A diferença de um projeto popular

Hoje faltam cinco dias para o primeiro turno das eleições municipais de 2012. Falta pouco tempo para elegermos nossos futuros prefeitos e prefeitas, mas antes precisamos apontar algumas questões.

A essa altura do campeonato, não se pode dizer que os candidatos mais bem colocados, acredito que em todas as grandes cidades do Brasil, tenham  diferenças radicais. Sua candidatura está sujeita às regras do jogo político que está colocado, e eles só chegaram a uma boa posição nas pesquisas se submetendo a questões como financiamento privado de campanha, alianças etc.

Embora estejam todos presos ao mesmo jogo e acabem adotando posturas semelhantes em muitos casos, há, sim, diferenças fundamentais. Diferenças de projeto político. E aí foco em Porto Alegre, que é onde moro, onde voto e de onde me sinto apta a falar.

Vou retomar um período meio antigo, que muita gente já cansou de ouvir falar, para ilustrar essas diferenças. Porto Alegre teve 16 anos de administração popular, de prefeitos petistas. Popular. Do povo. Não só porque visava aos interesses do povo, mas porque era feita por ele. Trabalhadores na Prefeitura.

Nesses 16 anos, a vida melhorou no cotidiano do porto-alegrense. O transporte público era referência, os parques eram valorizados, a cidade foi pioneira na coleta seletiva. Mas, acima de tudo, a administração foi extremamente ousada e colocou o cidadão no centro do debate da cidade. Ele passou a dizer onde a comunidade estava precisando de investimento, como investir o orçamento. Não só opinar, mas decidir. O Orçamento Participativo já parece tema vencido, mas é importante citá-lo porque ele é sintomático desse projeto político de que eu falava mais acima.

Foi esse Orçamento Participativo, além da forma de lidar com o bem público e com a condução da administração da cidade, que chamaram a atenção de gente de vários lugares do mundo. O Fórum Social Mundial foi consequência de uma política diferente feita aqui, que experimentava uma relação nova com a cidade. Que democratizava a democracia. Movimentos sociais do mundo inteiro se reuniram então em Porto Alegre. Usavam do exemplo daqui para dizer que um outro mundo era possível, sim.

O projeto se desgastou e parou de trazer novidades. Somado a isso e a erros políticos, uma campanha insistente e sistemática dos meios de comunicação contra o Partido dos Trabalhadores e os principais movimentos sociais (só o PT tem antipetismo!) acabou por tirar esse projeto político da Prefeitura, substituindo-o por um modo mais tradicional de fazer política, em que o prefeito é eleito pelo povo, mas administra sem ele.

Nesse meio tradicional, aqui ou em qualquer lugar, pode até acontecer de ser eleito um cara competente, bem intencionado. Mas aí entra a diferença na forma como lida com a coisa pública e como enxerga a sociedade, especialmente no âmbito municipal. Se ele não enxerga o protagonismo em cada cidadão, ele limita sua capacidade de agir, de transformar a realidade de verdade.

Em Porto Alegre, os governos do PT foram substituídos por uma parceria assim tradicional, mas não necessariamente tão bem intencionada. A dupla Fogaça-Fortunati responde por inúmeros retrocessos, que começam por tirar força do OP e continuam em uma gestão medíocre da cidade. A dupla Fo-Fo não melhorou a sinalização, piorou o transporte público (a Carris está quebrada), ajudou a aumentar a sensação de insegurança, praticamente acabou com a coleta seletiva (o lixo se espalha pelas ruas), reduziu a importância da cultura…

Esse projeto de que falo é o mesmo que, em nível nacional, transformou o país, como todos já estamos cansados de saber e viver.

