Marilena Chauí denuncia papel da imprensa nas eleições

Judith Brito dizia que a grande imprensa brasileira faz papel de oposição. A presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) não se envergonhou de admitir, pouco antes do processo eleitoral, não só que nossa mídia não é neutra, mas que não é plural.

Hoje, passada a eleição em que – pode-se dizer diante da afirmação de Judith – a imprensa perdeu, Marilena Chauí fala do papel da mídia com uma simplicidade aterradora, ao mesmo tempo que baseada em conceitos filosóficos e linguísticos que a balizam.

“Durante oito anos, nós tivemos que aguentar que era um problema o Lula aparecer nos lugares os mais diferentes e improvisar. Tinha mania de improvisar os discursos e aí dizia muita bobagem. Quanta bobagem ele disse por causa de improvisar. Então, Dilma ganha e vai à televisão, leva um discurso e lê. O que você vê nos comentadores da televisão, nos comentadores do rádio e no dia seguinte nos jornais? “Ah, não tem a capacidade de improviso do Lula, ela precisa ler, coitada, tudo dela é preparado… Você vê, ela teve que vir preparada, ela não é capaz de improvisar.” Eu tinha vontade de atravessar os fios eletrônicos e bater nas pessoas, porque chegou num grau de perversidade, num sentido psicanalítico do termo. No nível do discurso, não dá mais, porque quando você vira na direção da perversão, a primeira característica da perversão é a de que ela é impermeável ao discurso. O grande problema da terapia psicanalítica na hora em que ela é impermeável ao discurso, porque a psicanálise opera no nível da linguagem. E você tem um evento que está ou aquém ou além do discurso. Então, a perversidade e a perversão dos comentários sobre o fato de ela ter o discurso escrito foi tal que eu falei: Já temos aqui o que serão os próximos quatro anos. Os próximos quatro anos vão ser um inferno como foram os oito do Lula, e sobretudo os quatro primeiro anos do Lula. Vai ser um inferno e não tem jeito.”

Exatamente, Marilena, muitas vezes deu e dá vontade de pular pra dentro da telinha pra sacodir o cara, pela obviedade da idiotice, da cara de pau, da tentativa de manipulação.

Marilena Chauí foi cotada para o ministério de Dilma. Não está lá, mas continua ligada ao PT e ativa nas suas ponderações, sugestões, avaliações e críticas. Vale a pena a leitura da entrevista completa com a filósofa à Caros Amigos.

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Marilena Chauí denuncia papel da imprensa nas eleições

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Nada contra a abertura dos arquivos da ditadura, muito pelo contrário. Defendo, sempre defendi, que sejam disponibilizados para a sociedade. Afinal, é nossa história. Temos o direito de conhecê-los, para atualizar nossa literatura histórica e melhor pensar o presente e o futuro. Temos o direito de conhecê-los para exigir justiça e punir torturadores.

Mas abrir arquivos de uma única pessoa não me parece sensato. Quando analisadas as condições em que se dão a abertura autorizada essa semana, fica ainda pior. A pessoa em questão é a presidente eleita, Dilma Rousseff. Quem pediu foi o jornal Folha de S.Paulo, que manteve oposição a Dilma ao longo de toda a campanha em 2010. Que já usou arquivos para acusar Dilma de supostos crimes cometidos ou planejados durante os anos de chumbo. Tudo isso sem dar a devida contextualização de como funcionava a resistência a um regime que censurava, torturava, matava. O jornal da ditabranda.

Nos arquivos da ditadura há a versão dos ditadores. Versão sempre pejorativa em relação aos presos, torturados, perseguidos, exilados. Ainda assim, devem ser abertos para estudo, insisto. Ali encontraremos listas de pessoas malquistas pelo regime, saberemos o que aconteceu com elas, quem fez o quê, quem torturou quem. É muita informação para compreendermos melhor como funcionava a cabeça de quem usa de métodos torpes para fazer “política”, para conseguir poder.

