Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília – Por que marchamos?

Em Brasília, marchamos porque apenas nos primeiros cinco meses desse ano, foram 283 casos registrados de mulheres estupradas, uma média de duas mulheres estupradas por dia, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são violentadas ao longo desses caminhos.

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e estupradas por vários homens ao mesmo tempo durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS

SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade

destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…

Todas merecemos respeito!

Publicado originalmente no Mulheres no Poder.

Fotos: Cíntia Barenho

Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília – Por que marchamos?

Revista Época defende privatização

Não está nas entrelinhas ou subentendido. A tinta está lá, preenchendo todas as letras das palavras que se articulam para dizer que a privatização é uma solução para o Brasil, no editorial da revista Época de 7 de março, edição nº 668.

Confesso que até achei a revista interessante, olhando a capa sobre homossexualidade. Até que descobri que é quase igual à da revista Fórum de janeiro deste ano. Coincidência, hmm? A matéria de capa é interessante, mas não parece ter recebido a importância devida. Relegada às páginas finais, quase que some ao lado de páginas e mais páginas de uma em geral machista reportagem sobre o Dia da Mulher, sobre o novo partido de Kassab, sobre os cortes no Orçamento de Dilma.

Mas voltemos ao ponto. O título do editorial já é bem claro: “Privatização não é palavrão”. Ok, continuemos. O primeiro parágrafo diz que o PT tentou, na última campanha, imprimir nos adversários – que não são nominados em nenhum momento do texto – o “estigma das privatizações”, como se os coitadinhos inocentes do PSDB nunca tivessem sido governo e nunca tivessem privatizado nada. Ou seja, eles não têm nada a ver com isso, os ingênuos, que se deixaram levar para sórdida manobra do governo. Isso na interpretação da revista, claro.

É interessante como a Época consegue dizer tanto em tão poucas linhas. São ao todo seis parágrafos. Na sequência do texto, critica a política econômica levada a cabo “há anos”, sem dizer se essa crítica se refere aos oito anos de governo Lula ou se abrange também os oito de FHC ou ainda antes. É uma forma de não criticar o governo FHC – porque, dentro do contexto, ele não aparece, e o leitor não relaciona o comentário ao governo tucano – sem poder ser acusada de mentir, já que não diz que o PSDB não executou a política que a revista está criticando.

Em seguida, Época elogia o ajuste fiscal de Dilma, explicita brevemente as medidas e, pimba, levanta a bola das privatizações, “tratadas como um anátema pelas alas mais ideológicas do PT”, no dizer da revista. E aí ela incorre em um erro bastante comum, de atribuir o “caráter ideológico” apenas às ideias de esquerda. Como se defender privatizações, Estado mínimo, livre mercado etc. não fosse também uma ideologia. Um erro intencional, é importante ressaltar. A ideia aí é mostrar para o leitor que a ideologia cega, impede de ver com clareza os aspectos técnicos. É o famoso tecnicismo que a direita defende na política. Mas é importante frisar que este tecnicismo também é ideológico. O objetivo aí é agir para que os números da economia fiquem bem bonitos, independente da situação da conta bancária e da mesa de cada cidadão.

O próximo passo é explicar os motivos da defesa da privatização como parte da política do governo. Defende a venda de empresas como a Infraero, os Correios, Companhias de Docas, Companhia Brasileira de Trens Urbanos com o argumento de que seriam geridas de forma mais produtiva e competente. Resta saber: produtivo e competente para quem, cara pálida? O papel do governo, de forma extremamente simplificada, é agir para a maioria da população, gerindo os bens públicos para que tragam maior benefício para seus cidadãos e cidadãs. Nas mãos da iniciativa privada, talvez os lucros das empresas até aumentassem, mas ficariam nas mãos da empresa privada, não seriam revertidos para a sociedade brasileira. E provavelmente essas empresas seriam geridas com o único objetivo de aumentar seus lucros e fazer um bom trabalho para quem mais pagar. Qual o interesse público – pelo qual o Estado deve zelar – de tal política?

Por fim, recorre mais uma vez à “carga ideológica”, pedindo que ela seja tirada da discussão, como se isso fosse possível. Como se os defensores da privatização não fosse uma defesa dos adeptos da ideologia neoliberal. A última frase pede que Dilma se afaste do discurso “vazio e irreal” da campanha e adote as privatizações. Epa, uma revista pedindo que o governante não aja de acordo com o que prometeu e pelo que foi eleito. Época pede que Dilma traia os brasileiros e aja de forma oposta à que afirmou durante a campanha. Eita, imprensa contraditória, sô!