Público x Privado

Observando especialmente o perfil de José Fortunati, que as pesquisas indicam ser o vencedor das eleições, notamos uma diferença bem grande. Ainda que o prefeito não tenha privatizado empresas públicas, como fez o projeto neoliberal que se opõe ao projeto dos governos Lula-Dilma, ele fez concessões que retiram espaços públicos de quem é de direito, dos cidadãos de Porto Alegre, que privatizam esses espaços. A parceria público-privada com a Opus pode ter deixado o Araújo Vianna um baita espaço pra shows, mas agora sua utilização não visa mais o interesse público. Afinal, esse é o papel da administração municipal, mas não da empresa privada. Resumindo, as atrações que ocorrerem ali terão o preço colocado de forma a dar lucro à empresa. O cidadão não vai mais ter acesso à cultura como um direito, vai estar submetido aos interesses do mercado, que sempre privilegiam a elite.

Da mesma forma, o Largo Glênio Peres, cujo episódio do chafariz no comício de Adão Villaverde ficou emblemático. E é a mesma mentalidade que privilegia o carro ao transporte público, que governa para quem não precisa da mão do Estado.

A cidade é onde a vida acontece. A administração municipal influencia no dia-a-dia do cidadão e que afeta sua qualidade de vida. Por isso, ela precisa ser executada voltada para ele, para as necessidades de sua população.

Eu não voto em candidato, eu voto em partido, voto em projeto. E voto no único partido que tem projeto para toda a sua população, que privilegie os que mais precisam. Voto no único partido dos trabalhadores.

A diferença de um projeto popular

Chafariz no comício é consequência da privatização do espaço público

Hoje, 27 de setembro, a dez dias das eleições municipais de 2012, tivemos comício da Frente Popular no Largo Glênio Peres, Centro de Porto Alegre. Para quem não é daqui, o Glênio Peres é aquele espaço público que serve, no dia a dia, de passagem para milhares de pessoas, mas que também é palco de manifestações populares, de feiras de agricultura familiar, de ocupação. Um espaço do povo.

Nem tanto.

No meio do comício, enquanto falava a ministra da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, militantes receberam uma visita inesperada. Água. E ela não vinha do céu, mas do chão. A novidade anunciada tempos atrás pela Prefeitura, ocupada por José Fortunati desde que José Fogaça renunciou para se candidatar sem sucesso ao governo do estado, mostrou pela primeira vez claramente o prejuízo que causa.

O chafariz – pontos de água espalhados em uma linha quase reta – está em espaço público, mas foi colocado pela Coca-Cola. A privatização do espaço tem consequências bem graves, e diz muito da forma de administrar a cidade – bem diferente da administração popular. Consequências que vão bem além dos militantes molhados, do outro que caiu ao tropeçar tentando escapar da água e do material de campanha encharcado.

Prefiro não apostar na possibilidade de os correligionários do prefeito Fortunati serem tão contra o espírito democrático a ponto de ligar os chafarizes de propósito. E na verdade não importam muito as desculpas que a Prefeitura possa dar (segundo a Rádio Guaíba, o coordenador do programa Viva o Centro, Glênio Bohrer, disse haver um acordo para que não fossem ligados durante o comício e que desconfia de sabotagem, mas poderiam dizer que ligava automático, sabotagem, acidente, responsabilidade da empresa, não importa). Não importa, porque só têm duas opções: ou o chafariz é responsabilidade da Prefeitura ou da Coca-Cola. O fato é que estamos falando de um espaço público, que deixou de ser.

No momento em que a Prefeitura entrega nas mãos de empresas privadas a recuperação e a administração de lugares do povo, ela está dando um recado claro: esse espaço deixou de ser do cidadão. Ela sujeita os habitantes do município às vontades de uma entidade que se move em função do lucro. E isso não é uma ofensa, é o pressuposto básico do capitalismo, cujo espírito, segundo Max Weber, é não simplesmente o lucro, mas a acumulação de dinheiro. Exatamente o oposto do que deveria ser o pressuposto de uma administração pública, que seria o de prover o bem estar da comunidade.

É esse modelo que vamos deixar ocupar o Paço Municipal mais uma vez?

Chafariz no comício é consequência da privatização do espaço público

Em Porto Alegre, nem todos os gatos são pardos

Baita análise sobre as eleições municipais de Porto Alegre!