Mas para isso eles têm que ser lidos com o olhar de quem entende que aquela é uma visão parcial, que foi escrito por quem torturava, não por quem era torturado. Que ali se descreviam o que chamavam de crimes cometidos ou planejados por quem não tinha acesso aos documentos oficiais para registrar sua versão e que não era ouvido como réu ou como testemunha. Que os crimes ali descritos podem nem ter acontecido ou, mesmo que tenham, a imensa maioria se deu dentro de um contexto de luta pela democracia, de resistência a um regime sangrento.

A utilização das informações ali contidas como sendo a verdade total e absoluta é perigosa. Pode gerar distorções graves e grandes consequências. Pode consolidar uma imagem negativa que a oposição tentou impor que vincula a presidente eleita a uma resistência armada mesmo sem ela ter pego em armas – ainda que essa tenha sido uma forma legítima de resistência. Que atribui a Dilma a pecha de terrorista em um momento em que o mundo cultiva uma imagem negativa de quem leva esse título, geralmente muçulmanos que atentam contra o capitalismo ocidental.

Por enquanto, quem tem acesso aos arquivos é a Folha de S.Paulo, que não publicou ainda nada com base neles. Enquanto não forem bem ou mal utilizados, são apenas suposições. Quero crer que estou errada na minha avaliação precipitada.

Pelo direito à verdade e à informação completa é que faço campanha pela abertura de todos os arquivos da ditadura. Para que nenhum arquivo seja aberto sem que todos os outros lhe acompanhem. Para que tenhamos acesso a toda a verdade e a compreendamos em toda a sua complexidade.

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

As eleições da internet – Parte 2

A força da internet não é visível a olho nu. Ela parte dos bastidores e se faz sentir por quem a olha com cuidado. A disseminação de boatos, muito usada pelo PSDB entre o final do primeiro turno e o segundo, é mais fácil de identificar, se mostra mais. Mas as redes sociais foram também importantes.

Pela primeira vez, os grandes veículos de comunicação não puderam manipular informações como bem entendessem para passá-las ao público. Até porque mudou a relação repórter-leitor, produtor-consumidor de informação. A produção de conteúdo, a disseminação de informação começou um processo de horizontalização, em que produtor e receptor misturam-se e confundem-se.

Internet: avaliação e fiscalização

Às matérias disseminadas nos canais de mais audiência e nas revistas e jornais de maior tiragem sempre havia olhos atentos com espaço para publicar desmentidos. Se poucos leram no Twitter antes de a Veja sair que a história da Erenice não era bem aquela que a revista contava, os próprios veículos sabiam que estavam sendo fiscalizados por leitores atentos e que mentir poderia afetar de forma inexorável sua credibilidade.

Eles tentaram. Muito factóide foi gerado e informação falsa circulou, mas, pela sentimento de raiva e ódio despertado nessa campanha, pode-se imaginar que teria sido muito pior se não houvesse um meio para desmascarar as tentativas de mostrar os fatos com alguns detalhes diferentes que mudassem seu significado.

Pautando a agenda

Nesse sentido, a mobilização na internet se deu mais pela fiscalização dos meios de comunicação e pela influência na agenda de discussões do que pela mudança direta de voto. Mesmo que a maioria dos brasileiros eleitores não tenham acesso à rede, as informações que circularam nela pautaram em diversas ocasiões os veículos pelos quais se informam.

Houve declarações e fatos que antes não seriam dados e que acabaram na tevê porque a rede escancarou-os e ficaria muito feio as emissoras fingirem que não viram, que não sabem. Muita mentira foi desmentida, algumas antes até de serem publicadas no papel. Exemplo maior é o episódio da bolinha de papel. A Globo deu distorcido, mas esse ato não passou em branco: até seus repórteres acabaram envergonhados porque confrontados com os fatos que já circulavam na rede e que não havia como negar.

