Público significa que é de todos

Continuando a discussão…

Se forem construídos prédios no Cais do Porto, como quer o governo Yeda (com o aval da Prefeitura e da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, que já ampliou os limites de altura das construções na área), muda toda a paisagem do Centro, elitiza, afasta a população, isola ainda mais o Guaíba. Qual é a moral, afinal de contas, de construir prédios comerciais, centro de convenções e shopping – tudo fechado – na beira do lago que é o rio mais bonito que Porto Alegre poderia querer? E que sempre se orgulhou de ter.

O Marco Weissheimer disse que “a política pode ser feita para causar bem estar e felicidade”. Eu vou além, acho que ela deve ser feita para causar bem estar e felicidade. Infelizmente, no Rio Grande do Sul, ela é feita apenas para satisfazer interesses privados. Ela se desvirtua.

Fiquei muito impressionada com o espaço usado para fazer os shows que aconteceram durante a Feira Nacional da Agricultura Familiar | BRASIL RURAL CONTEMPORÂNEO. Entre os armazéns do Cais e o Gasômetro, uma área enorme, vazia. Se houvesse interesse, vontade política, aquele espaço poderia abrigar outros tantos eventos, todo o tempo, a preço de custo ou com lucro pequeno que servisse para reinvestir e cada vez melhorar mais, podendo oferecer mais cultura e lazer para os cidadãos. Afinal, o lugar é público, não precisa dar lucro para quem gere. A primeira definição de “público” encontrada no Houaiss diz: “relativo ou pertencente a um povo, a uma coletividade”. Não é justo, pois, que fique restrito a poucas pessoas. Mais do que de todos, público deve ser para todos.

Conheci Puerto Madero, em Buenos Aires, apontado por muitos como exemplo de bom aproveitamento de orla. O projeto de revitalização de 1989, em parceria com a iniciativa privada, transformou a região no bairro mais caro da cidade. Nos restaurantes, quase se paga só de olhar. Hotéis de luxo, centros de convenções, discotecas. Puerto Madero é também um lugar de negócios, coisa típica da burguesia.

O espaço está visualmente bonito, sim. Tem espaços públicos, áreas verdes, bastante até. Mas que não são frequentados por toda a população da cidade. Imagina um Parcão: quando eu olho pro lado e vejo meninas passeando de salto alto, dondocas ostentando seus abrigos de marca, fico constrangida e prefiro frequentar outros espaços. A elitização não é só cercamento. A elitização envolve todo o ambiente, o perfil do lugar. Não me senti à vontade em Puerto Madero, como imagino que não me sentiria no projeto que está sendo proposto para o Cais do Porto.

Aqui, o site oficial de Puerto Madero.

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A primeira imagem é de quinta-feira, quando recém tinham sido abertos os portões da Feira, antes da abertura oficial.

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Público significa que é de todos

O Cais e a herança do Brasil Rural Contemporâneo

Em poucos minutos, sem muito esforço, diversas ideias surgiram. Nada mirabolante, caro demais ou impossível de pôr em prática. Elas vieram de uma angústia que surgiu durante a Feira Nacional da Agricultura Familiar | BRASIL RURAL CONTEMPORÂNEO, que aconteceu essa semana no Cais do Porto, em Porto Alegre. Uma angústia de observar um espaço sensacional e pensar que eu talvez não possa fazer nada para impedir que os gaúchos o percam.

Tinha que ver: o tempo ajudou a maior parte da feira, mas mesmo domingo, que o dia estava emburrado e o sol, envergonhado, decidiu se esconder, o Cais estava lotado até de noite. A estrutura principal da Feira, com as bancas de artesanato, gastronomia, degustação de vinho etc., estava dentro dos armazéns. Do lado de fora, a praça de alimentação, com o disputadíssimo acarajé servido por uma típica baiana. As únicas coisas que foram instaladas ali foram um estrado de madeira, algumas armações também de madeira e, igualmente de madeira, algumas mesas com guarda-sóis brancos.

Fico imaginando aquele espaço com barzinhos permanentes. Limpo, bem cuidado, algumas lojinhas, um espaço verde… Por que ainda não, deus do céu? Simples, se o Cais for revitalizado e se tornar um espaço efetivamente público, que a população aprecie, ela não vai querer deixar o governo entregar para a iniciativa privada. Nenhum dinheiro pode pagar um lugar daqueles. E ainda é possível aproveitar a herança da Feira e incentivar iniciativas de pequenas empresas, pequenos produtores. Bares com chope e cachaça artesanais, petiscos vindos de pequenas propriedades tocadas por famílias, em diversos pequenos estabelecimentos.