Por Katarina Peixoto, publicada originalmente na Carta Maior

Em Porto Alegre, muita coisa mudou, mas uma segue a mesma: há dois grupos políticos em disputa. Quando o PT perdeu as eleições para a prefeitura de Porto Alegre, em 2004, o grupo político que hoje está coligado, majoritária, porém não exclusivamente, na aliança da candidatura Fortunati vivia um momento de ascensão na cidade e no estado.

O ponto culminante dessa formação de partidos que começou a se consolidar ainda em 1999 foi a eleição de Yeda Crusius para governadora, em 2006. A desagregação desse aglomerado de direita se deu com o desastre da gestão do PSDB, no RS. Outro fator de desagregação deste bloco gaúcho de centro-direita veio com a consolidação eleitoral do PT, no terceiro mandato no governo federal, conformando uma gestão, desta feita, diretamente vinculada ao PMDB e ao PDT.

Visto de longe, como faz o longínquo candidato do PSDB local, tudo parece a mesma coisa. Fortunati, Manuela e Villaverde seriam representações do mesmo grupo, do lulo-petismo. Esse diagnóstico é grotesco e obscurantista e aceitá-lo envolve um grande risco.

Um destes riscos contamina a candidatura Manuela D’Ávila, cuja propaganda carrega as tintas no individualismo e numa suposta predestinação da candidata ao cargo. Mais do que um pateta desavisado da extrema direita católica, mais do que a grande aliança da direita local, o discurso que embala a candidatura Manuela pode ser a expressão de uma representação um tanto conservadora, num processo eleitoral. De modo geral, a campanha da deputada está centrada nos seguintes atributos: a candidata teve muitos votos, a candidata é mulher, a candidata trouxe 380 milhões para o RS em emendas parlamentares, a candidata “ajudou a trazer a Copa e as Olimpíadas para o Brasil”.

A campanha se desdobra em outros apelos. Inventou também de dizer que a candidata estudou em Harvard e na Universidade de Madri. Não fosse Manuela tão ligada nas redes sociais, jovem que é, esse tipo de postura seria compreensível. Fazer três dias de curso em Harvard não é estudar em Harvard, tampouco participar de seminário de mulheres, na Universidade de Madri, é estudar na Universidade de Madri.

No plano político, essa candidatura encerra um formato mais grave: o apoio de Ana Amélia Lemos. Esta senhora de triste figura, representante do latifúndio, da RBS, da monocultura agroexportadora, dos golpistas do Paraguai, da Monsanto e grande elenco de entidades antirrepublicanas, como a turma das armas e do monopólio da comunicação, é pré-candidata da oposição ao governo do Estado do RS. No mercado da falta de almas dessa política espetacular, o apoio da Ana Amélia tem um preço: derrubar o PT em 2014, no RS. Este preço, vale dizer, não é cobrado, pelo menos não ainda, da candidatura Fortunati.

A gestão Fortunati é medíocre, como é sabido e vivido.

Quando Fogaça saiu é inegável a melhora: a prefeitura passou a ter alguma existência. Fortunati tentou resolver o problema do lixo, e parece que a calamidade foi relativamente enfrentada. Mas a regressão dos avanços na coleta seletiva e nas incubadoras de cooperativas é inegável e, infelizmente, segue assim. As ruas e os parques estão mais limpos, deve-se dizer. É feio, para dizer o mínimo, ter placas da Coca-Cola e da Pepsi parasitando espaços públicos da cidade. É feio e sem justificação republicana, mas não muda voto.

Voto é uma coisa mais séria do que uma marca, uma candidatura encerrada em si mesma e do que diferenças culturais.

A candidatura Fortunati tem uma agenda, que pode ser medíocre, que pode ser, em certa medida, tão pessoal e individualista como a da Manuela.

Mas tem lastro político, partidário, tem enraizamento na experiência política da cidade, inclusive desde a época das gestões do PT, visto que o OP segue aí, as escolas não sofreram grandes mudanças e há uma certa estabilidade institucional que se conformou, sobretudo depois da saída do grupo mais ligado ao Fogaça, que parecia cultivar uma certa repulsa a compromissos mais republicanos e populares, no que concerne à administração da FASC e às políticas sociais, exemplarmente.