Interatividade e tecnologia

Não havia como negar, aliás, porque em 2010 em todo lugar, em cada canto havia lá um celular com câmera gravando um vídeo que mostrava uma cena. Como dizer que aquilo não ocorreu se havia uma prova material? O desenvolvimento tecnológico, que acompanha mais ou menos o ritmo em que se processa a influência da rede, contribuiu para que, apesar de tudo, as eleições de 2010 fossem mais transparentes. Foram baixas, de muita mentira, mas de muita mentira desmentida.

A tecnologia, então, ajuda quem está nas redes sociais fiscalizando as informações transmitidas a mostrar o que de fato aconteceu, quando retratado de forma diferente.

Equipes mobilizadas e mobilizando militantes do Brasil inteiro estavam contratadas pelas campanhas. Muita gente, com infraestrutura montada especificamente para a atuação nos meios digitais, havia nas diferentes campanhas. Mas havia, além da estrutura montada pelos partidos, militância voluntária, que foi o grande diferencial. Blogueiros estavam presentes diariamente, pegando as deixas dos veículos, fazendo matérias e ajudando a divulgar o que outros blogueiros postavam.

O papel da blogosfera

A força da rede se deu principalmente com a atuação dessas pessoas. Incomodou tanto que o próprio Serra se revoltou e xingou a blogosfera, dizendo que esses blogueiros eram pagos pelo PT, eram “blogueiros sujos”. A reação a essa declaração acabou dando o efeito contrário do que queria o tucano e fortalecendo os “sujos”, que passaram a ostentar o título com orgulho.

O período eleitoral coincidiu com a realização do I Encontro de Blogueiros Progressistas, em São Paulo. Em sua maioria identificados ideologicamente com a campanha Dilma, mas independentes, sem incentivo governamental ou partidário, organizaram-se em uma espécie de rede. Embora fosse proposta do evento, do qual participei, não chegou a ser efetivado um espaço para reunir as atualizações dos blogueiros participantes, mas serviu para conhecer pessoalmente muita gente que antes parecia uma imagem difusa, porque virtual. Nesse sentido, dá força para que a dedicação aumente, porque cria uma identificação.

Eram eles que produziam a maior parte do conteúdo que circulava na rede na campanha dos candidatos de esquerda, mas mesmo os textos produzidos pela equipe da campanha não teriam a mesma força se não fossem repercutidos por esse pessoal.

Por tudo isso, digo sem medo de errar que 2010 foi o primeiro ano em que a internet entrou pra valer na disputa eleitoral no Brasil. 2012 deve ser ainda mais e 2014 eu nem consigo imaginar. Mas já começamos com força esse ano.

As eleições da internet – Parte 2

As eleições da internet

Alguns esperavam que 2010 teria uma eleição com muitos milhões de brasileiros conectados em rede, tendo na internet sua principal fonte de informação, trocando conteúdo descentralizado e influenciando diretamente no resultado das urnas. No fim do processo, a frustração com o papel menor que o esperado da rede fez com que boa parte dessas e de outras pessoas dissesse enfaticamente que essa ainda não foi a eleição da internet e menosprezasse seu papel.

O exemplo americano

O que leva a essa conclusão é principalmente a comparação com as eleições americanas que elegeram Barack Obama com a ajuda da internet como parte central da decisão. É preciso, em primeiro lugar, ressaltar que há diferenças substanciais no modelo americano e no brasileiro. A começar pelo voto obrigatório. Lá a internet foi usada principalmente para convencer prováveis democratas da importância de ir às urnas, para mobilizar a sair para votar.

Fica mais fácil de compreender exemplificando. Imagina a nossa classe média. Grande parte dela já começou a campanha decidida. Sem muita convicção, porém, mas sabia em quem votar. Sabia, mas se não fosse obrigatório preferia viajar, passear, ver TV, dormir. Essa classe média tem acesso a internet, boa parte frequenta redes sociais e praticamente toda usa e-mail.

E-mail x Redes sociais

E aí está outra questão a se levar em consideração. A campanha de Obama foi quase toda baseada em spams. A principal ferramente utilizada foi o e-mail, não Facebook, Twitter ou qualquer outra rede social. No Brasil, a febre das redes sociais fez com que se confundisse o potencial da abordagem no início do processo. Só no final do primeiro turno é que se compreendeu que o e-mail era mais eficaz e ele entrou com peso na campanha. De forma rasteira, diga-se, espalhando boatos, mentiras, mas com muito efeito.