O resto da revista

Eu gostaria ainda de poder comentar cada uma das matérias desta edição de Época. Em todas elas, uma contradição diferente e um forte conteúdo ideológico – aquele mesmo que a revista pediu que fosse afastado – de direita. Mas isso tomaria muito o teu tempo, caro leitor, ainda mais por uma revista que já nem mais está nas bancas – e peço desculpas pela crítica atrasada, mas só fui ter acesso a ela agora, e não podia deixar passar em branco essa defesa tão contundente das privatizações. Além do mais, a crítica teria que ser feita a cada edição de Época, o que se tornaria um tanto chato.

Mas há algumas observações que cabem ser feitas. Foco em duas matérias mais emblemáticas. A primeira é sobre a política externa do governo Lula. Uma crítica ao investimento em países pobres, alguns com governos de esquerda, o que seria uma “preferência ideológica” do governo. Hein, como assim? A política externa também não pode conter ideologia? Que critérios usamos, então? Vale lembrar que a simples definição de quais critérios serão adotados para decidir para onde vai a ajuda humanitária também é ideológica.

A política externa tem uma orientação, assim como qualquer política do governo. Durante o governo FHC, também ocorria isso: tínhamos uma posição de subserviência, de pedir esmolas para tentar estar entre os mais poderosos do mundo, em uma estratégia falha e burra, que afastava o Brasil de outros países em condições semelhantes, sem contribuir com sua influência para que os mais pobres ganhassem espaço. O texto contradiz completamente o título – “Humanitário e oportunista” – e a linha de apoio, extremamente agressivos e, olha aí, ideológicos. Os entrevistados afirmam claramente que essa ajuda humanitária se dá porque estamos em outro patamar na geopolítica mundial, e que acontece de forma natural, dada a política externa desenvolvida.

A segunda reportagem que destaco é a do Dia da Mulher. Uma série de matérias compõe a “homenagem”. Tratam das dificuldades das mulheres no Brasil de hoje. Pena que é apenas das mulheres de uma determinada camada social e, ainda assim, de forma preconceituosa. Em nenhum momento, são mencionadas as agressões que uma em cada cinco mulheres sofrem no Brasil. Não se fala nas diferenças de raça que ainda assolam as relações sociais e deixam as negras em desvantagem. A segunda matéria, embora trate de empresas privadas, tem um título cretino: “Presidente? Não, obrigada”. Aliás, não se fala na enorme conquista de uma mulher ter chegado ao posto mais alto da nossa República. Mais da metade das matérias trata das questões tradicionalmente “de mulherzinha”, como a preferência por determinado tipo de homem e um “guia essencial” de compras, com dicas de roupas, cremes, bolsas, sapatos.

Chama a atenção a matéria “Diários públicos”, que trata da predominância de mulheres na blogosfera. E aí são citados blogs de moda, cool variedades e literatura, diário íntimo, casa e decoração e gastronomia. É como se não existissem blogueiras econômicas ou políticas – em uma lista geral de blogs certamente apareceria o Noblat, por exemplo – ou blogs femininos de defesa de causas, como meio ambiente e feminismo. Ou seja, a mulher ganha seu espaço, invade terrenos “masculinos”, mas continua a mesma mulherzinha de sempre, com interesses restritos. Reportagem elitista e machista.

Revista Época defende privatização

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Já tive épocas de não concordar com isso de Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Índio etc. Achava que o fato de ter um dia específico para marcar cada categoria (na falta de uma denominação melhor) era por si discriminatório, que escancarava que existiam diferenças onde não deveria haver.

Até que eu me dei conta que o Dia da Mulher não serve para ganharmos flores. Que o Dia da Mulher – assim como do Negro, do Índio e outros – representa a luta de cada um desses que foram oprimidos, discriminados, explorados, submetidos. Que não é o Dia da Mulher, mas o dia da luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. Acima de tudo, um dia de reflexão sobre por que diabos a mulher ainda hoje tem menos espaço que o homem.

É por isso que, mesmo atrasada, resolvi escrever.