A grande e única inovação da gestão Fortunati é a SEDA, a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais. É uma inovação civilizatória e ambientalmente luminosa, além de uma política pública na acepção quase plena da palavra (esta coisa de ação de gabinete de primeira dama é politicamente regressiva), porque promove e fomenta e dá exemplo de educação e bem estar.

A Porto Alegre onde se inventava de verdade e se pensava e realizava políticas públicas republicanas, democratizantes e oxigenadas, todos os dias do ano, essa Porto Alegre não existe mais. Pode ser que volte a existir, mas não se deve menosprezar os períodos históricos em que as experiências se constituem.

Hoje, o PT não é uma força política em ascensão na sociedade, cultivada na resistência ao neoliberalismo triunfante no país, num período recente pós ditadura. Não, o PT está no terceiro mandato no governo federal, não governa a cidade há quase dez anos e parte importante da atual gestão da prefeitura é formada por quadros de partidos que estão, tanto no governo federal, como no estadual, também do PT.

A candidatura Villaverde tem como principal adversário, paradoxalmente, o seu maior aliado: o poder de que já dispõe o seu partido, a experiência consolidada de uma mudança epocal no país, protagonizada por Lula e a que Dilma dá continuidade, e a consistência de suas possibilidades, na cidade.

Só que as coisas não são tão fáceis quando se tem poder, mesmo que em bons governos. Mais uma vez, é preciso aprender a olhar sem perspectivas grotescas e obscurantistas.

Tudo se passa como se o PT, no governo federal, tivesse consolidado um certo projeto peemedebista dos anos 80, e o país inteiro esteja numa grande onda “centrista”.

O custo político desse tipo de situação pode ser alto, mas o fato de que, no Brasil, essa onda tem se dado num marco democrático, que inclui e abarca a esquerda não tem interditado, a esta, as suas possibilidades. Em todo o país os movimentos sociais estão muito mais vivos e autônomos, seguem produzindo, criticando e mobilizando. Com todas as inflexões e mudanças localizadas de orientação do governo federal, não se pode dizer que há regressão alguma ou que a esquerda esteja em situação mais difícil, hoje.

O que a estabilidade centrista das gestões do PT produziu, no país, tem a consequência peculiar de não interditar as possibilidades da esquerda, mas de assegurar a gestação de suas agendas. Hoje, temos mais democracia e mais república, menos desigualdade e menos barbárie. O país incluiu uma França em oito anos e o PT é responsável por isso.

A candidatura Villaverde tem consistência, trajetória e presente. A sua dificuldade parece ser uma dificuldade do próprio PT, de manter-se como partido vivo, oxigenado, que não sucumba ao jogo eleitoral. É como se o partido tivesse perdido a perspectiva de tal maneira que se tenta apresentar o Villa como um despachante do governo federal.

Uma agenda para uma prefeitura, para uma cidade que tem na democracia um valor cultivado, pode e deve falar da vida, antes e além das obras das grandes empreiteiras e daquilo que é prerrogativa principal do governo federal.

Mobilidade, urbanidade, responsabilidade ambiental, assistência social, políticas e espaços para a juventude, políticas de gênero, políticas para os animais domésticos, política para o lixo. Um horizonte muito maior e mais civilizatório que a Copa do Mundo, que os despachos de ministros, que as figuras e imagens de grandes líderes. Nada impede o PT de fazer a campanha mais pé no chão e a mais promissora de todas. Nada impede o PT de falar em disputa civilizatória. Bem ao contrário.

O centrismo triunfante neste momento produz uma ilusão que pode custar muito caro, tanto à cidade como à esquerda e ao PT.

O risco é entregar a cidade a um acordo espetacular mercantil, sem lastro e sem agenda, cujo horizonte , em termos de consistência programática, é a derrocada do PT no Estado e a retomada, pela direita, do terreno recentemente perdido.

