarefa de suceder o maior mito político de nossa história moderna.

Continue lendo aqui.

Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff, por Idelber Avelar

Um consistente balanço econômico e político dos primeiros dias Dilma, por Rodrigo Vianna

Depois do meu breve e humilde balanço dos primeiros dias do governo Dilma, recomendo (enfaticamente) aos bravos leitores um balanço bem menos breve e um tanto quanto mais consistente. Fica por conta de Rodrigo Vianna, o Escrevinhador:

Essa história de oferecer “Cem Dias” de trégua para o governo que se inicia é um modismo que vem dos EUA, mas faz algum sentido. É um tempo mínimo para que as equipes se (re) organizem e para que as primeiras diretrizes sejam tomadas, indicando os rumos da nova administração.

O governo Dilma não chegou nem à metade dos “Cem Dias”. Ainda assim, é possível já identificar algumas tendências – não só do governo que começa, mas também do quadro político brasileiro.

Nesse primeiro texto, do que pretende ser um modesto “balanço” do início de governo, vou-me concentrar mais na economia.

Os primeiros sinais do governo Dilma indicam reversão da política “expansionista” adotada no segundo governo Lula para enfrentar a crise. O ministro Mantega, da Fazenda, teve papel fundamental em 2009 e 2010, ao adotar um programa que – em tudo – contrariava a velha fórmula utilizada pelos tucanos em crise anteriores: quando o mundo entrou em recessão, com os EUA lançados à beira do precipício, o Estado brasileiro baixou impostos, gastou mais e botou os bancos estatais para emprestar (forçando, assim, o setor privado a também emprestar).

O Brasil saiu bem da crise – maior, gerando emprego, e ainda distribuindo renda. Lula, quando falou em “marolinha” naquela época, foi tratado como um néscio. E Mantega, ao abrir as torneiras do Estado, como um estúpido economista que se atrevia a rasgar a bíblia (neo) liberal.  Lula pediu que o povo seguisse comprando. Os tucanos (e os colunistas e economistas a serviço do tucanato) diziam que era hora de “apertar os cintos”. Lula e Mantega não apertaram os cintos. Ao contrário: soltaram as amarras da economia, e evitaram o desastre.

As primeiras medidas adotadas por Dilma vão no sentido inverso: corte de despesas estatais, alta de juros, aumento moderado do salário mínimo. É fato que a inflação em alta impunha algum tipo de medida para frear a economia. Mas a fórmula adotada agora indica um “conservadorismo”, ou “tecnicismo”, a imperar nas primeiras decisões do governo Dilma. Não é à toa que a velha imprensa derrama-se em elogios à nova presidenta, tentando abrir entre Dilma e Lula uma “cunha”, como a dizer: Lula era o populismo “atrasado” e “irresponsável”, Dilma é a linha justa (discreta, moderada, a seguir a velha fórmula liberal de gestão).

Há alguns sinais – preocupantes, eu diria – de que Dilma estimula esse movimento de proximidade com os setores mais conservadores da velha imprensa. Mas voltarei a isso no texto seguinte, na segunda parte desse balanço…

Voltemos à economia: as centrais sindicais fazem grande barulho por conta do salário mínimo subir “apenas” para R$ 545. Acho positiva essa pressão. O movimento sindical pode – e deve – criar um espaço para mais autonomia em relação ao governo. E deve perguntar, sim: por que, na crise, o governo quebrou regras para favorecer as empresas (corte de impostos), e não pode quebrar a regra do reajuste do mínimo para dar um aumento maior? É preciso mesmo tensionar o governo, pela esquerda. Ok. Mas, modestamente, acho que a medida mais danosa adotada pela administração Dilma, nesse início, não é o freio no salário mínimo – até porque, pelas regras acertadas durante o governo Lula (o salário sobe sempre com base na inflação do ano anterior mais o PIB de dois anos antes), o mínimo deve ter em 2012 um crescimento robusto, passando dos R$ 610. O que preocupa mais é outra coisa: a alta dos juros.

Continue lendo a primeira parte aqui. E aventure-se também na segunda, que trata mais de política do que de economia, aqui.

Um consistente balanço econômico e político dos primeiros dias Dilma, por Rodrigo Vianna

O PT e a democratização da comunicação

Desabafo de Claudia Cardoso, militante pela democratização da comunicação e autora do Dialógico, depois de a presidenta Dilma Rousseff prestigiar a festa de 90 anos da Folha de S.Paulo:

Se tem uma coisa que a militância pela democratização me ensinou é que a esquerda – em particular o PT – não tem política de comunicação.

Não basta ter uma editora, como a Perseu Abramo, que edita páginas e páginas sobre o tema. Não bastam os acadêmicos que escrevem e ensinam sobre o tema, centenas deles filiados. Não bastam movimentos sociais, muitos deles compostos por filiados ao partido, lutarem pela democratização das comunicações. Os dirigentes fazem o que bem entendem!

Ao custo de quê? Vivem a ilusão de que podem usar a mídia. Bernard Cassen, no Fórum Social Mundial de 2003 já denunciava isso.

Eu já não me surpreendo mais com isso. O presidente Lula resolveu dar o nome de Roberto Marinho a um prêmio que existia há anos no Ministério das Comunicações.

Assim, ainda está para nascer um mandatário de cargo eletivo que faça diferente em matéria de relacionamento com a mídia corporativa. Ou vocês acreditam que sai o Marco Regulatório das Comunicações neste novo período legislativo? A saber.

Veremos se sai uma nova Confecom esse ano, pra voltarmos a nos organizar em torno da democratização das comunicações.

No Rio Grande do Sul, pelo menos a intenção é positiva. Se o governo vai ter pernas para mudar alguma coisa são outros quinhentos. Mas a equipe que está trabalhando para isso só aumenta as expectativas. Parece que temos aqui um mandatário pensando assim, embora não prescinda do contato com a “imprensa corporativa”, “grande imprensa” ou como acharem melhor chamar aqueles jornais tradicionais que representam um discurso elitista de uma pequena camada da sociedade. Ainda falta alguém que assuma a bronca a nível nacional. No aguardo.

O PT e a democratização da comunicação