No colégio, a cada data dessas representantes de alguma luta, discutíamos em sala de aula, pesquisávamos, fazíamos trabalhos a respeito… Entendíamos melhor a história e o contexto que levou à criação da data, e lembro muito bem de ficar espantada e indignada com algumas coisas que eu aprendia. Entendi, com o passar dos anos, que aquela era uma oportunidade justamente disso, de gerar indignação. Que, mesmo que não fosse mudar radicalmente o pensamento e principalmente o comportamento da maioria da população, pelo menos criava uma simpatia pela causa, um debate saudável.

Esse ano, temos um motivo especial para comemorar. Independente de identificação política ou da forma como foi construído o imaginário popular ao longo da campanha do ano passado, não é pouca coisa termos uma presidenta mulher. O fato de ser mulher, evidentemente, não garante bom governo ou acerto político. Não garante comprometimento ou sensibilidade. Não garante nada. Mas termos elegido uma mulher para presidenta do Brasil significa que rompemos barreiras de preconceito paternalista e machista. E é seguindo o mesmo raciocínio da defesa de um Dia da Mulher que hoje defendo a utilização do termo presidenta no lugar do neutro presidente. É preciso marcar a conquista, como uma forma de enfiar na cabeça das pessoas que, sim, ela pode, nós podemos, todos podem.

Feminismo por solidariedade

Ontem assisti a reprise de uma conversa na GloboNews – no Entre Aspas, com Mônica Waldvogel – sobre o feminismo. As convidadas apresentaram perspectivas muito interessantes a respeito. Primeiro, enfatizaram a questão da chamada para a reflexão provocada pelas datas simbólicas.

Não vou entrar no mérito do debate sobre feminismo comparando culturas ocidentais e orientais. Tema delicado, pelo qual passaram muito bem as convidadas. Nesse ponto quero apenas destacar a relação que a filósofa e estudiosa do feminismo Márcia Tiburi estabeleceu entre a alijante vestimenta muçulmana, que proíbe a mulher de mostrar até o rosto, com a nudez ocidental, especialmente a brasileira, que também ofende e subjuga a mulher, tratada como objeto. A cultura da mulher magra, gostosona, um “modelo imposto”, como acrescentou Mônica Waldvogel.

Mas prefiro destacar as posições de Márcia Tiburi que apresentam o feminismo como uma luta por igualdade, pelos direitos dos seres humanos, não simplesmente por um gênero. “O feminismo é uma busca de voz”, para que mulheres tenham os tais “direitos humanos” como todo ser humano.

A parte mais interessante é quando Márcia Tiburi provoca as mulheres para que se tornem “feministas por solidariedade”. Se a mulher já desfruta de direitos iguais aos de seus colegas e amigos homens, ela pode se tornar feminista para garantir condições iguais entre os gêneros que beneficiem a grande maioria de mulheres que sofrem com isso.

Por experiência própria

Eu circulo entre pessoas de esquerda, muita gente esclarecida, que luta diariamente pela igualdade, pelos direitos dos que mais sofrem, dos que normalmente não são vistos pela maioria da população. Dos que não são lembrados. É gente que luta pelos direitos humanos, enfim. E convivo quase que diariamente com manifestações de incredulidade. Me olham torto, com uma cara de interrogação, como quem pergunta o que eu estou fazendo ali, naquele trabalho de homens. Pior ainda são os que se surpreendem ao constatar que ela até que é competente para uma mulher. Não é o pessoal com quem trabalho diretamente, mas muitos dos homens com quem acabo tendo que lidar em função do trabalho ou de outras atividades. Independente de vinculação partidária, identificação política, classe social ou estilo de vida.

Mas o pior, péssimo mesmo, é ter que desconversar sempre que um homem não consegue conversar com uma mulher sem ver nela algo a mais do que uma profissional. Dia desses recebi no trabalho a visita de um blogueiro que, além de ficar extremamente surpreso com o fato de eu manter um blog que lhe rendeu elogios, não conseguiu conversar sem elogiar traços físicos. Em não mais do que cinco minutos. E garanto, isso não é pela mulher ser linda, gostosa ou o que for. É só por ser mulher. Porque mulher, para ainda muitos homens, é só isso. Ou é principalmente isso. Eles até admitem a possibilidade de uma mulher se destacar em alguma atividade intelectual, mas muitos não conseguem ignorar o corpo. É o resultado de muito tempo de cultura machista. E justamente por isso é que é preciso afirmar, cada vez mais alto, que está errado. Que cada homem e cada mulher tem que fazer um exercício diário de conscientização. Para mudar. Para acabar de vez com o machismo. Espero pelo dia em que discutir feminismo seja algo ultrapassado e retrógrado. Algo desnecessário.