2010: internet, participação, democracia

2010 vai entrar, sim, para a história como a primeira eleição da internet no Brasil. De fato, não foi com a mesma intensidade com que imaginávamos, mas a internet foi fundamental no processo político, na participação cidadã, no amadurecimento democrático.

Não se pode dizer, como se imaginava, que a rede influencia diretamente o voto das pessoas. Não é dizendo no Twitter que é importante votar na Dilma que o cara que me segue vai achar bacana e decidir seu voto. Até porque o Twitter, como as redes sociais em geral, é fechado em nichos. Salvo exceções, me segue quem concorda comigo, quem tem opiniões semelhantes. E a imensa maioria já chega com o voto definido, boa parte militante.

Continua…

As eleições da internet

Rudá Ricci: ‘As eleições manifestam a emergência de um movimento ultraconservador no Brasil’

Entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos

Por onde vão Dilma e Lula neste novo governo eleito no último domingo?

Rudá Ricci esteve no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na tarde desta quinta-feira, para falar sobre o lulismo e o protagonismo dos movimentos sociais e a IHU On-Line aproveitou para conversar com o sociólogo sobre suas expectativas em relação ao governo Dilma. E, segundo ele, este já nasce com problemas internos de política institucional com muita força e peso. Ricci diz que esse problema tem nome: Lula. “Se alguém imagina que o Lula não vai governar com Dilma ou disputar o governo desconhece, totalmente o que é essa liderança nacional. Tanto é claro isso que ele já indicou vários ministros para Dilma”. O professor fala sobre como Dilma deve conduzir este governo e como sua personalidade pode ser um empecilho para os planos de Lula. “Quando ela deu uma entrevista, um ou dois dias depois de eleita, e falou ‘eu quero nomear pessoas que tenham esse perfil’ ali Dilma começou a dar as cartas”, contou. Ricci também falou sobre como deve se dar a articulação dos movimentos sociais e organizações populares com este novo governo e, assim, apontou: “O que me preocupa não é o campo da esquerda, mas o da direita. Creio que vai surgir no Brasil, a exemplo do que ocorre nos EUA e na Espanha, um movimento de classe média ultraconservador que já apareceu no final do primeiro turno”.

Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela PUC-SP. É mestre em Ciência Política e o doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Atua como consultor no Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal e do Instituto de Desenvolvimento.. É diretor do Instituto Cultiva e professor da Universidade Vale do Rio Verde e da PUC Minas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o senhor espera do governo Dilma?

Rudá Ricci – É um pouco complexo responder a essa pergunta pelo seguinte: esse governo tem, logo de início, quatro ou cinco desafios internos de política institucional. Esses problemas internos têm nome: Lula.

Se alguém imagina que o Lula não vai governar com Dilma ou disputar o governo, desconhece totalmente o que é essa liderança nacional. Tanto isso é claro que ele já indicou vários ministros para Dilma. Ele pediu para o Mantega ficar, indicou o Palocci como uma espécie de primeiro ministro dele no governo Dilma. Tanto é verdade que o Zé Dirceu já ficou muito irritado com essa proeminência que o Palocci vai ter. Lula também já indicou o Haddad para ficar em qualquer ministério. Lula será uma figura de muito destaque no governo Dilma. Obviamente isso cria problema para uma pessoa com a personalidade de Dilma.

Esse é o segundo problema interno: como Dilma vai se relacionar com uma pessoa com a popularidade de Lula, conhecendo muito bem como Lula joga. Para se ter uma ideia, na montagem do último ministério de Lula, em 2006, no momento em que já se sabia quantos ministérios ficariam com o PT, como é o caso do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Lula ficava estimulando várias correntes internas do partido para disputar o ministério. Eu participei efetivamente dessa disputa e foi muito pesado o jogo. O que as pessoas não sabem? É que o ministro eleito já vinha com a posição junto a ele. E foi isso que fortaleceu muito Lula. Lula é um gênio político. As pessoas ainda perguntam: “mas será que não são os assessores?”. Não, é ele, Lula é um gênio mesmo. Nós temos que nos acostumar a ver que depois de Getúlio Vargas, o grande líder que o Brasil criou é o Lula. As pessoas não querem acreditar nisso porque não conhecem os bastidores. Ele joga muito pesado.

O terceiro problema é o PMDB que pode ser multiplicado por dez. O PMDB do Requião não é o PMDB do Sarney que não é o, possivelmente, do Kassab (prefeito de São Paulo, do DEM, mas com possibilidade de ir para o PMDB). Há uma negociação em curso que grande parte dos Democratas vai entrar no PMDB até o início do próximo ano. Imagine que o partido que mais atacou Dilma pode se aliar ao governo.

Um quarto problema é o próprio PT. Neste caso, a liderança que está tentando galvanizar uma ação do PT para ocupar mais espaço é o José Dirceu. Mas ele é só uma ponta do iceberg. Por exemplo: há uma série de setores vinculados a serviços da área economia, que estão hoje sindicalizados, que vem negociando já com Palocci. Este não foi nem nomeado ainda ministro, é o braço direito de Lula e está negociando cargo e ações. Então, imagine como será a disputa interna do PT.

E, finalmente, tem o problema dos aliados. São 11 partidos e alguns jogam pesado também, como o PP que entrou agora no segundo turno. Esse problema será gravíssimo e acho que teremos um ano de grande tensão. Minha aposta é que Dilma se alia com o PMDB e com Lula neste ano para tentar conter o avanço das outras forças, como o PP. E no segundo ano, que terá eleições municipais, veremos qual é, afinal, o interesse de Dilma.

IHU On-Line – E do ponto de vista econômico?

Rudá Ricci – Destaco como mais importante a bolha de consumo. Nós temos dois grandes problemas na economia. Um é o câmbio, que é um problema gravíssimo e, com isso, estados como o Rio Grande do Sul têm dificuldade de exportação. Já tivemos aqui no RS uma dificuldade imensa no setor de calçados quando se abre para aqueles sapatos da China, bem como o setor de brinquedos. Nós poderíamos, embora estejamos vendendo muito, estar vendendo muito mais e o governo vai ter que resolver isso.

IHU On-Line – E o que este governo vai fazer para resolver isso?

Rudá Ricci – Cortando gasto público. Mas como cortar gasto público se o que deu projeção ao Lula foi justamente isso? Aí está o problema.

IHU On-Line – E qual é o segundo problema?

Rudá Ricci – Nós tivemos um grande estímulo ao consumo e no lulismo não tivemos uma inserção social pela política, como imaginávamos na Constituição, nós tivemos pelo consumo. Acontece que as pessoas estão comprando demais. Os dados que temos revelam que 60% da população brasileira está endividada. Destes, 40% não sabe como pagar suas contas e, para piorar, continuam fazendo crediário em até 60 vezes. Isso é dado do Ipea. Por que eles continuam comprando? Como essa população estava na classe D e começou a ascender para a classe C, principalmente em função do aumento real do salário mínimo, as pessoas contam todo ano com o aumento. É por isso que a Dilma falou, depois de eleita, que vai estudar uma solução para continuar tendo aumento real do salário mínimo. Ela vai ter que cortar gastos sociais. Ela tem que cortar. Isso é consenso no governo federal. Todo mundo do governo já sabe disso.

IHU On-Line – Por que ela tem que cortar esses gastos sociais?

