Porto Alegre e as opções para outubro

O Rio Grande do Sul, estamos cansados de saber, é um universo à parte na política partidária (e em que tantas outras coisas, diga-se!). Aqui, PT e PMDB são adversários ferrenhos. PMDB é sabonete, como no resto do Brasil, mas muito mais identificado com a direita do que em nível nacional, em que tem mais facilidade de transitar pelas diferentes esferas.

Mas há anos o PDT de Brizola anda de mãos dadas com esse PMDB, que agora já confirmou apoio ao candidato trabalhista (sic), José Fortunati, que assumiu o paço quando o peemedebista Fogaça pulou fora pra se candidatar (e sequer ir ao segundo turno, caindo no ostracismo prematuramente) ao governo do estado. Fortunati não só apoiou o retrocesso promovido por Fogaça (formando a queridíssima dupla Fo-Fo) como o aprofundou quando assumiu o barco. Porto Alegre, hoje, não tem mais o protagonismo que tinha no cenário mundial em termos de cidadania e participação popular. E pior, a capital dos gaúchos malemal mantém serviços básicos, totalmente defasados.

Brizola revira-se, coitado!

Enquanto isso, a comunista Manuela D’Ávila corteja o Partido Progressista de Ana Amélia, a senadora da RBS. Se vai levar ou não, ainda não sabemos (embora o PP esteja dividido, a tendência é que indique, sim, o vice na chapa com o PCdoB). O que importa, na verdade, é que os comunistas querem muito dar as mãos à ex-Arena. Tudo isso enquanto vangloria-se da história de 90 anos do Partido Comunista.

Diante da incoerência, quem se revira, agora, é Luis Carlos Prestes e todos os outros tantos líderes do partido (muitos mais do que no PDT de Brizola), muitos dos quais morreram nas mãos da Arena.

E são essas duas coligações esdrúxulas que aparecem na ponta das pesquisas eleitorais. Amarguemos, pois.

Sobre a coligação comunistas-Arena, deixo-vos com Latuff, bastante mais claro e contundente que eu:

Anúncios
Porto Alegre e as opções para outubro

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

Por Marcelo Carneiro da Cunha, no Sul 21:

Estimados leitores, cumpri com o meu ritual de renovação do meu visto porto-alegrense retornando à cidade na semana passada. E voltar até aí é sempre a mesma mistura de banzo sem solução com um olhar atento para tudo, comparando o que a cidade tem, com o que vejo nessas andanças por muitos lados, além de riachos que nos separem do mundo, como o Ipiranga, o Mampituba ou o Atlântico.

Nessa chegada, a primeira coisa que me chamou a atenção, entortando o pescoço até o limite da cervical, foi que a Vila Dique continuava ali sob o avião. Opa: não era para ter saído? Não existe uma grave questão que prejudica a cidade, o estado, que é termos uma pista de aeroporto de apenas 2.200 m, impedindo aviões maiores de sair com carga total e encarecendo os fretes? Não era uma questão estratégica resolver esse problema, além da questão humana de dar um jeito na Vila Dique? Eu estive lá, há anos, visitando uma escola, e alguns alunos não vieram ao encontro por não terem roupa, e não acho que eles estivessem falando de roupa arrumada. Espero todo esse tempo por uma solução digna para algo tão indigno, e que ainda nos permita ter um aeroporto com pista decente. Não arrumaram? Não deram um jeito?

Porque uma cidade é do tamanho dos jeitos que a gente dá pra elas, estimados leitores. Nessa semana, por exemplo, fui ver a maravilhosa sinfônica de SP tocar na maravilhosa Sala São Paulo, onde ela se apresenta. E pensei na OSPA. Eu cresci indo ver a OSPA, domingos e terças e não entendo como Porto Alegre pode viver sem um lugar para a sua sinfônica. São Paulo pode dar jeito nisso, mas Porto Alegre não pode? Desde quando? Como éramos capazes de dar um jeito no Theatro São Pedro láaaa em 1860, mais ou menos. Pioramos, desde então?

