Comunicado de Emir Sader sobre a Casa de Rui Barbosa

Consultado sobre a possibilidade de assumir a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, elaborei proposta, expressa no texto “O trabalho intelectual no Brasil de hoje”. No documento proponho que, além das suas funções tradicionais, a Casa passasse a ser um espaço de debate pluralista sobre temas do Brasil contemporâneo, um déficit claro no plano intelectual atual.

Como se poderia esperar, setores que detiveram durante muito tempo o monopólio na formação da opinião pública reagiram com a brutalidade típica da direita brasileira. Paralelamente, o MINC tem assumido posições das quais discordo frontalmente, tornando impossível para mim trabalhar no Ministério, neste contexto.

Dificuldades adicionais, multiplicadas pelos setores da mídia conservadora, se acrescentaram, para tornar inviável que esse projeto pudesse se desenvolver na Casa de Rui Barbosa. Assim, o projeto será desenvolvido em outro espaço público, com todas as atividades enunciadas e com todo o empenho que sempre demonstrei no fortalecimento do pensamento crítico e na oposição ao pensamento único, assumindo com coragem e determinação os desafios que nos deixa o Brasil do Lula e que abre com esperança o Governo da Presidente Dilma.

Emir Sader
Rio de Janeiro, 2 de março de 2011
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Só pra constar: não é o Emir Sader quem mais perde com isso. Desejo sucesso ao sociólogo no desenvolvimento do projeto em outros pagos.

Comunicado de Emir Sader sobre a Casa de Rui Barbosa

A obscena fortuna de Eike

Se alguém me dissesse que tem na conta quase 700 milhões de reais, eu acharia o mundo injusto.

Perguntado por Marília Gabriela sobre o valor pago ao imposto de renda no ano passado, o empresário Eike Batista respondeu: “eu assinei um cheque de 670 milhões”. Não foi possível pagar no Rio de Janeiro porque o sistema não comportava o número de zeros. Teve que ir a São Paulo.

Nesse caso, já não é uma simples injustiça. É obsceno.

Emir Sader disse em mais de uma ocasião que só há pobres porque há ricos. É a oposição entre os extremos que perpetua a desigualdade. A culpa não é especificamente do Eike. Ele fez o jogo direitinho, se apropriou com inteligência das ferramentas que teve à disposição e acumulou muito dinheiro. Isso não faz dele uma má pessoa, mas demonstra que as coisas estão erradas, estão tortas.

Um sistema de sociedade justo deveria impedir que essas distorções ocorressem. O governo Lula vem conseguindo diminuir as distorções para menos, reduzindo a pobreza. Dilma fala agora em acabar com a miséria no Brasil. Mas não se fala em corrigir as distorções para mais.

Tudo bem, eles fazem o mais importante e urgente. Dar condições dignas de vida a todos é imperativo. Mas isso seria inclusive facilitado se alguma providência fosse tomada também com relação às grandes fortunas.

A obscena fortuna de Eike

Lula e o pós-neoliberalismo – parte II

A economia de Lula mantém traços neoliberais, mas não a essência. E quem fala não sou eu, mas o filósofo Emir Sader, em seu livro A vingança da história. A essência do neoliberalismo é a desregulação, diminuição do Estado, privatização, flexibilização das relações trabalhistas, aumento da dívida externa.

É fácil desmontar a tese de que o governo Lula é neoliberal em essência. Por exemplo, abriu um monte de concursos públicos, aumento o número de empregos com carteira assinada, criou 13 universidades federais, valorizou as empresas públicas – inclusive com a criação de novas estatais -, deixou de ser devedor e se tornou credor e tantos et ceteras.

Mesmo a política externa do governo mostra distanciamento do neoliberalismo. Lula reafirma o papel do Brasil como nação soberana, rompe com a política de subserviência aos países do Norte, notadamente EUA, assume posição de liderança incompatível com a necessidade neoliberal de manter nações fracas e submissas, rompe com a política de obediência cega ao FMI e ao Banco Mundial, que impunham a adoção de todas aquelas medidas que fazem a essência do neoliberalismo.

Por isso, Emir Sader chama o governo Lula de pós-neoliberal. Mantém características, mas não é a mesma coisa.

Lula e o pós-neoliberalismo – parte II

Os candidatos à Presidência e as relações internacionais

Em 2003, Emir Sader disse em seu livro “A vingança da história” que uma ruptura com o modelo neoliberal baseava-se, em primeiro lugar, em uma reinserção do Brasil no cenário internacional. O neoliberalismo, para ele, não é simplesmente um modelo econômico em crise, embora essa crise seja também econômica. Mas “trata-se de um esgotamento do modelo de sociedade, de economia, de Estado e de cultura que foi proposto na última década e meia”. Então, para superá-lo, não é suficiente romper com um planejamento econômico dado. É preciso toda uma transformação, que começa, por óbvio, nas relações internacionais.

