O jeito Folha de fazer jornalismo

Fiquei na dúvida se eu estava no site certo, se não tinha sido conduzida a um pop-up que me enchesse o computador de vírus. Dei uma conferida no cabeçalho do site, eu continuava na Folha.com.

Depois de tanta polêmica sobre diploma pra jornalista e o escambau, a Folha tenta provar que realmente, para fazer o “jornalismo” que a nossa grande imprensa faz, não precisa de estudo nenhum. Um cursinho básico de Ctrl+c Ctrl+v é suficiente. Afinal, para receber os telegramas do Wikileaks e publicar na íntegra, EM INGLÊS, sem tirar nem as marcas características desse tipo de comunicação, rápida e de pouco espaço, que agora só prejudicam a leitura, qualquer um.

Hoje vi isso pela segunda vez. Semana passada já tinha feito um acesso semelhante e me surpreendido. Antes que me chamem de mentirosa, repasso alguns links:

Brasil demonstra ‘imaturidade política’ e paranoia sobre Amazônia; leia em inglês

Segundo telegrama, Brasil demonstra ‘ambivalência’ a respeito dos EUA; leia em inglês

De mensalão a etanol, telegrama contextualiza Brasil para secretário; leia em inglês

Vai ver a Folha anda cortando pessoal. Um jeito de fazer jornalismo um tanto parecido com aquele “novo jeito de governar”, também conhecido como “choque de gestão”.

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O jeito Folha de fazer jornalismo

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Nada contra a abertura dos arquivos da ditadura, muito pelo contrário. Defendo, sempre defendi, que sejam disponibilizados para a sociedade. Afinal, é nossa história. Temos o direito de conhecê-los, para atualizar nossa literatura histórica e melhor pensar o presente e o futuro. Temos o direito de conhecê-los para exigir justiça e punir torturadores.

Mas abrir arquivos de uma única pessoa não me parece sensato. Quando analisadas as condições em que se dão a abertura autorizada essa semana, fica ainda pior. A pessoa em questão é a presidente eleita, Dilma Rousseff. Quem pediu foi o jornal Folha de S.Paulo, que manteve oposição a Dilma ao longo de toda a campanha em 2010. Que já usou arquivos para acusar Dilma de supostos crimes cometidos ou planejados durante os anos de chumbo. Tudo isso sem dar a devida contextualização de como funcionava a resistência a um regime que censurava, torturava, matava. O jornal da ditabranda.

Nos arquivos da ditadura há a versão dos ditadores. Versão sempre pejorativa em relação aos presos, torturados, perseguidos, exilados. Ainda assim, devem ser abertos para estudo, insisto. Ali encontraremos listas de pessoas malquistas pelo regime, saberemos o que aconteceu com elas, quem fez o quê, quem torturou quem. É muita informação para compreendermos melhor como funcionava a cabeça de quem usa de métodos torpes para fazer “política”, para conseguir poder.

Mas para isso eles têm que ser lidos com o olhar de quem entende que aquela é uma visão parcial, que foi escrito por quem torturava, não por quem era torturado. Que ali se descreviam o que chamavam de crimes cometidos ou planejados por quem não tinha acesso aos documentos oficiais para registrar sua versão e que não era ouvido como réu ou como testemunha. Que os crimes ali descritos podem nem ter acontecido ou, mesmo que tenham, a imensa maioria se deu dentro de um contexto de luta pela democracia, de resistência a um regime sangrento.

A utilização das informações ali contidas como sendo a verdade total e absoluta é perigosa. Pode gerar distorções graves e grandes consequências. Pode consolidar uma imagem negativa que a oposição tentou impor que vincula a presidente eleita a uma resistência armada mesmo sem ela ter pego em armas – ainda que essa tenha sido uma forma legítima de resistência. Que atribui a Dilma a pecha de terrorista em um momento em que o mundo cultiva uma imagem negativa de quem leva esse título, geralmente muçulmanos que atentam contra o capitalismo ocidental.

Por enquanto, quem tem acesso aos arquivos é a Folha de S.Paulo, que não publicou ainda nada com base neles. Enquanto não forem bem ou mal utilizados, são apenas suposições. Quero crer que estou errada na minha avaliação precipitada.