O problema é dinheiro? Pois observando atentamente a minha cidade, eu vi que não há placas nas esquinas. Sabem placas de esquina? Certamente temos esquinas, muitas. Temos ruas, e elas têm nomes. Então cadê as placas nas esquinas contendo os nomes das ruas? Uma cidade sem placas nas esquinas é uma cidade que se leva a sério?

Senhor prefeito de Porto Alegre, onde quer que o senhor esteja. São Paulo tem 22 mil quilômetros de ruas e acha normal ter placas nas esquinas. Em TODAS as esquinas. A minha Porto Alegre, que o senhor alega governar, não pode ter? Como o senhor pode dormir à noite sabendo que a cidade não tem pista de aeroporto nem placas nas esquinas? Se até Curitiba, que nem tem esquinas, pode ter placas nas esquinas, como o senhor dorme à noite enquanto Porto Alegre não as tem? Pode acordar e explicar, por favor?

Já em outros itens a cidade vai dando os seus jeitos. Vi lugares novos, bares, restaurantes, bem legais. Conheci o Bier Markt, sensacional para quem gosta de cerveja de verdade, coisa aliás escassa aqui no Norte onde eu vivo, provando que cerveja tem jeito, na cidade. Pude curtir o pão com manteiga da melhor padaria que eu conheço no Brasil, Barbarella. Não deu tempo de provar o melhor mil-folhas, de bergamota, no Patissier. Pude olhar para o Guaíba sob o céu azul, e o banzo atingiu limites quase insuportáveis; deu para passar no Iberê Camargo, o que sempre enche o peito de um sentimento que seria pecaminoso, se eu acreditasse nessas coisas. Vi um varejo com jeito de século 21 tomando forma, o que é bastante bom, e vi muita gente na rua, em uma noite de começo de semana. Porto Alegre tem o menor desemprego em área metropolitana no Brasil, eu li, e isso começa a aparecer.

Não vi polícia na rua, como vejo aqui, vi uma grande festa do Inter na noite anterior a viagem para Abu Dhabi, talvez o clube do Brasil que melhor constrói a relação com sua comunidade, hoje (e quem admite é um gremista de quatro costados). Sofri com os nossos péssimos táxis, e, infelizmente, taxistas bastante pouco animados com o decoro profissional. Quem foi que disse que a gente merece nada mais do que aqueles Corsas sedãs, que são pequenos, minha gente? Ouvi comentários e piadas dos motoristas que avermelharam os ouvidos nada puritanos desse neto da Jovita, e paguei caro para andar em um taxi que parecia ter um estado pulmonar pior do que o meu, e eu moro em São Paulo!!!

Penso no que a cidade pode ser, com um plano estratégico à altura de suas possibilidades, de um novo uso para o porto, para a Mauá, que removesse aqueles horrendos prédios-garagem, e nos desse algo onde morar diante do rio. Penso em um centro vivo e bonito, numa Praça da Alfândega renovada e de volta para as pessoas, penso em uma nova Feira do Livro e, radicalizando, em uma cidade com placas nas esquinas.

Não é fácil criar uma cidade digna das aspirações de uma Porto Alegre, mas é muito, muito mais fácil de se fazer isso quando a cidade em questão é uma Porto Alegre, não? Penso nisso enquanto o avião me traz de volta para a cidade com céu cinza e placas nas esquinas onde vivo, e penso que tudo que eu quero é um jeito aí, porque se tem uma coisa que todo ser vivo precisa ter é um lugar para onde voltar, de onde quer que se encontre, de onde quer que a vida tenha levado, e de onde sempre, sempre mesmo, se volta.

* Jornalista e escritor

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

O maior derrotado no RS foi o PMDB

O principal adversário do PT na disputa pelo governo do estado saiu profundamente derrotado. O PMDB viu ruir seu modo conservador e fisiológico de fazer política. Se for inteligente, poderá aprender que uma campanha vazia de conteúdo não traz resultados, nem eleitorais nem políticos.