Disse Sader em 2003 que a ruptura com o neoliberalismo requer “a reinserção soberana do Brasil no plano internacional, que significa renegociação da dívida externa, elaboração e colocação em prática de uma política estratégica de unificação da América Latina e de alianças com as grandes potências do Sul do mundo”. Isso incluiria uma ruptura com a política de alianças privilegiadas com os EUA, o FMI, o Banco Mundial.

Nesse fim de fase, de oito anos de governo Lula, digo sem medo de errar que a política externa foi um dos caminhos em que o operário pobre e pouco estudado mais acertou. Foi na negociação com outros chefes de Estado, na parte talvez mais difícil e que exija mais habilidade política e inteligência estratégica que Lula se destacou. O que Emir Sader avaliava como necessário foi feito de fato.

E a continuidade disso, dessa política solidária e que projeta o Brasil, sem esquecer de outros países que talvez dependam de uma liderança como a nossa para ganhar espaço junto, está explícita. José Serra, aquele que anunciou a candidatura sem um vice, que não conseguiu sequer conseguir negociar a tempo um nome forte para compor a chapa que concorre à Presidência da República (teoricamente muito desejada) ofende o presidente boliviano, o Evo Morales que, tal como Lula, identifica-se com sua população. Enquanto isso, Dilma discursa na convenção que formaliza sua candidatura:

Seguiremos defendendo, de forma intransigente, a paz mundial, a convivência harmônica dos povos, a redução de armamentos e a valorização dos espaços multilaterais.

Em especial, precisamos seguir estreitando as relações com os nossos vizinhos e promovendo a integração da América do Sul e da América Latina, sem hegemonismos, sem querer abafar ninguém, mas com ênfase na solidariedade e no desenvolvimento de todos.

Além disso, precisamos manter nosso olhar especial para a África, continente que tanto contribuiu para a nossa formação.

A escolha está dada.

Os candidatos à Presidência e as relações internacionais

Neoliberalismo pasteuriza a cultura

Recebi um e-mail de um leitor e, ao respondê-lo, o que era pra ser uma ligeira reflexão acabou se estendendo um pouco. É sobre a situação da cultura no Rio Grande do Sul, que ele, de Minas Gerais, via como muito defasada. Então publico aqui minha resposta.

Eu sempre achei que se propagava, fora daqui, a ideia de que Porto Alegre era a capital da cultura, que aqui havia muitas opções. Pois tinha mesmo. Um tempo atrás, era a capital com mais salas de cinema por habitante, por exemplo.

Foi criado aqui um programa muito bacana de incentivo ao teatro. Não só incentivo aos grupos pequenos, que não têm espaço nas grandes salas, mas ao público, tornando acessíveis apresentações que muita gente não podia nem sonhar em pagar pelo ingresso. Ainda acontece, criou vida própria. No verão, é o Porto Verão Alegre (peças a 20 reais, com várias possibilidades de desconto para 10 reais, que era o preço integral das primeiras edições), destinado aos porto-alegrenses que não vão pra praia em janeiro e fevereiro. No inverno, o Porto Alegre em Cena.

Mas até isso já está sendo elitizado. No último Porto Verão Alegre, os ingressos foram vendidos em um shopping destinado à burguesia, em que o acesso sem carro é bem difícil.

Mas enfim, a coisa definitivamente tem degringolado na área cultural, especialmente no último governo, que não está nem aí para seus eleitores (principalmente os que não podem pagar pelas coisas).

É uma pena acompanhar esse processo, mas acho que faz parte também de uma transformação na cabeça das pessoas, que não vem só de cima. A sala Norberto Lubisco foi fechada pelo governo do Estado, mas o público nesses locais alternativos já é muito reduzido há um bom tempo (o que não justifica o fechamento, nesse caso).

O Emir Sader falou outro dia que um dos males do neoliberalismo, onde ele mais avançou, é na imposição de uma visão consumista de mundo. É isso que faz com que se prefira os filmes de muitos efeitos especiais e pouca história, de grande bilheteria, aos quais se assiste com um pacotão de pipoca e um copão de refrigerante (combos de uns 15 reais, quase mais do que o ingresso). Parece uma viagem fazer a associação entre o neoliberalismo e a pipoca no cinema, mas acho que a coisa está toda interligada, sim. A questão ideológica, no fim, é mais grave que a econômica.

Mas, principalmente, onde mais avançou a direita no Brasil foi no plano dos valores, no estilo de vida fundado no consumo, que a influência da direita – que no nosso tempo é neoliberal, mercantil. O “modo de vida norteamericano”, centrado no consumo, no shopping-center, nas marcas, no marketing, no mercado. No individualismo consumista, na visão da ascensão individual, mediante a disputa no mercado, para ter acesso a bens de consumo. (Emir Sader, da Agência Carta Maior)

Neoliberalismo pasteuriza a cultura