Europa: curando com veneno

Não é preciso entender muito de economia. Apenas uma noção de lógica resolve a equação. Vários países do mundo, liderados pelos Estados Unidos, começaram, anos atrás, uma política de laissez-faire, de livre comércio, de desregulação do trabalho. O mercado mandava. Ele orientava as ações. O Estado assistia.

O resultado foi um sistema financeiro selvagem que fortalece a especulação.

Em 2008, resultou em uma crise mundial que é tida como a maior desde 1929, a crise das crises. Em avaliações várias, economistas de diversas correntes dizem que foi esse sistema financeiro de especulação e desregulação que levou à crise.

Agora, os países, principalmente europeus, estão recorrendo a bancos, como o Banco Europeu e o Fundo Monetário Internacional, para pedir dinheiro e investir na sua economia. A bola da vez é a Irlanda. Como contrapartida, devem cortar gastos públicos. Ou seja, deixar de investir nos serviços ao cidadão, diminuir suas garantias. Desregular.

E aí entra a parte da (falta de) lógica: para combater a crise, estamos tomando as mesmas medidas que a geraram. É como se eu fosse alérgica a camarão e me entupisse de camarão pra me curar. A conseqüência mais provável é eu ter uma crise severa de alergia e ir parar no hospital com a garganta fechada, o rosto inchado, não conseguindo respirar.

Na economia, não funciona muito diferente. A desregulação, o corte de gastos, o aumento de impostos, a flexibilização de leis trabalhistas são o oposto do que foi feito no Brasil para enfrentar a crise, com consequências igualmente inversas. Com menos garantias, o trabalhador consome menos, o que freia a economia, diminui o crescimento do país e gera desemprego. Que diminui o consumo, gera aumento de impostos, crise. Um perigoso ciclo.

Europa: curando com veneno

Lula e o pós-neoliberalismo – parte II

A economia de Lula mantém traços neoliberais, mas não a essência. E quem fala não sou eu, mas o filósofo Emir Sader, em seu livro A vingança da história. A essência do neoliberalismo é a desregulação, diminuição do Estado, privatização, flexibilização das relações trabalhistas, aumento da dívida externa.

É fácil desmontar a tese de que o governo Lula é neoliberal em essência. Por exemplo, abriu um monte de concursos públicos, aumento o número de empregos com carteira assinada, criou 13 universidades federais, valorizou as empresas públicas – inclusive com a criação de novas estatais -, deixou de ser devedor e se tornou credor e tantos et ceteras.

Mesmo a política externa do governo mostra distanciamento do neoliberalismo. Lula reafirma o papel do Brasil como nação soberana, rompe com a política de subserviência aos países do Norte, notadamente EUA, assume posição de liderança incompatível com a necessidade neoliberal de manter nações fracas e submissas, rompe com a política de obediência cega ao FMI e ao Banco Mundial, que impunham a adoção de todas aquelas medidas que fazem a essência do neoliberalismo.

Por isso, Emir Sader chama o governo Lula de pós-neoliberal. Mantém características, mas não é a mesma coisa.

Lula e o pós-neoliberalismo – parte II