Rudá Ricci – Porque, se ela cortar, conseguirá manejar o mercado financeiro e baixar a taxa de juros. Com isso, não há tanto atrativo para a entrada de dólares no Brasil e, se não entra tanto dólar, o real cai e, então, conseguiremos exportar mais. Esse é o jogo. Se Dilma estancar o aumento real do salário mínimo, esses crediários vão estourar em três ou quatro anos. Então, temos que ter uma lógica de crédito para não continuarmos com essa inflação de consumo. E isso é muito difícil, porque estamos falando de uma população que sempre foi pobre. Agora, pela primeira vez, como foi nos anos 1950 nos EUA, as pessoas estão comprando o que a classe média está comprando. Eu vejo esse problema em casa: há uma senhora que trabalha na minha casa que acabou de colocar a filha num curso de informática e a matrícula custou 450 reais. O que eu falo para ela? “Cuidado, você está gastando muito dinheiro numa matrícula!”. Mas, poxa, ela está dando para a filha um futuro. Esse é, portanto, um problema do governo Dilma.

IHU On-Line – Se essa bolha estourar em três ou quatro anos, como o senhor disse, nós geramos uma crise…

Rudá Ricci – E no meio da Copa do Mundo no Brasil, ou um ano depois. As projeções que estão sendo feitas para o Brasil dão conta de que, possivelmente, em 2015 nossa bolha de crédito vai explodir. Inclusive, no setor imobiliário.

IHU On-Line – Mas a crise acontece nas mesmas proporções da crise que atingiu os EUA?

Rudá Ricci – É menos grave, mas o mecanismo é o mesmo. O Brasil é o segundo país mais rico da América. Já somos mais ricos do que o Canadá. Os brasileiros não se deram conta disso. Citando algumas ações muito recentes: Nós compramos a Budweiser, que é a segunda cerveja mais consumida nos EUA; compramos a segunda rede de fast-food dos EUA, que é o Burger King; compramos os dois principais frigoríficos dos EUA, através da Friboi; compramos todos os grandes frigoríficos e grandes cervejarias da Argentina e Uruguai; os principais bancos de crédito do Uruguai e outros países da América Latina são brasileiros; 18% da economia da Bolívia está nas mãos da Petrobras. Nós somos uma potencia mundial, temos o 7º maior PIB do mundo em 200 países. Por isso o Obama disse que o Lula é o cara, na verdade ele quis se referir ao Brasil. Se nós entrarmos em crise, despedaçaremos a América Latina.

Porém, nós não vamos entrar em crise. A questão é que vamos ter que fazer um ajuste e este ajuste é o inverso do que sentimos na segunda gestão do Lula. Quero ver como a Dilma vai administrar isso. O problema econômico do Brasil é eminentemente político. Como é que ela vai manejar isso? Daqui a dois anos teremos eleições municipais e os partidos aliados vão vender caro essa fatura. Eles não querem estar num governo que têm baixa popularidade e aí vai entrar nosso amigo Lula. Com certeza, ele vai voltar.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o perfil de Dilma?

Rudá Ricci – Ela pode dizer que nasceu em Minas, mas ela é gaúcha. Ela faz política assim. Dilma foi do PDT, o que não é qualquer coisa. Ela sabe e vai mandar e aí vamos ver como será a acomodação desse governo.. Ela aprendeu isso com o Brizola e vem da Polop (Política Operária). Esta organização clandestina surgiu no pior período do regime militar e era a mais intelectualizada de todas e totalmente baseada em estudos. Não é à toa que Theotônio Dos Santos, Paul Singer, Sônia Draibe, ou seja, a alta intelectualidade atual do Brasil vem de lá. Eles já eram assim. A Dilma tem uma formação importante em sua origem. Uma pessoa que fazia parte de uma organização clandestina tem que ser muito disciplinada e tomar decisões muito rápidas. Essa vida de você correr riscos faz com que a pessoa não fique discutindo muito em assembleias, ela toma decisões muito precisas. Ela já tem uma personalidade dura, tem essas características da vida pessoal e por ter tido essa tradição política junto com o Brizola… isso não é pouco. Essa pessoa pode ser tudo, mas dócil ela não é.

IHU On-Line – Como o senhor vê agora a reinserção de Palocci e José Dirceu no governo?