A perspectiva grotesca e obscurantista não pode obnubilar a democracia e o debate altivo sobre os destinos das forças vivas da política da cidade.

Eleição não é uma feira de trocas de votos e de disfarces, e enxergá-la assim é renunciar à democracia.

Em Porto Alegre, nem todos os gatos são pardos

Inaugurada a primeira das 22 partes da ciclovia da Ipiranga

Da série “só acredito vendo”.

Não bastasse fazer uma ciclovia no lugar errado, fazendo o ciclista trocar de lado cinco vezes pra ir do Praia de Belas à PUC (quando ficar pronta), tudo pra não atrapalhar a lógica “trânsito é pra carros”, o prefeito de Porto Alegre e, principalmente, candidato à reeleição, José Fortunati, inaugurou a obra, com pompas e circunstâncias, quando pronta apenas uma quadra.

Gente, juro, uma quadra!

Andou de bicicleta, de capacete e tudo (embora na contramão – bem na hora da foto e em cima do desenho da bicicletinha no chão, pra ficar mais escancarado), foto pra imprensa, festa e tal. Todo um escarcéu porque está construindo algumas quadras de algo que deveria ter em 495 km da cidade, segundo o Plano Diretor Cicloviário, de 2009. Mas ok, a política da prefeitura atual não é valorizar o ciclista, isso a gente já sabe. O que ficou mesmo muito feio foi inaugurar 416 metros de uma obra de 9,4 km. A ciclovia inteira vai estar pronta quando tiverem feito 22,6 pedaços como esse. Vai inaugura mais 22 vezes? É como fazer chá de casa nova quando a primeira parede estiver pronta.

Ô Fortunati, era mais digno ter feito a obra um pouquinho antes e ligeiramente mais rápido, pra dar tempo de inaugurar ela toda antes do período eleitoral, né. Assim fica meio na cara, #ficaadica.

Inaugurada a primeira das 22 partes da ciclovia da Ipiranga

Porto Alegre e as opções para outubro

O Rio Grande do Sul, estamos cansados de saber, é um universo à parte na política partidária (e em que tantas outras coisas, diga-se!). Aqui, PT e PMDB são adversários ferrenhos. PMDB é sabonete, como no resto do Brasil, mas muito mais identificado com a direita do que em nível nacional, em que tem mais facilidade de transitar pelas diferentes esferas.

Mas há anos o PDT de Brizola anda de mãos dadas com esse PMDB, que agora já confirmou apoio ao candidato trabalhista (sic), José Fortunati, que assumiu o paço quando o peemedebista Fogaça pulou fora pra se candidatar (e sequer ir ao segundo turno, caindo no ostracismo prematuramente) ao governo do estado. Fortunati não só apoiou o retrocesso promovido por Fogaça (formando a queridíssima dupla Fo-Fo) como o aprofundou quando assumiu o barco. Porto Alegre, hoje, não tem mais o protagonismo que tinha no cenário mundial em termos de cidadania e participação popular. E pior, a capital dos gaúchos malemal mantém serviços básicos, totalmente defasados.

Brizola revira-se, coitado!

Enquanto isso, a comunista Manuela D’Ávila corteja o Partido Progressista de Ana Amélia, a senadora da RBS. Se vai levar ou não, ainda não sabemos (embora o PP esteja dividido, a tendência é que indique, sim, o vice na chapa com o PCdoB). O que importa, na verdade, é que os comunistas querem muito dar as mãos à ex-Arena. Tudo isso enquanto vangloria-se da história de 90 anos do Partido Comunista.

Diante da incoerência, quem se revira, agora, é Luis Carlos Prestes e todos os outros tantos líderes do partido (muitos mais do que no PDT de Brizola), muitos dos quais morreram nas mãos da Arena.

E são essas duas coligações esdrúxulas que aparecem na ponta das pesquisas eleitorais. Amarguemos, pois.

