As eleições da internet – Parte 2

A força da internet não é visível a olho nu. Ela parte dos bastidores e se faz sentir por quem a olha com cuidado. A disseminação de boatos, muito usada pelo PSDB entre o final do primeiro turno e o segundo, é mais fácil de identificar, se mostra mais. Mas as redes sociais foram também importantes.

Pela primeira vez, os grandes veículos de comunicação não puderam manipular informações como bem entendessem para passá-las ao público. Até porque mudou a relação repórter-leitor, produtor-consumidor de informação. A produção de conteúdo, a disseminação de informação começou um processo de horizontalização, em que produtor e receptor misturam-se e confundem-se.

Internet: avaliação e fiscalização

Às matérias disseminadas nos canais de mais audiência e nas revistas e jornais de maior tiragem sempre havia olhos atentos com espaço para publicar desmentidos. Se poucos leram no Twitter antes de a Veja sair que a história da Erenice não era bem aquela que a revista contava, os próprios veículos sabiam que estavam sendo fiscalizados por leitores atentos e que mentir poderia afetar de forma inexorável sua credibilidade.

Eles tentaram. Muito factóide foi gerado e informação falsa circulou, mas, pela sentimento de raiva e ódio despertado nessa campanha, pode-se imaginar que teria sido muito pior se não houvesse um meio para desmascarar as tentativas de mostrar os fatos com alguns detalhes diferentes que mudassem seu significado.

Pautando a agenda

Nesse sentido, a mobilização na internet se deu mais pela fiscalização dos meios de comunicação e pela influência na agenda de discussões do que pela mudança direta de voto. Mesmo que a maioria dos brasileiros eleitores não tenham acesso à rede, as informações que circularam nela pautaram em diversas ocasiões os veículos pelos quais se informam.

Houve declarações e fatos que antes não seriam dados e que acabaram na tevê porque a rede escancarou-os e ficaria muito feio as emissoras fingirem que não viram, que não sabem. Muita mentira foi desmentida, algumas antes até de serem publicadas no papel. Exemplo maior é o episódio da bolinha de papel. A Globo deu distorcido, mas esse ato não passou em branco: até seus repórteres acabaram envergonhados porque confrontados com os fatos que já circulavam na rede e que não havia como negar.

Interatividade e tecnologia

Não havia como negar, aliás, porque em 2010 em todo lugar, em cada canto havia lá um celular com câmera gravando um vídeo que mostrava uma cena. Como dizer que aquilo não ocorreu se havia uma prova material? O desenvolvimento tecnológico, que acompanha mais ou menos o ritmo em que se processa a influência da rede, contribuiu para que, apesar de tudo, as eleições de 2010 fossem mais transparentes. Foram baixas, de muita mentira, mas de muita mentira desmentida.

A tecnologia, então, ajuda quem está nas redes sociais fiscalizando as informações transmitidas a mostrar o que de fato aconteceu, quando retratado de forma diferente.

Equipes mobilizadas e mobilizando militantes do Brasil inteiro estavam contratadas pelas campanhas. Muita gente, com infraestrutura montada especificamente para a atuação nos meios digitais, havia nas diferentes campanhas. Mas havia, além da estrutura montada pelos partidos, militância voluntária, que foi o grande diferencial. Blogueiros estavam presentes diariamente, pegando as deixas dos veículos, fazendo matérias e ajudando a divulgar o que outros blogueiros postavam.

O papel da blogosfera

A força da rede se deu principalmente com a atuação dessas pessoas. Incomodou tanto que o próprio Serra se revoltou e xingou a blogosfera, dizendo que esses blogueiros eram pagos pelo PT, eram “blogueiros sujos”. A reação a essa declaração acabou dando o efeito contrário do que queria o tucano e fortalecendo os “sujos”, que passaram a ostentar o título com orgulho.

O período eleitoral coincidiu com a realização do I Encontro de Blogueiros Progressistas, em São Paulo. Em sua maioria identificados ideologicamente com a campanha Dilma, mas independentes, sem incentivo governamental ou partidário, organizaram-se em uma espécie de rede. Embora fosse proposta do evento, do qual participei, não chegou a ser efetivado um espaço para reunir as atualizações dos blogueiros participantes, mas serviu para conhecer pessoalmente muita gente que antes parecia uma imagem difusa, porque virtual. Nesse sentido, dá força para que a dedicação aumente, porque cria uma identificação.

Eram eles que produziam a maior parte do conteúdo que circulava na rede na campanha dos candidatos de esquerda, mas mesmo os textos produzidos pela equipe da campanha não teriam a mesma força se não fossem repercutidos por esse pessoal.

