Implicância com Dunga ultrapassa o bom senso

A implicância da imprensa com Dunga não tem nada de pessoal ou ideológica. Tudo bem, eles nunca foram com a cara do nosso anão-mor, mas os motivos de tentarem acabar com a imagem do agora ex-treinador da Seleção Brasileira vão além. A grosseria de Dunga ajuda a justificar o tratamento, mas não é o que o motiva.

Dunga fez o que muitos poucos tiveram coragem: enfrentou a Globo, negando-lhe exclusividade no acesso aos jogadores brasileiros, o que deve tâ-la feito perder alguns centavos por aí… Independente de estar certo ou errado na escalação, não se curvou aos desejos dos comentaristas esportivos que se esforçam para dirigir a opinião pública nessa ou naquela direção. Mesmo que o treinador apresente posições políticas pouco contundentes, o que convém ao jornalismo tupiniquim ou, quando se manifesta, demonstre posturas conservadoras, sua postura profissional ataca interesses econômicos e políticos da emissora e de suas congêneres.

Mas existem situações que ultrapassam esses interesses, e qualquer coisa vira motivo para criticar o técnico. A implicância da imprensa brasileira – que é extremamente corporativista e unida quando convém – está beirando o ridículo:

Implicância com Dunga ultrapassa o bom senso

Mau jornalismo da Globo já é destaque internacional

Post atualizado em 02 de julho, às 23:45.

Cospe pra cima, cai na testa, dizia minha mãe. Foi o que aconteceu com a Globo hoje.

O jornal paraguaio La Nación diz que a Laranja Mecânica foi responsável por “acallar a la soberbia brasileña”. E por “brasileira” ele se refere à Rede Globo, não ao país como um todo, como fica claro logo nas frases seguintes. A crítica se dirige especialmente à SporTV, canal fechado que pertence à emissora e que divulgou um vídeo desrespeitoso à Seleção Paraguaia e ao Paraguai, a seu povo.

O desrespeito vai além do futebol, segundo o jornal: “ironizan sobre nuestras comidas y nuestras costumbres”, em linguagem debochada. O único valor paraguaio apresentado pelo vídeo é Larissa Riquelme, a “novia del Mundial”. Além de agressivo com os paraguaios, o curta é machista. Desvaloriza todo um povo e todo um gênero. As mulheres são vistas como objetos.

A matéria se coloca ao lado de Dunga pela resistência aos abusos da Globo. E completa: “La Naranja Mecánica se encargó así de hacer justicia y dar una gran lección a quienes tienen en el corazón una rabia innecesaria hacia una nación pobre pero digna”.

Mesmo que o grau de deboche fosse exagerado pelos paraguaios, chamaria a atenção que a Globo já vem recebendo críticas internacionais por conta da sua irresponsabilidade na forma de fazer jornalismo. Mas não é o caso, a ironia é de fato extremamente ofensiva. O vídeo trata o nosso vizinho como um país desprovido de quaisquer qualidades, feio, triste, pobre. É asqueroso.

Debochar de outros países extrapola os limites do esporte, do futebol, e avança no terreno político. São as relações internacionais brasileiras, são povos, são culturas. Pode haver diferenças, mas não há como definir melhores e piores. É aí que entra o respeito. Ou deveria entrar.

A Globo transferiu a ironia que dedica à política externa do governo Lula ao futebol. Fez mal, muito mal. E ficou bem feio.

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A dica da matéria do jornal paraguaio foi dada por Dodi (@dodi_vota13), pelo Twitter

A foto é de Reinaldo Marques/Terra.

Mau jornalismo da Globo já é destaque internacional

Breves comentários sobre notícias do dia

A Islândia quase foi à falência, mas antes disso liderava rankings de desenvolvimento humano, felicidade, essas coisas bem positivas que todo o mundo quer ter. Um país nórdico, frio de gelar os ossos, mas com níveis avançados de educação e igualdade social. O resultado de políticas voltadas para o ser humano, de um desenvolvimento não apenas econômico – o qual se viu ser uma falácia -, mas principalmente social, é esse:

“Primeira-ministra da Islândia se casa com parceira”, é notícia no Estadão. O país não só liberou a união entre parceiros do mesmo sexo, como é suficientemente esclarecido para aceitar que sua chefe de Estado se case com outra mulher.

