Em protesto contra a censura na rede

Sabe toda aquela história de que a China restringe o acesso à internet, que o Irã não permite a liberdade de expressão na rede etc.? E se no lugar desses países estivesse os Estados Unidos, como seria o discurso? Pois estamos quase pagando para ver, com o Stop Online Piracy Act, o SOPA, uma lei antipirataria um tanto quanto rigorosa demais, ao coibir práticas de troca cultural e, na prática, censurar a web.

É por isso que hoje talvez tenhamos dificuldade de acessar alguns dos nossos sites preferidos. A campanha contra o SOPA inclui retirar do ar seu blog ou site entre as 8h e as 20h de hoje. O Somos Andando apoia a campanha e só continua com conteúdo disponível por inviabilidade técnica.

Informações bem mais detalhadas podem ser encontradas no Sul21 e no MegaNÃO.

Em protesto contra a censura na rede

Conheces esta história?

Faz 13 anos que cinco homens foram presos fora de seu país de origem. Eles buscavam monitorar e denunciar operações em curso contra seu país. Até hoje os cinco estão sem julgamento, mas continuam presos. Não sabe de onde são estes homens? Não conhece esta história?

Ela vem sendo denunciada exaustivamente há muitos anos, mas muita gente ainda não conhece, nunca nem ouviu falar. Não te preocupa, não precisas te considerar mal informado. O problema é que tem coisas que os jornais não contam. Uma delas é a prisão dos cinco cubanos dentro dos Estados Unidos. É isso que se chama bloqueio midiático a determinados temas.

O argumento estadunidense é que eles estavam dentro de seu território. Os cinco são acusados de serem eles os terroristas, e não o contrário. Engraçado é que quando os Estados Unidos invadem um país alheio para matar um terrorista parece tudo muito normal.

Independentemente de se concordar ou não, temos o direito de saber o que acontece. Isso vale para Cuba, vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil.

A libertação dos cinco presos cubanos é um dos temas que serão tratados na VI Convenção Estadual de Solidariedade a Cuba, nos dias 3 e 4 de junho, no Plenarinho da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. O bloqueio da imprensa aos temas de Cuba também será abordado, entre outros temas.

Quem organiza as atividades, preparatórias para a XIX Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, é a Associação José Martí. O trecho a seguir é parte do material de divulgação:

Os processos dos Cinco são considerados uma surpreendente aberração jurídica e geram manifestações e protestos em mais de 300 entidades do mundo – além de 10 Prêmios Nobel, ativistas políticos e chefes de Estado, sem que o governo estadunidense revise a farsa que foi o julgamento e a sentença imposta aos prisioneiros.

Programação:

3 de junho:

19h – Abertura
19h30min – Tribunal Popular sobre o caso dos Cinco antiterroristas sequestrados pelos EUA

4 de junho:

9h – Bloqueios Estadunidenses a Cuba e a Política de Realinhamento Econômico e Social do Governo – embaixador Carlos Zamora Rodriguez
11h30min – Apresentação de Pedro Munhoz
14h – Apresentação de Raul Ellwanger
14h30min – O Bloqueio Midiático a Cuba e as alternativas para enfrentá-lo – jornalista e blogueira Norelys Morales Aguilera (Santa Clara, Cuba); editor dos sites Carta Maior e RS Urgente, Marco Weissheimer; presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, José Maria Nunes.
17h – Apresentação das propostas
18h – Apresentação do esquete “Fragmento: te doy uma canción” – Ana Campo

Durante os dois dias da Convenção, o estudante de jornalismo e fotógrafo, Michael Susin, de Caxias do Sul, expõe na Galeria dos Municípios, no térreo do Poder Legislativo, a mostra fotográfica “Minha Visão sobre Cuba”.

O encerramento da VI Convenção ocorre com a festa de confraternização homenageando os 51 anos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap) e os 50 anos da Batalha de Praia Girón. A festa será no Bar do Ricardo, na Rua Caldre Fião, em Porto Alegre.

Maiores informações no Site da Associação José Martí.

Conheces esta história?