Por tudo isso, digo sem medo de errar que 2010 foi o primeiro ano em que a internet entrou pra valer na disputa eleitoral no Brasil. 2012 deve ser ainda mais e 2014 eu nem consigo imaginar. Mas já começamos com força esse ano.

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As eleições da internet – Parte 2

Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2

Conselhos de comunicação

O ministro Franklin Martins pede mais participação na comunicação brasileira, não menos. Isso inclui a participação popular nas discussões sobre o marco regulatório e as definições que se devem obter no futuro. Passam por aí a produção de conteúdo e a fiscalização do que é produzido. Fiscalização que não é censura, mas avaliação se o que está sendo feito respeita a Constituição brasileira e se a complexidade da sociedade está contemplada nos meios de comunicação.

A criação de conselhos de comunicação, por exemplo, é uma forma de permitir que mais gente participe do processo de produção, distribuição e avaliação da informação. Tudo que é profissão tem conselho, por que não a nossa?

Controlar a imprensa não é censura

É estabelecer o direito democrático de a população opinar sobre a informação que chega a ela. É avaliar se o trabalho, feito por grupos empresariais não eleitos pelo voto popular, está bem feito e o que deve melhorar.

Iniciativas como essa existem em diversos países do mundo, “civilizados”. É preciso compreender que a liberdade de empresa que vemos, de concorrência geralmente desleal, impede que grupos menores participem do processo de produção de conteúdo. Essa liberdade acaba por tolher esses grupos. Ou seja, eles sofrem uma espécie de censura financeira. Essa restrição impede que a sociedade esteja de fato retratada e participando de todo o processo. Impede a total liberdade de expressão e limita o conteúdo. Acabamos vendo na TV sempre o mesmo tipo, sempre as mesmas situações, os mesmos sotaques. Diversidade zero.

A contradição da grande imprensa: prega democracia mas não aceita crítica

Assim como tacha de censura a ideia de estabelecer qualquer marco que regule as nossas leis, a imprensa atribui às críticas que recebe a acusação de que estão tentando calá-la, censurá-la. Liberdade de expressão inclui a liberdade de crítica. Ela pode criticar o governo, por exemplo, mas não pode ser criticada pelo presidente.

Fica fácil defender-se assim, sempre partindo para a acusação. Distorce o significado do processo democrático de troca de ideias. Ao tentar fazer acreditar que a crítica é um tipo de censura, ela presta um desserviço à democracia. Agride aquilo que diz defender.

Sabe-se que apenas o cidadão maduro tem capacidade de receber críticas e crescer com elas. Com a imprensa funciona da mesma forma. Ou ela é imatura demais ou é mau-intencionada. Afinal, “todos nós somos alvos de críticas. Aliás, quando temos uma atitude madura diante das críticas, de um modo geral, melhoramos com elas”, argumentou o ministro Franklin Martins, ao defender que a imprensa pode, sim, ser observada e criticada. E acrescenta que “a liberdade de imprensa não está arranhada quando alguém critica um órgão ou outro da imprensa; ao contrário, isso faz parte do ambiente democrático”.

O famigerado controle social da mídia e a farsa do controle remoto

Nesse sentido, estabelecer um controle social da mídia é garantir informação de qualidade. Com informação, o povo entende melhor os processos sociais, sejam eles políticos, culturais, o que for, e tem mais autonomia para tomar suas próprias decisões.

Garantir informação de qualidade é, pois, garantir uma democracia mais consolidada. Afinal, “isso não é uma discussão apenas sobre economia […]; isso diz respeito à comunicação, à democracia, à criação de oportunidades, a uma sociedade de informação e conhecimento, à participação política, à produção cultural”, diz Franklin Martins.

E o argumento de que o melhor controle é o controle remoto é fácil e insuficiente, perpetua as distorções que vemos no Brasil, com a existência de oligopólios de mídia. Se a informação é ruim, mas tecnicamente bem feita, é bastante comum ela convencer. Só percebe que a informação é ruim quem procura outras fontes, mas só procura outras fontes quem acha que aquela primeira é insuficiente. Ou seja, na maioria dos casos o pessoal nem se dá conta que tem acesso a uma meia verdade (ou a uma mentira).

Então, cito mais uma vez Franklin Martins, pela sua representatividade e pela clareza de ideias: “É ‘mais’ e não ‘menos’ o que está em jogo neste debate sobre o novo marco regulatório”. Não parece óbvio?

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Leia aqui a primeira parte do texto.

Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2