Sobre a coligação comunistas-Arena, deixo-vos com Latuff, bastante mais claro e contundente que eu:

Porto Alegre e as opções para outubro

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

Por Marcelo Carneiro da Cunha, no Sul 21:

Estimados leitores, cumpri com o meu ritual de renovação do meu visto porto-alegrense retornando à cidade na semana passada. E voltar até aí é sempre a mesma mistura de banzo sem solução com um olhar atento para tudo, comparando o que a cidade tem, com o que vejo nessas andanças por muitos lados, além de riachos que nos separem do mundo, como o Ipiranga, o Mampituba ou o Atlântico.

Nessa chegada, a primeira coisa que me chamou a atenção, entortando o pescoço até o limite da cervical, foi que a Vila Dique continuava ali sob o avião. Opa: não era para ter saído? Não existe uma grave questão que prejudica a cidade, o estado, que é termos uma pista de aeroporto de apenas 2.200 m, impedindo aviões maiores de sair com carga total e encarecendo os fretes? Não era uma questão estratégica resolver esse problema, além da questão humana de dar um jeito na Vila Dique? Eu estive lá, há anos, visitando uma escola, e alguns alunos não vieram ao encontro por não terem roupa, e não acho que eles estivessem falando de roupa arrumada. Espero todo esse tempo por uma solução digna para algo tão indigno, e que ainda nos permita ter um aeroporto com pista decente. Não arrumaram? Não deram um jeito?

Porque uma cidade é do tamanho dos jeitos que a gente dá pra elas, estimados leitores. Nessa semana, por exemplo, fui ver a maravilhosa sinfônica de SP tocar na maravilhosa Sala São Paulo, onde ela se apresenta. E pensei na OSPA. Eu cresci indo ver a OSPA, domingos e terças e não entendo como Porto Alegre pode viver sem um lugar para a sua sinfônica. São Paulo pode dar jeito nisso, mas Porto Alegre não pode? Desde quando? Como éramos capazes de dar um jeito no Theatro São Pedro láaaa em 1860, mais ou menos. Pioramos, desde então?

O problema é dinheiro? Pois observando atentamente a minha cidade, eu vi que não há placas nas esquinas. Sabem placas de esquina? Certamente temos esquinas, muitas. Temos ruas, e elas têm nomes. Então cadê as placas nas esquinas contendo os nomes das ruas? Uma cidade sem placas nas esquinas é uma cidade que se leva a sério?

Senhor prefeito de Porto Alegre, onde quer que o senhor esteja. São Paulo tem 22 mil quilômetros de ruas e acha normal ter placas nas esquinas. Em TODAS as esquinas. A minha Porto Alegre, que o senhor alega governar, não pode ter? Como o senhor pode dormir à noite sabendo que a cidade não tem pista de aeroporto nem placas nas esquinas? Se até Curitiba, que nem tem esquinas, pode ter placas nas esquinas, como o senhor dorme à noite enquanto Porto Alegre não as tem? Pode acordar e explicar, por favor?

Já em outros itens a cidade vai dando os seus jeitos. Vi lugares novos, bares, restaurantes, bem legais. Conheci o Bier Markt, sensacional para quem gosta de cerveja de verdade, coisa aliás escassa aqui no Norte onde eu vivo, provando que cerveja tem jeito, na cidade. Pude curtir o pão com manteiga da melhor padaria que eu conheço no Brasil, Barbarella. Não deu tempo de provar o melhor mil-folhas, de bergamota, no Patissier. Pude olhar para o Guaíba sob o céu azul, e o banzo atingiu limites quase insuportáveis; deu para passar no Iberê Camargo, o que sempre enche o peito de um sentimento que seria pecaminoso, se eu acreditasse nessas coisas. Vi um varejo com jeito de século 21 tomando forma, o que é bastante bom, e vi muita gente na rua, em uma noite de começo de semana. Porto Alegre tem o menor desemprego em área metropolitana no Brasil, eu li, e isso começa a aparecer.