Fogaça não só não foi para o segundo turno, como fez um percentual eleitoral baixo e mostrou-se tão apático ao longo da campanha que ficou desacreditado. Rigotto perdeu a corrida para o Senado que acreditava piamente ter nas mãos. Os dois candidatos são muito parecidos. Ambos apresentam o discurso de pacificação, que não quer dizer nada quando não estamos em uma disputa polarizada e que não traz propostas concretas para o estado. Pacificar só não é suficiente. É preciso ter um projeto para desenvolver o Rio Grande. Perderam-se ambos no vazio de suas plataformas.

O PSDB perdeu também, mas esse não tinha tradição de força política no estado e conquistou o Piratini na eleição passada por força das circunstâncias. E, considerando o péssimo governo de Yeda, até que saiu razoavelmente bem nos planos de tentar a reeleição. Apenas voltou ao papel que não deveria ter abandonado, o de coadjuvante.

Mas o PMDB sempre teve força por aqui. Ao adotar a política da “imparcialidade ativa”, perdeu o rumo. Teve depois que voltar atrás e liberar os integrantes do partido a demonstrarem seu apoio a alguma das candidaturas à Presidência. O PMDB fracassou até em seu fisiologismo. Calculou mal, achou que se mantendo neutro poderia depois migrar para qualquer lado. Dificilmente os quadros do partido no RS terão espaço em um futuro governo Dilma.

Além do mais, essa neutralidade abriu espaço para que Lula e Dilma se empenhassem na eleição de Tarso e tornasse ainda mais estrondosa a derrota do PMDB nas urnas. Afinal, não é que gaúcho não goste de quem não se posiciona, ninguém gosta de quem não diz o que defende e o que pretende.

No fim das contas, Fogaça e Rigotto saíram derrotados das urnas. Rigotto já não pela primeira vez. Isso sem contar Eliseu Padilha, raposa velha e experiente, que não se reelegeu deputado federal. Mas todo o partido perdeu, a ponto de Pedro Simon renunciar ao cargo de presidente do PMDB estadual.

Outro que apostou errado e perdeu feio foi o PDT, mas pelo menos herdou a prefeitura e ainda pode integrar o governo de Tarso Genro, que disse estar de portas abertas. Ressalvas para o ex-governador Alceu Collares, que aderiu à campanha petista.

O maior derrotado no RS foi o PMDB

Previsões para o fim da apuração

Preciso registrar o que já disse há uns quantos dias no Twitter. Não é nada genial, nenhuma previsão nunca pensada. Na verdade, é quase tudo meio óbvio, mas ainda assim deixo o registro da minha sensação: teremos Dilma e Tarso eleitos no primeiro turno.

Paim, que até pouco tempo atrás corria o risco de ficar fora do Senado pelo Rio Grande do Sul, eleger-se-á em primeiro lugar, desbancando a defensora do agronegócio e amante do latifúndio Ana Amélia Lemos (que concorre de fato pelo partido RBS e oficialmente pelo PP), que infelizmente também entrará, mas em segundo. Rigotto (PMDB), o ex-governador, que ficou em terceiro quando tentou a eleição, não será nada daqui para a frente. Quer dizer, permanecerá sendo um nada, mas agora poderá pensar em cair fora da política – é o que eu faria em seu lugar. De preferência sem tentar asfixiar pequenos jornais que travam a batalha cotidiana pelo jornalismo cidadão.

Fogaça, que largou a prefeitura de Porto Alegre e concorre a governador pelo PMDB, poderá voltar a dar aulas ou compor músicas. Mas desconfio que, além da carreira política, a carreira artística do rapaz também não vá lá muito bem. Afinal, tudo o que sua criatividade permitiu foi usar o mesmo jingle para se eleger duas vezes prefeito e concorrer a governador. O Fogaça-a-a-a-a já tem pelo menos uma década de vida e não surge nada no lugar.

Yeda pode voltar ao ostracismo a que estava acostumada antes de o destino a eleger governadora – ainda não entendo como e acuso de dedo em riste cada gaúcho que teve uma pontinha de responsabilidade no desastre que vive o nosso estado ao depositar seu voto na candidata do PSDB. A tucana concorria a tudo pelo partido e nunca alcançava dois dígitos no percentual de voto. Agora, pode levar sua arrogância de volta para São Paulo e tentar cuidar um pouco melhor dos netos que expôs para se fazer de vítima perante a mobilização justa do CPERS por melhores salários aos professores gaúchos. Que vá para qualquer lugar, mas que deixe meu estado em paz.