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Jornalismo popular?

Do blog da Raquel Melo:

Caros segue abaixo uma mensagem que a Raquel Melo, jornalista e cidadã, acaba de enviar para a Ouvidoria-Geral da Cidadania da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República no e-mail: direitoshumanos@sedh.gov.br

Boa tarde,

Peço à ouvidoria da Secretaria de Direitos Humanos que esta mensagem chegue ao senhor Gustavo Bernardes da Coordenadoria Nacional de Promoção dos Direitos LGBT.

O jornal Meia Hora, que pertence ao grupo EJESA (Empresa Jornalística Econômico S.A.), é conhecido pela população carioca, e mais recentemente pela paulistana, pelo que seus editores chamam de ‘jornalismo popular’ para retratar situações do cotidiano no país.

O grupo EJESA, segundo o próprio site da empresa, detém três jornais impressos e online: O Dia, Meia Hora e Marca Campeão que juntos chegam a mais de 3,5 milhões de leitores.

Em uma rápida busca no site do jornal considerado mais popular do grupo, o Meia Hora, é possível ter acesso às capas de algumas edições publicadas. Fato é que o que estes senhores chamam de ‘jornalismo popular’ está pautado na mais explícita banalização da violência e violação de direitos das mulheres, homossexuais e outros grupo historicamente vítimas de preconceito neste país.

Em um governo que começa seu mandato afirmando o compromisso de combater a homofobia e outras formas de preconceitos é de extrema urgência que se criem mecanismos que impeçam empresas de comunicação com ou sem concessão pública de perpetuarem a discriminação e incitarem a violência, principalmente contra os homossexuais.

Que criem e garantam nosso direito de resposta às publicações e veiculações absurdas que ferem nossa Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Abaixo, as capas do jornal Meia Hora publicadas pelo grupo EJESA somente em janeiro de 2011. Reparem nas palavras usadas pelos jornalistas para se referirem às mulheres e aos homossexuais: bibas, gostosa, traveco, piriguete. Imaginem tudo que foi publicado em 2010.

Terça-feira, 18 de janeiro de 2011:

Sábado, 15 de janeiro de 2011:

Sexta-feira, 14 de janeiro de 2011:

Segunda-feira, 10 de janeiro de 2011:

Quinta-feira, 6 de janeiro de 2011:

Terça-feira, 4 de janeiro de 2011:

Obrigada,

Raquel Melo

http://www.facebook.com/rackmelo
http://rackmelo.blogspot.com/

Jornalismo popular?

Discussão sobre feminismo: a esquerda e suas divergências

A blogosfera – ou parte dela – está em crise. Discutindo o relacionamento. Não, não é o fim, é só um tempo, talvez. Fim de ano, bom momento para balanço.

O que deflagrou a crise foi um episódio em si pequeno, mas que trouxe à tona ressentimentos e dúvidas antigos, junto com alguns esclarecimentos. Confesso que não me envolvi na história porque não tive muito tempo nem vontade de ler todo o vai e vem, mas chegou a um ponto em que me obriguei a correr atrás.

Resumindo para quem ainda não está a par (quem já cansou de ler a respeito, pula esse parágrafo): o blog do Nassif publicou como post um comentário de um cidadão machista, que usava o termo “feminazi” para se referir às feministas, com o pretexto de que servia ao debate. Não acho que servia, acho que Nassif errou, mas prossigamos. Ele sofreu diversas críticas de feministas e de outras pessoas, algumas bastante legítimas, outras que pegaram carona na história. Nassif não se desculpou e ainda debochou de muitas daquelas pessoas. Errou mais uma vez.

O feminismo e o termo “feminazi” não são temas pequenos, antes que alguém possa me questionar a respeito, mas o episódio em si não justifica tal repercussão. A blogosfera (e a tuitera?) se dividiu, passou a se atacar, inclusive com ataques pessoais além das críticas gerais ou específicas, mas que fossem críticas, não ataques.

