Revista Época ofende todos os brasileiros

Muito feio o papelão da Globo nas eleições 2010, devia levar palmada na bunda. É o que se faz quando a criança inventa uma história querendo levar vantagem. Às vezes, a história nem é totalmente mentirosa, mas uma coisa bonita fica feia pelo jeito que é contada. Aí o moleque quebra o vaso jogando futebol dentro do apartamento e fala sobre como vasos enfeiam uma sala pro pai mudar de assunto e não achar grave. Ou dá um jeito de ficar parecendo que quem fez bobagem foi o amiguinho.

Faz só dois dias que postei sobre uma malandragem do Jornal Nacional – as entrevistas sacanas com os presidenciáveis. Êita criança arteira essa, que tem que inventar história o tempo todo. Pra não ficar tão na cara – ou será que já não se preocupam mais com isso? – mudaram a mídia, mas a sacanagem é a mesma. Aquela história velha da Dilma terrorista – de novo! – está na capa da revista Época dessa semana.

Achei que já tinha ficado claro que é muito feio usar uma resistência difícil e honrada a um regime que foi um terrorismo de Estado como uma “luta armada” pura e simples. Fica parecendo que a pessoa é má e decidiu pegar em armas porque não tinha nada melhor pra fazer. Êpa!

E detalhe, não há nenhum lugar que aponte que Dilma tenha efetivamente usado esse recurso contra a ditadura militar – e, se tivesse, não seria motivo de vergonha, apenas uma das formas de combater a repressão. É verdade que a candidata petista fez treinamento para tal, mas e daí?

Na verdade, nenhuma dessas filigranas importam. A resistência à ditadura foi dura e a forma que cada um encontrou de exercê-la é louvável. Fácil, naquele momento, era estar ao lado do regime ou nada fazer. Usar essa resistência para desmerecer uma pessoa chega a ser imoral. É baixo mesmo. Ofensivo.

Ofende a todos que lutaram para que hoje tivéssemos um país livre, um país em que é possível exercer a oposição, em que uma revista semanal de circulação nacional ofende na capa a candidata do presidente e não sofre represálias por isso. Um país sem censura, sem tortura, sem prisão política, sem assassinato de opositores.

Esse tipo de “jornalismo”, de insinuação, ofende a todos aqueles que herdaram esse país livre. E que deviam agradecer não só a Dilma, mas aos que protestaram nos jornais, que foram às ruas, os presos, os torturados, os humilhados. Os perseguidos, os exilados, afastados de seu país à força. Agradeço a eles pelo Brasil que tenho hoje. Cheio de defeitos, mas que me permite apontar esses defeitos. Falar, escrever, exercer minha democracia.

Revista Época ofende todos os brasileiros

Brasil, Argentina e suas pós-ditaduras

Em um dia, a Argentina é considerado inconstitucional o indulto concedido a José Martinez de Hoz, ministro durante a ditadura militar, e do ex-ditador (uma vez ditador, sempre ditador, embora o jornal O Globo o trate como ex-presidente militar) Jorge Videla. No dia seguinte, o Brasil adia a decisão sobre a revisão da Lei da Anistia.

Independente de como vai terminar esse capítulo da nossa história, é absurdo que até agora nada tenha acontecido de concreto para punir assassinos, torturadores, censores. Os que ainda vivem vão ficando velhos. Muitos já morreram. E a história da impunidade fica. Não julgá-los é absolvê-los, é esquecer, é humilhar os que foram vítimas deles.

Videla está preso desde 1985, condenado à prisão perpétua dois anos depois da redemocratização. Vinte e cinco anos depois do fim da ditadura brasileira… Bem…

A comparação me envergonha.

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Mais informações:

Relator no STF vota contra revisão da Lei de Anistia (Terra)
No STF, relator vota pela manutenção da Lei da Anistia (G1)

Brasil, Argentina e suas pós-ditaduras

Estadão se rebaixa para bater no PT e na UNE

Dessa vez não é uma questão de posicionamento político. O Estadão perdeu a compostura.

Criticar a indenização à União Nacional dos Estudantes em função de sua destruição durante a ditadura poderia até ser legítimo, questão de opinião, embora divergente da minha. Denunciar uma possível promiscuidade entre UNE e governo federal seria até jornalisticamente saudável, desde que contendo provas.

Pois o Estadão fez as duas coisas, mas de forma baixa, e sem as tais provas, em seu editorial de ontem. Acusou o governo de dar um jeitinho, contornar a lei para favorecer aliados. E logo, depois de dizer isso, fala que o primeiro passo foi reconhecer “a responsabilidade da União na destruição do prédio da entidade”. Mostra como se fosse um presente de Lula à UNE um reconhecimento que o próprio Estadão fez, no texto em questão, no parágrafo anterior.

Mas o mais grave vem depois. O jornal desqualifica a UNE quando diz que ela sobrevive em função de “boquinhas que conquistou nos dois mandatos do presidente Lula”. Juro, o termo está lá, com todas as letras, em uma linguagem que eu não esperaria de um jornal como o Estadão: sisudo, sério, responsável. Mas só quando convém, nota-se.

O objetivo da coisa toda logo fica claro pra quem ainda não tinha percebido: acusar o governo Lula, que teria “cooptado” os movimentos sociais e qualquer tipo de entidade ligada às centrais sindicais.