Fiquei positivamente surpresa de termos algum lugar no mundo com esse nível de aceitação. Contente mesmo.

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“Dunga admite preocupação com cartões de Kaká”, também do Estadão.

Peraí, ele não era o bom moço evangélico que casou virgem e toda a sogra queria como genro?

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“Guerra diz que rixa com DEM compromete vitória de Serra”, d’O Globo.

O PSDB gastou o Alckmin nas eleições passadas para não usar o candidato mais forte em uma eleição perdida, contra o bem-cotado presidente Lula. Preferiu guardar a carta principal para quando a disputa fosse mais fácil. Errou feio. Acreditando na suposta superioridade de Serra contra qualquer outro candidato que não Lula, adotou estratégias equivocadas. A começar por acreditar que o Serra fosse tudo isso. O resultado é que o candidato tucano mostrou-se despreparado em muitos casos, não sabendo como agir, ora criticando duramente o governo, ora querendo parecer quase parte dele, para pegar carona na popularidade de Lula. Nada disso vem dando certo.

Depois do fiasco de o segundo colocado em todas as pesquisas à Presidência de um país grande e importante como o Brasil não conseguir ninguém que queira ser seu vice, vem a briga pública com o DEM. Convenhamos, amadorismo total. Parece que entraram na política ontem, não conseguem lavar a roupa suja em casa e vêm afundando a própria candidatura, que já andava com água pela cintura.

Resumindo, apesar da equipe supostamente competente, de ter a estrutura de um partido forte e rico como o PSDB por trás, Serra não precisava nem de rixa com o DEM para ver suas chances de se tornar presidente declinarem. Começou se achando a última bolachinha do pacote, disputadíssimo. Viu-se quase implorando para alguém aceitar posar a seu lado e afundar de mãos dadas. Com Álvaro Dias ou com o DEM, Serra cai. Não precisa nem de empurrão.

Breves comentários sobre notícias do dia

Dunga e Ronaldinho

Lembra quando o Dunga voltou pro Brasil pra encerrar a carreira de jogador no Inter, o time do coração? Naquela época o Inter patinava. O Grêmio ia bem melhor. Até porque tinha um cara estreando que deu o que falar. Ronaldinho Gaúcho estava em início de carreira. Era um guri simpático ainda, e ainda jogava muito. Ou melhor, recém começava a jogar muito. Isso foi em 1999, há mais de uma década, mas tem coisas que não se esquece nunca…

Pois bem, naqueles tempos houve um Gre-Nal. Ninguém me convence de que há outra rivalidade maior no futebol brasileiro, quiçá mundial, do que entre Grêmio e Internacional. E Ronaldinho Gaúcho cometeu um pecado grave contra os colorados. Poucos o perdoaram por isso. Dunga, um dos ídolos do time, capitão do Tetra da Seleção Brasileira, levou um chapéu de um guri que acabava de sair das fraldas. E um chapéu feio que dói. Ou bonito, dependendo do ponto de vista, quer dizer, do time para o qual torce a pessoa. Eu achei bem feio, mas na verdade foi perfeitinho, ele dá o toque, a bola passa por cima de Dunga e Ronaldinho a recebe no peito. E a gente teve que engolir, fazer o quê?

Agora Dunga é técnico da Seleção Brasileira. Ronaldinho já teve fases bem piores do que a atual, mas está em fim de carreira. Eu acho, pelo menos. Mas enfim, ele tem renascido das cinzas e surpreendido no futebol europeu. Voltou a jogar bem o rapaz. E foi bem cotado pelos comentaristas para voltar à Seleção, embora ele não tenha voltado a jogar o seu melhor futebol (e, diga-se de passagem, não vai voltar, desculpa aí pessoal).

Mas o técnico é o Dunga. Aquele do chapéu. E não convocou Ronaldinho. O que me leva a pensar: será que na hora da decisão vem aquela sensação bem humana de uma vingancinha tardia? Será que Dunga pensa “ah, seu filho da puta, agora a situação se inverteu, quem tem a bola no pé sou eu”, e termina com aquela risadinha maléfica da madrasta da Branca de Neve?

Não sei. Só sei que o Dunga é o técnico e o Ronaldinho não está na Seleção.

Dunga e Ronaldinho