Não vi polícia na rua, como vejo aqui, vi uma grande festa do Inter na noite anterior a viagem para Abu Dhabi, talvez o clube do Brasil que melhor constrói a relação com sua comunidade, hoje (e quem admite é um gremista de quatro costados). Sofri com os nossos péssimos táxis, e, infelizmente, taxistas bastante pouco animados com o decoro profissional. Quem foi que disse que a gente merece nada mais do que aqueles Corsas sedãs, que são pequenos, minha gente? Ouvi comentários e piadas dos motoristas que avermelharam os ouvidos nada puritanos desse neto da Jovita, e paguei caro para andar em um taxi que parecia ter um estado pulmonar pior do que o meu, e eu moro em São Paulo!!!

Penso no que a cidade pode ser, com um plano estratégico à altura de suas possibilidades, de um novo uso para o porto, para a Mauá, que removesse aqueles horrendos prédios-garagem, e nos desse algo onde morar diante do rio. Penso em um centro vivo e bonito, numa Praça da Alfândega renovada e de volta para as pessoas, penso em uma nova Feira do Livro e, radicalizando, em uma cidade com placas nas esquinas.

Não é fácil criar uma cidade digna das aspirações de uma Porto Alegre, mas é muito, muito mais fácil de se fazer isso quando a cidade em questão é uma Porto Alegre, não? Penso nisso enquanto o avião me traz de volta para a cidade com céu cinza e placas nas esquinas onde vivo, e penso que tudo que eu quero é um jeito aí, porque se tem uma coisa que todo ser vivo precisa ter é um lugar para onde voltar, de onde quer que se encontre, de onde quer que a vida tenha levado, e de onde sempre, sempre mesmo, se volta.

* Jornalista e escritor

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012

Embora todos os partidos envolvidos neguem, fica difícil de acreditar que a disputa para a Prefeitura de Porto Alegre de 2012 não entre na mesa de negociação de cargos do governo Tarso Genro no Rio Grande do Sul. E o PDT é um fator importante nesse cenário, a ser observado.

Cito o PDT porque tem o comando da Prefeitura hoje e porque é um partido ainda um tanto forte, cujo apoio em 2012 é importante para o PT voltar ao Paço municipal. Já se falou em apoiar a reeleição de Fortunati em troca do apoio ao governo Tarso, já que o PDT é dono de importantes votos na Assembleia Legislativa, o que acredito que não deve acontecer.

Apesar de os jornais já terem cotado inúmeros nomes para praticamente todas as secretarias, é possível tirar algumas tendências das negociações em curso. Os partidos trabalhistas, que não ajudaram a eleger Tarso, estão mordendo boa parte do alto escalão do governo. O PTB chegou pedindo 19,3% dos cargos, e o PDT, quatro secretarias importantes. O fato de eles pedirem não significa que vão levar, mas o novo governador dá sinais de que não vai deixar o PDT na mão.

Enquanto isso, o PSB e o PC do B, parceiros do PT desde o início do processo, disputam cargos menores. O PSB já tem o vice e Tarso já indicou Beto Albuquerque para uma pasta importante, de grande orçamento. Mas o PC do B leva por enquanto a pequena Secretaria do Turismo e parece que não vai contar com fatia muito significativa do governo.

Ou seja, o PT não concederia ao PDT tantos cargos mais a cabeça de chapa para a disputa à Prefeitura daqui a dois anos. Ao mesmo tempo, projeta-se como um nome forte da coalizão que elegeu Tarso a recordista em votos, reeleita para a Câmara Federal e jovem Manuela D’Ávila. Assumir a ponta da disputa seria o caminho mais natural, tendo em vista a lealdade e a dedicação dos aliados a Tarso e a disposição do PT de abrir mão do nome do prefeito da Frente ou Unidade Popular.

Considerando que o PDT está abocanhando, ao que tudo indica, um número significativo de secretarias e, portanto, ficaria fora da indicação do prefeito, e que o PC do B vem amargando um leve escanteamento na composição do governo, a tendência é que seja o partido a indicar o candidato que o PT vai apoiar em 2012 mesmo.

Mas claro, a política é imprevisível e muitos fatores ainda hão de ser considerados até a escolha definitiva do nome. O que vemos são tendências…

Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012