O sentido do feminismo

As mulheres, assim como os negros, os homossexuais e outros, têm um histórico de preconceito sobre elas. E o feminismo faz sentido ainda hoje, em contraposição ao machismo opressor, assim como é libertador utilizar uma camiseta escrito “100% negro” e uma com a inscrição “100% branco” pareceria preconceituoso. É o histórico de opressão que justifica essas diferenças. Por que se afirmar como homem ou como branco se o homem branco sempre teve espaço garantido?

O feminismo deve, pois, ser respeitado, mas as feministas também devem compreender as diferenças de pensamento, desde que respeitando determinados limites, é claro. Nassif ultrapassou alguns limites ao publicar um post tão preconceituoso, mas a blogosfera inteira não precisa ir para a fogueira e ele não deve se tornar o inimigo a ser eliminado por um erro crasso, mas pontual.

Alguns posts personalizaram a discussão, que não envolveu só a figura x ou a figura y, que está se caracterizando por uma ampla discussão do papel dos blogs. Alguns problemas surgiram. O episódio, tão específico, serviu de pretexto para se criticar o Encontro de Blogueiros Progressistas, acontecido em agosto. As críticas tiveram duas frentes: as que questionavam o termo “progressista” e as que questionavam o motivo do encontro. A crítica, então, ultrapassou a blogosfera e atingiu a esquerda.

Do feminismo à esquerda

A briga já está em um ponto em que um diz que a esquerda tem que se unir e outro diz que tem que manter a capacidade de crítica, sem aceitar qualquer coisa de olhos fechados.

Bem bem… Passamos do ponto. E sim, esse é um problema da esquerda, mas é um problema originado por uma causa bem específica, que o justifica. A esquerda se divide porque sua movimentação é motivada por ideias, não por interesses pessoais, que fazem com que a união seja uma estratégia pensada visando um retorno no médio prazo. E ideias divergem.

Então, o que fazer? Passar por cima das divergências e se unir de forma acrítica? Ou assumir as críticas e brigar e brigar, esquecer o entendimento e renunciar às lutas por falta de força, já que cada um lutando sozinho não chega muito longe?

Conversar, não discutir

Nem oito nem 80. Falta um tantinho de tolerância e de vontade de entendimento. Seria simples. A gente discute ideias, sem partir para o pessoal, concorda às vezes, diverge, mas se respeita e se une pelos pontos em que há identificação. Entende que às vezes a gente erra, mesmo que tentando acertar. Que a pessoa do outro lado é tão falível e tão humana quanto a deste lado e que às vezes diz uma besteira monstro. Percebe que há momentos em que o outro fulano pensa diferente mesmo, e isso faz parte. Afinal, quem pode dizer quem está certo?

Como em qualquer relacionamento, na política – e a blogosfera é política, e o feminismo é um movimento social e também político – a gente tem que ceder, tem que tolerar, tem que passar por cima de algumas coisas. Senão ninguém se entende.

Prova disso é encontrada ao reunir os diferentes posts produzidos sobre o assunto. Com cada um, tenho concordâncias e divergências. Algumas partes eu assinaria embaixo e outras eu jogaria no lixo. Ou seja, todos acertamos e erramos. E provavelmente o leitor também discordará de boa parte do que escrevi aqui, e outro leitor discordará de parte diferente. Ou seja, somos diferentes.

Mas temos um ponto de união. Queremos um mundo melhor, queremos melhorar o Brasil, queremos uma visão mais abrangente de sociedade, que não exclua pessoas por conta de sua renda ou do lugar onde mora. Prendamo-nos, pois, aos nossos pontos comuns. Façamos críticas, com o devido respeito e sem a arrogância de se achar dono da razão. Ouçamos as críticas. Aprendamos com elas. Mas não nos desarticulemos. Isso se chama diálogo.

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A seguir, alguns links que ajudam a compreender melhor a dimensão que a coisa tomou. Com alguns concordo mais, com outros menos. Não há nenhum tipo de ordenamento nesse sentido. A cada link, a ordem é o nome do post, nome do blog e autor do texto.

Nassif e a esquerda que a direita adora – Rodrigo Vianna

Elas mataram Orfeu – Gonzum – Miguel do Rosário

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar – O Biscoito Fino e a Massa – Idelber Avelar

A nova blogosfera e o episódio com as feministas – Luis Nassif

“Socorro! Não sou machista, mas as feminazis mal-comidas estão me patrulhando” – Liberal Libertário Libertino – Alex Castro

Algumas reflexões sobre a “blogosfera progressista” – O Descurvo – Hugo Albuquerque

Sobre o debate Nassif, feminazis, Idelber e blogs progressistas – Conexão Brasília-Maranhão – Rogério Tomaz Jr.