A visita de Obama e a imprensa

Incomodou a idolatria e a falta de critério da imprensa brasileira nesses dois dias em que o presidente dos Estados Unidos esteve no Brasil. O governo pisou feio na bola ao deixar seus ministros serem revistados e fazer os moradores da Cidade de Deus saírem de suas casas para a passagem de Obama, mas a parte de Dilma, pessoalmente, ela fez muito bem, e a visita pode ter terminado com saldo positivo – a ver nos desdobramentos. Mas a nossa imprensa, pra variar, não conseguiu tratar a visita de forma um pouco mais neutra. Deslizou até cair no ridículo da idolatria (a ver a chamada musicada da GloboNews – “O homem vem aí… O homem vem aí…” – e o repórter da mesma emissora chamando Obama de “o” cara, em uma clara distorção do encontro entre o presidente americano e Lula, no primeiro ano de governo de Obama).

Uma verdadeira força-tarefa. O passo a passo da visita, a ansiedade dos repórteres na especulação sobre os passeios turísticos da família e as definições de agenda, as entradas periódicas na programação, tudo exagerado, desproporcional.

Mas pior que a quantidade foi a qualidade. Obama era tratado como o dono do mundo, aquele que manda em tudo e todos e que precisamos agradar para conseguir qualquer coisa. O tom era de puxa-saquismo, o mesmo que a política externa de Fernando Henrique Cardoso adotou nos oito anos em que foi governo. De agradar o vizinho mais forte para ver se sobra uma migalha.

Ei, não funciona, viu (dizem que quem avisa amigo é).

E continuou já na cobertura da visita ao Chile, quando o Jornal Nacional de hoje (21) destacou que Obama “elevou a região, acostumada a ficar em segundo plano, à categoria de parceira preferencial dos Estados Unidos”. É um discurso duplamente colonizado. Em primeiro lugar, coloca nas mãos do presidente americano o poder de promover uma região autônoma cujos países são soberanos. Em segundo plano, mostra que essa elevação se dá pura e simplesmente pela posição na troca comercial com os americanos.

E outra, não é papel da mídia fazer esse tipo de coisa, certo? Acho tão engraçada nossa impensa. É brasileira e adora louvar nosso país em eventos esportivos, principalmente. Mas age contra a nossa soberania. Idolatra o presidente americano e critica as ações de fortalecimento da nossa autonomia. Em vez de valorizar o fato de o presidente americano ter nos concedido essa visita, em uma demonstração de prestígio, prefere inverter a ordem e apontar as vantagens para os Estados Unidos, retirando qualquer valor do Brasil.

Nesse caminho, aproveitam para usar a visita de Obama e a postura da política externa do governo Dilma para depreciar Lula, o torneiro mecânico pobre que mostrou ao mundo que não era inferior a Bush por causa do lugar onde nasceu ou da classe social a que pertencia. Um presidente que valorizou o país para o resto do mundo e nos colocou em um grau de respeitabilidade nunca antes visto.

A visita de Obama é usada para resgatar aquele preconceito de classe que já apareceu tantas vezes nos nossos jornalões – sejam de TV, rádio, internet, impresso. Um preconceito tão forte que vai desde a  intolerância com o pobre, atribuindo-lhe uma suposta incapacidade, até o menosprezo pela postura e a influência política conquistada pelo Brasil no cenário mundial. São, no fundo, frutos de um mesmo sistema de classes herdado dos tempos da colônia, quando todos sabiam o “seu lugar”, tanto na estrutura social interna quanto no cenário internacional.

A imprensa brasileira parou no tempo. Ela responde por uma camada social que igualmente não evoluiu em seu comportamento. Nossa imprensa pode ter melhorado tecnicamente, ter mudado a linguagem, mas o conteúdo do discurso continua preconceituoso e vassalo.

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Ponto extra: o figurino

O interesse exacerbado na roupa de Dilma no dia da posse foi guardado na gaveta, e não ouvi sequer um comentário em um meio de comunicação tradicional sobre Obama ter falado sem gravata e o desprestígio que isso simboliza.

A visita de Obama e a imprensa

A corda é mais fraca para Brasil ou EUA? Depende de quem conta

É comum, embora não recomendável, que os meios de comunicação se contradigam em suas diferentes edições, de acordo com as conveniências do momento. Mas, quando a contradição aparece no mesmo parágrafo de um mesmo texto, acaba virando descaramento.

A página 4 da Zero Hora de hoje (18) diz que o mais esperado seria que “um presidente brasileiro recém-eleito visitasse o vizinho mais poderoso”, de acordo com a “liturgia do poder”. Ou seja, é normal que o fraco puxe o saco do forte para não apanhar. Eis que aparece, na frase seguinte, a interpretação do que acontece este fim de semana no Brasil: Obama vem ao nosso país para poder definir a agenda. Ela conta ainda que é praxe que os visitantes definam o tema e o ritmo dos contatos.

Em apenas um parágrafo, a repórter Marta Sfredo diz que não temos saída: ou o Brasil é subserviente indo aos Estados Unidos babar sobre o presidente da ex-superpotência, mesmo definindo sobre o que e com quem conversar, ou é vassalo ao se submeter à agenda definida pelos americanos. A repórter não diz qual é a solução para a equação, mas a única alternativa que resta é romper relações ou se encontrar no meio do oceano – descarto a possibilidade de a conversa ocorrer em outro país porque a escolha do território do presidente x ou y pode ter um significado mais favorável ao Brasil, ou mais provavelmente, aos Estados Unidos.

Lula se elegeu e foi conversar com Bush em Washington. Dilma se elegeu e recebe a visita de Obama em Brasília. Uma inversão extremamente significativa. Pode não ter consequências práticas imediatas, quiçá até de médio e longo prazo. Mas representa uma mudança na correlação de forças da geopolítica mundial. Não há mais um país que domine todos os outros, e o Brasil não é mais uma nação emergente sempre mendigando para ganhar qualquer espaço. O cenário não é mais hegemônico, sequer bipolar. Vivemos hoje em um contexto de multipolaridade, que foi conquistado pelos emergentes por sua política externa altiva – com grande destaque para o Brasil – ao mesmo tempo em que a principal potência, mais a União Europeia, pisavam na bola nas suas estratégias.

Obama agora praticamente depende mais da boa vontade do Brasil do que o contrário, e vem tentar recuperar o posto de principal parceiro comercial de nossas terras tupiniquins. Por qualquer ângulo que se olhe – da esquerda à direita, passando pelo centro -, ele fracassou no governo dos EUA, o que se reflete em uma popularidade constantemente em queda, enquanto Dilma é eleita representando um governo com índices recordes de aprovação. Obama não vem em condições de fazer exigências, mas para negociar, como devem ser as relações entre quaisquer nações soberanas. E independente da vontade de Zero Hora.

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Na Página 10 da mesma edição de Zero Hora, na coluna da Rosane de Oliveira, outro ponto que merece análise. Agora, não pela contradição, mas pela identificação política. Rosane tirou da foto aqui ao lado o deputado Edegar Pretto e o secretário da Agricultura, Luiz Fernando Mainardi, assim como todo o contexto da cena. Deixou apenas o rosto do governador Tarso Genro, chamando a atenção do leitor para o boné do MST que vestia. O comentário não foi sobre sua simpatia com a causa da reforma agrária, mas uma quase saudosa lembrança do “deus-nos-acuda” que se fazia quando um governante usava este símbolo. Como se ele estivesse cometendo um crime – ou defendendo que alguém o cometesse. A colunista parece pedir que voltem as críticas ao ato simbólico.

A corda é mais fraca para Brasil ou EUA? Depende de quem conta

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

Aconteceu hoje mais um Fórum da Liberdade, no Rio de Janeiro, organizado pelo neoliberal Instituto Millenium. Um bando de gente reúne-se para debater a liberdade de acordo com o seu conceito ideológico. Eles se furtam de discutir para quem é a liberdade que defendem. Quando o diretor de conteúdo do Grupo Estado ou o vice-presidente institucional e jurídico do Grupo RBS fala em liberdade de comunicação, por exemplo, ele se refere à atual liberdade de disputar comercialmente quem tem mais dinheiro para estabelecer um grande grupo de comunicação que influencie a opinião pública ou o acesso de toda e qualquer pessoa, independente de raça, credo, classe social, região, gênero, à produção de conteúdo?

Será que um escritor que critica a criação de leis por parte do Estado com base no argumento da liberdade de cada cidadão também é contra a lei que proíbe a organização sindical, aprovada semana passada pelo estado de Wisconsin, nos Estados Unidos? Esquece o dito pensador que o Estado existe com a função, entre outras, de criar leis para permitir que a liberdade seja para a maioria das pessoas. Para que os mais fortes ou poderosos não imponham suas ideias ou vontades sobre os outros cidadãos por causa do poder que detêm. Ou seja, para que o lema de que a liberdade de um termina quando começa a do outro seja respeitado.