Pelo direito à verdade e à informação completa é que faço campanha pela abertura de todos os arquivos da ditadura. Para que nenhum arquivo seja aberto sem que todos os outros lhe acompanhem. Para que tenhamos acesso a toda a verdade e a compreendamos em toda a sua complexidade.

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Boa notícia para as Comunicações

Escreveu Renata Lo Prete no Painel da Folha de S.Paulo:

Em resposta à ideia, defendida pelo PMDB, de que cada partido mantenha no governo de Dilma Rousseff sua atual cota na Esplanada, o PT passou a argumentar que o tamanho pode até ser o mesmo, mas que ninguém é dono deste ou daquele ministério.
Dos ministérios alheios que o PT gostaria de comandar a partir de janeiro de 2011, o das Comunicações é considerado estratégico pelo partido. Por ali passarão questões como a universalização da banda larga e o novo marco regulatório das telecomunicações. Os petistas sugerem Antonio Palocci. O PMDB oferecerá a Dilma o nome de Moreira Franco.

Duvido qua alguma das indicações prospere. Por enquanto, especula-se muito, mas se sabe muito pouco. O importante mesmo é que o setor é considerado estratégico – finalmente! – pelo governo e admitido pela Folha. Nesse caso, referenda mais a notícia porque é dada por um veículo que não quer que as coisas mudem.

É ou não é uma boa notícia?

Boa notícia para as Comunicações

O negócio da mídia e a sociedade, por Paulo Nogueira

QUEM FISCALIZA O FISCAL?

Paulo Nogueira, do blog Diário do centro do mundo, publicado no blog do Luis Nassif.

Há, na Inglaterra, uma guerra fria entre os políticos e os jornalistas que cobrem política. Os políticos entendem que os jornalistas não receberam mandato da sociedade – votos, em suma – que lhes dê legimitidade nos comentários ou nos debates.

Em seu bom livro sobre jornalismo, My Trade, ou Meu Ofício, Andrew Marr,  editor de política da BBC, detém-se longamente nesta discussão. Há alguma coisa nela, feitas as devidas adaptações, que vale para o Brasil.

Quais os limites do jornalismo e dos jornalistas?

Vejamos a Folha de S. Paulo, por exemplo. Ela procura se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade.

Não o foi votada. Não foi eleita.  Fora isso, existe fiscal que não é fiscalizado?

Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá é prestígio, influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas.  No começo da década de 2000, quando a internet já desaconselhava investimentos em papel no Reino Unido, um empresário russo comprou o jornal inglês The Evening Standard, em grave crise financeira, examente por isso: para ganhar respeitabilidade.

É um jogo antigo.

Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado porque se julgara traído pelos jornalistas que fizeram a greve de 1961. (Meu pai era um deles.) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.” Na biografia, a coleção de fotos de Frias ao lado de personalidades mostra que o objetivo foi completamente alcançado. Um granjeiro não estaria em nenhuma daquelas fotos.

Sendo um negócio, o jornalismo não está acima do bem e do mal. É natural que prevaleçam, nele, as razões de empresa.  Essas razões podem coincidir com as razões nacionais – ou não. Observe o mais carismático – não necessariamente o melhor ou mais escrupuloso – empresário de jornalismo da história do Brasil, Roberto Marinho, da Globo. Quem garante que o que era melhor para ele era o melhor para o país? Roberto Marinho era tão magnânimo a ponto de pôr os interesses nacionais à frente dos pessoais?

Como a sociedade não elegeu empresas jornalísticas, seus donos não têm que dar satisfação a ninguém sobre coisas como o uso dão ao dinheiro que retiram. Se decidem vender o negócio, nada os impede. Essa é a parte boa de você não ter um vínculo ou uma delegação direta da sociedade. Não existem amarras burocráticas para seus movimentos. Mas você não pode ficar com a parte boa e dispensar a outra – a que não lhe garante tratamento privilegiado apenas por ser da imprensa. Liberdade de expressão não é um conceito que tenha valor em si e sim dentro de um contexto. Na Inglaterra, você não pode publicar um artigo que exalte o terror islâmico, por exemplo. Mesmo no célebre Speaker’s Corner – o canto no Hyde Park tradicional por abrigar qualquer tipo de manifestação de gente que suba num caixote ou numa escada – se você louvar Bin Laden é preso assim que pisar no chão.

