Na Folha, embargo americano vira “apoio ao povo cubano”

Na última sexta-feira, o governo americano aliviou algumas das restrições a Cuba que mantém há décadas, bloqueando o desenvolvimento de muitos setores da ilha, por impedimentos severos a trocas comerciais, viagens, intercâmbio cultural e outros.

Quando se fala em levantar o bloqueio, muitos desinformados, sem nem pensar direito no que dizem, utilizam a retórica da diplomacia, afirmando enfaticamente que os dois lados têm que ceder. Acontece que Cuba não impõe restrições aos EUA, ou seja, não o que possa ceder. A ilha é vítima de um embargo severo, ao qual nunca correspondeu.

Agora, o vizinho mais poderoso diminui um pouco o enorme prejuízo que causa a Cuba, nada mais que sua obrigação e ainda muito menos que o necessário, e é apontado com grande benfeitor.

Causa especial comoção a frase cunhada pela Folha.com. Tão curta e de tamanha desfaçatez:

“A política de flexibilização faz parte de um novo esforço americano de apoio ao povo cubano.”

Como assim, cara pálida? Quando, desde 1959, os EUA empreenderam algum esforço em prol dos cubanos? Pode até estar paulatinamente melhorando sua relação com a ilha, mas atribuir ao governo norte-americano “apoio ao povo cubano” é no mínimo extremamente ordinário, quando diversas sanções ainda são mantidas, desde 1962. A Folha simplesmente inverte a notícia. Como, aliás, admite o mesmo jornal, na mesma matéria, alguns parágrafos depois, o que reforça sua cara de pau: “A nova bateria de medidas não afeta, no essencial, as formas do embargo comercial em vigor desde 1962”.

O Estadão também trata do tema. Sem pender descaradamente para um lado ou outro, de forma mais neutra e profissional – apesar de ter um posicionamento conservador mais explicitado, o Estadão costuma brigar menos com a notícia do que a Folha -, diz:

“Estudantes e grupos religiosos poderão visitar a ilha e cidadãos dos EUA poderão enviar até US$ 500 dólares por trimestre a cidadãos cubanos não vinculados ao regime para incentivar atividades econômicas privadas.” (O destaque é meu.)

Quer dizer, o governo norte-americano alivia restrições com restrições. Como se os vinculados ao regime fossem criminosos ou causassem qualquer tipo de ameaça. Os EUA condenam aqueles que ousam ter uma ideologia diferente da sua. Eles mantêm presos há 12 anos cinco ativistas cubanos acusados de espionagem, que alegam estarem combatendo o terrorismo contra Cuba.

Acrescente-se a isso o fato de que “trabalhos jornalísticos também terão menos restrições”. Isso significa que os EUA impõem restrições aos trabalhos jornalísticos, que agora serão menores mas continuarão existindo. Mas ninguém fala em ameaça à liberdade de expressão no país que restringe a atuação de seus comunicadores e pune quem pensa muito diferente.

Anúncios
Na Folha, embargo americano vira “apoio ao povo cubano”

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica

Julian Assange é o primeiro geek caçado globalmente: pela superpotência militar, por seus estados satélite e pelas principais polícias do mundo. É um australiano cuja atividade na internet catupultou-o de volta à vida real com outra cidadania, a de uma espécie de palestino sem passaporte ou entrada em nenhum lugar. Ele não é o primeiro a ser caçado pelo poder por suas atividades na rede, mas é o primeiro a sofrê-lo de um jeito tentacular, planetário e inescapável. Enquanto que os blogueiros censurados do Irã seriam recebidos como heróis nos EUA para o inevitável espetáculo de propaganda, Assange teve todos os seus direitos mais elementares suspensos globalmente, de tal forma que tornou-se o sujeito mundialmente inospedável, o primeiro, salvo engano, a experimentar essa condição só por ter feito algo na internet. Acrescenta mais ironia, note-se, o fato de que ele fez o mais simples que se pode fazer na rede: publicar arquivos .txt, palavras, puro texto, telegramas que ele não obteve, lembremos, de forma ilegal.