Nassif pede desculpas às feministas de bom nível – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

Feminismo não é partido! – O inferno de Dandi – Danilo R. Marques

Blogosfera progressista, feminismo e polêmicas – Conceição Oliveira – Vi o mundo

Como falar bobagens e ser publicado num blog famoso – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

Feminazi: ignorância a serviço do conservadorismo – Cynthia Semíramis

A agressividade como ferramenta de auto-afirmação – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

Discussão sobre feminismo: a esquerda e suas divergências

Isabel Allende conta histórias de paixão na defesa das mulheres

Nesses dias em que o feminismo anda em voga, uma visão mais humana, livre de ranços e preconceitos. Impossível chamar Isabel Allende de braba ou barraqueira. Vale principalmente a partir dos 7 minutos.

Para assistir com legenda, clica onde fala nos subtitles, na parte inferior do vídeo.

Isabel Allende conta histórias de paixão na defesa das mulheres

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher

Recebi esse depoimento do pessoal que está mais ativo na campanha pelo Fim da Violência Contra a Mulher. É o relato de uma mulher que sofreu violência do ex-namorado. O nome dela, evidentemente, é fictício.

Com vergonha, admito meu preconceito. Quando li, achei um depoimento meio fraco. Não tinha violência física, não era dos casos mais graves. Aí saí da observação simples de um caso estranho a mim e me coloquei no lugar de Lua. Senti o inferno que virou sua vida. Imaginei seu cotidiano, a fuga diária de um maluco que passava o dia, todos os dias, tentando humilhá-la. As mudanças na vida impostas por um fator externo que ela não controlava, a desestruturação. Com que direito ele interferia dessa forma na sua felicidade?

Nome: Lua
Porto Alegre, RS
Funcionária Pública
51 anos
curso superior incompleto
casada
1 filha

O agressor foi um ex namorado de 3 anos. Nunca dependi dele emocionalmente. Morávamos cada um em sua casa.

Relato da violência

Após eu ter terminado o namoro passou a me constranger publicamente, seguir e me perseguir em todos os locais onde eu estava. Ele chava que eu não teria coragem de denunciá-lo e que teria medo dele. Num só dia me mandou mais de 30 torpedos e fez mais de 50 ligações para o meu celular. Foi quando fiz a primeira denúncia. Todas as mensagems eram de xingamentos – puta, vagabunda, fracassada, e por aí eram todos. Acabei trocando de celular por causa disso.

Aí ele começou a ligar pra minha casa, insistentemente. Meu telefone passava o tempo todo fora do gancho. Até que uma noite foi até minha casa e tentou entrar. Não abri a porta e chamei a polícia. Ele acabou indo embora, mas publicou meu telefone num site pornô e vários tarados ficaram ligando pra minha casa. Na época minha filha tinha 12 anos.

Troquei também o telefone de casa e fiz nova denúncia 15 dias depois, quando ele contra-atacou também pela internet me ameaçando.

Situação do processo

Na época não tinha Maria da Penha, mas consegui denunciá-lo na Delegacia da Mulher e na cidade de Viamão, onde ele trabalhava na época na Prefeitura. Ele acabou sendo demitido e eu o denunciei por calúnia e difamação, perturbação do sossego e ameaças de violência.

Houve uma audiência (constrangedora) em que ele foi condenado a ficar longe de mim e não se aproximar.

Mas, não satisfeito com tudo isso, ele se matriculou na mesma faculdade que eu, na mesma turma. Quando eu soube, desisti da minha faculdade.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido

Tive o melhor atendimento das amigas que faziam uma rede de solidariedade e me avisavam quando ele aparecia.

A delegacia me fazia sentir que eu era uma idiota, pois sempre me perguntavam: “mas ele te bateu?”, “te ameaçou de morte?”. O juiz disse que ele se afastasse “20m” – foi ridículo.

Meu desejo nunca foi de vingança, mas que ele parasse.

Isso fez com que eu passasse a desconfiar de todos os caras que apareciam. Só voltei a ter um relacionamento estável dois anos depois. E hoje vivo uma vida plena de respeito mútuo, valorização e amor, pois encontrei uma pessoa que jamais faria qualquer violência contra mim.

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher