Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo

É ótimo que consigamos levar ensino superior a grande parte dos jovens brasileiros, especialmente àqueles que não teriam acesso sem uma interferência do estado – igualdade: se uns têm acesso, todos devem ter -, mas é preciso rever o modelo de educação que queremos. Minha crítica vai para a infinidade de pequenas universidades particulares de dois ou três cursos que formam profissionais (?) que ganham seu diploma sem a devida responsabilidade que deve acompanhar o canudo. São aprovadas pelo Ministério da Educação, na maioria dos casos, mas educam?

A maioria atende a alguns pré-requisitos que o MEC impõe. Têm um currículo de acordo com as normas, professores com formação (ainda que não saibamos se sua formação não provém de uma universidade desse mesmo tipo), infraestrutura etc. O que falta é uma avaliação maior do objetivo das profissões. Isso passa pela qualidade dos cursos – que devem promover essa reflexão de para que serve, independente da área – mas também pela sociedade. A classe média que tem acesso ao ensino superior – muitas vezes é só ter dinheiro que se tem acesso a qualquer dessas universidades – está cada vez mais banalizando esse tipo de formação.

O reflexo vem em cerimônias que são uma verdadeira palhaçada para marcar o final, o momento em que o fulano deixa de ser uma pessoa genérica e se torna um profissional certificado de alguma área. Lembro de ainda criança assistir formaturas – faço a ressalva de que eram da área de humanas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – em que o discurso dos oradores era uma manifestação política. E aqui é importante diferenciar manifestação política de manifestação partidária. Era política porque promovia uma reflexão sobre o papel que vinham desempenhar na sociedade. Tinham consciência de que não estavam se formando apenas para sua realização pessoal, mas para contribuir para a construção de um complexo sistema que permite que cada um, dentro de uma área específica, trabalhe e ajude a construir uma harmonia de atividades, que constituem a sociedade.

Toda profissão tem sua importância social, mesmo que indiretamente, e é fundamental que cada profissional saiba disso. Mas se sabe cada vez menos.

Hoje os discursos dos oradores não são mais uma mensagem daquela turma para a sociedade, que reflita sobre a profissão e o lugar no mundo. Que mostre o posicionamento daqueles formandos diante das questões sociais e a que eles vêm.

Generalizando um tanto, hoje os discursos refletem uma completa ausência de consciência social. Mostram que os formandos pouco se importam – sequer se preocupam em fazer demagogia – com os outros, nunca nem pensaram na sua função na sociedade, nunca foram instigados a isso. Os discursos são cheios de menções internas, são dos formandos para os formandos, sem conteúdo, vazios de significado.

Ainda que a preocupação social, com o outro, não seja completamente verdadeira, é mais bonito acreditar que nosso papel é importante para fazer a grande engrenagem social andar. Confere grandeza à profissão e a cada profissional.

A reestruturação do sistema educacional deve passar por essa reflexão. Os cursos têm que promover o questionamento, instigar, fazer pensar. Têm que mostrar que somos parte de algo muito maior. Assim, formaremos melhores profissionais – certamente um engenheiro vai se dedicar com mais afinco a um projeto se pensar nas pessoas que dependem dele e que ali vão morar ou trabalhar, por exemplo – e melhores cidadãos.

Para diminuir o individualismo, é preciso que entendamos que estamos integrados em uma sociedade em que cada um de nós tem seu papel para que o todo funcione melhor. Uma sociedade mais fraterna depende dessa conscientização.

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Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo

Mural: jornalismo cidadão na internet

Está novamente em discussão (ou melhor, ainda não saiu de pauta) a tal da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Uma discussão tão secundária…

Dou dois exemplos opostos. O primeiro, de um jornal do porte da Folha de S.Paulo, que tem milhões de defeitos, mas é o mais vendido do país. A Folha faz seleção de trainee, acolhendo recém formados ou estudantes em fim de curso para participarem de um processo seletivo e, se escolhidos, terem uma experiência de quatro meses na redação do jornal. Como repórteres, que fique claro. Mas o curso que o sujeito está concluindo não precisa ser jornalismo.

Mas o exemplo que quero destacar é o de um projeto assinado por Bruno Garcez, jornalista do International Center for Journalists (ICFJ), repórter licenciado da BBC e que já passou pela Folha. Bruno criou uma espécie de laboratório digital. A plataforma é bem simples: um blog. Está aí pra comprovar que bastam boas ideias e vontade pra fazer acontecer.

Através de um perfil no WordPress, Bruno criou o que chama de “agência da periferia”, um “Projeto multimídia de Jornalismo Cidadão”, o Mural. Me lembra muito a iniciativa da Rosina Duarte no Boca de Rua, em Porto Alegre. A diferença é que o Boca, até pela época em que foi criado, é feito em papel. A descrição do Mural em seu primeiro post não podia ser melhor: “Um canal para todos aqueles que querem abolir a divisão centro x periferia, todos os que desejam inverter a lógica da produção de notícias”, através do trabalho de “correspondentes comunitários”. O objetivo é romper com o vício da grande mídia e produzir conteúdo com a visão de dentro da periferia. E conteúdo multimídia.

Bruno publica posts com dicas, verdadeiras aulas de como fazer jornalismo de verdade. Tem uma parte técnica também, aquela coisa da sacada, de saber lidar com as situações, de como proceder, que se aprende com o tempo, além da estrutura da reportagem, coisas do gênero. Apresenta exemplos práticos, dá sugestões. Mas também tem muito da ética da profissão, de como produzir conteúdo cidadão, honesto, socialmente responsável.

Ainda não há exemplos de material produzido por seus alunos, até por se tratar de um projeto recente (o primeiro post é de 11 de junho). Mas o objetivo é esse. Entre os participantes, blogueiros, com alguma noção de jornalismo, e pessoas egressas da periferia. No blog, Bruno coloca exercícios que seus alunos devem desenvolver. Já fez três encontros presenciais, o que ainda limita um pouco a São Paulo. A vantagem da internet é justamente poder atingir públicos maiores, o que está nos planos. Mas tudo bem, se é preciso se ver para mobilizar de verdade, que seja assim. São Paulo já tem bastante gente precisando de mais cidadania.

Mural: jornalismo cidadão na internet