Olha toda a cadeia de beneficiados: o consumidor, com o aproveitamento do espaço (pode ser construída uma estrutura que isole o vento mas permita a vista) e os produtos bons e baratos; o comerciante, por ter a oportunidade de montar seu negócio em um lugar tão bacana; o produtor, que vai ter um meio de vender seus alimentos; e a sociedade, que vê a economia girar e incentiva o tipo de agricultura que mais produz, a familiar.

Continua…

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As fotos foram tiradas domingo, dia 16, lá pelas 20h.

O Cais e a herança do Brasil Rural Contemporâneo

Uma feira do povo: “Eles não são de fora, são daqui”

Não deu para não roubar do RS Urgente o ótimo texto de Marco Weissheimer e a foto de Eduardo Aigner que mostra o Cais lotado:

No show inesquecível que reuniu sábado à noite, no Gasômetro, nomes antológicos do rock gaúcho (Wander Wildner, Julio Reny, Frank Jorge & cia), lá pelas tantas um dos músicos comentou ao microfone: “Tem que vir gente de fora para acontecer uma coisa legal assim na cidade”. A coisa legal não era apenas o show, mas toda a Feira Nacional de Agricultura Familiar, sucesso absoluto de crítica e público. O comentário foi imediatamente seguido de uma correção: “Eles não são de fora, são daqui”. Eles, no caso, eram os organizadores da Feira, o “pessoal do MDA” (Ministério do Desenvolvimento Agrário). Foi logo no início do primeiro governo Lula que o pessoal daqui assumiu o MDA com Miguel Rossetto. Quando Rossetto deixou o ministério, quem assumiu foi Guilherme Cassel, gente daqui também. A alegria estampada no rosto de organizadores, feirantes, visitantes e participantes do evento realizado no Cais do Porto, à beira do Guaíba, foi a maior prova de que a política pode ser feita para causar bem estar e felicidade.

Poucas vezes, nos últimos anos, viu-se uma atividade pública cercada por tão alto astral. Parecia uma Feira do Livro às margens do Guaíba. Lembrou os melhores dias do Fórum Social Mundial. E mostrou, acima de tudo, o acerto da política de valorização da agricultura familiar no Brasil. Diversidade, riqueza de sabores, cores, cheiros, formas e pessoas. De fato, foi uma coisa muito legal, feita por gente daqui que se mudou para Brasília e que se sentiu muito feliz e justificadamente orgulhosa ao ver a alegria no rosto de seus conterrâneos. Por sinal, um deles comentou: “a gente foi ali, mas já volta.”

Um governo como o de Yeda Crusius jamais oferecerá algo parecido para a população. Por uma razão muito simples: trata-se de gente que não gosta de cheiro de povo.

Uma feira do povo: “Eles não são de fora, são daqui”

Resultados do Brasil Rural Contemporâneo

No brevíssimo tempo de quatro dias, mais de 160 mil pessoas visitaram o Cais do Porto, em Porto Alegre. O tempo ajudou, é verdade. Hoje o dia deu uma enfeiada, mas até ontem o sol mostrou que apoia os pequenos agricultores. Os 350 estandes da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária | BRASIL RURAL CONTEMPORÂNEO venderam R$ 11 milhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Quer saber o que isso significa?

Os agricultores deixaram claro o que sentiam quando, às seis e meia da tarde, ainda longe das 22h, quando a Feira seria oficialmente encerrada, quase não havia mais produtos à venda. O que se via era uma disputa pelo que ainda restava, nos poucos estandes ainda em funcionamento. Apesar de aparentemente um pouco desoladora, a cena era de alegria, de conquista, de superação das expectativas.

 

Resultados do Brasil Rural Contemporâneo

A poesia prevalece

Do Mudar o Imutável:

“Quem diz que o meu canto é impuro
por olhar além das fronteiras,
desconhece de alguma maneira
passado, presente e futuro.”

