A obscena fortuna de Eike

Se alguém me dissesse que tem na conta quase 700 milhões de reais, eu acharia o mundo injusto.

Perguntado por Marília Gabriela sobre o valor pago ao imposto de renda no ano passado, o empresário Eike Batista respondeu: “eu assinei um cheque de 670 milhões”. Não foi possível pagar no Rio de Janeiro porque o sistema não comportava o número de zeros. Teve que ir a São Paulo.

Nesse caso, já não é uma simples injustiça. É obsceno.

Emir Sader disse em mais de uma ocasião que só há pobres porque há ricos. É a oposição entre os extremos que perpetua a desigualdade. A culpa não é especificamente do Eike. Ele fez o jogo direitinho, se apropriou com inteligência das ferramentas que teve à disposição e acumulou muito dinheiro. Isso não faz dele uma má pessoa, mas demonstra que as coisas estão erradas, estão tortas.

Um sistema de sociedade justo deveria impedir que essas distorções ocorressem. O governo Lula vem conseguindo diminuir as distorções para menos, reduzindo a pobreza. Dilma fala agora em acabar com a miséria no Brasil. Mas não se fala em corrigir as distorções para mais.

Tudo bem, eles fazem o mais importante e urgente. Dar condições dignas de vida a todos é imperativo. Mas isso seria inclusive facilitado se alguma providência fosse tomada também com relação às grandes fortunas.

A obscena fortuna de Eike

Tanta riqueza é imoral

Ainda que não seja ilegal, uma fortuna de 27 bilhões de dólares é imoral. Não tem como não ser. Por mais correto que o dono dela seja – não que isso se aplique ao caso -, tanto dinheiro é uma afronta.

Tá, sou contra aquelas pessoas que engolem toda a comida porque tem gente passando fome. Acho que isso não faz o menor sentido, assim como também não precisamos nos privar de pequenos luxos porque o mundo é cruel.

Mas é importante lembrarmos que a pobreza só existe pela oposição à riqueza. Uma não existe sem a outra, elas são interdependentes. Uma gera a outra, se retroalimentam.

Eike Batista teve um incremento em sua fortuna de 19,5 bilhões de dólares em apenas um ano. Não é que ela dobrou, ela triplicou. Tanto que ele subiu da 61ª para a 8ª posição no ranking dos mais ricos do mundo da revista Forbes.

E outra: não só o primeiro lugar deixou de ser norte-americano como ele agora é ocupado por um mexicano do ramo das… telecomunicações. O famoso Carlos Slim é a figura, cujos bilhões são fruto da privatização da telefonia mexicana. UM homem ficou rico. Podre de rico. O resto povo? Comeu neoliberalismo…

Não, comunicação não dá dinheiro. Dá dinheiro usar a comunicação de forma imoral, antiética, ilegal. Usar como ferramenta de poder.

O poder que o dinheiro dessas criaturas lhes dá é o que perpetua a situação de desigualdade da sociedade. A existência dessas fortunas, e seu constante crescimento, são a prova de que a desigualdade de renda se perpetua em vez de diminuir. Sabe aqueles números famosos que dizem que uma pequena parcela da população concentra a maior parte da riqueza? Está aí ó.

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A notícia saiu na imprensa hoje. Reparem no texto da Wikipedia sobre Eike: “Antes conhecido por ser ex-marido de Luma de Oliveira e filho de Eliezer Batista, tornou-se ainda mais conhecido para o público em geral ao conquistar a maior fortuna do país, avaliada em 27 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes (estimativa feita em março de 2010).”

Tanta riqueza é imoral