Zero Hora e o Fórum do Instituto Millenium

A Zero Hora tem a pretensão de se colocar no mesmo nível de Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo e outros. Ela não só acha que seu conteúdo se equivale como também quer participar de seus encontros, mostrar que divide a mesma ideologia, e acha que tem a mesma representatividade e abrangência. Mas tem ainda um caminho razoável para trilhar e aprender direitinho. Se é que um dia chega lá.

A participação no Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, do Instituto Millenium, por exemplo. Lá, reuniu-se a grande imprensa, a de verdade. Juntou os Civita, os Marinho, Otávio Frias Filho. Todos unidos com um único objetivo. Apesar de concorrentes, sua intenção é a mesma, sua ideologia é a mesma. Gilberto Maringoni fala melhor a respeito.

Mas os Sirotsky apenas publicaram algumas poucas linhas no dia 2 de março, dia seguinte ao evento. Apoiando, é claro. Criticando a censura do controle social da mídia e essas coisas todas. Mas daquele jeito de quem não estava lá, de quem vê de fora, de quem quer ser mas não é um deles.

No jornal de sábado, cinco dias depois do tal Fórum, Zero Hora dedica-lhe o editorial. Palhaçada. Defende uma democracia baseada na liberdade de empresa, travestida pelo termo imprensa. Pois se apenas uma pequena parcela da população tem acesso aos meios de comunicação, não fazer nada e deixar a liberdade de ação dar as cartas é ser conivente com uma situação antidemocrática.

Quando poucos têm voz, não há democracia. A liberdade que os grandes meios pedem, e que Zero Hora traduziu tardiamente hoje, é a mesma que derrubou o mercado financeiro em 2008. No caso da crise econômica, deixou-se a cargo das empresas a regulação do mercado. Deixa-se também, há muito tempo, a cargo de empresas a tal liberdade de expressão. São grandes empresas que regulam a comunicação, seu conteúdo, seu formato, tudo.

Empresas que representam uma elite. Uma elite que não é o povo. Se não é o povo, não é democracia.

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A charge que ilustra esse post não foi feita para o Fórum Democracia e Liberdade de Expressão. Pra ver como a briga é antiga.
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Zero Hora e o Fórum do Instituto Millenium

A "Confecom" da direita

Lembra aquele pessoal que se retirou da Confecom tentando um boicote? As grandes empresas: Grupo Abril, Globo, Folha etc. Pois essa gente resolveu seu problema, criou uma conferência só para si, em uma atitude quase narcisista de tão para dentro do próprio umbigo que se olhava.

O tal evento foi segunda-feira, dia primeiro de março, em São Paulo, como o Alexandre citou aqui, e intutalava-se Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, de ideologia liberal. As 180 pessoas que participaram pagaram R$ 500 para isso. O contraste com os 12 mil envolvidos com a Confecom, a qual bancou os gastos dos 1,3 mil delegados e recebeu o resto do pessoal de forma gratuita, é gritante. E significativo. Um reflexo da visão que se tem da comunicação. De um lado, uma atividade voltada para a elite, que discute apenas entre si, anti-democrática, de visão única. E que acha que a comunicação toda tem que ser assim. De outro, movimentos sociais em busca de democratização.

Uma das defesas principais, aliás, era menos regulamentação para o setor. Alguém, por favor, avisa essa gente que se retirar a regulamentação existente ela vai atingir níveis negativos. O alvo preferido, o governo Lula e todos os outros de centro-esquerda da América Latina, os “ditadores”, como gostam de chamar Chávez, por exemplo.

O mais triste – mas não surpreendente – foi a participação do ministro das Comunicações, Hélio Costa. Não deixa de ser incongruente o ministro participar de um ato que contesta o governo do qual faz parte. E ainda por cima para esvaziar a importância e o conteúdo político da Confecom. E minimizar suas consequências.

Fora isso, nenhuma novidade nos discursos. O jornalista Luiz Carlos Azenha analisa mais detalhadamente o papel de bobo da corte dedicados funcionários que vestem a camisa de suas empresas desempenhado por alguns profissionais, que deram a cara a tapa no lugar dos patrões, mais discretos em seus discursos.

Parece divertido falar das peripécias dessa gente, mas o assunto é sério. Eles se dizem lesados com o controle social da mídia, que tanto repudiam. Segundo a grande imprensa, segundo o pensamento liberal, controlar meios de comunicação é censura. No entanto, eles prestam um serviço público, especialmente os que atuam por meio de concessões, como as emissoras de TV. Quando há uma – ou muito poucas – só voz com acesso à comunicação, isso é muito mais antidemocrático do que restringir a sua participação no mercado. Há casos em que controlar meios de comunicação é garantir a pluralidade e, em última instância, a democracia.

A "Confecom" da direita