Rudá Ricci – Só para se ter uma ideia de como vai ser o governo, Palocci praticamente despejou Fernando Pimentel da campanha. Vamos voltar ao passado novamente: Depois de um tempo, Dilma saiu da Polop e entrou numa outra corrente que era resultado de um racha da Polop. Depois, ela entrou numa terceira organização que era composta pelas duas outras organizações que romperam antes. Se falarmos da genealogia das organizações, você poderá entender esses inúmeros rompimentos. De qualquer maneira, a Dilma, na segunda organização que ela participou, foi companheira do Fernando Pimentel, que foi prefeito de Belo Horizonte. O Fernando Pimentel é, portanto, uma pessoa de confiança da Dilma. Ele entrou na campanha para comandar até que veio a história dos dossiês, que começou pelo grupo de Minas contra o Serra e ele teria se apropriado. O Lula colocou o Palocci no comando da campanha e este tirou o Fernando Pimentel da coordenação. Então, ele não entrou no final da campanha. Palocci é uma pessoa que também joga pesado.

Quem está tentando entrar agora pelas beiradas é o Zé Dirceu. E aí mora o perigo. O Zé Dirceu em público é um desastre, mas na penumbra ele é uma das pessoas mais habilidosas que eu já vi na minha vida. E ele é muito charmoso. Ele tem uma capacidade de agregação muito grande. E, por isso, ele também consegue desagregar facilmente.

IHU On-Line – Como será a articulação do governo Dilma com os movimentos sociais?

Rudá Ricci – Vamos tentar definir melhor, pois eu não chamaria de movimentos sociais, mas organizações populares. Isso porque grande parte não é movimento social. É o caso das pastorais sociais. Elas se articulam, mas não são movimentos sociais. As organizações populares hoje no Brasil podem ser divididas em dois grandes blocos. Umas são as organizações populares com uma concepção mais à esquerda. Estas são, talvez, 80% das organizações populares do Brasil, incluindo aí alguns movimentos sociais, como é o caso do movimento ambientalista. Essas organizações populares mais à esquerda podem ser divididas em dois campos: a primeira tem uma relação muito tensionada com o lulismo. As pastorais sociais ligadas à Teologia da Libertação têm uma dificuldade muito grande de se relacionar com o governo Lula. Ao mesmo tempo, por terem um compromisso mais à esquerda, no momento de crise eles acabam apoiando o governo, mas as relações do dia a dia são muito conflitivas por parte dos dirigentes que dizem que o Lula rasgou os compromissos históricos. Neste caso, vai ser como foi com o governo Lula.

O segundo bloco vive do financiamento público. Em tese, não é nada que deponha contra eles. O que ocorreu é que nos anos 1990 nós tivemos um fortíssimo corte de financiamento externo para as organizações populares no Brasil, o que vai continuar, e houve uma busca de estratégia de sobrevivência. E aí todos os governos entraram. O Kassab, por exemplo, contratou um monte de ONGs para terceirizar serviços. E grande parte dos técnicos contratados pelas ONGs hoje nem fala em política, falam em profissão.

O que me preocupa não é o campo da esquerda, mas o da direita. Creio que vai surgir no Brasil, a exemplo do que ocorre nos EUA e na Espanha, um movimento de classe média ultraconservador que já apareceu no final do primeiro turno. Nós já temos o discurso e a liderança e, por isso, é bem provável que no final do governo Dilma apareça um movimento social deste tipo. A Igreja ultraconservadora voltará a ter força no Brasil.

Rudá Ricci: ‘As eleições manifestam a emergência de um movimento ultraconservador no Brasil’

Paulistas contra o ódio e o preconceito

Recebi um e-mail e, em seguida, uma resposta a ele, referentes aos casos de preconceito contra nordestinos exibido em redes sociais. São dois paulistas que repudiam o preconceito incentivado pela campanha de ódio da oposição. Reproduzo as duas mensagens:

Desabafo de um paulista

Como estudante do curso de direito, na FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas, e por coincidência estar na mesma sala da Mayara Petruso, não posso deixar de manifestar a minha indignação com as declarações de cunho preconceituoso [de alguns sudelistas e sulistas em relação a nordestinos e nortistas e vice-versa] que vêm gradativamente aumentando em portais de relacionamento e em blogs e divulgadas pela mídia brasileira.