No Reino Unido, a mídia é acompanhada, como toda indústria. Há, por exemplo, um órgão regulador independente para a tevê e para o rádio, o Ofcom. A independência é vital. Se o Ofcom fosse manipulado por interesses políticos, seria um problema e não uma solução. Também não prestaria para nada se fosse controlado pelas próprias emissoras. Em poucas atividades há tanta autocomplacência como na auto-regulamentação. Outro fator relevante no acompanhamento da mídia entre os britânicos é a existência de grupos de pressão como o Mediawatcher, uma associação de espectadores que esperneia sempre que acha oportuno.

É curioso que não haja nada desse tipo no Brasil. As pressões do público são desogarnizadas, como vimos, por exemplo, no movimento que sugeriu a Galvão Bueno calar a boca.

Jornalismo é um negócio como todo outro. Apenas, em vez de vender sabão, você vende notícias e análises. Isso dá prestígio – mas não pode dar imunidade. Um modelo de acompanhamento semelhante ao britânico – em que não exista manipulação política do governo, como acontece em ditaduras – seria um avanço para o Brasil. Não se pode confundir acompanhamento com censura: os brasileiros ainda têm clara na memória a agressão ao noticiário sofrida na ditadura militar, e sabem o que aconteceu em países como a Rússia. Mas nada disso pode servir de impedimento para uma discussão adulta que eventualmente conduza da auto-regulamentação para uma regulamentação independente nos moldes da britânica.

Há dois grandes desafios aí. Um é vencer a resistência da mídia em sair da área de conforto da auto-regulamentação. Devem prevalecer aí não os interesses particulares e sim os do país. O outro é neutralizar a tentação dos governos de tomar a si um acompanhamento que só faz sentido se for genuinamente independente.

O negócio da mídia e a sociedade, por Paulo Nogueira

Folha dá uma de paparazzo de Dilma

Tentando convencer os leitores da seriedade do jornalismo que pratica, a Folha publicou a seguinte matéria, cujo início reproduzo, com grifos meus nas melhores partes:

Dilma toma banho de mar na praia de Itacaré

MATHEUS MAGENTA
ANA FLOR
ENVIADOS ESPECIAIS A ITACARÉ (BA)

A Folha flagrou nesta sexta-feira a presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), na praia de Itacaré, na Bahia. Ela tomava banho de mar vestindo um maiô escuro e estava acompanhada de dois assessores e um agente da Polícia Federal.

O grupo estava em dois quadriciclos vermelhos e se deslocava pela orla.

Dilma ficou cerca de 15 minutos no mar e, depois, caminhou por mais 15. Ela saiu da água enrolada numa canga azul e depois vestiu uma saída de banho cor de rosa. Antes de ir embora no quadriciclo, ela descansou embaixo de um toldo azul, que abrigava também uma caixa térmica, com frutas, biscoitos, cereais e água de coco. (esse parágrafo é sensacional!)

Ontem, Dilma foi vista na casa do empresário paulista João Paiva, na praia de Patizeiro, a cerca de 30 km do centro de Itacaré. Pouco conhecido, Paiva tem uma mansão isolada no topo de um morro cercado de mata nativa e com vista para o mar. Projetada pelo arquiteto Claudio Bernardes (1949-2001), a casa é considerada uma das mais luxuosas de Itacaré, retiro de artistas e grandes empresários.

A construção já foi capa da “Casa Vogue”, que a descreveu como a “materialização do paraíso tropical”, em 2007. Segundo a revista, são 1.200 metros quadrados erguidos em “linhas contemporâneas equilibradas em pedra, madeira e vidro”.

Folha dá uma de paparazzo de Dilma

A vitória de Dilma nos jornais

No dia seguinte à eleição de Dilma, fui à banca de revistas e “baixei tudo”, como diria o jornalista e professor Wladimyr Ungaretti. Bem, nem tudo, mas o que meu dinheiro e os limites da ainda em muitos aspectos provinciana Porto Alegre permitiram. Muita coisa não chega por aqui, então me limitei aos jornais nacionais de maior vendagem e aos locais. Fui para casa com Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul e Diário Gaúcho de segunda-feira, primeiro de novembro de 2010. Reproduzo e comento as manchetes de cada um:

Folha: Um sóbrio “Dilma é a eleita”, sem tom de comemoração e sem sacanagem.

