Até crianças foram espionadas no Rio Grande do Sul

Tarso Genro, Stela Farias, Marco Weissheimer, um menino de oito anos. O que eles têm em comum? Junto com mais dezenas de pessoas, foram espionados pelo esquema armado dentro do Piratini. O menino de oito anos a que me refiro é o filho da deputada estadual Stela Farias, do PT. Fotos dele e de seus dois irmãos apareceram na investigação.

Há nomes de diversos campos políticos, uma série de jornalistas – independentes e ligados a veículos -, delegados, filhos de deputados, de juízes. Não é um crime menor. É violação de sigilo, com fins políticos, para prejudicar grupos políticos. Olhando assim meio rápido, parece que Tarso Genro pode ficar chateado por ter sua vida devassada. Mas esse tipo de crime tem consequências muito maiores.

Primeiro, que expõe qualquer um de nós aos olhos de quem tiver poder para futricar nos dados sigilosos, o que não deveria acontecer. Depois porque, mesmo que a minha vida esteja protegida por não ter sido investigada, o fato de um grupo político se prevalecer de informações sigilosas para prejudicar outro pode influenciar estratégias políticas, distorcendo informações – especialmente por investigar jornalistas, como o Marco, do RS Urgente -, prejudicando eleições. O cidadão não tem uma política limpa e justa para escolher com clareza seus candidatos. O resultado pode ser sentido nas decisões políticas e, consequentemente, no cotidiano de cada um.

Espionagem e contra-espionagem

Vale destacar que nem todos os nomes da lista encontram-se nela por estarem sendo investigados. Alguns constam ali para se saber se eles sofriam algum tipo de investigação. Para protegê-los. Ou seja, o fato de Yeda estar na lista não a absolve. Aliás, muito pelo contrário, já que o sargento César Rodrigues de Carvalho, preso pela espionagem, estava lotado na Casa Militar do governo do estado como segurança da governadora. Sempre me ponho a pensar na repercussão que teria se a situação fosse exatamente a mesma, mas invertida, se o governador fosse do PT.

Silêncio na imprensa

Ainda assim, na noite de hoje, o assunto sequer aparecia na capa da Zero Hora.com. Pior, não estava na página de eleições do jornal. A imprensa gaúcha tenta esconder os escândalos recentes ligados ao governo do estado. Interessa mais catapultar os factóides que prejudicam Dilma – e não se trata aqui de tratar de duas formas assuntos iguais: não há ligação nem distante comprovada do PT com a espionagem na Receita Federal, ao contrário do que acontece no Rio Grande do Sul.

Até o Valor Econômico deu o esquema de espionagem hoje, com o título Servidor de Yeda Crusius é preso por acesso a dados (disponível só para assinantes). Na imprensa gaúcha, silêncio.

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Stela nem queria responder sobre o assunto, para não ser acusada de usar os filhos com motivação eleitoral. Mas sua indignação é grande e legítima. Que mantenha os filhos longe do assunto, mas uma resposta é necessária. Afinal, não foi ela que tomou a iniciativa de investigar crianças.

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A lista de investigados (seja para descobrir podres ou para proteger) já divulgada (do Blog da Rosane de Oliveira):

– Adão Paiani – Ex-ouvidor da Secretaria da Segurança

– Ana Claudia Mazzali – capitã da Brigada

– Coronel Bondan – Brigada Militar

– Coronel Quevedo – Brigada Militar

– Chefes dos Serviço de Inteligência do CPM e do V COMAR

– Claudio Manfroi – ex-presidente do PTB

– Edilson Paim – delegado de polícia

– Eliseu Santos – ex-secretário da Saúde (acesso feito depois do assassinato)

– Flávio Conrado – delegado de polícia

– Flavio Koutzii – ex-deputado do PT

– Heliomar Franco – delegado de polícia

– Jefferson de Barros Jacques – major da Brigada

– Lair Ferst – pivô do escândalo do Detran

– Luis Augusto Lara – deputado estadual do PTB

– Luis Carlos Busato – deputado federal do PTB

– Marco Aurélio Weisshmeimer – jornalista do site RS Urgente

– Maria Lúcia Streck – jornalista (ex-Zero Hora)

– Nereu Lima – advogado (a confirmar)

– Roberto Sirotsky Gershenson

– Políbio Braga – jornalista

– Rafael Colling – jornalista da Rádio Gaúcha (a confirmar)