O PT aumentará sua bancada estadual, de 10 para 14 deputados – pelo menos 13 entrarão, mas arrisco 14, quiçá 15 – e elegerá oito federais, com chance pra nove, dada a quantidade de nomes fortes que concorrem e do bom momento do partido no país e no RS.

Previsões para o fim da apuração

PMDB, PDT e suas oportunas coincidências

Recebi hoje no meu endereço eletrônico a newsletter do PDT. Achei divertido o assunto do e-mail: “PDT articula encontro da dobrada Dilma-Fogaça”.

Hein? Dobrada?

Engraçado que não faz muito tempo era possível ler nos jornais sobre a postura, digamos, interessante do candidato a governador do RS pelo PMDB, José Fogaça. A tal “imparcialidade ativa” que não diz porcaria nenhuma, mas naquele momento serviu para o sem-sal ex-prefeito da capital assumir que não assumia nada (“Inação de Fogaça ultrapassa as fronteiras do ridículo”). Que, pra variar, ficava em cima do muro. Que fazia o que fez em seus seis anos como prefeito: patavinas.

Ao contrário do resto do país, no RS Dilma demorou um pouco mais para ultrapassar Serra nas pesquisas. Não era tão óbvia a vantagem de vincular o nome ao da candidata petista. Cobiçado por PT e PSDB, o PMDB, dividido, decidiu ficar em cima do muro, na época em que cabia fazer as alianças com um lado ou outro.

O insólito da história é que agora que Dilma apareceu na frente na última sondagem do Ibope no estado dos gaúchos, o PDT, vice na chapa de Fogaça, fala em “dobrada”, força uma aproximação. Coincidência, apenas. Claro.

PMDB, PDT e suas oportunas coincidências

O primo pobre do PMDB

Concorrem com certa força ao governo estadual um representante do governo Lula, um do governo Yeda e um do governo Fogaça. União, Estado e Município. Nos dois últimos casos, são os próprios chefes do Executivo que encabeçam a chapa.

O PTB, que estava fingindo ter força até ontem, anunciou que não vai mais insistir na candidatura de Luis Augusto Lara para governador do Rio Grande do Sul. A retirada era questão de tempo, qualquer um sabia. Lara insistiu em manter seu nome na disputa com a intenção de valorizar seu passe e o do PTB, costurar alianças com mais força. Não deu certo. Agora, o partido declara-se neutro, não vai apoiar a priori nenhuma chapa majoritária.

Os motivos são dois: o cenário descrito no primeiro parágrafo e as pesquisas. O PTB ocupa cargos nos três governos, e não quer perder a boquinha. Anunciando apoio a algum candidato, teria que desfazer a promiscuidade pelos próximos meses, e não interessa ficar longe do poder um minuto que seja.

As pesquisas, por outro lado, vão servir para orientar o PTB, já no fim do processo eleitoral, a escolher o melhor apoio. Não deve contar programa partidário ou identificação ideológica, mas os números. Os maiores nas sondagens devem receber o partido. O PTB não vai ser vice de nada, perdeu o bonde. Em compensação, vai estar próximo de qualquer um que se eleger e deve continuar no poder. Vai ser desde criancinha simpatizante do partido eleito.

Aprendeu a lição do maior oportunista político brasileiro, o PMDB. Só que não tão direitinho. Se for ver de perto, o PMDB também está, ou esteve, presente nos governos Lula, Yeda e Fogaça. É tão prostituído quanto. Mas não aparenta o mesmo mau-caratismo que o PTB (e mesmo se aparenta, todos fingem não ver, ninguém prescinde do apoio do PMDB, pelo contrário, brigam por ele). É mais velado, embora seja tão ruim ou pior. Só que mais inteligente. Talvez por isso ainda pior, já que acaba sempre com mais força, mais poder.

O PTB mama. O PMDB dá as cartas.

O primo pobre do PMDB