Assange é o criminoso sem crime. Ao longo dos dias que antecederam sua entrega à polícia britânica, os aparatos estatal-político-militar-jurídico dos EUA e estados satélite batiam cabeças, procurando algo de que Assange pudesse ser acusado. Se os telegramas foram vazados por outrem, se tudo o que faz o Wikileaks é publicar, se está garantido o sigilo da fonte e se os documentos são de evidente interesse público, a única punição passível, por traição, espionagem ou coisa mais leve que fosse, caberia exclusivamente a quem vazou. O Wikileaks só publica. Ele se apropria do que a digitalização torna possível, a reprodutibilidade infinita dos arquivos, e do que a internet torna possível, a circulação global da hospedagem dessas reproduções. Atuando de forma estritamente legal, ele testa o limite da liberdade de expressão da democracia moderna com a publicação de segredos desconfortáveis para o poder. Nesse teste, os EUA (Departamento de Estado, Justiça, Democratas, Republicanos, grande mídia, senso comum) deixaram claro: não se aplica a Primeira Emenda, liberdade de expressão ou coisa que o valha. Uniram-se todos, como em 2003 contra as “armas de destruição em massa” do Iraque. Foi cerco e caça geral a Assange, implacável.

guardian-07122115-1.jpgWikileaks é um relato de inédita hibridez, para o qual ainda não há gênero. Leva algo de todos: épica, ficção científica, policial, novela bizantina, tragédia, farsa e comédia, pelo menos. Quem vem acompanhando a história saberá da pitada de cada uma dessas formas literárias na sua composição. O que me chama a atenção no relato é que lhe falta a característica essencial de um desses gêneros: é um policial sem crime, uma ficção científica sem tecnologia futura, uma novela bizantina sem peregrinação, comédia sem final feliz, tragédia sem herói de estatura trágica, épica sem batalha, farsa sem a mínima graça. Kafka e Orwell, tão diferentes entre si, talvez sejam os dois melhores modelos literários para entender o Wikileaks.

Continue lendo, n’O Biscoito Fino e a Massa.

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica

As últimas do Wikileaks

Os documentos obtidos pelo Wikileaks que vieram à tona mais recentemente – divulgados ontem pelo Le Monde – trazem, entre outras revelações, o seguinte trecho, de uma correspondência americana de novembro de 2009:

“O Brasil considera entrar em uma competição com os Estados Unidos na América do Sul e desconfia das intenções americanas (…) O Brasil tem uma necessidade quase neurótica de ser igual aos Estados Unidos e de ser percebido como ele.”

Quem escreveu esse documento reflete uma visão arraigada na sociedade média norte-americana. Uma visão egocêntrica: os Estados Unidos são os melhores, acima de qualquer outro lugar do mundo, e, por óbvio, todos os países devem querer se tornar uma cópia do país norte-americano. Assim o Brasil é interpretado, mas eles esquecem de olhar para as mudanças na geopolítica mundial com um olhar mais aberto às novidades. Daí incorrem em um erro que tende a ser prejudicial a eles próprios. Afinal, quem não consegue enxergar o cenário com o qual lida tende a tomar decisões equivocadas, baseadas em uma crença de uma situação imaginária.

No caso em questão, faltou aos Estados Unidos enxergarem que o Brasil está, sim, disputando a liderança na América do Sul, mas não para “ser igual aos Estados Unidos” ou “ser percebido como ele”. Porque historicamente os países sul-americanos percebem os EUA como a potência dominante e dominadora, que impõe políticas que interessem apenas a si, na maioria dos casos prejudicando ou não beneficiando os países do Sul.

O Brasil age de outra forma. Se ainda não tem cacife suficiente para disputar uma posição de liderança com os EUA no cenário mundial, ao menos aproveitou da melhor forma seu crescimento, utilizando todos os meios para influenciar positivamente na geopolítica regional e também na mundial. Mas exerceu uma influência diferente, porque não imperialista. Ou seja, o Brasil não quer “ser igual”, quer ser, na verdade, muito diferente. Quer, e vem conseguindo, exercer sua liderança para fortalecer os países da região, e não para enfraquecê-los e mais facilmente dominá-los, como era de praxe aos que por aqui se abancavam.

A diferença é que o Brasil exerce uma política externa baseada na solidariedade, coisa que os Estados Unidos ainda não demonstraram conhecer. É a grande mudança em um cenário acostumado a quem vem de fora para conseguir lucro e aumentar seu poder.

As últimas do Wikileaks