Estadão: Um bem sacana “A vitória de Lula”, que menospreza a capacidade de Dilma e atribui a vitória a Lula, como se ele fosse governar em seu lugar. É parecido com o que a imprensa vem fazendo com a presidente argentina Cristina Kirchner, principalmente desde a morte de seu marido, Nestor Kirchner. Revela um machismo ainda muito forte nos setores mais conservadores da sociedade, como se as mulheres não fossem capazes de governar sozinhas, tampouco de conquistar uma vitória sem a presença de um homem por trás.

O Globo: Segue na mesma linha preconceituosa do Estadão, mas com o agravante de alfinetar o PT e colocar Dilma apenas como um tapa-buracos entre dois governos de Lula, já que ele não poderia disputar um terceiro mandato consecutivo. Diz que “Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014”. Além de menosprezar a capacidade de Dilma, zomba da decisão soberana do povo brasileiro, ao dizer que quem elegeu Dilma foi Lula, como se os cidadãos brasileiros não tivessem ido às urnas e expressado sua vontade.

Zero Hora: “A presidente do Brasil”. Além da manchete neutra, o jornal traz ainda um bonito perfil de Dilma nas páginas 4 e 5, assinado por Moisés Mendes.

Correio do Povo: “Mulher no poder”. Uma manchete interessante, oposta à do Estadão e d’O Globo, atribui o poder a Dilma e valoriza o fato de o Brasil ter eleito uma mulher.

O Sul: No alto diz “Dilma” e completa no pé com “A primeira mulher presidente do Brasil”. O fraco jornal gaúcho não é exatamente criativo, mas ressalta o fato histórico de se alçar uma mulher à Presidência, que foi o principal destaque nos jornais do mundo inteiro.

Jornal do Comércio: “Dilma é a primeira mulher presidente”, na mesma linha d’O Sul, mas um pouco mais sóbrio, como é do perfil do periódico.

Diário Gaúcho: Do grupo hegemônico RBS, um jornal popular, mais conhecido por suas capas grosseiras, recheadas de violência e nudez, com uma pitada de futebol, dá um golpe de mestre nos jornais do centro do país, com um gigante “Brilha a estrela de Dilma”. Usa um trocadilho com o símbolo do PT sem ficar ridículo, faz um título bonito e atribui a vitória a Dilma, não ao partido nem a Lula. A estrela que brilhou foi a dela.

Em seguida, comentei que a melhor manchete fora essa, do Diário Gaúcho. De fato, dentre os veículos que comprei, é uma das melhores. Mas hoje o Cloaca News publicou a capa do jornal uruguaio La República, excepcional, que resume em uma frase toda a sacanagem que foi essa campanha eleitoral: “Nem a direita, nem a mídia, nem o papa puderam com a candidata do PT que ganhou por 56% a 44%”. Outras manchetes de veículos internacionais podem ser vistas no RS13. Vale a visita para comparar os estilos de se fazer jornalismo do Brasil com o exterior.

A vitória de Dilma nos jornais

Militância voluntária existe, sim

Diz a Folha que militância voluntária não existe mais, “é coisa do passado”. Em matéria em vídeo de cinco minutos, até se desmente, mostrando quatro casos de jovens militantes (intrigante notar que o único material que conseguimos distinguir é da Dilma nessa militância não-paga).

Pra começar, entre meus conhecidos tem uma penca de gente que sai panfletear seguido. É diferente da militância paga, claro. Geralmente o pessoal sai em horários mais reduzidos, quando não está trabalhando, mas se nota uma abordagem diferente, mais esclarecida, em que fica claro que ele realmente quer aquele voto, porque sabe sua importância.

A militância voluntária existe, sim. Não existe para quem não quer ver. Geralmente é de esquerda, por uma questão de identificação programática e não apoio em torno de interesses, o que reduz a gana de se eleger um projeto político.

E tem mais. A militância nas ruas até diminuiu, admito, mas em compensação ela tomou outras formas. O que se faz em blogs e redes sociais é a militância do século XXI, que, por se dar de outro jeito, não significa que seja menos importante ou inexistente.

Então, recomendo aos jornalistas e aos veículos (já tinha visto comentário semelhante na GloboNews) que cuidem ao fazer esse tipo de declaração taxativa. Ao fazer isso, não só se agride a verdade, mas, nesse caso, ao militante que está lá dedicado a eleger seu candidato. Que está nas ruas, no telefone ou no computador ou sejá lá com que meios.

Militância voluntária existe, sim