Essa letra de Pedro Munhoz parece resumir a proposta da VII Feira Nacional de Agricultura Familiar e Reforma Agrária que está acontecendo em Porto Alegre. Reforma Agrária ainda é, para muitos, coisa de baderneiro de boné vermelho. A agricultura familiar soa como retrocesso: dar terra para mais pessoas produzirem, sendo que só uma máquina pode fazer tudo. A lógica da monocultura é extremamente agressiva. Sem nem falar nos problemas ambientais, tem o problema da alimentação: a gente come diariamente e religiosamente, o veneno do agronegócio. A agricultura familiar não é uma volta ao passado, pelo contrário: é o futuro, como diz Munhoz.

Além de apresentar para a população porto-alegrense essa alternativa ao modelo da agricultura dominante, a Feira conta com diversas atrações musicais. Mas não tem o rebolation-tion: são músicos engajados com questões sociais, um pessoal que faz música inteligente.

Fui ao show d’O Teatro Mágico ontem. Convidei um pessoal para ir e faltou ingresso, infelizmente. Tava lotado. Perderam um show excelente. A banda, que diz fazer MPB (música para baixar), prega a disseminação cultural. A proposta é que, tudo aquilo que entendemos por “cultura”, como músicas, livros, filmes, deve ser de todos. Todos precisam ter acesso, sem ter que pagar os olhos da cara por isso. (Aliás, lembro que defendi essa ideia na minha redação do vestibular).

Foi interessante um momento do show, em que o vocalista da banda, Fernando Anitelli, falou sobre a participação deles em uma novela da Globo recentemente. Eles afirmaram não ter rabo preso com ninguém, apenas com o público. Disse que os canais de televisão são concessões públicas, ou seja, é tudo nosso, precisamos ocupá-los. Aí eu vibrei, né? Na sequência eles tocaram “Xanéu n°5″, uma música que critica justamente a televisão. Não assisti à novela, mas aposto que não foi essa a música que eles tocaram lá.

Eis que, para minha surpresa, em determinado momento do show, ele convida o Pedro Munhoz para subir ao palco. Da mesma forma que conheci O Teatro Mágico por acaso, nó Fórum Social Mundial desse ano, conheci o Pedro Munhoz naquele momento. Já tinha ouvido falar, mas confesso que nunca tinha escutado. O cara é realmente foda. Para quem não conhece, as letras e algumas músicas podem ser baixadas aqui.

Enquanto ainda estava no palco e animava o público com gritos de “Pátria Livre!” foi exibida uma faixa que dizia: “Música livre jabá. Pampa livre de eucalipto. Mulher livre de machismo”. Saí de lá mais feliz. Procurem conhecer o trabalho deles, vale a pena. Vamos nos libertar! E tentar, sempre, mudar o imutável.

A poesia prevalece

Iniciativas que trazem dignidade expostas no Cais do Porto

Sim, é muito bom conhecer os produtos do nosso país. Muita coisa a gente nem conhece, nunca nem ouviu falar. Degustar vinhos, experimentar comidas, se encantar com o colorido das flores.

Mas o mais bacana da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária | BRASIL RURAL CONTEMPORÂNEO , é conhecer pessoas. Como o seu José, quarta geração de produtores na fazenda da família, em Minas Gerais, que agora vende queijo para a França. Ou a agricultora que planta praticamente só pimenta em uma pequena fazendo onde trabalham apenas ela e a irmã. E elas vivem disso.

É muito bacana ver o governo incentivar essas iniciativas. Não só através de crédito, permitindo que existam essas “chácaras”, como chamou a produtora de pimenta, mas pela divulgação do trabalho, que o valoriza. O pequeno agricultor se sente importante, seu produto chega a lugares que ele nunca imaginara. E cada ano em um lugar diferente do país (começou em Brasília em 2004 e ano passado foi no Rio de Janeiro).

Só na feira que está acontecendo de hoje até domingo (13 a 16) no Cais do Porto, em Porto Alegre, são mais de 350 expositores de todas as regiões. A cada banca, uma história, uma vida. Que traz a Porto Alegre gastronomia, música, moda, artesanato, cultura, flores, vinhos, cachaças, cervejas artesanais, produtos orgânicos.

Olha, é no mínimo (mas no mínimo mesmo) interessante de se conhecer. Sem contar que é tudo muito bem organizado, bonito e gostoso.

Acompanhe também em:

Brasil autogestionário
Centro de Estudos Ambientais (CEA)
– Fotógrafo Eduardo Seidl (Sul 21)

Aqui, a programação.

Iniciativas que trazem dignidade expostas no Cais do Porto