Mas o Fórum não deixa de ser divertido. Uma mesa com a participação de Leandro Narloch, Marcelo Tas, Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, com a mediação de Monica Waldvogel, por exemplo, deve ter sido um excelente programa de humor. Hilário é também um livro intitulado O Estado-babá, daquele pensador que critica a criação de leis. O Fórum da Liberdade é isso, uma comédia da sociedade atual. Uma reunião de ditos pensadores em defesa de uma ideologia fracassada, que, ao ser colocada em prática, gerou a maior crise mundial desde 1929. Aliás, o correto seria que nem precisássemos mencionar esse tipo de evento, se não estivéssemos presenciando um renascimento do neoliberalismo na União Europeia e nos Estados Unidos, que aplicam no doente o vírus que o acamou.

O contraponto

Nos dias 10, 11 e 12 de abril, acontece em Porto Alegre o Fórum da Igualdade, com uma agenda voltada para a inclusão social, em uma programação em torno da questão da comunicação, com protagonismo de blogueiros, chargistas e outros distantes da tal grande imprensa que participa ativamente de discussões como a que se deu hoje no Rio. Apesar de louvar a iniciativa de um contraponto, fica a ressalva de que liberdade e igualdade não se opõem, mas se complementam, como já comentei por aqui. O Fórum da Liberdade não valoriza a igualdade, mas o contraponto deve enfatizar a existência de ambas, combinadas.

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

Estados Unidos rumam de volta aos Tempos Modernos

Houve um tempo em que os trabalhadores não podiam lutar em conjunto por melhores condições de trabalho e salários minimamente dignos. Era uma época de jornadas intermináveis e extenuantes. Um período da nossa história em que mulheres não podiam parar para amamentar seus filhos e não se podia faltar ao trabalho para atendimento médico ou em caso de morte de parente.

Tempos difíceis, em que muito poucos ficavam com o lucro do árduo trabalho de muitos (ops, isso continua). Um trabalho muito mais árduo do que o que vemos hoje. E o trabalhador que reclamasse era substituído, sem direitos trabalhistas ou possibilidade de unir forças para reivindicar dignididade.

Os direitos foram sendo incorporados aos poucos, em uma luta que remonta à Revolução Industrial inglesa, mas a transcende. Foi ali que ela começou a se intensificar, até pelo alto nível de exploração de mão-de-obra nas indústrias que surgiam. Ao longo do tempo, foram-se constituindo os sindicatos, uma forma de organizar os socialmente frágeis trabalhadores para torná-los mais fortes frente a um patrão poderoso. Através deles, muitas conquistas foram possíveis. O direito de greve, por exemplo, está intimamente ligado à capacidade de organização, e é um importante instrumento de pressão da classe trabalhadora.

Com a evolução da luta, os sindicatos se tornaram lei em muitos países. Hoje em dia, foram incorporados totalmente à nossa sociedade. No Brasil, especialmente desde o governo de Getúlio Vargas, com seu trabalhismo que legalizou os sindicatos. Eles viraram referência, em diversas nações, para a elaboração de política econômica e ganharam relevância.

Em tempos de neoliberalismo, os sindicatos reduzem juntamente com a importância dos trabalhadores. O livre mercado defende a aniquilação – ou o eufemístico “flexibilização” – das leis trabalhistas. De forma que, de uns tempos pra cá, já vem se fazendo notar a pressão dos setores empresariais por uma revisão nos direitos dos trabalhadores. No fundo, uma volta às leis que regiam os séculos XVIII e XIX, quando a luta de trabalhadores em Chicago (Estados Unidos), duramente reprimida, deu origem ao 1º de maio e fortaleceu o reconhecimento da classe operária.

Nos mesmos Estados Unidos, agora o retrocesso se confirma. Os deputados do estado de Wisconsin aprovaram na última quinta-feira (10) uma lei já votada pelo Senado na véspera para extinguir os sindicatos de representação dos servidores públicos, em uma manobra dos republicanos que reduziu a exigência de quórum. Dessa forma, puderam votar mesmo com a ausência dos democratas, que saíram do estado na expectativa de impedir a aprovação da lei. A previsão é de endurecer ainda mais a relação com os trabalhadores, que já inspiram outros estados, e diminuir o papel do Estado, com cortes sociais.

Resta a esperança de que este não seja um sinal de uma tendência mundial, imitando um relativo pioneirismo norte-americano em diversas causas sociais, inclusive as trabalhistas.

Estados Unidos rumam de volta aos Tempos Modernos