– Ranolfo Vieira Jr. – delegado de polícia

– Ricardo Lied – ex-chefe de gabinete da governadora

– Sandra Terra – assessora da governadora

– Sérgio Zambiasi – senador do PTB

– Stela farias – deputada estadual do PT

– Tania Regina Silva Reckziegel – presidente do PTB Mulher

– Tarso Genro – ex-ministro e candidato do PT a governador

– Telma Cecília Torran

– Vanessa Guazzelli Braga

– Walna Vilarin Menezes – assessora da governadora

– Yeda Rorato Crusius – governadora do RS

Até crianças foram espionadas no Rio Grande do Sul

Zero Hora esquece o bairrismo quando convém

Vi a capa da Zero Hora de domingo, que estampava bem grande a manchete “Espionagem eleitoral” e cheguei a acreditar que se tratava do caso gaúcho, em que um sargento da Brigada Militar, quando lotado na Casa Militar usava senhas da Secretaria de Segurança para obter informações sobre adversários da governadora Yeda Crusius (PSDB). Afinal, a Zero Hora é orgulhosamente o “jornal dos gaúchos”, foca sempre nos fatos locais e esse episódio era bastante recente. Além disso, no caso em questão, a ligação do sargento com o governo tucano era evidente.

Durou poucos segundos meu pensamento. Ele voou longe quando li as linhas menores, que diziam “Como o vazamento da Receita impacta no Planalto e na campanha de Serra”. Fora o sem-sentido de sugerir um impacto, palavra forte e que mostra não se concretizar, esse já era um assunto anterior, antigo para os padrões jornalísticos, se comparado à atualíssima espionagem gaúcha.

Mas, antes de primar pelo “que é nosso”, que norteia a atuação do jornal, vem a adoção do “dois pesos e duas medidas” na cobertura política. Quando convém, fala-se do Rio Grande do Sul. Quando não convém, há sempre coisas mais importantes acontecendo em Brasília.

O silêncio na mídia gaúcha é ensurdecedor.

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Façamos então um exercício de imaginação. É fácil. Fecha os olhos, respira fundo e acompanha. Estamos voltando ao ano 2002. Olívio Dutra é o governador do RS, primeiro petista a assumir o posto. O candidato do partido ao governo gaúcho é Tarso Genro. Principais opositores, Antônio Britto (PPS) e Germano Rigotto (PMDB). Descobre-se que um segurança de Olívio espionava adversários e cobrava propinas de donos de bingos. Prendem esse segurança.

O estado vira um caos. Não se fala em outra coisa, é capa de todos os jornais e é declarada a falta de legitimidade do PT para governar o RS e, principalmente, para concorrer nas eleições que se avizinham.

P.S.: Dá pra fazer esse mesmo exercício trocando algumas palavras: 2002 por 2010; Olívio Dutra por Lula; governador do RS por presidente do Brasil; Tarso Genro por Dilma Rousseff; e Antônio Britto e Germano Rigotto por José Serra. Funciona que é uma beleza.

Zero Hora esquece o bairrismo quando convém

Yeda: estratégia de campanha já era furada. E agora?

Anteontem à noite, dia 1º de setembro, me chamou a atenção no programa eleitoral de TV a estratégia do PSDB estadual na propaganda da Yeda ao governo do estado. Sem motivo nenhum, ela passou a se defender de acusações antigas de corrupção. Em 2009, ela foi acusada de alguns crimes e sofreu um pedido de impeachment. Mas é o tipo de coisa que a gente não lembra, a gente deixa pra oposição lembrar. Melhor assim, pensei, vai se enterrando sozinha.

No dia seguinte, 2 de setembro, veio à tona denúncias de superfaturamento no Banrisul, que pertence ao governo do estado. Um diretor do banco e dois de agências de publicidade foram presos com cerca de 3,4 milhões de reais. Mais um dia, mais um escândalo. Dessa vez, acusação de espionagem envolvendo um sargento da Brigada Militar, César Rodrigues de Carvalho, que atuava na Casa Militar do Palácio Piratini e que usava senhas do Sistema de Segurança do Estado para investigar opositores de Yeda. Quem trouxe a público foi o ex-ouvidor da Secretaria de Segurança Pública do estado Adão Paiani (a melhor e mais completa cobertura desse caso é feita pelo RS Urgente). O sargento foi denunciado, mas continuou na ativa porque era chave importante no esquema de espionagem, segundo Paiani.

Estou curiosíssima para ver os próximos programas de Yeda para o governo do RS. Acho até que repetiu o mesmo programa pela terceira vez (noite do dia 1º, meio-dia de hoje, dia 3, e noite de hoje) porque a equipe foi pega com as calças na mão e não deu tempo de improvisar. Ficava chato tascar outro programa que já devia estar pronto sobre outro tema qualquer.

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Detalhe: quem entrar agora no Blog da Yeda, vai encontrar como último post um texto de 30 de agosto sobre corujas.

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A essas alturas o Berfran está em casa perguntando onde é que ele foi se meter…

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Mesmo se passando por vítima e querendo criar comoção, não adianta, Yeda é arrogante.

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A foto foi puxada do site da candidatura de Yeda. Aliás, que time, hein.

Yeda: estratégia de campanha já era furada. E agora?