A meu ver, as frases postadas pela Mayara Petruso em seu Twitter e Facebook demonstram como uma parte [necessário ressaltar ser uma absurda minoria] da população da região Sudeste/Sul tem uma visão deturpada da realidade de nosso país e de nossa magnífica diversidade cultural.

Vejo a necessidade aqui de destacar como as populações de diversas partes do país sempre colaboraram para o desenvolvimento e construção de nosso Estado, principalmente a população nordestina, além de estrangeiros, sendo sempre bem recebidos em nossa grandiosa São Paulo, que tem sua grandiosidade atrelada principalmente a sua diversidade étnico/cultural encontrada somente aqui.

Hoje, ao ver a declaração da Sra. Fabiana Pereira, intitulada de articuladora do Movimento São Paulo para os Paulistas fiquei absurdamente perturbado ao saber que existe um movimento assim em meu Estado, É UM ABSURDO. Lembrei no mesmo momento das aulas de história da 7º série, quando o tema de meu trabalho para a feira cultural fora Hitler, que nitidamente compartilhava idéias como a dessa cidadã.

Percebe-se de longe o total desconhecimento da história de nosso país, quando ela divide a grandiosidade cultural brasileira em somente duas culturas, como uma assistencialista/populista e outra intelectual/elitista. Confesso que sinto medo de comentários como esse.

Como brasileiro e amante da diversidade cultural de nosso país, vejo a necessidade de todos nós não deixarmos que comentários de cunho preconceituoso continuem a ser proliferados.

O Brasil é um país que tem história principalmente pela relevância e tolerância da população. Até mesmo os judeus e os muçulmanos convivem pacificamente em nossa sociedade. Não podemos deixar que declarações inconseqüentes gerem ódio em nosso país.

A democracia é para todos, não somente para determinado Estado da Federação, cada um escolhe o que acha ser o melhor para si [Deixo de destacar a minha opinião política por achar irrelevante para o assunto].

São Paulo, 04 de novembro de 2010.

Luís Gustavo Timossi

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Prezado Luis,

Muito importante seu depoimento, e quero acrescentar:

Sou paulistano nato mas escolhi a Bahia para viver 10 anos atrás.

Não é de agora esse preconceito contra nordestinos e negros de parcela do povo do Sul/Sudeste. Isso vem do século XIX, desde o fim da escravidão.

Os povos do Norte/Nordeste são de origem índia e negra e sempre foram discriminados pelos brancos do Brasil inteiro. Repare que seu próprio texto diz “sempre colaboraram com o desenvolvimento e construção de nosso estado”. Não estou dizendo que você discrimina, mas essa idéia está enraizada em nosso subconsciente, e só me dei conta que eu também pensava assim quando mudei para Salvador.

Ninguém colaborou com ninguém; SP é Brasil e, portanto, não é dos paulistas! Quantos gaúchos, paulistas, mineiros vivem em cidades do Nordeste e sempre foram muito bem tratados? O que Mayara Petruso – e tantos outros – fez foi externar uma opinião corrente na elite branca, inclusive do Nordeste, que pensa da mesma forma.

Temo que consequências sérias acabem em violência. Na Bahia, milhares de pessoas do Sul vêm para o verão e o Carnaval, e começo a notar um clima de animosidade crescente nas pessoas daqui; o baiano mais simples, que sempre foi cordial, tendo acesso a essas informações de xenofobia e racismo, começa a externar um sentimento de vingança. Já ouvi pessoas dizendo que se um paulista falar grosso, vai ter troco!

Precisamos desconstruir esse racismo, antes que nos transformemos em um país dividido pela condição social e pela cor! Mais uma obra de Serra: espalhar o ódio!

Abraço a todos.

Julio Pegna

Paulistas contra o ódio e o preconceito