Por planejamento do espaço e transporte público de qualidade

Carro e casa. Sonhos de todo brasileiro. Muito justo.

Funciona assim: se Fulano Gerdau tem carro, é direito do Fulano da Silva ter também. Isso se chama igualdade. É preciso fornecer igualdade de oportunidades para que se consolide a igualdade de direitos que a Constituição prevê.

Sim sim, se todos tiverem carro as ruas serão intransitáveis. Se mais prédios forem erguidos, o ar da cidade ficará irrespirável. Problemas de trânsito, saúde, meio ambiente, estilo de vida, desenvolvimento… Mas como pode o cidadão, de dentro do seu Tucson, reclamar que agora qualquer um compra um 1.0? Sacanagem, no mínimo.

E convenhamos, é natural que todos queiram ter um carro e sua casa própria, arrumadinha, novinha. O carro é status, mas antes de tudo é conforto. Ele te leva para todos os lugares mal mexendo a perna, conversando, ouvindo música e protegido das intempéries do lado de fora do vidro. Então, como querer que alguém não o queira?

Simples. Ou melhor, a solução é fácil de encontrar, mas bem complicada de executar. Principalmente quando falta boa vontade. Investindo em transporte público de qualidade, mas de qualidade mesmo, com conforto, frequência, uma ampla rede que chegue a todos os pontos da cidade sem precisar ficar esperando três ônibus para isso. Não importa se ônibus, metrô subterrâneo ou de superfície, barco, aeromóvel… O importante é funcionar com eficiência e a um preço baixo.

Assim, o cara vai pensar 50 vezes antes de tirar o carro da garagem. Sabe que vai ficar parado no trânsito, não vai achar lugar para estacionar – principalmente se trabalhar no centro – ou pagar uma fortuna de estacionamento, vai se incomodar com o fulano do carro do lado que dirige mal. Se ele tiver certeza que se pegar o metrô chega tranquilo pertinho do trabalho, sem todo esse fuzuê, e ainda vai poder ir lendo, talvez opte por essa alternativa. Eu optaria.

Resumindo, o transporte público tem que ser bom o suficiente para as pessoas não quererem ter carro. Para quem acha que esse é um sonho impossível, vi acontecer em Madri.

Com casa a coisa é um pouco diferente, mas não de todo. Na verdade, ambas as situações pedem um replanejamento do espaço, mas na questão da moradia ele se mostra ainda mais fundamental. Vislumbro de imediato dois fatores.

Em primeiro lugar, a contraposição interior-capital. Valorizar a vida em cidades menores ou, principalmente, incentiver a agricultura familiar. Cerca de 30% das propriedades não têm sucessor, porque dedicar a vida à agricultura exige um sacrifício grande diante de oportunidades aparentemente mais atrativas nas cidades. A falta de garantia de renda para o agricultor dificulta a permanência na área rural. Diante de uma intempérie, ele pode perder a renda do semestre, do ano, para a qual se dedicou incansavelmente, sem fim de semana ou feriado. Nesse sentido, é preciso uma política voltada para o trabalho rural, como uma forma de repensar a ocupação do espaço e, de quebra, incrementar a economia.

Por fim, a dicotomia centro-periferia ou centro-bairro. As grandes cidades possuem bairros muito distantes do centro, com uma quantidade enorme de moradores, em alguns casos. Esses bairros tornam-se quase que mini-cidades dentro da metrópole. As pessoas que vivem neles precisam de serviços como qualquer cidadão de qualquer região. Não tem cabimento que tenham que se deslocar até o centro para ter acesso a posto de saúde, escola de todos os níveis, restaurantes, lojas, cinemas, bibliotecas… E tudo isso demanda mão-de-obra, que pode ser conseguida no próprio bairro. Diminuir esse deslocamento através de um replanejamento urbano aumenta a qualidade de vida, pois é menos tempo perdido e maior integração comunitária, com mais emprego e renda.

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