É engraçado que o Estadão critica o governo por tirar a legitimidade daquilo contra o qual o jornal briga desde sempre. O Estadão é claramente contrário à luta dos movimentos sociais, como sempre o demonstrou. Se eles tivessem de fato perdido sua credibilidade, o jornal estaria dando pulinhos.

Resumindo: a função toda não faz o menor sentido.

Estadão se rebaixa para bater no PT e na UNE

Comentarista da RBS faz defesa contundente da ditadura

Luiz Carlos Prates, da RBS TV de Florianópolis, faz uma defesa desabrida e contundente da ditadura militar. Ele não apenas acha que houve mais progresso nos anos de chumbo. Ele afirma categoricamente que naquela época se tinha liberdade, porque ele podia andar nas ruas sem medo de noite. Nega a perseguição política e ideológica quando diz que ninguém era proibido de estudar, de comprar livros, de ir e vir. Nega, com essa afirmação, que pessoas foram mortas, torturadas. Quando estavam na cadeia, podiam ir e vir? Quando foram expulsos do Brasil, tinham a liberdade de andar pelo país?

Alguém tem que ensinar para esse cidadão que o fato de não ter acontecido com ele não quer dizer que não aconteceu com outros. Quando se persegue alguém por pensar diferente, não há liberdade. Não termos hoje a sociedade dos sonhos nem uma democracia perfeita não significa que uma ditadura seja melhor. Muito pelo contrário. Precisamos é unir forças para construir juntos uma democracia de verdade.

Se não fosse tão assustador e tão grave, seria engraçado um comentarista da empresa que detém o monopólio das comunicações no sul do Brasil falar em liberdade. A RBS é a prova de que hoje não temos liberdade de imprensa, só de empresa, de que há censura econômica. Mas isso não nega a existência da censura política explícita existente nos anos de chumbo.

Como cidadã brasileira e como filha de exilado político, sinto-me ofendida por essa apologia da ditadura.

Comentarista da RBS faz defesa contundente da ditadura

Pelo fim da impunidade no Uruguai

uruguaiEstão sendo votados hoje no Uruguai, além do presidente e outros cargos políticos importantes, dois plebiscitos. Um diz respeito ao voto de um de cada cinco uruguaios, os que residem no exterior. O país que expulsa seus jovens pela falta de oportunidades criada pelo desemprego, pela concentração de terras, agora quer impedi-los de votar.

“Nuestro país, país de viejos, no sólo castiga a los jóvenes negándoles trabajo y obligándolos al exilio, sino que además les niega el ejercicio del más elemental de los derechos democráticos.”Eduardo Galeano, em discurso essa semana (20 de outubro) em Montevidéu

O outro tema a ser votado é ainda mais importante. Diz respeito à anistia, ou, melhor dizendo, à impunidade aos ditadores militares, estabelecida em 1986 e aprovada através de plebiscito em 1989. É a oportunidade dos uruguaios de fazerem uma revisão histórica, de retomarem seu passado e condenarem os crimes cometidos. A única forma de alcançar justiça hoje é combater a impunidade de ontem.

Eduardo Galeano atribui a derrota em 89 ao medo, que agora não existe mais. Medo provocado pelo governo e pela mídia (por que não me espanto com isso?): “Creemos que aquella derrota nuestra fue en gran medida dictada por el miedo, un bombardeo publicitario que identificaba a la justicia con la venganza y anunciaba el apocalipsis, larga sombra de la dictadura que no quería irse; y creemos que nuestro país ha demostrado, en estos primeros años de gobierno del Frente Amplio, que ya no es aquel país que el miedo paralizaba”.

Encerro hoje por aqui, desejando a vitória de José Mujica e o fim da impunidade. Pelo menos no Uruguai, já é um começo.

Pelo fim da impunidade no Uruguai

Ídolos

uruguaiEmbora a Zero Hora tenha exagerado um pouco os aspectos comuns entre o Grenal e as eleições no Uruguai, ambos acontecendo hoje, a relação entre duas coisas tão díspares existe mesmo. E vou aproveitar o momento para uma pequena provocação.

Ok, não tem nada a ver uma coisa com a outra. As posições de um jogador, de um clube, de um dirigente não têm nada a ver com o amor ao time e tal. Mas me orgulho hoje de não ter como um dos heróis do meu time uma figura como Hugo de León. Mas admito, tenho até pena dos meus amigos gremistas que sofrem desse mal.

Entre um alienado total, como a maioria dos jogadores de futebol, e o candidato a vice-presidente do filho de Juan Bordaberry, o responsável pelo golpe de Estado que fez o Uruguai entrar em uma ditadura militar em 1973, prefiro ainda os que não sabem o nome do presidente do Brasil. Seu mal para o mundo é grande, mas é bem menor do que o de um cara que, segundo a Zero Hora, “condena o passado guerrilheiro do favorito” na disputa à presidência uruguaia.

José Mujica, candidato da Frente Ampla e em primeiro lugar nas pesquisas, integrou a guerrilha dos Tupamaros, que combateu justamente a ditadura de Bordaberry, pai do candidato a presidente pelo Partido Colorado. Ditadura que matou, torturou, perseguiu, censurou, tal qual no Brasil. Os Tupamaros foram um importante movimento no contexto de resistência à repressão na América Latina. Um movimento guerrilheiro que, além da luta armada, à Robin Hood, roubava dos ricos para distribuir aos pobres.

Ídolos